quarta-feira, 21 de novembro de 2012

HOJE É DOMINGO (INTIMA ESTRANHA)



Começou sem saber o começo. Eram cúmplices. Andava para lá e para cá, como uma missão natural de sobrevivência. Ora ela ia, ora ele vinha, e assim se enlaçavam feito nós de corda.  Não sabiam ao certo o que ligava um ao outro, talvez um impulso de excitação, cada vez que os olhos encontravam-se arteiros, ou a mesma vontade de libertar-se de um sei lá de quê que fantasiavam. Hoje cedo, quando ela levantou-se releu o bilhete que ele lhe entregara pouco antes de despedir-se e seguir pela rua da frente, seguir com o mesmo vento, que o trazia e o levava como em círculos para sua direção, e quanto mais ela o observava, mas o percebia deixando-se levar. Ele cauteloso, dava alguns passos e olhava para trás, com aquela duvida de que ela de sua janela o estaria observando. Acenava com a mão devagar, tão devagar que parecia que imitava uma de suas histórias mirabolantes, quando contava que a pequenos e lentos passos, o homezinho despedia-se da amante. Ela, com os olhos saltitantes, ensaiava um balançar de mão, um acenar que não parecesse tão feliz, para que ele, em ignorância de seus sentimentos, não a deixasse, e continuasse todos os dias a incrível prova de conquistá-la. Então, com um sorriso disfarçado o cumprimentava, enquanto o coração acelerado girava e girava, criando certo redemoinho no estômago. Logo depois, eufórica, olhava o espelho, enquanto passava o pente, várias vezes, entre seus longos cabelos castanhos, dizendo como quem canta uma doce canção. “Eu tenho um namorado, repetia , tenho um namorado.”

 Pois agora, sente-se pronta e reler em voz alta o bilhete, ler em voz alta para que a certeza do que observa possa ter testemunhas, ainda que essas sejam mudas, mas saberão, sim elas saberão.

Em casa, atropelava-se em suas plantas exaustas, sedentas e obvias. Era idas e vindas para a cozinha, um caminho que de tão rotineiro tornara-se despercebido.  O almoço tinha um breve cheiro de nada, um nada de um momento único, onde ela arrumava toda a mesa com aquela toalha de renda, que ganhou no dia do casamento e a cobria com uma toalha de plástico para não manchar e estragar quão grata lembrança, que ganhara da tia do marido. Ele ansioso, adorava o requinte do almoço no domingo, ás 11h00hs começava a passar a mão na barriga, cada vez que esbarrava com ela, atarantada entra a sala, a copa e cozinha. Lembrou-se do suco, o suco de manga que ele pediu, seria bem mais fácil um refrigerante, seria bem mais fácil não por mesa e comer como faço todos os dias. Mas, ele gosta, gosta de suco de manga, gosta da sobremesa, do pavê. Sorrir, pois, escuta sua voz todas às vezes.

“Pavê ou para comer?”

“Sim querido, é para comer”.

