sábado, 26 de março de 2011

AQUI



Aqui o dia ainda passa devagar. Hoje, o passarinho que pousa diariamente na minha janela me olhou nos olhos, não entendi bem o motivo do seu interesse. “De repente, virei uma flor”, pensei, e abri as cortinas que eram erguidas a toda hora pelo vento que não parava de dançar. Encostei-me na janela e, lá fora, as folhas falavam uma com as outras, as borboletas cochichavam algo que eu ainda não podia ouvir e os raios do sol aumentavam e clareavam aos poucos as calçadas adormecidas e congeladas pela madrugada. Tudo parecia quieto, nada movia-se, nada falava comigo, nem eu mesma ultimamente falava comigo. Fui até o quarto e ele era lilás, os travesseiros traziam estampas que combinavam com as paredes. Por que tudo tem que combinar? Não sei, mas eu gostava que combinassem. Nesta manhã, estou meio perdida, me sentindo só, exceto pelo passarinho que olhou para mim; eu deveria ter perguntado o que ele queria. Será que me responderia?  Ele voou para tão longe, percorreu tantos lugares nesse céu, conheceu tantos jardins. Por que veio parar na minha janela? Os olhos eram altivos, mas nem sequer me deixou tocá-lo; voou seu voo fugaz. Aqui, a tarde ainda parece distante e o horizonte está ficando vermelho, será que o céu está se apaixonando ou é o sol sangrando por falta da lua? Meus vestidos precisam ser arrumados, mas ainda não fui até o armário, tenho medo da confusão do meu guarda-roupa, ainda não sei organizar os tons. Lá dentro, tem tantas histórias, os sapatos falam entre si sobre as calçadas que pisaram e eu não quero ouvir. Acho melhor deixar as portas fechadas. Aqui, a noite vem chegando e a lua já está me olhando, pedindo explicação; fecho as portas, não quero vê-la, vou calar, assim como a noite cala nos momentos de angústias, nos momentos em que grito aos céus pedindo ajuda, e que fingem não escutar. Não tenho respostas para nada ultimamente, não sei bem onde estou, e aqui faz frio. Preciso me olhar no espelho,  talvez eu enxergue o que o passarinho enxergou pela manhã e descubra o que  está em meus olhos ao amanhecer.  Será que eles contam meus segredos? Será que o passarinho tinha a resposta? Aqui estou eu, diante do espelho: Não sou bela, não sou fera, não sou menina, nem mulher. Aqui estou e lembro-me que já escrevi sobre o amor, fiz muitas cartas de amor. Fui fútil? Ou futilidade enfrentam aqueles que não amam?  Sim, só os ridículos não amam. Afinal, quantas verdades existem numa carta de amor? Quantas vezes nos fazem rir e chorar? Aqui em mim, vejo a luta cravada para seguir, pode ser que o tempo não seja favorável, que o tudo seja improvável, mas o que seria de mim se apenas ficasse parada? Parada aqui? Não teria a chance de saber se ganhei ou perdi, não saberia se a luta foi em vão, se o preço pago foi alto, se valeu a pena riscar o chão. Diante do espelho, olho meus olhos, que perguntam a mim o que ainda estou fazendo aqui. Aqui, a madrugada chega e traz suas certezas e mistérios, e no meu Eu sei que ainda travarei muitas guerras, e quantas forem necessárias para me encontrar, e sei que ainda verei uma rosa brotar mesmo na frieza deste chão. E um dia vou saber o que viu o passarinho quando olhou intensamente nos meus olhos. E escreverei cartas de amor, pois aqui, sei que o melhor da vida é amar.

ℓ૯ฑฑ૯ Datas 

 


terça-feira, 15 de março de 2011

A CARTA


Secava a boca com gotas pálidas de palavras atravessadas. Não, ninguém sabia explicar porque Alice estava aflita. Ela apenas calava-se em seu mundo inculto. Na tarde passada, foi até a banca de jornal, olhou rapidamente as manchetes que estavam expostas na capas das revistas, seu rosto era imóvel e, apesar da simpatia do jornaleiro, não motivou-se a sorrir. Seu caráter estava apático e seus olhos alegres agora eram umedecidos com o desalento. Há alguns dias, recebera uma carta, abriu aflita a correspondência, depois subiu lentamente os degraus como se levasse consigo o peso do que lera.

