quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

VERSOS RASGADOS




E ele pegou o papel e rasgou. Nem ao menos leu. Foram versos dedicados, letras escolhidas e cada palavra tinha um propósito. E ele apenas rasgou. Um gesto rápido e brusco, sem ao menos parar e pensar na delicadeza de cada palavra tão minuciosamente elaborada. Caminhou e partiu. Os olhos fortes de Samantha apenas o fitaram, mais uma vez, a última vez.

O nó na sua garganta segurava um choro amargo, tal como o café propositalmente não adocicado. Ela escutava a chuva, na madrugada em que olhava o teto e encarava como se buscasse respostas num espaço vazio. As lágrimas desciam no seu rosto, enquanto seu olho fitava, focava o teto. Ela não encontrava respostas ali. Esperou amanhecer e foi para a rua, e acompanhou o movimento de vem e vai. Sentou-se na praça, embaixo de uma árvore antiga e cheia de vida, onde passarinhos formavam ninhos e sussurravam um canto tranquilo. Isso a incomodou, ela queria guerra. Sentia-se oca e os olhos, seus olhos, não piscavam mais, pararam e observavam apenas. Com passos lentos, foi até a banca e comprou chicles e olhou para as revistas com as manchetes do final de novelas, onde o mocinho termina com a mocinha e a vilã morre, ou é presa. Pensou: “Serei a mocinha? Vilã?”, engoliu a resposta a seco quando pensava “não sou nada”.  Olhava os casais que andavam abraçados e não acreditava nos sentimentos divididos, sentia seus olhos se tornarem olhos de vidro. Chega em casa, a casa era a mesma e tudo estava ali, igual. O sofá continua como deixou, a geladeira mantém a porta fechada, o caderno de anotações ao lado da cama e ela, mais uma vez, deitou-se e olhou para o teto que ainda estava ali, pálido, sem vida e vazio. Nada move-se. Mas, dentro dela, surgiu um desejo de não ver mais nada que estava à sua volta, como estava e começou a mudar propositalmente tudo, o sofá ganhou uma manta, o caderno de anotações foi para a prateleira e a porta da geladeira foi aberta para que ela escolhesse o que a agradava. E foi ali, na porta da geladeira, que ela percebeu que andava de portas fechadas, que ela não tinha nada que a agradava porque ela não deixava seu mundo interior lhe informar o que fazer e que, quando ele falava, ela apenas fechava os olhos e fingia não escutar. Olhou seu caderno de anotações e dentro dele estava a carta rasgada, por ela colada cuidadosamente com fita adesiva, como que se os versos que tão amavelmente escreveu, tivessem algumas importância depois de brutalmente ignorados. Viu que os versos estavam ali, remendados, mas não eram os mesmos versos, ficaram linhas soltas, palavras tortas. E ela pegou um novo papel e começou a reescrever os versos, e olhava os pensamentos divididos, e começou a juntá-los. E os versos de amor mudaram e foram criando formas, como canções, e ela escutava de longe o som dos passarinhos que lhe incomodaram na praça, e ela sorria enquanto escrevia, vendo que era tão fácil criar novos versos. O poder estava em suas mãos, em sua mente, em seu coração. E, quando terminou a carta, ela a levantou o papel, era colorido e as letras brincavam de formar sonhos e felicidades. E no final, com um PS, ela finalizou: “O amor só é encontrado quando nos enxergamos por dentro e trazemos o nosso melhor para fora. Eu, Samantha, aprendi a me amar e a abrir a porta da minha geladeira”.


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