domingo, 25 de dezembro de 2011

NOTAS...



Notas...

(...)

Talvez hoje eu tenha muito que falar, se eu resolvesse contar um
pouco do turbilhão de sensações que sinto. 
Tem dias que somos cortados por dentro, são dias de saudades, 
de lembranças de dias que foram nossos, apenas nossos.
Dias que contamos nossas culpas ao travesseiro, 
que reavaliamos um pouco do que poderia ter sido feito e do que não se pôde fazer. 
Dias que apenas o silêncio da noite entende, dias que a noite 
está calma e nos escuta paciente.
Hoje eu gostaria de resgatar um pouco de mim e do que eu fui.
Gostaria de abraçar com carinho cada pessoa especial que 
passou na minha vida.
Isso não é possível, eu sei. Então decidi fazer o que posso; 
Perdoar a mim mesma pelo o que não fiz por mim, perdoar algumas marcas. 
Pretendo melhorar como pessoa, prestar mais atenção aos que me cercam. 
Procurar amigos, meus velhos amigos, não deixá-los apenas na agenda telefônica. 
Enfim, lutar pela minha felicidade.
Sei que os dias não são fáceis e que ainda travarei algumas lutas,
especialmente pessoais. 
Mas, sinto um desejo de amar incondicionalmente e sei
que essa minha crença no amor não será em vão.

(Lene Dantas]

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CARTA



Não se sabe quanto tempo esperaria por si, pois ultimamente perseguia desesperadamente o medo de aceitar o que precisa entender.  A vida agitada lhe toma o tempo necessário para não pensar. E precisa disso. Mas às vezes não é suficientemente rápida para impedir suas especulações.

E no final da tarde, ela escreveu. Escreveu uma carta que não foi terminada. Uma carta que ainda está em sua mão e que ainda toca nas notas que seu coração canta em noites amarguradas.

Sim. Ainda existem notas que ela gostaria de extinguir. De um sonho forte. Forte como uma realidade, gravada em lugares que embora estivessem nela, ela ainda não os conhecia ou não os compreendia e isso fazia sua alma sangrar de cansaço, cansaço de às vezes sorrir e às vezes chorar e ainda assim não alcançar suas verdadeiras respostas. Respostas pesadas demais pra aceitar. Respostas dela. Só dela, e de mais ninguém.
E hoje mais uma vez releu a carta.
Releu e continuou sem entender:

“As pessoas são difíceis, o que parece é que ninguém realmente preocupa-se com o outro. Corro entre meus caminhos e ainda não me encontro. Eu bem que queria falar, tudo o que ainda ficou guardado.
Sim; Talvez palavras ajudassem a sarar as últimas cicatrizes. Mas as palavras às vezes faltam. Palavras às vezes são vazias ou às vezes o que sentimos ultrapassa o que tentamos expressar.
Olho a noite estrelada; Vejo a lua inundando os olhos dos apaixonados.
E o amor?
Será que já amei?
Será que fui amada?
O que será o medo que fica depois do fim?
O que será a vontade de ainda dizer:
Estou aqui.
O que será ainda?
Será que ainda?

Só sei que sinto saudades, um saudade esquisita, saudades das coisas que imaginei das coisas que vivi e saudade de coisas que não aconteceram. Tem coisas que são tão fortes dentro da gente que o imaginado parece ser real e você de repente esquece o que viveu e o que você criou. Sinto saudade! E apesar de não ter desejado essa saudade, aprendi a conviver com ela: Sem mágoas, nem dores, nem com expectativas. È apenas um sentimento meu, um sentimento dos meus corredores ainda embaralhados. Certamente um dia não sentirei falta desse momento, mas agora esse momento, esse meu momento apesar de confuso é de paz. Estou bem e feliz!”


E mais uma vez guardou a carta. Não está preparada ainda para responder a si mesma. Amanhã pretender reler mais uma vez. Sabe que ainda encontrará suas respostas.

Precisa resgatar-se e tentar se entender, pois o mistério de não se entender não a faz muito bem, mais como os mistérios lhe cativam, continua dia a dia perscrutando-se. Hoje ainda mistura-se entre devaneios e razões e tenta juntar pedaços de cacos de um vaso quebrado. Tenta sorrir, apesar dos cortes. E como se fosse um bom oleiro tenta fazer do vaso quebrado outro vaso. Às vezes está exausta, mas não tem pressa; Equilibra-se e sorrir ao acordar pela manhã e contemplar um novo dia. Pois os dias e os dias e dias não param e talvez vez por outra seja preciso apenas olhar-se no espelho e perceber que a capacidade de ser feliz sempre estará conosco. Hoje, ainda não terminou a carta. Continuará sua escrita; Um pouco amanhã, um pouco depois e escreverá por mais um pouco, só mais um pouco.


Lene Dantas

domingo, 27 de novembro de 2011

Doce Manhã




Hoje atropela sua alma em dúvidas, por não saber se suas verdades mudaram. Talvez ,quando olhar pra trás, ela ainda enxergue as mesmas verdades. Ontem a tarde caia silenciosa e tudo parecia calmo. Tudo era calmo como a chuva que caia devagar.

“... sempre tudo muda... nem sempre o que ansiamos é o que nos fará feliz.”

Repetia a si mesma o que lhe acalmava, esperava dias melhores.

Quando decidiu ser o que é, pensou esquecer-se de uma vez de tudo que tanto precisava esquecer. O caminho era longo e segui-lo não seria fácil. Até que parou, olhou ao redor e viu sua vida mudando todo o roteiro e seus passos a levava para onde o coração não desejava seguir. Precisava tentar e descobrir mais uma vez se essa verdade era a certa. No seu lamento lembrava os dias; Os dias dos sonhos que desejava. Mas a vida mostrava, que tudo eram sonhos. Sonhos que pertenciam à vontade de um amor pleno. Ironia; Sorriu de si mesma. Aprendeu a encarar seus erros. Errou em acreditar. Mas espera, que rios a levem para o lugar certo.

“Um rio que leve ao mar
Que tenha um gosto bom
Que arranque o sabor amargo.
E quem pode prever o amor?”

E a vida em suas voltas e voltas. Não se culpava. Pois apenas, acreditou e acreditou. Jurava ver seus rastros e nas noites ainda mudas, escutava vozes.

“Talvez o amor tenha sido real. Sim talvez! Mas que fazer quando não se pode fazer, e a luta é em vão? Nada mais, nada além. Seguia e jurava continuar.”

Arco-íres cercarão os céus e flores abrirão caminhos, em jardins antes secos. Sim. Haverá nos rios, risos de alegria e saberá que o amor doado não é em vão; As lembranças, às vezes causam dor, mas ensina .E precisava aprender com suas verdades.