Pessoas passavam, carros barulhentos buzinavam, amigos casavam-se,outros separavam-se, riam, choravam, mas no seu apartamento, no quarto andar, na rua Marechal Deodoro, o vento passava uivando. O abandono tomava conta da cozinha, já não ligava com a louça, que esperava pelo banho da limpeza. As fronhas, cobertores, travesseiros, contavam uns aos outros segredos de madrugadas, onde Alice retraía os soluços. Enlinhava-se em memórias, sem a ajuda de notas ou livros, onde a melancolia acompanhava-a, saboreando sua solidão. Da janela, via a noite chegar, as estrelas ainda tentavam fazer-lhe companhia, mas quando desciam e falavam com ela, ela virava-se. Gostava da lua e, às vezes, em dias de veneta, confessava suas dores em olhares trocados, onde uma conhecia o mistério da outra. Seu quarto virara um breu pela manhã, pela tarde, pela noite. Sempre um breu. Apenas um papel branco fazia contraste com aquela escuridão. A carta em cima da cabeceira. A carta que, às vezes, ia às mãos de Alice, ia e voltava. Palavras giravam como cantiga de criança em sua mente e, por mais que ela abrisse e fechasse os olhos, elas sempre estavam ali. Cantarolavam cada vez mais alto em seus ouvidos. O peito gemia e a embriaguez da loucura definhava-a aos poucos. Hoje, não cria expectativas, não quer ouvir o barulho de risos, de falas, não quer ouvir o barulho dos carros, quer apenas o sossego do não ser, do não saber, do não querer. Levanta-se em passos vacilantes, pega uma folha de papel e, com as mãos trêmulas, escreve, diante do impacto das palavras que giram em sua mente. Escreve para a lua, sua cúmplice das noites desbotadas; enquanto escreve, olha-a e vê que ela está no seu estado minguante, a fase que sucede à lua cheia, sendo assim, ela pode escrevê-la à vontade, pois, certamente, saberá do seu lamento e saudará as suas dores. Hoje, sua dor será conhecida e o silêncio da carta será desvendado. Em meio à confusão de pensamentos, ainda reluta contra o desejo de nada saber, de nada ouvir, de nada ver. Mas acredita que pode encontrar a paz e ser como uma das estrelas que no céu espionam-lhe a cada noite, a cada aurora das madrugadas mal dormidas. E, ainda antes do amanhecer, termina sua carta feita em papel bordado e tudo porquê um dia quis ter o que já tinha e ser o que já era. Mas hoje, tudo era diferente. Não tinha mais medo, porque também a morte desaparecera de sua frente. Em lugar dela, via luz. "Então é isto!", exclamou de repente em voz alta. "Que alegria!"

Nota: O trecho destacado é do conto A morte de Ivan Ilitch, do escritor russo Leon Tolstói (1828-1910). Escrevi o conto A carta, encaixando esse trecho como exercício de criatividade literária.  


ℓ૯ฑฑ૯ Datas 



quarta-feira, 2 de março de 2011

LEGÍTIMA DEFESA




Nasci no Rio de Janeiro, quando meus pais estavam com três anos de casados, não me lembro muito do Rio, pois quando saímos de lá eu tinha quatro anos de idade. Meu pai era militar e minha mãe costurava. Quando chegamos em Fortaleza, fomos morar em Jacarecanga, um bairro do município, a oeste do centro da cidade, próximo ao mar, tão próximo que, à noite, escutava as ondas que embalavam meu sono. Nossa casa era na Rua Tijubana, em frente ao muro do Cemitério São João Batista. Para muitos, isso parece assustador, mas depois de um tempo é como um muro de escola. Quando tinha nove anos, minha mãe morreu de parto e foi assim que virei mãe, ainda criança, de minha irmã caçula, Solange. Meu pai já era aposentado nessa época, o que era um alivio à sociedade, já que não honrava a farda que usava, jogava e era alcoólatra. Meu irmão mais velho, assim como ele, seguiu a carreira militar, não se importava com nada, nem ninguém, só pensava em sua carreira, sua noiva, Dalva, e seus valores mesquinhos. Éramos nós quatro e a lembrança de minha amada mãe. Logo cedo, tomei os méritos de dona de casa: lavava, passava, cozinhava. Ia à escola pela manhã, era onde podia ser menina, brincar nos intervalos e esquecer todo peso da responsabilidade posto sobre mim. Sentia saudades da minha mãe e do jeito que ela mexia nos meus cabelos, cantarolando as músicas que embalavam meu sono, quando era mais nova. Todos diziam constantemente que era a xerox dela, eu gostava disso, lembro-me que ela era bonita e tinha os cabelos compridos, que iam até a cintura. Quanto mais o tempo passava e me formava, mais era parecida com ela. Meu pai também logo percebeu isso e foi aí que começou a pior tragédia da minha vida.
Noite de sábado, aproximadamente às 23 horas, meu pai chegou bêbado em casa, bateu na porta agressivamente, levantei-me, abri a porta e voltei a deitar-me. Não demorou muito, senti sua mão em minhas pernas, chamando-me pelo nome de minha mãe, “Adriana”. Falava, enquanto pressionava minhas coxas, de maneira maliciosa. Meu coração estremeceu e não enxergava meu pai naquele momento, senti medo. “Para, pai”, soltei, como num sussurro angustiado essas palavras, quando ele levava a mão até minhas nádegas. Alterou a voz e me mandou calar a boca, eu chorei empurrando a mão dele das minhas pernas, minha irmã mexeu-se na rede e começou com tosses alternadas. Ele parou, dizendo:

