quarta-feira, 26 de setembro de 2012

RO-SA-NA ( O leite ou o vinho?)


Eu  Ao invés de uma, sou duas. Não duas. Digo melhor, seria muitas. Agora, estou sentada a mesa, tenho leite e vinho diante de mim. O que deverei beber? Se eu beber o leite, fortaleço meus ossos, antes que eles decomponham-se aqui e como cinzas fúteis e velozes, misturem-se a todo invisível que permeia esse ar, esse ar tão meu e tão de outros. Pergunto-me: Como serei apenas uma, se respiro os outros? Respiro minha vizinha que me observa todas as tardes , quando me dirijo calmamente à área de estar, para saciar a sede de minhas rosas. Respiro os olhos inquietos do meu chefe, que moribundo, hipocritamente pergunta-me se está tudo bem, sem nem ao menos esperar, que eu, entre um segundo e outro, abra meus lábios e insinue um simples sorriso corado, e o fale, o que entala meu paladar, toda vez que tento engolir seu sorriso ironizado. Respiro a orquestra de sussurros entre olhos, ao entrar cedo pela manhã num ônibus lotado, onde procurando calmamente um espaço, único e meu, eu fique ali, contida, quieta, encostando-se a todos e ao mesmo tempo, sozinha, num particular entre sonhos e anseios, entre conversas que ainda não tive tempo de terminar comigo mesma, num espaço de tempo em que reflito, enquanto vejo as mesmas imagens diárias passar sobre meus olhos. Não olho pra ninguém e ao mesmo tempo vejo todos, não conheço ninguém e ao mesmo tempo são tão íntimos e trazem o mesmo cheiro do dia anterior, trazem assim como eu, a mesma expectativa consciente que o tempo passe rápido e que logo o dia termine, para que em regresso possa desfazer-se de toda roupa e sentir seus pés livres de seus sapatos. Adoro sapatos, também respiro meus sapatos, semana passada enamorei-me de um scarpin cor de vinho, olhei-o e ainda me propus a tocá-los, na bolsa olhava meu cartão de crédito, eu sábia não poder possuí-lo no momento. Mas, meus pés nervosos queriam calçá-los. Senti-me então como uma adolescente, que encontra seu primeiro amor e anseia pelo gosto do primeiro beijo, aflita teme não saber os movimentos precisos quando se encontra um lábio em outro, ansiosa sente o gosto na boca do beijo desejado, mas, com a mesma voracidade de possuí-lo encontra-se no receio de executá-lo e corre para longe do alvo de desejo, ou apenas o maldiz com uma expressão desdenhosa, ansiando na realidade o bem querer. Eu corri do sapato. Se lembrei de José do Egito, que correu para não trair a confiança de seu Amo e nem de seu Deus. Eu corri, para não trair a mim e nem ao meu bolso. Mas, ainda no ônibus penso, que embora meus pés calcem um conforto que escolhi (embora não seja o scarpin vinho) não vejo à hora de poder livra-me deles, do meu sapato preto de verniz, com uma simples e delicada fivela prateada, do lado esquerdo, não vejo a hora de em casa, longe dos olhos curiosos de minhas colegas, escolhidas ironicamente pelo mesmo chefe que me faz ter surtos nervosos, posso enfim, olhar meus pés, poupá-los e deixá-los livres. Posso também, olhar meu reflexo no espelho, quando finjo não perceber que a pele corada ,mostra os sinais de tudo o que me rodeia á tantos anos. E o que eu fui há tantos anos? Senão uma criança que ansiava o saber e entre aromas e sabores, respirava o universo de todos que, estavam ao meu redor. Respiro meu casamento, em um estado de inércia, em que os cheiros que me agradavam ha um tempo, agora se alastram como fungos ociosos, e se escondem acomodadamente num ambiente de conforto. Como? Como não ser mais de uma, se todos os dias, confundo-me entre o que sou e o que quero ser?

Se bebo o vinho, inebrio minha alma, a faço cantar e sorrir de coisas que muitas vezes sutilmente escondo. Inebrio minha alma, antes que ela congele, e ali, sem vida não possa alcançar os céus, nos momentos que em sonhos encontro meus tesouros. Saciar-se desse vinho, ainda que me tire de um estado sóbrio, pode dar-me coragem para enfrentar meus medos, antes que eles me tomem, antes que eles me façam permanecer em círculos obsessivos e doentios. A mesa convida-me e algo me diz que devo provar do leite, mas também do vinho. Algo diz que devo sim ser uma ou mais de uma, ou apenas me perder em meus caminhos descalçados.