As verdades não poderiam ter os mesmos caminhos. Eram verdades novas e tudo havia mudado. Não poderia seguir trilhas que causavam dor. Não poderia escutar na noite pensamentos vazios. Ela só esperava dormir em paz. Sim precisava dormir em paz. Descansar um pouco o tormento de dias e dias que esperou o que acreditava ser.
O tempo, o tempo amargo ou o tempo doce amargo, ainda pedia explicações e às vezes ainda cruzava seus caminhos.

“Um pouco mais, um pouco apenas e tudo isso passará... Agora tudo está embaralhado; Não tinha que ser assim. Mas, agora é. Agora foi.” responde a si mesma.

Verdades precisam ser aceitas! E a caminhada se certa á fará achar seu sossego; Achara suas manhãs. Sua doce manhã.  Achara suas razões. E achara o caminho certo pra casa. Achara o caminho de novo para seu jardim.

E as verdades? Sim. Quem sabe, das verdades?

Ainda não sabe, ainda é noite, as estrelas dormem. Mas espera sua doce manhã. Sim. Achará suas verdades, numa doce manhã.


Lene Dantas

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Doce Lembrança





Ora, tudo ainda estava ali. Mas só agora, é que tudo estava claro. Ainda apertava-se em alguns fragmentos de lembranças, mas essas eram recebidas com tranqüilidade. No labirinto que se perdeu começou a achar-se, tudo era mais suave, mais feliz.

Hoje se lembrou de algo como planejar o desejado. Certa vez, leu que deixar de desejar é a melhor solução para sentir a paz que os que têm expectativas frustradas não têm.

”Sim; Não se deve planejar o desejado.”

Não sabia se estava certa, mas decidiu seguir assim, embora á um tempo atrás não tivesse forças para desejar não desejar. Sorriu! Sorriu, pois se lembrou. E começou a contorcer-se em saber se fez bem em desejar ou não. Então, para não sofrer com a ansiedade do que já passou, apenas resolveu seguir cultivando, regando e quem sabe colhendo.

A vida agitava-se ultimamente deixando a inércia de dias. O que era bom, pois facilitava a escolha das portas. A saída de suas prisões. Essa poderia ser sua chance de descobrir-se; No entanto, de certa forma, isso a amedrontava e secretamente calculava o que iria encontrar. Apertou-se mais uma vez em seus pensamentos inúteis e fúteis. Pensamentos que agora não cabiam mais no que ela devia construir. Então, como por um impulso, balançou a cabeça para livrar-se deles. Deixando-os.

Era incrível como conseguia saber o que deveria ser, mas era intuitivamente impulsiva em suas ações. Corria o tempo todo, até para fazer coisas simples. Corria, mesmo quando precisava ir devagar.

Sim. Mas e agora que tudo deixou de ser? Agora! A música toca! A música toca e ela é a lembrança de um tempo doce, doce. Um tempo doce, que poderia ser tranqüilo. Sendo assim, para não lembrar-se da agitação dos dias, o melhor é apenas lembrar-se do som suave da música. E repetia algumas vezes:

"O som da canção toca meu coração e traz uma doce lembrança.”

Agora é o tempo de lembrar apenas do doce.

Prosseguiu caminhando; Dessa vez sem calcular, dessa vez sem expectativa. E lá, onde não esperava sentir o aroma das flores, tornou-se uma delas.

Lene Dantas



domingo, 16 de outubro de 2011

NOTAS





Quando caminhava tentava ouvir seus passos. Inútil, inútil... Nada ouvia e nem sabia ao certo para onde devera ir.

E sem ao menos perceber o dia criara forma e tinha passos que a levavam.
Não podia conter a emoção de reparar-se, sim ela reparava-se cada dia e isso a deixava cheia de dúvidas. Quando partia ainda olhou para trás, mas lembrou-se que os rastros deveriam ser apagados e seguiu numa estrada inteiramente oposta a que havia projetado.

E assim viu que a saudade toca o coração de uma forma impressionante, e não importa onde se esteja, ou num parque ou num quarto escuro o nosso mundo está conosco. E como um eco, a saudade soa como um vento que se perde.  

Sendo assim achou melhor encarar tudo, cada passo, cada dia como o inicio. A renovação.

E ao olhar as estrelas, como quando era criança, tentou contá-las até não saber mais o que contava, foi assim que resolveu escrever e falar de tudo o que vinha sentindo. E notas foram surgindo, notas de tudo o que se passava em seu coração.

As letras juntam-se e em cada frase
Vem um mistério, um mistério a se desvendar
Um pouco de mim, um pouco de todos
Um pouco do mundo.
Descobrindo entre letras a forma
Que quero viver
Lançando a fome que tenho
Matando a sede de saber o que sou.
Na calmaria vem revolta,
Na revolta vem calmaria,
Na tempestade sou leve,
E no sonho
Sou o que quero ser.

Nas linhas viajava dentro de si. Certa vez, falando consigo mesma, disse:

“E se tudo o que pensamos se tornasse realidade. O que eu pensaria agora? Esperou um pouco, concluindo.

“Certamente, descobriu um de seus maiores desejos.”

 Foi assim, quando ela descobriu-se. Foi preciso um choque pra que ela entendesse onde ainda poderia chegar. E no escuro, ainda via cores e por mais que temesse, decidiu não desistir.


LENE DANTAS

domingo, 31 de julho de 2011

A BOLSA



E tudo é sensação de um tempo em que ela ainda sorria à toa, quando as palavras que mais lhe deixavam alertas eram as estranhas.  Carregava na bolsa um bloco de papel, uma caneta bic azul, um espelho quadrado com bordas alaranjadas e um batom sabor de morango com um tom escarlate, daqueles que parecem fazer sangue na boca. Mas a boca, já tinha sangue por si, pois as palavras que engoliu a vida toda a deixaram com a boca ao relento, recebendo a brisa que às vezes vinha quente e às vezes vinha fria. E nunca falava, nunca falava o que queria falar na hora certa. Sempre ficou o depois na sua garganta, sentia-se cansada de engolir interrupções abruptas. Mas ainda vivia seu presente anonimato, engolindo o fel e sua boca seca a cada dia vai fechando sem mesmo ela perceber. Agora se perdeu os risos, perdeu-se o caminho, perdeu-se nela. Quando se viu era partida ao chão em partes. Partes que parecia não juntar. A mente tinha cantos escuros que rapidamente multiplicavam-se e havia muros altos que a cercava e por mais que tentasse fugir, sempre se deparava com os muros. Tinha nos olhos um mistério, que a deixava terna e ao mesmo tempo selvagem. Perdia-se no que desejava ser, no imaginário da sua mente que sempre encontrava lugares mágicos, onde ela flutuava, onde encontrava sorrisos e perfumes; Era fascinada em perfumes e decorava cheiros e assim escolheu seu primeiro namorado, pelo o cheiro, o cheiro do bombom de chocolate que ele a entregou. Até hoje, não esquecera o cheiro do bombom, mas dele esqueceu-se a muito.