 “Vá olhar sua irmã, isso é porque você deixa ela andar descalça na rua, se ela adoecer a culpa é sua.”

Saiu do quarto, cambaleando, segurando-se nas paredes. Acalentei minha irmã e agradeci a Deus por ela ter acordado, acho que foi minha mãe quem despertou-a do sono. Passei uns dias aterrorizada, evitando ficar sozinha com ele, embora meu irmão fosse um mau humorado que me forçava a fazer tudo, ficava aliviada quando ele chegava em casa, pensava em contar o que tinha acontecido, mas tinha medo, tinha vergonha. Ele podia falar que mentia e brigar comigo, e me culpar, talvez pelo fato da minha aparência lembrar a minha mãe. Então, eu mesma procurava defender-me e, nas noites que meu pai saía para beber, procurava deitar com minha irmã, fingia não ouvir a porta para que meu irmão se obrigasse a levantar e abrir. Agora, tinha uma missão, tinha que defender-me, não das almas e espíritos que os vizinhos viviam reclamando que apareciam nas noites de lua cheia, no muro do cemitério, mas na selva escura que tinha dentro de casa. Tinha que defender-me e defender Solange. Certa vez, não tive muita sorte e meu irmão foi fazer plantão. Nessa noite, ele puxou minha calcinha e falou que eu ia ser muito feliz com ele, dizendo que teríamos uma linda filha, não tinha como lutar, não sabia o que fazer e a noite era cúmplice daquele crime, mas a bebida o fez fraco e, antes mesmo de conseguir penetrar-me, já tinha encontrado prazer no seu desejo doente, nojento, fugaz, frio.

Eu tinha dezesseis anos, quando comecei a namorar escondido com Tiago, encontrava-o depois das aulas, em frente à pracinha. Ele tinha dezoito anos e fazia o segundo ano no Liceu. Apaixonei-me perdidamente e encontrei nele refugio para todos os meus problemas. Aos poucos, contei para ele o que acontecia na minha casa, nas noites em que meu pai bebia, ele não conformava-se, mas entendeu quando contei que não podia apresentá-lo em casa, já que meu pai prometeu matar qualquer um que se aproximasse de mim. Às vezes, faltava às aulas e ia para sua casa, onde passávamos a tarde namorando. Foi em uma dessas tardes, depois de muitas tentativas, que aceitei ser sua mulher. Eu estava com medo e não sabia se ainda era virgem — na minha mente, havia perdido a virgindade desde a primeira vez que meu pai me tocou —, mas, felizmente estava errada e Tiago me provou isso. Nessa tarde fui feliz para casa, vingada por meu pai ter me tirado a inocência e feliz por não ter sido ele quem me fez virar mulher.