Hoje na lanchonete, percebi um homem olhando-me, mas ele não olhava apenas pra mim e sim para nós, todas nós. Éramos quatro e ele não olhava-nos com os olhos, ele olhava-nos com os ouvidos. Discreto, quieto, perdia-se em seu alimento e achava-se no que falávamos. Talvez tentasse entender o que pensamos, já que nós mulheres, temos tanta facilidade de falar de nossas dores, de repente deixaríamos claro em nossos segredos forjados o que tantos tentam entender. Ele respirava-nos com tamanha vontade como se a vontade de o saber fosse maior do que saciar sua fome. Mas nós mulheres sabemos. Sabemos como ludibriamos a nós mesmas e também aos outros, como dançamos com passos quietos em situações avessas. No fundo o que falamos em uma mesa em quatro, nunca são fatos perfeitamente contados, nenhuma de nós confiamos plenamente na outra e sempre nos resguardamos do que dizemos. Talvez á minha amiga; Sim, aquela que eu tanto admiro, eu possa contar um pouco mais, um pouco mais do que ensaiei.  E ainda assim, que fique um pouco em mim que nem eu mesma sei se devo dizer-me, daqueles dias em que tomei atitudes que ao me inebriar de vinho ou saciar-me de leite, deixei de ser o que achava ser. Coisas que Deus sabe e só ele sabe, nos passos que percorri o caminho que meus pés escolheram pisar e por onde tropecei, nos dias quietos, nos dias tristes, nos dias frios e também nos dias eufóricos e quentes.

 O homem ansioso, talvez quisesse apenas saber como nós em quatro, podíamos em alguns minutos falar milhares de dezenas de palavras, onde a maioria é deixada e despercebida, trocadas mais tarde por um simples, até logo. Trocadas depois por particulares entres duplas que se desfizeram ou entre o leito conjugal de cada uma e seu amante. Ele atento, talvez riu no seu olhar de escrutinador, talvez comentou com alguém, talvez se encantou por nós mulheres mais uma vez, ou talvez percebeu o quanto somos parecidas.  Nos enfileiramo-nos depois, deixando o ambiente quieto, silencioso, deixando apenas a vaga lembrança de nossos risos e confissões permitidas. Onde entre uma conversa e outra olhávamos uma para outra e nos enxergávamos, um pouco as mãos, ou cabelos, ou até os sapatos de verniz. Percebo que ele também compactou conosco e mais tarde vai respirar um pouco do que viu ali. Gostei dele! Acho que o seu jeito tranqüilo fez cócegas em meu coração eufórico. No final então, eu o respirei, e isso me deixa com uma impressão esquisita, sobre qual será a probabilidade de vê-lo mais uma vez. Dessa vez, quem sabe eu calce meus sapatos novos! Sim porque vou à loja e comprarei o scarpin cor de vinho e assim, ele pode até, ao invés de nos enxergar, enxergar meus sapatos. Embora homens não enxerguem sapatos. Gosto dos meus pés e ele pode gostar também. Ele pode até enxergar meu nome na tatuagem que fiz no pé esquerdo e quem sabe, entre uma mordida e outra do pão de queijo que devorava num ato involuntário de desejo, soletrar:      RO-SA-NA. Fazendo com que eu perceba que , entre todas , foi eu que o chamei atenção. 

Devo ter provado o vinho e agora estou aqui bêbada, falando bobagens que só conto a mim. Sim é dessas bobagens que falo que respiramos e inalamos e guardamos conosco. Essas ficam assim, deixadas em lugares ocultos aos outros, mas de fácil acesso á nós.  Preciso levantar-se agora, não sei bem que horas são, mas é tarde e agora devo conversar com meus lençóis.

Deixou a mesa, sem provar do leite e do vinho, deixou a mesa lentamente com um sorriso enfeitiçado no rosto, como se na cama, fosse deparar-se com o homem que a enxergou com os ouvidos.

Lene Dantas

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O LABRADOR




“As paredes ficaram cinzas, a cama transbordou do vazio, as delícias murcharam e até o labrador emudeceu de tristeza.


Ele emudeceu, paralisou ou talvez esteja velho, por mais que eu faça e por mais que algumas vezes até consiga ver o brilho do seu olho radiante, logo tropeça em seus segredos e cabisbaixo afasta-se. Tenho pensado que isso acontece desde que ela... Não quero falar dela, foi-se, partiu e não quis deixar rastros, porém, não posso culpá-la eu sempre soube, eu sempre soube!