Naquela manhã, sentou diante do espelho, fantasiando esquecer-se do passado, assim como nos filmes que assistia e apenas algumas palavras eram capazes de fazer esquecer-se. Quis saber o que ela era e já que não encontrava respostas, pensou se não seria bom, perguntar para os mais próximos. Lembrou-se da mãe, mas essa possivelmente a encheria de elogios; Lembrou-se do pai que a encheria de cobranças. Desistiu. Levantou-se. Foi para loja onde trabalhava há alguns meses e entrou com aquela sensação de que ninguém perceberia sua presença. Passou rapidamente por todos, com um tímido bom dia, pouco notado, exceto por Chagas que apaixonou-se por ela desde o primeiro instante. Ele nada entendia do que ela enfrentava agora, mas gostava do jeito que mexia o cabelo e do jeito que sorria e gostava de ouvi-la, mas como ultimamente ela calou-se, ele sentia falta do jeito que ela contava as histórias. Hoje Alda chegou desfigurada, chegou com os olhos baixos e ele sabia que ela não estava bem. Na hora do almoço, mexeu a comida para lá e para cá, era como se observasse seu mundo, toda hora parava e examinava o arroz, o frango, o feijão e como se dividiam no prato e como o cheiro de tudo isso junto, lhe despertava um apetite que hoje ainda não chegou. Olhava as pessoas ao redor e pareciam tão felizes ou tão conformadas com tudo que tinham. Ela não estava feliz e nem conformada com o que tinha. Sentia um medo de aceitar sua realidade, e toda hora fugia dela, então começou a brincadeira de pique, quando ela cansava e parava a realidade mais uma vez lhe dizia um olá. Dizia a si mesma que nada aconteceu e que tudo o que tinha que sumir, sumiria de sua mente. Mas quando o silêncio chamava as estrelas e os olhos fechados lhe mostravam o caminho do sono, ela lembrava. Então decidiu deitar-se apenas quando estivesse tão cansada que as pálpebras não agüentasse sustentar-se e quando as pernas sozinhas se movessem até o sossego do leito, mas ainda assim, mesmo caminhando e dormindo, cansada de tanto andar de um lado para o outro, o silêncio da noite e o sossego do seu sono lhe trazia o que não queria. E assim quando dormia, quando tudo parecia sumir, ela sonhava. O sonho repetia-se, o sonho era sua realidade que precisava sumir. O sonho era o seu tormento.

Perguntava-se o que fazer. Como livrar-se da avalanche de sentimentos que não queria sentir. Então, certa manhã cansou-se e resolveu desistir de lutar e aceitar que não podia contrariar o que lhe oprimia, mas lutar pára sorrir e ser feliz. Começou sossegadamente a plantar suas flores, e cada vez deixava seu jardim mais colorido e empenhou-se em falar, falava como quem canta, falava o que estava dentro da alma, falava sobre sua fome. Viu que estava na hora de amar-se. Talvez algumas roupas novas, ou algumas fotos novas. O que será que faz uma mulher feliz? Perguntava-se. Escolheu uma bolsa grande e bonita de cor bege e resolveu colocar tudo, o que uma mulher segura precisa. Nunca foi segura, mas assistia tantos filmes, tantas novelas e minisséries e lia tantos livros que de repente podia fazer o que tantas personalidades faziam. Podia de gata borralheira virar cinderela e prometeu a si mesma que meia noite ainda seria bela e mesmo que os trapos da roupa ficassem amostra ainda assim sorriria. E foi juntando maquiagem e foi juntados livros, perfumes e tudo o que ela achou que sempre devia está com ela, até a agulha de crochê e o novelo de lã com fios dourados que comprou semana passada para fazer um cachecol igual ao da recepcionista do seu ginecologista. Sempre que ia pra uma consulta preocupava-se como deveria está , como devia maquiar-se pois tudo lá parecia tão perfeito e tudo naquela moça era tão absurdamente simples e belo que a deixava sem graça desde a hora em que ainda entrava vestida até a hora que tinha que expor-se, então sempre dois dias antes ia ao centro e comprava lingerie, mas o seu temor começava quando olhava a recepcionista e sentia-se invisível. Logo depois que arrumou a bolsa resolveu sair, entrou no carro sentindo-se uma heroína e antes mesmo de fazê-lo funcionar, espirrou colônia pra que tudo cheirasse como ela, retocou a maquiagem, tirou os sapatos e começou o seu caminho em direção ao mundo, ao novo mundo que ela queria conhecer. Cismou consigo mesma por saber aonde iria e o que iria fazer. Primeiro resolveu parar um pouco no mar. Desejava desde muito caminhar a beira mar, sempre via isso em fotos de revistas, e pensava se não podia ser como aquelas mulheres. E o que será que elas pensavam? Não sabia, mas hoje descobriria. Colocou o pé na areia e fotografou-se sorrindo. Tomou um pouco da areia do mar num saquinho que trazia e colocou na bolsa e se foi. Seu destino agora era as flores e procurou um jardim, um jardim que estivesse recheado de belas flores, encontrou e lá escolheu entre todas a mais bela e a levou.

Chegando a casa deitou-se na cama e por um momento sentiu-se leve. Depois de refazer o trajeto que seguiu, levantou, pegou sua bolsa e foi avaliar os seus tesouros, examinou o saquinho com um pouco da areia que trouxera e a flor, lamentavelmente inquietou-se ao ver que as arrancara dos seus mundos e que a areia já não era tão viva e nem tinha o cheiro do mar e a flor de bela murchava. Só assim enxergou-se.

Alda refez sua bolsa, percebeu que não era nenhuma atriz de cinema, percebeu que se esqueceu de perceber quem a amava, percebeu que se esqueceu de perceber-se. Percebeu que o sorriso vem, quando se aceita os fatos e deixou-se chorar quando preciso. Percebeu que era feliz apesar de triste. E viu que podia se sentir bonita e viu que muitos a amavam. A casa pareceu pequena e naquele momento ela precisava de espaço, desceu apressadamente para o jardim e procurou uma árvore aonde pudesse sossegar. O silêncio dos seus ramos trazia paz é como se orassem baixinho por ela. Sentou-se e juntou os pedaços de sua emoção, aos poucos foi despedindo-se de tudo que precisava esquecer. Fechou os olhos e os jogava ao ar, deixando a brisa leve levá-los e começou a lembrar apenas do que a fazia sorrir.

Hoje Alda pintou as unhas cada uma de uma cor diferente, pintou os cabelos de acaju, passou batom vermelho e escreveu no seu velho bloco de papel.

“Na minha bolsa, só levarei o que me faz feliz e o que me faz feliz é a cada dia ser eu mesma e cuidar melhor de mim”


Lene Dantas



sábado, 23 de julho de 2011

UM ADEUS A LUA



“O mar sempre encontra o rio. Sim. O mar sempre encontra o rio. Então, se minha vida é um mar, também encontrarei um rio.”