Certa vez, ajudando no bar que ele montou, apareceu um jovem de dezoito anos, chamado Antônio, que começou a mostrar certo interesse por mim. Numa noite, onde a bebida foi a desculpa para o crime, ele deu uma facada no rapaz, acertando seu braço direito, a família revoltou-se e jurou morte. Saímos de Jacarecanga. Fomos morar no Monte Castelo, bairro próximo, onde morava minha tia e também madrinha, irmã do meu pai. Nessa época, já havia parado de estudar, engordei muito e o namoro com Tiago, apesar de ter durado três anos, não deu em nada. Chorei dias quando ele me deixou. Minha irmã já era moça e bonita, o que me impedia de sair de casa, pois tinha medo que acontecesse com ela o que acontecia comigo, quando a madrugada silenciosa me deixava só. A madrugada que sabia os meus segredos, juntos aos mortos, que eram meus amigos e falavam comigo de cima do muro do cemitério, chamando-me para o mundo deles, para um mundo calmo e tranquilo, onde não havia feras.

Ganhei da minha tia uma cadela chamada Pitty, ela era branca com cinza e virou minha filha. Não nos largávamos. Comecei a fazer um curso de cabeleireiro no IASOCIAL, meu pai pagava tudo e falou que abriria um salão de beleza para mim. Durante o dia, ele era meu pai, nas noites em que bebia era um monstro, a diferença é que agora já sabia defender-me e ameaçava gritar, ele me xingava, empurrava e dormia. Aos poucos, acostumei-me com aquilo, mas tinha medo que ele fizesse o mesmo com minha irmã. Comecei a tomar remédios para emagrecer, já que a ansiedade me fazia comer o dia inteiro, fiquei com o peso que sempre desejei, cinquenta e um quilos, que faziam jus à minha altura de 1,55. Namorei alguns rapazes, e todos escondidos, longe de casa e, como sempre, todos me abandonaram. Aos poucos, fui ficando depressiva, mas minha depressão era demonstrada por risos, ria muito e de tudo. Só Pitty me entendia e só com ela me sentia à vontade. Comecei a achar que nada na minha vida dava certo e que a única razão para estar viva era cuidar de Pitty e Solange. No meu curso, conheci algumas amigas, para algumas até contei meus mais escondidos mistérios, montei um Salão de Beleza e deixei Solange loira, ela ficou bem de luzes. Ficou tão bem que namorou meu primeiro namorado, que fez juras de amor eterno e pediu-a em casamento. Eu não tinha raiva dela, tinha dele. Resolvi ficar loira também, mas meus cabelos não suportaram a química e caíram todos, passei um ano andando de lenço na cabeça.

Aos dezessete anos, Solange engravidou, teve uma menina linda chamada Fernanda, achei que agora ela casaria e eu poderia sair de casa, mas isso não aconteceu, ela brigava constantemente com o pai da filha e resolveu morar conosco. Um ano depois, engravidou novamente e agora, sim, foi morar com Rafael. E eu pude então ficar noiva de Alberto, um rapaz que namorava escondido há três anos. Tornei-me cristã, deixei os cabelos crescerem, assim, como os da minha mãe, que iam até a cintura e comecei a fazer tratamento para engravidar, já que tinha mioma e vários médicos haviam me falado que não poderia ter filhos. Essa foi a pior noticia que pude receber, até porque Alberto queria ser pai. Marcamos a data do casamento e eu já passava mais tempo na casa dele do que na minha, até que Solange voltou para casa de meu pai e resolveu trabalhar. Foi aí que tive de escolher entre casar ou defender minha sobrinha, eu sabia o que podia acontecer a ela nas noites em que a casa dormia. Adiei meu casamento.

Falei para Alberto que adiaria o casamento até Solange entender-se com o marido novamente. Infelizmente, ele não esperou, três meses depois me largou e casou com uma ex-namorada, que afirmava estar grávida dele. Mais uma vez, estavam eu e Pitty, eu e minha cadela que nunca me abandonava. Minha irmã não voltou para o marido e meu irmão continuava em casa, indiferente, no mundo dele, como se não pertencesse àquele mundo. Meu Salão de Beleza era em casa, então aproveitava e cuidava de minhas sobrinhas como se fossem minhas filhas; às vezes, acho que é por isso que não tinha filhos, Deus já havia preparado muitos filhos para mim. Nos fins de semana, pensava em sair, distrair-me, ver alguma amiga, mas nunca dava, pois Solange sempre saía e deixava as meninas em casa. Contei para ela o que aconteceu comigo, no passado, ela ficou assustada, mas nunca levou a sério e, de certa forma, aproveitou-se disso, pois sabia que podia ficar sossegada, sair, namorar, passear, pois sempre estaria ali, sempre olharia as filhas dela. Um dia, fui ao centro e Solange havia deixado as filhas com a vizinha, aconteceu um contratempo e a vizinha teve de entregar mais cedo as meninas em nossa casa. Não havia ninguém lá, além de meu pai e Pitty. Quando cheguei, encontrei Fernanda no colo de meu pai, ele passava as mãos em suas delicadas pernas, segurava o seu pé e mostrava-lhe a boneca. Tudo que aconteceu comigo voltou naquele instante ao presente, rapidamente tomei a menina de suas mãos, notei seu olhar maldoso, notei seu desejo queimando em sua pele. Levei a menina imediatamente para o quarto e a examinei, vi que estava bem, que ele não havia feito mau algum, mas também vi que não podia deixá-las sozinhas. Nunca devia deixá-las sozinhas. Abracei Pitty e chorei.