Assim, como quando casamos e me trouxe por uma semana marmita de frango do restaurante da esquina, não tínhamos fogão ainda, a vantagem é que eu não precisava lavar a louça. Mas, eu queria cozinhar, eu queria que provasse o sabor do que eu fazia, queria deixá-lo experimentar-me. À tarde as mesmas coisas. Sim, vou deitar-me, um pouco sem sono, um pouco sem vontade. Penso: “O que poderia fazer naquela tarde?” Ele dorme enquanto eu o observo. Se me esquivo, automaticamente joga a perna por cima de mim. Acho que quer enlaçar-me. Serei presa? Serei feliz? Infeliz? Nas manhãs de domingo, às sete da manhã escuto o chuveiro ligado. Como pode alguém levantar tão cedo no domingo? Como pode levantar-se, deixando toda casa, com uma cara amassada de dez horas? Até a janela está úmida, pedindo para aquecer-se um pouco mais, só um pouco. Logo, a TV começa a contar-me do melhor jogo da semana. Mas conta-me em passos calmos, já que toda hora ele troca o canal. Detesto perder o controle para mão dele. Acho que ele sente-se o dono do mundo quando o tem nas mãos. É uma compulsão de freqüentar vários lugares ao mesmo tempo. E escuto entre o noticiário, o esporte e a TV animal. Uma troca, uma troca simples e complexa do que ele quer saber. Risos, palavrões e tudo o mais que meu estranho intimo faz na minha sala. Até onde ele me completa? Ou até onde eu sou uma estranha? Intima? Intima estranha! Estranha intima que sabe do gosto do beijo, do jeito do abraço, do ponto do arroz. Intima demais, para não encará-lo, quando deixa a toalha na cama e seus passos em rastros alagados, que perseguem meus olhos, entre o banheiro e nosso quarto. Estranha, para não entender o porquê de me querer perto, todas as vezes que passa o dia em casa, querer que minha atenção seja nele, que eu não veja mais nada, além dele. Que em círculos, sempre o centro, seja ele. Intima para perceber sua mágoa, estranha para perceber seu amor. Intima para tê-lo visto chorar, estranha para alcançá-lo, para não alcançá-lo, nesse sossego que, de uma hora para outra ele resolveu me dar. Um sossego que pensei precisar, um sossego que aguardo na janela as 19h00hs quando reclamando, o via chegar a casa e ocupar todos os espaços que eu gostava de ter. Um sossego, que corta a intimidade, que como uma estranha, não imaginei ter fim.

Pudera ser apenas isso e nada mais e ela se sentiria segura, ela estaria agora lembrado o bilhete e sorrindo. Estaria sim, da janela observando o seu caminhar lento, seu jeito desengonçado de mexer as pernas. Estaria até sorrindo ao ver a toalha largada na cama. Hoje a toalha não tem o seu aroma, e já não ver seus rastros no chão. O domingo é livre e ela deseja apressá-lo. Não porque, tal qual como antes, ele a chamava o tempo todo, mas porque hoje, ainda que ela grite sua voz não o alcança, ainda que ela tente ver o controle jogado no sofá, depois de ser excessivamente desordenado, ela não o vê. Ainda que de manhã as janelas apareçam densas, elas não acordam e nem o chuveiro vem despetá-la às sete da manhã. Suas plantas mudas. Mudas plantas perderam-se. O jardim ruiu.  Os risos e os palavrões foram trocados por um silêncio insuportável. E os laços? O laço que os uniu quando eram apenas dois adolescentes, estes se romperam.

“Queria poder fazer pavê agora. Queria poder olhá-lo mais uma vez. Queria poder nas tardes de domingo encostar minha cabeça em seu ombro, ainda que sem sono. Só para observá-lo um pouco mais. Queria não ser tão estranha e ter sido mais intima, ter entendido que o domingo era mais alegre quando eu precisava caminhar á cozinha e por a mesa. Hoje a cama é minha, só minha. Quantas vezes evitei acordá-lo para que não me tocasse. Hoje, gostaria que pelo menos hoje, ele pudesse está aqui, pudesse tocar mais uma vez o meu rosto. Gostaria de poder dizê-lo, o quanto eu em minha ignorância, não pude perceber. Hoje, poderíamos está juntos. Pois é domingo e eu sonho aqui dessa janela vê-lo chegar. Mas, é tarde! Pois, só posso pedir a Deus que cuide do seu descanso. Não escuto seus risos, mas ainda o tenho aqui. Hoje, mais do que nunca, o tenho profundamente aqui! E o que ficou de tudo o que tinha naquele bilhete? O que ficou do para sempre que prometeu? O que ficou do amor que eu não te dei? Minha voz, ainda que muda era sua. Minhas mãos eram suas mãos, eu o vejo em todos os cantos do resto desse sepulcro vazio onde moro, e as únicas flores vivas que encontro, entrego a você, cada vez que o visito, no domingo, na casa onde só você pôde entrar. Onde quieto, já não deixa seus rastros na casa, já não mexe no controle da TV. Deus, onde eu estava, enquanto ainda podia sentir suas mãos quentes? Onde eu estava quanto me perdi de você?”

