domingo, 1 de setembro de 2013

MEU QUERIDO



Meu Querido

Meu coração palpita
Diante dos teus encantos
Tu és o meu querido
E por ti desfaleço de amor

Seus braços como rochas
Abrigam-me num abraço
Adormeço ternamente
Mas meu coração é desperto.

Em sonhos escuto tua voz
Que alimentam meus ouvidos com favo de mel
E me faz entontecer entre astros.

Desejo apaixonadamente sua sombra
Não morrerei – Continuarei vivendo.
Para por em seu coração um selo com o meu nome.

___ Lene Dantas.

sábado, 31 de agosto de 2013

CIRANDA


Na ciranda, escapulia suas mãos das mãos.
Escapulia quando mais desejava, quando mais precisava.
E tudo o que queria... E tudo o que quer é:
Alguém que segure sua mão.
Alguém que a ache alguém.
                                                 
Nem o tempo resolveu suas questões. Tinha desejos alheios a ela própria o tempo todo falava de si pra si, como se o mundo não fosse além dali, não fosse além do seu quintal com todas aquelas roupas mal penduradas, levadas de um lado para o outro com o vento. Ontem foi ao centro e sentiu-se apaixonada pela fivela da sandália que virou sua gula, por um instante sentiu-se escrava como se a sandália a comprasse, como se mais tarde a sandália que fosse calça-la, como se ela pudesse entre outras coisas ter o brilho daquela pequena fivela prateada que destacava mais ainda a beleza da sandália. “De repente meu pé podia caber ali, mas ali não cabe meu próprio mundo”.  Ali não cabem suas crises, nem seu amor que partiu e a partiu ao meio, no dia que decidiu deixá-la, sem nem ao menos avisar-lhe. Ali não cabiam seus dias de infância quando corria para alcançar os outros e sorria ao encontrá-los em momentos de farta felicidade. Mas na ciranda, na ciranda sempre se perdia nas mãos, quando todos ao mesmo tempo encontravam-se ,quando as mãos abraçavam-se. Mas ela não encontrava e nem se encontrava.  Estava o tempo todo e não estava.  Esperou o amor no caminho de volta para casa, mas esse amor não veio. Nunca o encontrou, nunca.  Por mais que buscasse e esperasse, não conseguia alcançá-lo e ainda não entendia em um piscar de olhos e outro porque ainda o via. Porque ainda o sentia, se ele não estava ali. Se ele nunca quis de fato estar ali.

A presença indesejada de suas emoções a deixava opaca escutava os gritos dos vizinhos que reclamavam da fumaça da fogueira que fizera próximo num terreno baldio. E aquela fumaça, bem que poderia vir até aqui realmente, poderia me incomodar um pouco. Não tenho tempo para lustrar meus móveis empoeirados e também eu não poderia apanhar a roupa do varal com sua chegada, dessa forma a roupa ficaria impregnada com o cheiro da fumaça, mesmo longe mesmo aos poucos ela iria me deixar um pouco dela. Mas eu também não caberia na fumaça, a fumaça não caberia em mim. Queria poder tocá-lo. Queria poder apenas uma vez tocá-lo. E assim sendo fumaça o faria ficar impregnado de mim e ainda que quisesse não perderia meu cheiro assim que eu virasse e eu estaria lá e estaria aqui. Sentada aqui, olhando as mesmas coisas, pensando mais uma vez, nos meus jarros quebrados. Deixo de ser flor.
E me torno mais uma vez a semente que precisar nascer, precisar empurrar-se ao mundo, num esforço continuo e detalhado, em dias e dias que segue num escuro abafado. Escutando, apenas escutando os sons que vem do alto, mas sem poder vê-los. Sentia o saciar de sua sede quando água vinha calmamente, mas não sentia a gota do orvalho, então entre um impulso e outro se esforçava para sair daquele lugar, para enxergar a luz da manhã, para dormir sobre as estrelas e assim tão pequena e tão frágil agigantava-se para sobreviver. E aos poucos num estado lento e continuo renascia, brotava de si para si. Mas e a ciranda?