Traduzo minha vida assim, desde muito tempo. Talvez por isso que teimo em certas situações, querendo fazê-las certas ou boas para mim. Hoje caminhei lentamente na praia, olhei as ondas e o mar estava agitado. É interessante ver o movimento das ondas, como mudam, no entanto não deixam de ser belas. Queria está tranqüila e aproveitar melhor esse final de tarde, mas hoje tudo está fatigante, tudo está sem ritmo. Sendo assim, sei que preciso colocar música na minha vida.

É estranho quando olhamos pra dentro de nós, e mais estranho quando sabemos onde estão todos os erros. È estranho querer libertar-se e ao mesmo tempo prender-se. Assim como é estranho, idealizar um amor. Certa vez, alguém me disse que escolhia quando amava e quando deixava de amar. Não sei se isso é mesmo possível, mas comigo, até hoje não funcionou. Minhas emoções são intensas e sei que corro riscos por elas, sofro muitas vezes por isso, mas no fundo, gosto disso. Gosto de trilhar caminhos, de fazer planos, sonho acordada o tempo todo, sonho comigo e com pessoas que desejo a minha volta.

Essa tarde, o sol está indo e sua cor vibrante já está acalmando. Logo a noite chega e estou como medo de ver a lua, pois devo despedir-me. Por muito tempo, a lua foi minha confidente, por muito tempo deixei que ela, me inebriasse com sua beleza, e me fizesse viajar pra lugares que só ela podia mostrar-me. É difícil aceitar o fim de sonhos que queríamos. Ontem pensei sobre isso! Sonhos são bons e melhor ainda realizá-los. Mas quando o sonho é dividido, e não depende só de um, tudo muda. Pois, as pessoas mudam e mudam os sonhos também. Hoje devo dizer a lua que ela não mais realizará o seu sonho, sei que ela minguará e chorando falará que isso não deve acontecer. Mas a acalmarei e lamentavelmente a farei entender que o sonho é só dela, e que o sol aquecido em seu próprio calor, não pretende encontrá-la. Talvez a verdade a faça recomeçar, talvez reconhecer que o amor não existiu, não seja fácil, mas é preciso. Às vezes, a dor nos faz cair, e às vezes a dor nos faz viver, nesse caso, o mais sensato é viver, pois o errado não foi amar, não foi entregar-se ao amor, o errado também, não foi acreditar. Na verdade, a lua encantou-se e perdeu seu encanto. Encantou-se por um sol que nunca a quis para amá-la, mas a quis para provar a si mesmo a capacidade de suas conquistas. Talvez essa verdade tão dela, também seja minha.

Hoje algo diferente aconteceu, não sinto vontade de esconder-me e nem tão pouco vontade de juntar-me a lua no seu estado minguante. Certamente feridas demoram a sarar, mas sinto que saber a verdade, me libertou. Dúvidas nos predem a situações. Agora não tenho dúvidas, sei exatamente onde pisei, e sei quem foram meus amigos e sei quem foi os que me viraram as costas. Sei também, quem me quer bem, e consigo enxergar aqueles que só me ludibriaram com palavras doces, para mais tarde deixar minha boca amarga. Infinitamente amarga. Já faz um tempo que estou assim, com esse amargo na boca. Já não conseguia definir sabores. Já não sabia que gosto eu tinha. Preciso experimentar-me novamente. Vou lançar-me no mar. E pegar um pouco de sal. Vou despedir-me da lua com um pouco de sal e um sorriso nos lábios. Quando uma etapa termina, precisamos nos preparar para próxima, e preciso está bem, preciso ter cheiro de rosa. Ultimamente eu tinha perdido minha espontaneidade, ultimamente tinha medo de como comportar-me, calculava meus passos para não perder o por do sol e na hora exata sempre estava lá o olhando e o admirando, mas embora estivesse ali, não me sentia aquecida, seus raios sempre se direcionavam para outra direção. Muitas vezes eu chorei, mas não eram lágrimas de saudades, nem de amores não correspondido, eram lágrimas de despedida. Lágrimas de saber que o que você deseja é inalcançável, de saber que você fez tudo, mas caminhou em vão. Quando eu chorava, ainda assim lutava, e tentava chegar mais cedo e pegar o sol antes que ele partisse, mas quando isso acontecia, o dia ficava nublado e ele não aparecia. Ele não queria aquecer-me. Então comecei a refletir em tudo o que era feito, em tudo que era doado, e percebi que o amor embora forte, não sobreviveria sozinho. Quando não tem troca, quando não tem coração, quando nada existe, o amor chora. E chorei em noites chuvosas, e chorei olhando a lua e chorei esperando os raios do sol. Até perceber, que palavras só alimentam quando são verdades, e que nada adiantava ouvir promessas que não iriam se cumprir, e ouvir sentimentos que não existiam. Comecei a perguntar ao mar, o que eu era. Comecei a pedir o mar, que encontrasse meu rio, pois eu precisava misturar-se. O mar não respondeu.

Quando a noite chegou, o coração sangrava, mas, estava incrivelmente calma, pois já sabia o que iria acontecer. Não tinha dúvidas. Quando olhei a lua e tentei falar, ela apontou as estrelas no céu, e disse que eu nunca estaria só. Ela minguou  Eu mingüei.

Com os olhos nublados, engoli o sussurro. Por enquanto sentada na areia, ainda a olho pensativa, olho atentamente aos desenhos que crio dentro dela. Conto os passos devagar e aos poucos se retiro. Adeus lua amada, adeus ao colostro que encontrava em meus sonhos guardados por ti. Adeus ao que eu sentia quando tu me mostravas o reflexo do amor. Porém, te falo adeus por esse momento. Pois, mais tarde me renovarei e contarei novos segredos a ti, quanto estiver bela e novamente faceira. Mas agora, digo apenas.

“Adeus lua amada.”

Não olho mais a lua. Não espero os raios do sol. Mas estou construindo, um novo caminho cercado de estrelas. Construindo um dia feliz, uma noite feliz. Construindo um novo mar, um mar que certamente encontrará o rio.


Lene Dantas


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Jura de Amor

                                     


Depois que tudo se aquietou, ela saiu e sentou-se em frente a casa, aos poucos foi juntando o silêncio do espaço e o silêncio dos seus passos. Quando conseguiu ordenar seus pensamentos embaraçados, ouviu barulhos e alvoroços, alvoroço e barulho. Não sabia ainda se preferia o silêncio, ou se preferia o alvoroço de suas idéias que gritavam interrompendo sua paz. Então resolveu fechar os olhos, ali sobre a grama verde, que começava a crescer no seu jardim, deitou-se, pensou em relaxar, pensou em encontrar saídas, pensou em se encontrar. Sabia o que queria, mas não sabia como realizar o que queria. Sabia que tudo o que era esperado, era também incerto, sabia que a felicidade ainda há pouco estava perto e que a borboleta até encostou-se em seus cabelos e afagou sua alma, sabia que precisava tranqüilizar-se e cuidar para que a grama continuasse limpa e verde e que o jardim florisse. Não queria dormir, mas não encontrava solução, enquanto acordada, então, aos poucos deixou o sono tomar conta de sua alma cansada, observou as árvores que lhe dava sombra e ouviu os passarinhos cochichando segredos que ela não tinha acesso. Sossegou, dormiu e veio o sonho.