A noite hoje parece calma, as meninas dormem tranquilas e Solange saiu com o namorado. Aproveito para ler um pouco, quando ele chegou, bêbado, imundo, o militar aposentado que ostentava poder, andando com sua arma por aí, sentindo-se o dono da verdade, o justo o que prendia bandidos (e ele, quem iria prendê-lo?), entrou e olhou-me com ódio:

“Um dia, ainda pego você, você é minha, entendeu.”

“Vá dormir, que é o melhor que o senhor faz”, falei e fui para o quarto, deitar com as meninas. Ele mexeu nas panelas, resmungou um pouco na cozinha e foi até o quarto.

 “Se você não for minha mulher, vou pegar Fernanda para mim, ela parece com você”, falou, sorrindo, segurando a barra da calça onde estava a arma. Dirigiu-se para seu quarto e dormiu. Ele dormiu e tudo parecia tranquilo, agora. Menos minha cabeça, que não parava de escutar suas últimas palavras:

“Se você não for minha mulher, vou pegar Fernanda para mim, ela parece com você.”

Minha cabeça rodopiou mil vezes aquela frase, olhei para a menina dormindo no berço e vi que não podia deixar ninguém acabar com a vida dela, deixá-la virar um trapo humano assim como eu era. Um trapo humano que fingia viver, que vivia diariamente com o medo de ver minha irmã ou minhas sobrinhas serem violentadas por aquele monstro. Fui até o quarto dele e observei-o. Vi que roncava feito um porco velho em cima da cama. Nem mesmo os sapatos tirou. Tirei seus sapatos, cobri-o, tirei a arma que estava presa em sua calça e virei para colocá-la no lugar, quando, sem ao menos perceber, estava apontando a arma para ele, para meu pai. Minha mão tremia, mas a imagem do que ele fez comigo vinha à minha cabeça e não me via, era Fernanda, e ele tirava suas roupas, apalpava-a com suas mãos imundas e fungava com o bafo de bebida em seu pescoço. Atirei três vezes contra o seu peito. Coloquei a arma na cabeceira da cama, sentei-me no chão e chorei ao seu lado, agora eu era órfã de pai e mãe.

Faz três anos que já não tenho medo da noite, mas também três anos que tenho medo de dormir, pois pesadelos não me deixam em paz. Eu não tinha outra escolha, era matar ou morrer. Era matar ou deixar “matarem” a vida de duas crianças. Duas crianças que perderiam seus sonhos e esperanças, assim como um dia perdi.

Voltamos a morar em Jacarecanga, só que agora na Rua Guilherme Rocha. Hoje, lembrei-me dos meus amigos silenciosos, meus amigos do Cemitério São João Batista, estou com saudades deles. Acho que está na hora de juntar-me a eles. Pitty ainda corre e late, sorrindo ao me ver, mas já está cansada, Fernanda cuida bem dela.

A tarde já chama a lua e Ana Maria está com Pitty, andando por todos os lugares que ficaram em seu passado, caminham até a escola de Aprendizes de Marinheiros, do Ceará, passam no Cemitério e depois seguem à Praça Gustavo Barroso, onde ela lembra-se de seus amigos, seus namoros, seus professores. E sorri, olhando a praça, como quem despede-se da vida. Sorri, sentada no banco, junto com sua cadela Pitty.


Nota: Foto da Praça Gustavo Barroso, localizada em  Jacarecanga, um bairro do município  de Fortaleza.