segunda-feira, 27 de junho de 2011

HOJE




E quando tudo pareceu distante ela buscou respostas no coração. Talvez hoje ele estivesse bem e pudesse ajudá-la a resolver as questões que tanto a inquietava. Quando acordou e olhou-se no espelho, descobriu que ainda podia lutar por si, descobriu que á vida podia ser mais do que o que ela ultimamente vinha fazendo. Às vezes achamos ser auto-suficientes e achamos que podemos manobrar nossas vidas como caixinha de música, que você gira e quando acha que não pode mais, você decide parar, mas á vida nem sempre é assim, nem sempre podemos manobrar e escolher a hora de parar certos acontecimentos, a vida tem giros sim, que são dados por nós, mas também por aqueles que nos rodeiam e ai é que descobrimos que a vida é uma caixinha de surpresa, ora agradáveis, ora não.

Então, certo dia você se atrasa, perde a condução, se obriga a pegar um taxi e dentro do taxi encontra um pacote, um pacote fechado que te chama atenção, mas você não pode pegá-lo, não pode porque o motorista do taxi deve saber de quem é o pacote, não pode porque você não seria louca de sair correndo com aquele pacote embaixo do braço. Não. Você não seria louca. Mas e se fosse? Nessas horas é que o dia parece simples demais, e parece que tudo que sai do normal é errado. Mas, às vezes quando se olhamos no espelho, descobrimos que não somos tão confusos, nos apenas não nos conhecemos.

Hoje, Maria Rita resolveu conversar consigo, faz tempo que o taxi ta parado, e ela não sabe se entra. Faz tempo que ela não sabe aonde parou de viver. Porque viver não é apenas deixar a vida nos levar, viver é tomar nossas próprias decisões e caminhar colhendo o resultado das flores que crescem no jardim. Aquelas flores que pareciam nunca crescer. Hoje de manhã quando ela acordou, decidiu ligar para a pessoa que prometeu a si mesma nunca mais falar. Ligar porque era isso que ela queria. Ligar porque ela precisava. Ligar por si. Não teria medo de o telefone não ser atendido ou de como seria interpretado. Ela estaria feliz por ligar. Ter um número de quem tanto queremos é uma sensação boa, a sensação ruim é não poder discá-lo, é não poder ouvir a pessoa que queremos ouvir. È o receio do que vai vir do outro lado. O medo, sim o medo. O medo até da voz. O fantasma da voz. Maria Rita tinha medo da voz de André. A última vez que falaram discutiram muito, magoaram-se e ela jurou não mais procurá-lo. Hoje se olhando no espelho ela o vê. E seu rosto é tão suave, ele é o homem que ela ama. Será que poderia lutar por ele? Será que poderia tentar mai uma vez ouvi-lo? E se ele ainda a amasse? E se ele ainda escutasse a voz dela, nas suas noites de sonhos ocultos? E se ele também tivesse medo? Não. Homens não sentem medo! Pensou. Mas ao mesmo tempo, lembrou-se de quando ele precisou ir numa entrevista de emprego, e a ligou antes, dizendo está nervoso e com medo. Sim, ele sente medo e tem fragilidades como eu. Disse Maria Rita, enquanto arrumava-se para encontrá-lo. Sim, hoje irei procurá-lo, irei falar o que guardo todo esse tempo em dias que não consigo dormir. Irei contá-lo das noites que repeti seu nome em meus sonhos, e das vezes que olhando o mar pedi que as ondas que iam e vinham me explicassem meus anseios. Irei dizer que a lua todas as noites, mostra o seu rosto, que o meu sol é claro quando ele está perto, e que a vida se torna bem mais feliz quando escuto sua voz. Hoje, não irei fugir dos sentimentos, porque hoje quero abraçar a vida, beijar a chuva, dançar na praia, cantar na rua. Hoje quero amar, e amar não é apenas ouvir um sim. Amar é ter coragem de admitir o que sente, é lutar pelo que acreditamos, é ter força para sermos mais do que imaginamos ser. Hoje quando Andre despertar pela manhã, será eu que ele irá encontrar, serei eu a esperá-lo ali, no mesmo local, no mesmo lugar, mas não com os mesmos medos, nem angustias. Serei eu o esperando apenas para declamar todos os meus sentimentos embaraçados, e serei eu a falar que á vida é uma caixa de surpresa e que hoje, sou eu que surpreendi a vida. Eu que escolhi os caminhos que deveria trilhar e eu decidi seqüestrá-lo, da paz que ele encontrava-se, da paz que eu não sei ser boa ou má.

O ônibus está lotado, por um momento as pessoas parecem saber o que vou fazer. De repente, encontro os olhos de uma senhora que me olha intrigada. O que será que ela está pensando de mim? È estranho olhar para as pessoas, mas estranho ainda é quando tentamos adivinhar o que elas vão fazer ao descerem do ônibus. Eu teimo em fazer isso. Observo à roupa, o olhar, a maneira que se vestem, e provavelmente para onde vão. Essa senhora, por exemplo, tem uns 56 anos, usa calça e camiseta, cabelo acaju curto, uma bolsa de médio porte e toda hora observa o relógio. Provavelmente está indo para uma consulta médica. Mas, e se tivesse indo encontrar um amor. Louca que sou! Ninguém faz isso às sete e meia da manhã. Bem, eu estou fazendo. Um amor que nem ao menos sei se é meu amor, se ainda está solteiro, se ainda lembra-se de mim. Graças a Deus um lugar para sentar, o aperto do ônibus e meus pés nesse salto, já estavam me machucando, posso agora pensar melhor. O que devo dizer? Estou ansiosa demais. Minhas mãos parecem pedras de gelo. A vontade que dá, é tirar esse esmalte, eu não deveria ter pitando a unha de café. Meu Deus! Estou nervosa! Minhas pernas estão tremendo. Pronto o ponto. O fim da linha. Cheguei. É agora ou nunca.

Maria Rita desce. Pega o celular, na esperança de avisá-lo que está ali no mesmo terminal que se conheceram, gostaria de saber se ele ainda demorará muito para chegar ao ponto. Afinal, ele sempre pegava a condução de oito horas. Ela liga. E depois, alguns eternos segundos de ansiedade, escuta o recado da caixa postal. Senta, olha pra tudo ao redor e se maldiz de ter demorado tanto, se maldiz dele provavelmente ter mudado de número. Maldiz-se de não ter feito tudo isso antes. Mesmo assim não desiste, resolve esperá-lo.

São duas horas da tarde e Maria Rita pega a condução de volta pra casa. Hoje não encontrou Andre. Hoje perdeu Andre e provavelmente nunca mais irá encontrá-lo. O peito geme de dor, o coração cala-se. Os dias passam e ela volta a tudo que fazia e a mesma rotina de dias que pareciam ser bons, mas que faltava o que ela queria. Volta e tenta enganar-se, tenta esquecer tudo novamente. Lembra e esquece. Hoje não quer complicação, desde cedo se aborreceu no trabalho.  A enxaqueca resolveu lhe dizer um olá. E mais uma vez dorme o seu sono de sonhos não realizados, mas está satisfeita porque fez algo por si. Ela não deixou á vida apertar-lhe. Ela se surpreendeu e foi, seguiu os seus passos pra onde desejava seguir.

São 4 horas da madrugada, o telefone de Maria Rita toca. É André, que apenas hoje, viu o recado na caixa postal. Hoje, Maria Rita percebeu que valeu a pena ter tentando. Pois encontrou sua caixinha de surpresa.


Lene Dantas

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