“O vento ainda estava longe e a casa parecia segura, ela andava de um lado para o outro, como quem procura soluções que estão fora de seu alcance. A cada hora, a chuva parecia mais perto, e ela nem sequer cuidou de fechar suas portas, apenas andava de um lado para o outro. Até que decidiu parar, e esperar a tempestade que se aproximava, não tinha medo, tudo parecia mais amedrontador onde ela estava. Então o que se aproximava parecia suave, parecia confortante. As folhas voavam à medida que se aproximava o vendaval e nenhum espaço do céu, deixou de ser coberto pelas nuvens que escureciam. Ela apenas observava. As gotas fortes da chuva começou a molhar seu corpo, enquanto ela sentia o vento como que arrastar suas roupas ferozmente. Observando aquele instante atentamente, viu a figura de um homem, um homem desenraizado, livre e aventureiro. E no meio da força do vento, e no meio do barulho dos céus; Ele parou, e a olhou por alguns minutos e estendendo a mão, a chamou. Ela não sabia se devia mistura-se a ele e a força daquela chuva, mas inerte, diante da paixão que a consumiu, no contraste da água, e do fogo dos olhos da alma do amado. Ela foi. Pois o amor a pegou.”

A tarde parecia tranqüila, quando despertou do estranho sonho, que provocou seus medos. Ainda sentia a presença do amado dentro da sua alma, confusa entre o sonho e a realidade, não sabia como, mas o absorveu. Tentava lembra-se do sonho, e tentava sentir o cheiro da pele, tentava sentir o gosto, tentava, mas o que havia ficado era as pegadas do amor em seu coração. Não sabia até onde o amor a levaria, não sabia quanto tempo esperaria, não sabia se todo o sonho foi sonho. Mas queria provar o sabor do sonho, queria sentir o cheiro e o gosto, queria misturar-se. Queria ouvir os primeiros compassos da melodia do amor pela manhã, queria regar suas rosas, suas raízes sedentas e sob a lua brindar o encontro dos enamorados.

Por um momento acalmou-se, e reviveu desafios que já passou. Acalmou-se por deixar os pés, sob a grama que crescia, sentindo a vida que a cerca, percebendo a beleza de tudo que foi criado. Retratou-se com ela, ao perceber a simplicidade de seus desejos incompreendidos. Levantou e tranquilamente caminhou até sua casa, que antes parecia tão angustiante, mas que agora, estava ternamente a chamando. Ela, que se largou na chuva. Agora, precisava trocar-se, precisava sentir-se leve, precisava assim como o céu, abrir sua cor.

Da janela, viu a paisagem transformasse, e as nuvens estavam felizes, esperava a noite como se a tempestade não houvesse existido, e viu que tudo vai e vem e tudo vem e vai, e que podemos nos transformar e melhorar a cada dia viu que a lua sempre vem, mesmo em dias que ela míngua, ela vem. Então se trocou diante do espelho, se fez bonita. Sorriu pra si e resolveu cantar a canção que aprendeu com o amado. E repetiu a canção todas as horas que olhava os céus, e que cuidava de seu jardim. Estava feliz e infeliz, porém mais feliz, pois sabia que mesmo longe, ele encontraria paz.

Permaneceu cantado e lembrou-se do brilho da estrela que viu na noite passada, quando em seus pensamentos mais secretos lhe fez um pedido. Percebeu que sentia falta, falta até do beijo não dado e do abraço não trocado, falta até de ter com o que lembrar-se e então lembrou que o sonho não foi tão sonho assim, e quando saiu, no meio do jardim, em uma das folhas que se soltou durante a tempestade, encontrou: Um nome, um verso e uma jura de amor.

Já é noite, e diante da lua corada eles se encontram. O instante mágico acontece. Os olhos falaram, o sorriso foi abençoado pela luz da lua. O amor os pegou.

Lene Dantas

segunda-feira, 27 de junho de 2011

HOJE




E quando tudo pareceu distante ela buscou respostas no coração. Talvez hoje ele estivesse bem e pudesse ajudá-la a resolver as questões que tanto a inquietava. Quando acordou e olhou-se no espelho, descobriu que ainda podia lutar por si, descobriu que á vida podia ser mais do que o que ela ultimamente vinha fazendo. Às vezes achamos ser auto-suficientes e achamos que podemos manobrar nossas vidas como caixinha de música, que você gira e quando acha que não pode mais, você decide parar, mas á vida nem sempre é assim, nem sempre podemos manobrar e escolher a hora de parar certos acontecimentos, a vida tem giros sim, que são dados por nós, mas também por aqueles que nos rodeiam e ai é que descobrimos que a vida é uma caixinha de surpresa, ora agradáveis, ora não.

Então, certo dia você se atrasa, perde a condução, se obriga a pegar um taxi e dentro do taxi encontra um pacote, um pacote fechado que te chama atenção, mas você não pode pegá-lo, não pode porque o motorista do taxi deve saber de quem é o pacote, não pode porque você não seria louca de sair correndo com aquele pacote embaixo do braço. Não. Você não seria louca. Mas e se fosse? Nessas horas é que o dia parece simples demais, e parece que tudo que sai do normal é errado. Mas, às vezes quando se olhamos no espelho, descobrimos que não somos tão confusos, nos apenas não nos conhecemos.