“Como se minhas mãos não alcançassem, nunca completei a ciranda. Nunca fiz a volta. Como pedras desenhadas em jardins, eram meus companheiros da ciranda. Não tinham mãos, não tinham laços, não tinham.”

Eu não sou tão fria. Sempre abri as mãos. No fundo não queria guerra.  Não tenho armas, só tenho sentimentos. E pra que armas eu só quero amor. ... Mas, o que mais ainda poderia ser?
O que mais ainda? Depois de tudo, do tudo que eu entreguei.
Não quero perder-me em sentimentos, mas não consigo chegar ao fim.
Não consigo ainda enxergar o fim. Mas o final será novamente o começo.


___ Lene Dantas



Que areia escorra das mãos e misture-se as águas.
Que o coração seja ferido , mas não morto.
Que meu amor seja seu, não por um momento,
Mas por todo o tempo em que minha alma puder amar.

___ Lene Dantas

sexta-feira, 14 de junho de 2013

PASSOS




PASSOS

Assim delicado tão delicado como uma bolha, como a estrutura da bolha de sabão. E num piscar de olhos. Pluft! Tudo poderia acabar.  E assim as pontas trocavam-se, uma ponta na outra, a outra na ponta e ninguém mais poderia dizer, como começou e qual o fim. E o fim? Será que houve o fim? Mas, o que seria o fim além do recomeço? Era coragem. Coragem que faltava. Tinha mesmo que seguir a rua sem medo de dobrar na esquina e também não mais poderia ficar presa em círculos. Encontrar-se. Sim encontrada. Encontrando a vida, a vida que deveria ter encontrado á muito, muito tempo.

Parou um pouco e soltou um suspiro. Um suspiro cansado de muitos dias. A febre voltara. Foi ao quarto e na terceira gaveta da cômoda pegou o antitérmico. Olhava seus guardados, tudo estava em plena ordem. A cabeça estava oca e não sabia o porquê de não pensar em nada lógico. Sentou-se na cama nostálgica e lembrou-se de quando sorria, sorria várias vezes, sorria um riso farto e bom. Como aqueles risos que se dá no jardim da infância. Um riso dos dias inocentes, um riso que causava dor no idoso que passava e reclamava do barulho. O barulho que o trazia lembranças de um tempo onde sua vida também era tão doce e tão casta e tão quente e risonha como o riso daquelas crianças que brincavam de fazer bolas de sabão.

A mãe sempre fora ríspida e o pai conformado com o conformismo da vida que escolheu. Tudo muito projetado naquela casa de três pessoas, onde uma olhava a outra sempre com medo do que estavam a pensar. Estudava compulsivamente para livrar-se dos seus anseios e ali nas equações matemáticas flutuava e viajava em respostas que só ali era capaz de encontrar. Ali entre seus cálculos exatos, imaginava sua vida como uma equação e tudo seria tão mais fácil, mais rápido e talvez menos trágico. Lembrava de Visconde quando juntos caminhavam do sitio até a escola, ele andava com passos rápidos, decido e feliz. Todos gostavam dele até o vento brincava com seu cabelo fino e claro, até o vento gostava dele. Mas ela sempre com medo um medo mudo, um medo do mundo e do medo.

“Meus pés estão cansados. Ando, ando e nunca saio daqui. Eu preciso respirar aliviada”. E lembrava-se do gole.

Um gole que deixou sede.

O jeito era beber mais um pouco d'água.

“Vambora!” Gritou Visconde.

“Mais onde? Onde?” Sentou-se emburrada no cantinho da calçada e começou a olhar seus pés desnudos. Cobriu um, descobrindo o outro, começando a brigar com eles, entre um vai e vem de cobrir e descobrir.

Vambora! Acorda! Gritou Visconde zangado.

“Eu queria ter um pé lindo. Um pé como o da Flaviane. Já viu o pé dela?”

“Eu não fico olhando pro pé de ninguém. Só você que não tem o que fazer.”