Mas o labrador não sabia, e em nenhum instante ele foi informado que aquela que ele instintivamente, achava ser mãe, partiria. O que ele sentia era o cheiro dela rodeando toda casa e nos olhos a tristeza de não ver seu semblante, quando chegava todas as tardes e sorrindo o acariciava. Às vezes iludido pelo barulho de alguns passos que viam nas calçadas corria ao portão, feliz, em saltos na esperança de encontrá-la, mas não era nada, não era ela e aqueles passos, aquela sombra que se aproximava nunca era dela. Dele ainda sentia o cheiro, que agora trazia um semblante pálido misturado com o mofo do coração que guardou. E tudo aconteceu naquela noite, àquela noite que como se por um aviso dos céus, ficou tudo repentinamente escuro e o que ele escutava era o sussurro do coração de Isabella. Brincou toda tarde e a mesma fez questão de dar-lhe banho, quando o abraço demorou-se seu latido ruiu repentinamente como se estivesse recebendo a solidão, não sentiu o afeto, sentiu o medo, sentiu a angustia no olho umedecido dela. Imediatamente tentou animá-la e deu voltas e voltas ao redor de todo jardim, pulava ao seu encontro e sorria ao latir. Em vão, em vão. Isabella ,entrou na casa e logo depois partiu , partiu e nem ao menos olhara pra trás, nem ao menos tentou levá-lo. E tudo o que viu foi seu vulto sumir rua abaixo.



Longe, Isabella pensava! Pensava na casa, pensava nas flores, pensava no labrador e pensava em Fernando. Não sabia se fazia o certo, mas sabia que era preciso está certa do erro e para isso, precisava retornar e naquele momento retornar era deixar tudo o que alegrava seus dias, tudo o que sua alma amava. Lembrou-se do caderno de anotações que esquecera na cabeceira da cama, não podia, não podia deixá-lo, arrumou-se para voltar, mas conteve-se e seguiu. Nas ruas tudo estava grande demais, as pessoas passavam rápido demais e o som era mudo. Cada passo era o seu passado voltando, o passado que não foi devidamente enterrado e que agora precisava encará-lo novamente.

Talvez Fernando não me perdoe, talvez nunca mais eu escute o som do seu riso, talvez... O labrador o fará companhia sei o quanto é apegado, eu não podia trazê-lo estaria tirando mais que um pedaço de Fernando, os olhos dele pareciam falar comigo quando o abracei, ele é um cão, mas sinto que ele me entende, espero que não sofra com minha falta. E Fernando? O que sentirá quando encontrar o escrito na geladeira, preso com um imã, como se fosse a lista das compras do supermercado ou a conta paga da luz? Meu Deus o que eu fiz? Mas, talvez não o deixe tão triste e ler possa ser mais fácil que ouvir.  Talvez entenda o que eu na minha fraqueza não pude falá-lo, talvez apenas rasgue meus versos e esqueça-se de mim.


Na casa as paredes escorriam a cor dos dias felizes. O labrador vez por outra se desassossegava e em uivos reclamava a inércia dos passos de Fernando que não a trazia de volta, não a trazia. Porém, quando sentia as mãos de Fernando o afagando, diminuía sua dor é como se os dois agora tivessem um contrato particular de amparar-se. Pela manhã recebia seu alimento, o dono era quieto e o sorriso era raro, ainda sentia o cheiro de Isabella e vez por outra procurava o portão no mesmo horário que costumava recebê-la, o tempo foi esvaindo-se e a falta dela o fez emudecer.



Fernando também se calou e começou a andar em outros lugares, ler novos livros e olhar novos olhares, seria um novo caminho, um caminho longe do tempo que se foi. Ainda assim, um dia cercado por seus fantasmas a encontrou em suas lembranças e em um email, escreveu:


“Por que foi embora?”

Cedo, percorreu toda casa mais uma vez, em busca do que ainda ficou dela e se livrou de todos os pertences, menos do caderno de anotações, esse ele guardou. Pôs numa caixa longe de suas vistas e o escondendo entre tantos outros documentos, fantasiava não saber possuí-lo, como se não vê-lo fosse suficiente para esquecê-lo. Então omitiu o saber possuir. E em busca de novos aromas e jardins, decorou seu coração com um novo sonho. Sim Fernando seguiu seu caminho com um novo amor. Entretanto o labrador tão intimo de tudo aquilo, mais uma vez não foi avisado, tudo ali era tão seu e ao mesmo tempo tão longe de ser seu que a única coisa que percebeu, foi as paredes sendo pintadas e a casa com um novo aroma. O cheiro era bom, não era o de Isabella, mas era bom, as flores começaram a abrir-se novamente e até escutava o ruído do sorriso de Fernando. Temeroso tentou evitar a nova cúmplice dos dias dele e Fernando, mas aos poucos seu latido voltou e os vultos que se aproximavam do portão todas as tardes já não o incomodavam. Era vida, sim a vida que voltava aquela casa.