Hoje, Maria Rita resolveu conversar consigo, faz tempo que o taxi ta parado, e ela não sabe se entra. Faz tempo que ela não sabe aonde parou de viver. Porque viver não é apenas deixar a vida nos levar, viver é tomar nossas próprias decisões e caminhar colhendo o resultado das flores que crescem no jardim. Aquelas flores que pareciam nunca crescer. Hoje de manhã quando ela acordou, decidiu ligar para a pessoa que prometeu a si mesma nunca mais falar. Ligar porque era isso que ela queria. Ligar porque ela precisava. Ligar por si. Não teria medo de o telefone não ser atendido ou de como seria interpretado. Ela estaria feliz por ligar. Ter um número de quem tanto queremos é uma sensação boa, a sensação ruim é não poder discá-lo, é não poder ouvir a pessoa que queremos ouvir. È o receio do que vai vir do outro lado. O medo, sim o medo. O medo até da voz. O fantasma da voz. Maria Rita tinha medo da voz de André. A última vez que falaram discutiram muito, magoaram-se e ela jurou não mais procurá-lo. Hoje se olhando no espelho ela o vê. E seu rosto é tão suave, ele é o homem que ela ama. Será que poderia lutar por ele? Será que poderia tentar mai uma vez ouvi-lo? E se ele ainda a amasse? E se ele ainda escutasse a voz dela, nas suas noites de sonhos ocultos? E se ele também tivesse medo? Não. Homens não sentem medo! Pensou. Mas ao mesmo tempo, lembrou-se de quando ele precisou ir numa entrevista de emprego, e a ligou antes, dizendo está nervoso e com medo. Sim, ele sente medo e tem fragilidades como eu. Disse Maria Rita, enquanto arrumava-se para encontrá-lo. Sim, hoje irei procurá-lo, irei falar o que guardo todo esse tempo em dias que não consigo dormir. Irei contá-lo das noites que repeti seu nome em meus sonhos, e das vezes que olhando o mar pedi que as ondas que iam e vinham me explicassem meus anseios. Irei dizer que a lua todas as noites, mostra o seu rosto, que o meu sol é claro quando ele está perto, e que a vida se torna bem mais feliz quando escuto sua voz. Hoje, não irei fugir dos sentimentos, porque hoje quero abraçar a vida, beijar a chuva, dançar na praia, cantar na rua. Hoje quero amar, e amar não é apenas ouvir um sim. Amar é ter coragem de admitir o que sente, é lutar pelo que acreditamos, é ter força para sermos mais do que imaginamos ser. Hoje quando Andre despertar pela manhã, será eu que ele irá encontrar, serei eu a esperá-lo ali, no mesmo local, no mesmo lugar, mas não com os mesmos medos, nem angustias. Serei eu o esperando apenas para declamar todos os meus sentimentos embaraçados, e serei eu a falar que á vida é uma caixa de surpresa e que hoje, sou eu que surpreendi a vida. Eu que escolhi os caminhos que deveria trilhar e eu decidi seqüestrá-lo, da paz que ele encontrava-se, da paz que eu não sei ser boa ou má.

O ônibus está lotado, por um momento as pessoas parecem saber o que vou fazer. De repente, encontro os olhos de uma senhora que me olha intrigada. O que será que ela está pensando de mim? È estranho olhar para as pessoas, mas estranho ainda é quando tentamos adivinhar o que elas vão fazer ao descerem do ônibus. Eu teimo em fazer isso. Observo à roupa, o olhar, a maneira que se vestem, e provavelmente para onde vão. Essa senhora, por exemplo, tem uns 56 anos, usa calça e camiseta, cabelo acaju curto, uma bolsa de médio porte e toda hora observa o relógio. Provavelmente está indo para uma consulta médica. Mas, e se tivesse indo encontrar um amor. Louca que sou! Ninguém faz isso às sete e meia da manhã. Bem, eu estou fazendo. Um amor que nem ao menos sei se é meu amor, se ainda está solteiro, se ainda lembra-se de mim. Graças a Deus um lugar para sentar, o aperto do ônibus e meus pés nesse salto, já estavam me machucando, posso agora pensar melhor. O que devo dizer? Estou ansiosa demais. Minhas mãos parecem pedras de gelo. A vontade que dá, é tirar esse esmalte, eu não deveria ter pitando a unha de café. Meu Deus! Estou nervosa! Minhas pernas estão tremendo. Pronto o ponto. O fim da linha. Cheguei. É agora ou nunca.

Maria Rita desce. Pega o celular, na esperança de avisá-lo que está ali no mesmo terminal que se conheceram, gostaria de saber se ele ainda demorará muito para chegar ao ponto. Afinal, ele sempre pegava a condução de oito horas. Ela liga. E depois, alguns eternos segundos de ansiedade, escuta o recado da caixa postal. Senta, olha pra tudo ao redor e se maldiz de ter demorado tanto, se maldiz dele provavelmente ter mudado de número. Maldiz-se de não ter feito tudo isso antes. Mesmo assim não desiste, resolve esperá-lo.

São duas horas da tarde e Maria Rita pega a condução de volta pra casa. Hoje não encontrou Andre. Hoje perdeu Andre e provavelmente nunca mais irá encontrá-lo. O peito geme de dor, o coração cala-se. Os dias passam e ela volta a tudo que fazia e a mesma rotina de dias que pareciam ser bons, mas que faltava o que ela queria. Volta e tenta enganar-se, tenta esquecer tudo novamente. Lembra e esquece. Hoje não quer complicação, desde cedo se aborreceu no trabalho.  A enxaqueca resolveu lhe dizer um olá. E mais uma vez dorme o seu sono de sonhos não realizados, mas está satisfeita porque fez algo por si. Ela não deixou á vida apertar-lhe. Ela se surpreendeu e foi, seguiu os seus passos pra onde desejava seguir.

São 4 horas da madrugada, o telefone de Maria Rita toca. É André, que apenas hoje, viu o recado na caixa postal. Hoje, Maria Rita percebeu que valeu a pena ter tentando. Pois encontrou sua caixinha de surpresa.


Lene Dantas

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Borboletas e Jardins



Talvez,algumas situações difíceis estejam me deixando amedrontada. Imagino, às vezes, se seria bom poder apagar da cabeça tudo de ruim que passamos. Mas, estes são necessários para podermos crescer e vencer. Sei que, se existem barreiras, é justamente para mostrarmos que temos forças para enfrentá-las. Pretendo desprender-me, e deixar a vida trazer o melhor, não ficando imóvel, recebendo o reflexo das atitudes dos outros, mas tomando a frente, decidindo o caminho. Às vezes, umas doses de coragem, de loucura, nos fazem tomar decisões certas. O roteiro da vida vai sendo traçado todos os dias, não podemos parar o tempo e, se deixamos a vida acontecer por si só, acabamos sendo sombras da vida dos outros. Eu não quero ser sombra da vida de ninguém. Quero ter meus ideais e lutar por eles. É a dívida que tenho com a vida, de fazer algo por ela. Por mim.

Ver dias, meses, anos passar e não descobrir o que queremos é passar a vida sem superar o principal, o nosso Eu que tem fome de viver. A insatisfação pessoal é não saber ou não lutar para descobrir o que se quer e arriscar pra tê-lo. Quando decidi voar, encontrei asas que já estavam em mim, mas que eu não sabia possuir. Eu, que tinha os olhos como uma vidraça, que estava cheia de medos, aprendi a ver o mundo. A cada dia, me esforço a ser quem quero ser.

Vou me deitar, preciso me acalmar e saborear meus pensamentos, sentir o gosto doce ou azedo que venho experimentando. Quero um pouco de vinho para alegrar meu coração, se possível suave, para que eu possa suavizar todos os sentimentos que estão se debatendo. Quero embriagar-me na vida, no bom sentido. Deixar a mente solta e o coração transbordar. Ver borboletas e jardins. E sorrir... sorrir muito e verdadeiramente. Quero ser mais do que eu sou. Quero ser a felicidade que eu sei que está guardada em mim!