Era isso e a lembrança do rosto tão belo que mesmo rude ainda encantava, nunca teve tanta coragem como ele e sentindo-se intrusa sempre o provocava, quase sempre o provocava.

Agora tinha que reencontrá-lo, depois de tanto tempo e sabia que logo não seriam três mais seriam quatro naquela mesa de oito lugares guardados para as visitas que nunca vinham e também nunca eram convidadas, uma casa decorada para fotos. A última foto foi no dia do aniversário do pai. O casal sentou-se no sofá da sala um em cada canto, como se tivessem medo de tocar-se. Com um gesto pediu que se aproximassem ele calmamente empurrou o corpo magro para mais perto, a mãe fazia-se de dura e nem se moveu. Ficou ali como se todo peso do mundo estivesse sobre si, sem mover um milímetro do seu corpo, ameaçou algumas vezes com os olhos olhar o companheiro, mas logo mudara o olhar, ele esboçou um sorriso e ali estava a foto. A foto onde tinha mais cor na parede da sala do que no rosto dos pais. Como se tudo tivesse deixado de ser, desde o dia que vieram pra cidade e largaram o sítio. Se ao menos Visconde estivesse lá teria os feito sorrir. Mas agora ele chega de viagem e tudo pode ficar mais tranqüilo, mais leve. E o melhor, ele chega e conta como tudo está por lá, agora ele pode nos contar sobre os vizinhos e parentes. Quem sabe traz vida pra essa casa escura. E quem sabe me fale de Antônio. Fale como ele ficou depois de minha partida. Quem sabe diga que ele pensa em mim. Quem sabe eu devo voltar e encontrá-lo e posso ter novamente a minha vida que foi interrompida. Ou quem sabe ele está ocupado demais para pensar em mim. Visconde e seu sorriso irão dizer-me, sei que irá contar-me e assim como quando eu era uma menina me guiará com seus pensamentos astutos e irei poder escolher o caminho dos meus passos.

Tem coisas que não vão embora, Tem muita coisa que fica e vai ficando e só adormece com o tempo e mesmo assim na teima da lembrança elas voltam em sonhos. Você vai descobrindo o gosto aos poucos, como quem saboreia uma fruta que não conhecia. Você admira colhe e se enche de encanto pelo aroma, depois aos poucos vai furtando o gosto dela. Assim são as coisas boas, elas um dia acabam. Mas como o gosto da fruta boa, você não esquece, você sente o aroma que ficou nas mãos e o gosto que ficou na boca. Você sente o gosto bom da saudade.

Eram apenas alguns dias, mas o tempo parecia andar para trás, a semana passava espantada como se soubesse dos seus passos incertos. Era cedo, mas o coração caducava em caminhos tortos. Uma expressão incompreensível. Um susto. A vida em silêncio, lenta. Agora causava uma inquietude, o riso quase saltava naquela agonia de nada fazer. Esperando um pouco do que não tem e dividindo um pouco do que teme. Ainda se tivesse na alma o que não tem no rosto. O rosto marcado com pontas de faca de um tempo que ela não lembra, pois dormia. Poderia ter pincelado o coração com cores, mas nem mesmo isso pôde fazer. Um coração feito um oco e um rosto de um doente. Foi quando se apercebeu do mundo, um mundo mudo, mudo de medo , medo do escuro, medo do claro, medo do nada e de tudo.

A ultima navalha afiada encontrou o rosto delicado, deu febre, deu susto no susto, sujara todas as mãos de sangue. Pobre rebelde, não percebeu que estava numa armadilha. Deformada correu como louca, correu com o gosto do sangue nos lábios. Tinha degraus, muitos degraus ainda e era um encontro que nunca encontrava, era uma missão descabida e uma mensagem com palavras tortas.

Acorda aflita e corre ao espelho, o rosto é o mesmo, não tem corte, mas dói. Chora.
Apressa os passos é dia de encontrar Visconde.
                                                       
Lene Dantas.