O vento ainda circula e pela janela traz o aroma da tarde, o vento que o trouxe, o vento que o levou. E nesse circulo arrebatador, ela pensa, até onde o deixou partir, sem saber que ele era ela e ela era ele. Ora ela ia, ora ele vinha. Ora ela fica. Agora ele foi.


Lene Dantas

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O GOSTO DO FEIJÃO



A poeira soprando o tempo todo no tempo, e cada fragmento é uma lembrança. Está ali, neutra, como uma morta viva, como uma morta que se esqueceram de enterrar, uma morta que se esquece de partir. Sim, bem mais assim, uma morta que ficou parada no tempo e esqueceu-se de partir. As paredes sabem de cor os seus segredos e a janela é aberta, um pouco, só um pouco, assim ninguém pode roubar-lhe o sossego, o sossego que espera a cada manhã quando se despede do marido, em uma hora que parece interminável. Diria que, cada vez que ele passa a escova no dente, seria um momento roubado, um tempo, um riso. E ela, ali em meio á lençóis que conhecem o cheiro de ambos, lençóis que já secaram suas lágrimas, que já cobriram sua insegurança, que já sentiram o cheiro do seu prazer. E ali olha o relógio, são 06h30min, ainda faltam alguns minutos. Ele calmo, atravessa devagar o pequeno espaço entre o quarto e a cozinha, toma um pouco de café, dirige-se a sala, liga a TV e em alguns minutos aproveita o aconchego do seu sofá. Sofá que foi comprado em 36 vezes, rubro e confortável como a mulher pediu. “Bom para ver TV e dormir” Falou isso quando deixou a loja, imaginando ter um pouco de tempo, um tempo no tempo para sentar-se e acomodar-se. Quando o sofá chegou, Clara abriu bem as portas, limpou todos os móveis e lembrou aos filhos para não comer ali, não deveriam comer nunca ali. Pensou em deixar o plástico, afinal às crianças poderiam sujar a delicada camada de veludo, no sofá que tanto esperou.

 “Também 17 anos de casados, seria o mínimo, ele nunca me deu nada, nada além dos primeiros móveis que até hoje são bons porque eu cuido”.

 Mas o marido, não quis o plástico, queria aconchegar-se no sofá, queria sentir o sabor do suor derramado em 36 parcelas, cada vez que ali encostasse. A TV falando sempre as mesmas coisas e ele colocando calmamente suas meias. Como se o tempo parasse, experimentava o gosto de sentar-se um pouco. Na cama, ela aconchegava-se esperado o ranger da porta, onde teria a certeza que finalmente estaria só, era quando realmente podia acordar e ser o que queria ser. Enfim, a porta abriu e fechou-se, os passos até a garagem e o barulho do motor do carro, mais um pouco e ele se foi. Sim, agora se sentia completa, na cama alargava-se esticando suas pernas, pelas venezianas percebia o dia que chegava, e lá estava acomodada em seu intimo, sem frio, nem calor, num estado passivo entre bocejos e suspiros, lá estava em sua cama e lá fora a manhã. Lá fora o Sol. Devagar foi ao armário e entre peças perdidas e antigas, não sabia o que usar. Ora a calça era apertada demais, ora a blusa tinha muitas estampas, ora o vestido deixava seu corpo deformado. E assim entre suas avaliações queixosas, colocou uma legue preta e uma camisa do fluminense. Era o time do seu pai, lembrou-se de quando era criança e todos os seus tios reunia-se para ver o jogo, ela com bochechas rosadas e olhos aguçados, sentava-se na sua cadeira de plástico vermelha, tão pequena quanto ela.  Sua mãe cozinhava feijão branco e deixava a panela semi coberta para que o caldo ficasse grosso, cortava devagar um pouco de calabresa, separava costelinha de porco e preparava outra panela para fazer o refogado de alho e cebola. Aquele cheiro trazia boas lembranças, seu pai era o primeiro a servir-se. O feijão caia sobre o prato, com um prazer absoluto e com o mesmo aspecto feliz em que seu pai deliciava-se ficavam os olhos de sua mãe a observá-lo, esperando o elogio de sempre, esperado que ele mais uma vez a admirasse a enaltecesse, como a melhor cozinheira do mundo. 