Lene Dantas


quarta-feira, 22 de junho de 2011

ROSA



Pergunto o que acontece comigo, resposta: Não sei. Não sei por que meus passos estão pesados demais, não sei por que a canção não toca. Não sei onde está tudo o que sempre esperei, mas afinal o que esperei, esperei um abraço, um beijo, um amor, uma rosa. Rosas?  É que mulheres gostam de rosas. Isso sempre escutei. Mas daí me pergunto: Até onde gosto de rosas? Será que a repetição me fez repetir que gosto? Ou é porque rosas se parecem com as mulheres? Quando eu era criança, roubava rosas dos jardins. Roubava porque queria levá-las a professora e sabia que ela mostraria um largo sorriso quando recebesse. Também usava em meus cabelos e me sentia linda. É como se ela me desse brilho, como se ela me desse vida. Uma rosa é como um presente a muito desejado, só que com um encanto a mais, pois ela fala. Quando recebemos uma rosa temos a sensação que junto vem à frase EU TE AMO! Mesmo que não se escute nada, mas a rosa por si só diz isso. Ela diz também que somos belas e perfumadas e que como ela seremos a mais sedutora de todas as mulheres. Se observarmos uma mulher de rosa na mão e olharmos seu rosto, saberemos o que ela sente. Uma rosa é meio mulher e cada pétala conta uma história e não importa o tempo que ela enfrente ela sempre tem a delicadeza em seu semblante. Afinal uma rosa apesar de qualquer tom sempre será uma rosa e a mulher sempre se emocionará quando receber uma. Porque o tempo às vezes parece andar ao contrário ou parece nos levar a caminhos confusos. E ai é que muitas vezes esquecemos-nos de deixar nossos sonhos falar mais alto e acreditar que aquilo que mais desejamos irá se realizar. Tudo bem que conto de fadas não existe e o para todo sempre também não, mas existe a cumplicidade, o amor, o carinho. Existe o desejo de ser e principalmente de fazer outra pessoa feliz. Às vezes observo o tempo e olho às rosas. Às vezes observo o tempo e me olho. Será que me permito ser bela não importe o que eu sofrer? Será que me permito gostar de mim? Será que me permito ser sensível, amável doce? Será que me permito ser forte, decidida e feliz?  Espero poder ser como uma rosa, não perder o brilho e sempre está pronta para renascer. Espero poder achar respostas as minhas perguntas e conseguir ser uma rosa desabrochada.
Lene Dantas

sábado, 4 de junho de 2011

Nos Olhar Continuamente





Sei que me olho, me olho sempre. Sou a espectadora mais fiel de minhas atitudes e a cada dia construo sonhos e percorro novos horizontes. Tenho uma guerra pessoal de ser o que quero ver. Porque não adianta olhar ao redor e observar os outros ou buscar felicidade no imaginário. Temos que olhar o nosso reflexo o que somos e vivermos felizes pelo que temos e nos esforçarmos para ter o que desejamos, pois fantasiar não é bem a melhor saída, ficar sentada esperando, não vai nos trazer nada. Olhar o dia passar da janela também não.
O nosso dever é seguir o labirinto que ganhamos quando nascemos e acharmos a saída. E para isso temos que andar e decifrar enigmas e termos coragem de entrarmos em ruas que às vezes parecem desertas, reconhecendo quando pegamos o caminho errado e voltar e recomeçar.
E para recomeçar, muitas vezes é preciso nos virar do avesso, dançar o som de músicas que apenas nós escutamos,  sem se importar se o vizinho vai te tachar de maluco. Fazer o que gostamos sem se importar com a maldade de quem nada sabe. Viver o sossego desassossegado do dia, da hora, do minuto. Enfim, procurar está feliz e sorrir para os que aplaudem nossa felicidade. Contemplar a beleza de tudo que está ao redor e sermos felizes por termos essa oportunidade. Observamos o sol, o ar, a água, a lua e as estrelas e deles tirar  a lição da humildade e generosidade. Aprender que a alegria está em repartir. Que o amor é o maior de todos  os sentimentos  e que devemos nos olhar e nos amar continuamente.

Lene Dantas

segunda-feira, 30 de maio de 2011

EU NÃO IMAGINAVA



Eu não imaginava que seria assim. E quem imagina? Como algo que chega de uma hora para outra e cerca seus caminhos com flores, de repente vira seu maior tormento? “Penso sempre em você.” Você escuta esta frase e  vai as nuvens. Passam dias, meses e você acha que é para sempre. Mas você esquece que essas palavras te levaram as nuvens e nuvens realmente passam. E nessa hora é que você diz: “Eu não imaginava que seria assim”. Mas é. E agora? Agora é encarar, lutar contra si e seu ego entristecido. É hora de se erguer. Não adianta lamentações, chorar noites e noites, não comer, não beber, não conversar. Não adianta viver a vida de quem quis sair da sua vida. Imaginar se ele ou ela pensa em você. Se é jogo que está fazendo. Não adianta nada disso. Agora é hora de dizer “Eu não imaginava, mas é assim. Essa é a realidade”. E a melhor forma de lutar contra o labirinto escuro e solitário que você se encontra é ascendendo à luz que você tem em você. É hora da virada. Hora de se amar, de sair, sorrir, conversar. Fazer tudo o que você não quer fazer. Hora de lutar contra a vontade de esconder-seÉ hora na verdade de lutar por nós mesmos. E essa luta não é fácil, mas é possível vencê-la. Nunca diga que perdeu o sentido da vida ou que não pode viver sem A ou B. Você pode você está viva e sua vida tem sentido. Quando a dor for tanta que você parece não agüentar, pare um pouco e procure um lugar  seu e lave sua alma, chore com você. Reconheça seus erros, mas veja suas virtudes. Depois faça acontecer, caminhe com sua melhor roupa e vários amigos do lado. Você não imaginava que seria assim. Então não deixe que seja. Mude e faça o melhor por você. Regue sua alma com o arco-íris que vem depois da tempestade e colha flores coloridas.