Isabella se lembrava de seus afetos, ainda guardava em seu celular a foto de Fernando e do labrador, aquela imagem era o que tinha deles, era o que pode levar deles. Consultando seus emails, leu a frase que Fernando a enviou. E tudo aquilo que a atormentava e toda saudade contida a encontrou como um terremoto de sensações, lembrou-se do bilhete deixado na geladeira, lembrou do riso de Fernando e das brincadeiras com o cão. Decidida o escreveu, e foi descrevendo calmamente como sua vida mudara, até que... largou todo escrito e resolveu voltar e a vontade de chegar era tanta que não conseguia conter-se, no caminho imagina a casa , imaginava o jardim e imagina o pulo que Sansão daria em si. “Sim ele é tão agitado, ele é tão feliz!”

As ruas pareciam longas demais e cada passo a deixava sentir um frio na espinha. Não via a hora de poder tocar Fernando e falar, falar sobre tudo o que passara e tudo o que sentira e principalmente pedi-lo perdão. Aos poucos se aproximou percebeu que as paredes estavam coradas, o jardim florido e no portão nada encontrou, nada encontrou além do labrador ao longe, quieto a olhando, com uma tamanha indiferença que não a tratou nem como se fosse uma estranha, que irritando-se com sua presença, latiria enfurecido para amedrontá-la. Não, ele não se mexeu, nem ao menos o rabo balançou e quando pensou em chamá-lo ouviu vozes que não queria ouvir, e risos que não queria escutar. Afastou-se devagar e viu seu mundo, um mundo tão seu destruir-se. Viu que não cabia mais naquele mundo, nem naquela casa, nem no coração de Fernando e até mesmo não cabia mais na alegria do labrador. O labrador que tão indiferente a olhou, o labrador que nem ao menos se levantou. Escreveu rapidamente um bilhete, jogou na caixa de correspondência e partiu.

Aos poucos o labrador levantou-se e quando ela estava a uma certa distância sentiu-se seguro de aproximar-se do portão, não correu, não latiu, não abanou o rabo. Mas chorou em silêncio como ela fizera antes de abandoná-lo com os olhos úmidos. Percebeu que não era apenas mais um vulto que encontrava todas as tardes quando correndo a esperava no portão. Era ela, aquela que o pegou no colo ainda um filhote e que o acolheu. Mas, apesar da emoção de vê-la a deixou ir, não por não amá-la, mas por temer um novo abandono. O cheiro dela ficou ali nas grades daquele portão onde ele deitou-se e onde mirava a caixa de correspondência, onde sabia está um pouco dela um pouco do que ela foi buscar e quem sabe a explicação que nunca recebera. Ansioso pra saber o que estaria ali, começou a correr de um lado para o outro e a bater na porta, perturbando o descanso de seu dono, latia e corria pedindo sua presença, apenas ele e seus olhos poderiam lhe explicar o que Isabella escreveu naquele bilhete.

Amanheceu e quando Fernando saiu Sansão já estava ali pronto, como se estivesse incumbido de uma grande missão, próximo a caixa de correspondência latia para seu dono. Que brincava com ele e percebia seu estado de euforia. Fernando calmamente separou as correspondências. Até nas mãos receber o bilhete de Isabella. Sentou-se e leu:

“Nunca fui embora! A distância não deixa longe o que está dentro! O que deixa é saudades e quando ela me visitou, voltei! Mas, As paredes estavam coloridas, a cama tinha um novo aroma e até o labrador me negou o sorriso! Desolada, percebi que já não morava em seu olhar!

Lene Dantas

terça-feira, 11 de setembro de 2012

OS OVOS QUEBRARAM


“Os ovos quebraram”


Louca, louca repetia. Logo hoje que precisava de três ovos para fazer o bolo de aniversário de seu marido Afonso. Como pode a Matilde deixar uma caixa inteira de ovos cair, mas que será que ela pensa enquanto perde-se naquela cozinha? Mês passado no casamento da Juliana foi o brigadeiro que ela espatifou ao chão, agora os ovos e eu como sempre tenho que resolver tudo!E minha roupa? Será que ela passou? Acho que mandarei Matilde embora, ela já não faz nada direito, deve ser aquele novo namorado que ta virando de jeito à cabeça dela. Arruma  a bolsa para que fique com o zíper pra frente, puxa um pouco a camisa branca e endireita o óculos na cabeça. Essa rua é perigosa. Nunca fui assaltada porque estou sempre atenta!