“Eu tinha uma bacia de alumínio, mas quando era feijão tinha que comer num pratinho azul. Era bom. O gosto do feijão era muito bom!”

Era bom lembrar o cheiro de sua família. Levantou-se e começou a cozinhar feijão. Assim como o que sua mãe fazia. Enquanto isso ligou o computador, precisava dividir com seus amigos, que hoje comeria feijão, o feijão que aprendeu com sua mãe, o feijão que deixava seu pai mais apaixonado a cada ano. Foi então que se rompeu um súbito de medo, de pânico e perguntou-se: O que será que tenho feito? Será que André gosta do meu feijão?  Será que eu gosto de André? Será que minha casa tão bem decorada por nós, só é bela superficialmente?  Meus filhos logo irão à escola, sei que Mônica gosta de feijão com um pouco de arroz branco e bife. Rafaela não gosta, prefere massa, mas hoje ele terá que comer.  Quando André chegar vou perguntar se ele gosta do meu feijão. Nunca vi seu rosto como o de meu pai ficava, quando comia o que minha mãe fazia. Alias, acho que nunca mais o olhei de verdade.  Queria sumir daqui e desse lugar, queria voar longe, queria e queria. Mas tenho minhas filhas e tenho 17 anos de casada. Não amo mais André, afinal me apaixonei por Fred.  Isso é pavoroso. Só sei que queria sumir com Fred. Mas eu não teria coragem, nunca trai meu marido. Mas, como gostaria de um dia, pelo menos um dia sorrir com ele, com Fred. Será que ele gostaria do meu feijão? Será que ele iria ficar admirado e dizer que eu era especial, assim como meu pai fazia? Será que ele me amaria a vida inteira? Será que não esqueceria o dia do nosso primeiro beijo e nem do nosso aniversário de casamento? Será que me traria flores? Que me acordaria com beijos? André me acorda com beijos, mas eu sei o que ele quer , quer usar meu corpo. Mas não vou ceder. Estou fazendo greve de sexo e vou continuar fazendo até ele perceber que tem que me valorizar. E se ele me trair? Ah daí nem ligo. Vou atrás de um juiz e me divorcio e ai não terei culpa, vou separar-me com razão e ninguém vai dizer que separei porque amo outro homem, mas porque ele me traiu. Meu pai entenderá e minha mãe vai chingá-lo. E Fred? Será que me ama mesmo? Ontem ele não me ligou, fiquei tão perdida e sozinha. Sei não, acho que vou deixar-lhe um email. Acho que vou dizer que não tenho tempo para brincadeiras. Eu tenho 38 anos e tenho duas filhas, não posso jogar tudo isso para cima. Mas ele é tão carinhoso.

Perdeu-se em seus labirintos. Perdeu-se outra vez na casa que de tão pequena era tão grande. Perdeu-se em André, perdeu-se em Fred, perdeu-se, se perdeu. E o feijão? Este, ela queimou.

Não cozinhava como sua mãe, não que não o soubesse, apenas vivia presa em uma vida que não sabia tê-la, nem sabia querê-la, nem sabia se deveria mantê-la viva. Uma morta parada no tempo e esqueceu-se de partir. Como uma morta viva. Sorria para alguns, se trancava para outros e adiava à hora da chegada de seu marido, pudesse, atrasaria o tempo. Pararia o tempo às sete da noite. Assim não teria de servir o jantar, nem de escutar seus resmungos e muito menos, mais tarde entre os lençóis, precisaria deitar-se devagar, bem devagar, para que ele cansado, não percebesse sua presença, para que ele não a inquietasse em busca de sua intimidade. Precisava de tempo também para sonhar com Fred, talvez porque o amava, ou apenas, porque precisava alimentar algo em sua mente tão morta como seus olhos.  Precisava achar-se ainda que perdida, precisava bem mais que aquela aliança colocada em seu dedo na mão esquerda. Ela ainda não sabia, mas precisava deixar o feijão no ponto.

Lene Dantas