Lene Dantas


quarta-feira, 18 de maio de 2011

POLTRONA AVELUDADA




Ando com medo das paredes ao redor
Meia volta na esquina e tudo está ali
Na minha frente um carro abre a porta
Pessoas parecem trombar em mim
Qual o preço de se viver?
Tenho andado perdida na minha cidade
Tenho visto tudo embaçado demais
O farol dos carros não acende não acende
E não sei se consigo achar o caminho de casa
Quantas vezes andei sozinha por aqui
Este caminho era meu
Você ainda lembra?
Ainda lembra que percorreu essa trilha comigo?
Teve um tempo que nossas casas eram vizinhas
De andares distantes
E a minha companhia era o pouso leve
De uma canção em meu peito
Hoje vejo a vela acesa na minha frente e não sei se devo apagá-la
A brisa vem e vai e continua indo e vindo
O sol é vivo e esquenta meu corpo frio
À noite eu queria esse sol
Como eu queria tocá-lo
Será que me queimaria com sua presença irradiante?
O relógio já passa das dez e eu não tô nem ai se está tarde
Se a rua está vazia se o perigo me acompanha
Não tô nem aí para nada mas estou ligada em tudo e vejo que dois Olhos me observam de longe
Escondido por trás das árvores do jardim que já está adormecida
Finjo que não vejo e caminho
Caminho com passos leves sigo em direção a tudo
Que quero mas que nem sei se quero
Pretendo perguntar ao coração essa noite e pretendo que ele me Responda
Espero que ele não me traia mais uma vez.
Espero que as palavras sejam verdade que o amor seja sincero e que a Vida mostre-se como um arco-íris para mim
Talvez mais tarde eu pare e der risada disto tudo
È mais tarde vou sentar na cama e pensar em você antes de adormecer E depois vou rir de tudo isso
Será que você estará sorrindo aí do seu lado?

Do lado de cá. Eu vou sorrir e vou caminhar no amanhecer, em jardins floridos e abertos. Não quero prisões e não quero ordens. Quero a liberdade de uma criança que canta na calmaria do dia e fala com seus brinquedos. Já falei com meus brinquedos e ainda falo, apenas os brinquedos mudaram de tamanho, ainda sou criança e tenho em mim a vontade de correr, pular, dançar e sorrir, sem medo de ser ignorada.

“Ontem, tinha vaga naquele castelo ali”, disse a amiga que caminhava ao meu lado.

Parei e olhei o castelo de perto.

“É um castelo muito bonito”, ela continuou. “Cheio de histórias encantadas. Acredita em anjos, fadas?! Pois, quando você entrar nesse castelo, vai encontrar tudo isso. Você quer?”

Olhei para ela, ainda sem acreditar no que dizia e, na verdade, não sabia se ainda acreditava em anjos e fadas. Será que era mesmo ainda uma criança? Será que perdi o doce sabor de imaginar?

Caminhei devagar e, aos poucos, aproximei-me do castelo, olhei-o por alguns minutos e tive medo. Voltei e continuei caminhando na rua, mas fui pensando se existiam mesmo fadas e anjos. Entrei, então, numa rua cheia de portas — engraçado como portas me chamam a atenção. Fiquei pensando em qual porta deveria entrar. Geralmente, sempre vou à do meio, gosto dos centros, é como se aquilo que estivesse no alto e no meio, dissesse que meu lugar é ali. Entrei.

A porta fez um pequeno barulho quando abri, aquele rangido que assusta e, quando dei por mim, encontrei um oásis. Como era lindo tudo aquilo, como havia flores, como as pessoas sorriam e todas olhavam-me com afeto! Aos poucos, fui me sentindo íntima daquele lugar, ele era meu, eu abri a porta certa, mas o castelo ainda me incomodava. Por que eu não entrei naquele castelo? Fiquei ali alguns instantes e, aos poucos, todos foram para casa, a árvore dormiu, o lago dormiu e a lua escondeu-se atrás da nuvem. Fiquei só e palavras começaram a vagar na minha mente, não sabia o que fazer, nem sabia se ali era meu lugar.

“Levanta e procura um novo caminho”, disse minha amiga mais uma vez. “Não fica aí, deitada, não, aproveita que ainda conhece a saída e vai.”

Eu fui.

Voltei pelo mesmo caminho e, ao passar pela porta, era dia, vi as outras portas que me esperavam, mas elas não me chamaram a atenção e voltei ao castelo. Entrei.

As paredes eram de marfim, havia uma mesa farta de frutas; na mesa, pratos, talheres e taças para beber. Percebi que alguém morava ali e fiquei apreensiva de não ser bem-vinda. Chamei. Não houve resposta. Engraçado! Ele estava preparado para receber alguém, mas era abandonado. Por que seu dono arrumou tudo tão delicadamente, se não estava ali para receber quem chegasse? Percorri toda a sala e os quadros olhavam-me, a sensação é que eles falavam entre si. Ainda não vi anjo, nem fada. Olhei as escadas e o desejo de subir ao outro andar tomou conta de meus pés, que caminharam em direção à escada. Sempre gostei de subir escadas, quando era criança costumava brincar nas escadas rolantes, nas lojas, o prazer não era tanto ver o que estava lá em cima, era subir, tanto que logo que subia, descia novamente e voltava a subir. Subi.

O quarto estava com a porta encostada, aos poucos empurrei e encontrei uma biblioteca cheia de livros, havia tantos livros, que parecia não ter fim. Não sabia o que escolher. Tomei em minhas mãos um livro grande e, quando olhei a capa, percebi que já o havia lido, repeti então para mim mesma que aquele livro já havia lido e caminhei no meio daquelas estantes cercadas de histórias, com heróis, com vilões, e foi aí que lembrei-me do que minha amiga falou, encontraria anjos e fadas. Os romances falam de anjos e fadas. Peguei um livro na mão, pequenino, delicado e abri-o. Sentei na poltrona aveludada, ao lado das prateleiras. Como era confortável, dava vontade de dormir, mas queria ler! Comecei a leitura e a história era tão singela. Começou com um choro de um bebê suave, a mãe apaixonada acalentava aquele bebê com gestos cândidos. A lua estava sorrindo quando ela nasceu e todos os familiares faziam festa e cantavam canções de bem-aventurança. A menina tinha olhos gentis e logo que alguns anos passavam, ela sentava-se numa poltrona confortável e lia histórias de anjos e fadas. Um dia, quando cresceu e sentia-se só, foi ao mar e olhou a lua, e chorava, e olhava a lua. A lua sempre sorria para ela e cantava uma canção de ninar, que dizia para ela sorrir. Ela levantava-se e seguia, mas ainda não sabia ao certo pra onde ir, caminhava em becos, ruas, avenidas e corria perigos, mas seguia procurando por suas portas. Às vezes, saía às ruas e trombava nas pessoas; às vezes, seu coração era machucado e ela olhava a lua e a lua sorria para ela, e ela continuava. Um dia, encontrou um castelo em que relutou entrar, mas voltou e percorreu o castelo em busca de anjos e fadas, encontrou um quarto com muitos livros, muitos livros, e a certa hora pegou um livro pequeno, e recostou-se numa poltrona aveludada, com o tom forte do rosa choque, começou a ler a história, apesar do sono, em certa página olhou para o livro e encontrou páginas em branco, nas outras encontrou apenas sinais que indicavam a necessidade da continuação, virou a página e encontrou .........................................................................

Virei a página e encontrei.................................................................

Nesse momento, parei e olhei para mim. Minha amiga olhou-me nos olhos e disse:

“Essa é sua história, escreva-a.”