Mas, ultimamente perde-se em pensamentos tolos e enquanto aguarda o ônibus pensa em Matilde e nos ovos quebrados. Suspira , suspira como se os outros ao redor soubesse o que lhe incomoda, como se suspirando partilhasse sua dor, observa a mulher do seu lado, parece tão tranqüila , tão naturalmente simples com um chinelo de dedo e uma sacola de supermercado na mão, observa a mulher que quando sente-se examinada a encara com um sorriso no rosto que seria tão naturalmente  despercebido se não fosse pelo batom vermelho  que borra seus dentes ,tão vermelho quanto a saia que conversa com a blusa estampada.

“Ela deve ter uns 55 anos, não deve ter uns 50 talvez, um pouco gordinha, cabelo curto e parece tão calma. Eu não sairia com uma camisa assim, não decididamente não.”

Subiu apressadamente no ônibus sentou-se e fitou a mulher mais uma vez e sentiu que sua tranqüilidade a causava certo desconforto! Enquanto observava as ruas da cidade que silenciosas gritavam aos seus ouvidos, imaginava o que diria a Matilde, afinal, por ela, teve que passar no supermercado e enfrentar aquela fila insuportável, logo hoje que foi sem carro. “Ainda bem que consegui uma cadeira para sentar!” Apertava a bolsa contra o colo, cuidava com a sacola dos ovos e rapidamente olhava ao redor observando os rostos que estariam a lhe observar. O homem que sentou do lado cheira a coentro, não gosto de coentro, lembro minha infância que minha mãe fazia um caldo de coentro, margarina e carne moída, é não gostava daquele caldo e nem do cheiro do coentro “Olhando a janela observou a rua que parecia cinza e muda, passava em seus olhos e ela não via, não via a vida que girava lá fora, estava presa, presa em seus preconceitos banais, o vento que soprava da janela mexia seus cabelos, o vento brincava o tempo todo com ela, mas ela não percebia, ela irritava-se. Resolveu ligar para Matilde não iria esperar até chegar a casa para dar-lhe uma boa bronca. Pronto, agora quem sabe ela deixa tudo bem adiantado. Afinal minha sogra estará lá e tudo deve está perfeito, com gente como ela que presta atenção a detalhes não se pode errar. O homem com cheiro de coentro levanta e claro não poderia sair sem esbarrar em mim, mas um pouco e eu fico como um coentro aqui sentado, um coentro branco, talvez um coentro sem cheiro. Uma menina senta-se e me faz lembrar meus 10 anos, como ela parece comigo, a pele branca, a franja que cai sobre os olhos, com o cabelo assim da cor de jabuticaba, eu tinha um vestido bem parecido também. De repente sinto um cheiro de segredo, como se meu mundo estivesse ali do meu lado, nos olhos brejeiros dessa menina. Lembrei da minha mãe, o que me entristece, pois até hoje, não sei como realmente foram os seus dias, vivíamos lado a lado, mas só o necessário era falado, com uma troca de saudações. Ainda hoje escuto o que ela falava quando meu pai dizia pra economizar, pois éramos pobres,” Não somos pobres, somos mais ou menos”. È acho que eu também não sou pobre, sou mais ou menos, afinal tenho onde morar o que comer, tenho alguém pra ajudar-me em casa, tenho um filho que eu... Pensar no filho a fez diminuir o ritmo e de repente nadou em pensamentos tortuosos. Quanto tempo não falo com meu filho? Quanto tempo não saiu para passear com ele, ele tem 16 anos eu deveria ser mais presente, será que estou deixando a minha casa ficar grande demais, tão grande que eu não posso encontrá-lo ? E Afonso, será que tenho sido uma boa esposa para ele?  Ah! Claro que sim, afinal eu trabalho e o ajudo. Mas e a troca? Acho que tenho sido uma esposa mais ou menos e talvez uma mãe mais ou menos, uma pessoa mais ou menos. Foi ai que pisou em chão selvagem.

Ainda tem duas quadras até chegar a casa e foi examinando a expressão dos que passavam e a rua começou a gritar com ela e a mostrar suas cores. Teve vontade de perguntar aos que encontravam o que pensavam dela. Contida guardou-se em silêncio. Em casa senta e observa suas velhas paredes, estão secas e até a cozinha está faminta, exceto por Matilde, que dança com as mãos enquanto cochicha com a louça por lavar.

“Oi Dona Zilda, cadê os ovos?”

Num sussurro melancólico diz:

“Os ovos quebraram”


Lene Dantas