segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

MEDO


A tarde despedia-se e eu, junto com dois amigos, caminhávamos aflitos num calçadão em frente ao mar. Sabíamos que alguém nos perseguia, a ansiedade apertava o coração, os passos eram ligeiros, olhávamos para trás compulsivamente.  Aos poucos, nos afastamos do mar, das ondas que falavam idiomas estranhos, do calçadão que ficava mais longo a cada passo que dávamos, dos coqueiros que estavam inertes no meio do caminho. A lua veio misteriosa e agora as estrelas pareciam nos espionar. Entramos numa rua solitária e caminhamos para um abrigo. Ninguém falava nada, o medo ameaçava nos entregar. Encontramos um abrigo, uma casa pequena com portas sem trancas. Não me senti segura ali e me incomodei com o pouco caso que meus amigos fizeram da situação. Pararam, sentaram-se, conversaram e, na rua, lá fora, pessoas nos perseguiam, nos procuravam como condenados. Condenados inocentes de um pecado desconhecido. Eu estava ansiosa, sabia que eles iriam nos encontrar a qualquer momento. Minha respiração inalava o cheiro do medo. Fiquei em pé, achei que era melhor, assim podia correr caso eles nos encontrassem. Não tinha certeza de nada, não sabia de nada, não havia feito nada. Em pouco tempo, minhas suspeitas tornaram-se reais. Chegaram. O acusador veio na frente; depois dele, entraram uns vinte, todos fortes, feras em homens, tinham olhos impiedosos, frios. Nos olhou com olhos de vitória e perguntou como iríamos fugir, sorrindo cinicamente. Levou sua atenção a mim.  Sim, naquela hora eu tremi. Vi que estava perdida e que não tinha como escapar, corri à toa. Agora, meu destino estava nas mãos daquele ser ruim. Chamou um de seus ajudantes, entregou-lhe umas chaves e falou baixo o meu destino. Apenas escutei quando ele disse: “Entregue essa chave para ela, pois está grávida.” Era certo que meu destino estava em suas mãos. O homem aproximou-se, entregou-me as chaves e fez menção para que o seguisse. Fui em passos temerosos por um corredor escuro. Encontramos um carro preto uma, Eco Sport, ele me entregou a chave, dizendo: “Suma daqui.” Entrei no carro, atrapalhada com o que acontecia, eu estava livre, mas aquela liberdade me aprisionava, pois não sabia dirigir. “Como sair dali? Como sumir?” Não sei como consegui, mas com alguns movimentos, fiz o carro locomover-se, movimentos que via os motoristas em suas hábeis mãos repetirem, quando estavam no volante. Peguei uma rua movimentada, tinha carros por todos os lados. Em um momento, rapidamente perdi a direção e subi numa calçada. Agora, estava perdida. “Como voltar ao asfalto?” Desci do carro, pensei em pedir ajuda, mas os carros passavam rápido e desconfiava de todos. Na rua lateral, três sujeitos aproximavam-se. Olharam-me, conversaram entre si. Eram meliantes. No ímpeto, entrei no carro, não tinha muito o que pensar, tinha que dar um jeito e sair dali. Era minha vida, precisava defender-me. Com precisão, dei ré e saí da calçada, voltando para a irônica calmaria do asfalto. Segui algumas quadras, não conhecia o lugar, não sabia onde estava e na verdade nem sabia para onde estava indo. Virei à esquerda e vi duas entradas: uma que ligava ao asfalto e outra que levava a uma estrada de chão, em frente a casas de portas fechadas, mas de luzes acesas. Escolhi esse caminho. Entrei na rua e parei o carro. Encostei-me no banco, respirei fundo e, embora a noite ainda gritasse, senti-me protegida.

Na cama, mudo de posição, abro os olhos, observando que lá fora o sol já chama para a lida. Sento-me e penso no sonho que tive.

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domingo, 27 de fevereiro de 2011

REFLEXO DO AMOR



 “O que eu faço então? Pensa que é fácil arrancar o amor do peito? A tia já me deu até banho de erva que ela fez. Eu gosto do João. E mesmo que você não goste dele, vou continuar gostando.”

“Você precisa mesmo é de uma boa surra, sua moleca!”

Entra na sala, arrumando o cinto na calça:

“Vai ver tua filha, mulher, quem sabe não põe juízo na cabeça dela e avisa logo que ela vai morar com minha irmã em Pacajus. Vai ficar longe daquele infeliz.”

É dia e os primeiros raios de sol penetram a janela do quarto de Celeste. “Parece até um anjo dormindo”, pensa Dona Augusta, quando vê a filha deitada de lado, encolhida, com o cobertor do lado do queixo. As marcas do cinto do pai ainda são vistas por toda a parte do corpo. A mãe sofre, mas precisa fazer a vontade do marido, aprendeu desde cedo a não desobedecer suas ordens.

“Acorda, Celeste! Seu pai já tá em pé. E o ônibus saí às nove.“

Ela abre os olhos ainda vermelhos e inchados do choro da noite passada, olha para a mãe com um ar pesaroso.

“Eu não quero ir, mãe.”

“Sei, filha, mas quando seu pai coloca uma coisa na cabeça, ninguém tira.”

Celeste levanta-se e já encontra a mala feita por sua mãe, que sempre preocupava-se em deixar tudo em perfeita ordem. A casa era modesta, tinha um corredor estreito e longo que levava até a cozinha, eram três quartos. Ela olha como quem se despede de cada parede da casa. Vai ao quintal e vê o pé de caju, onde brincava quando criança, subia e ficava uma boa parte do tempo lá em cima, olhando os passarinhos. Inventava canções, contava histórias, fazia de conta que ali era sua casa. Antes de ir embora, Rosinha, sua vizinha, uma menina de nove anos veio lhe entregar um bilhete mandado por João, que dizia:

“Minha linda, eu não menti pra você, o seu amor é muito importante pra mim. A Matilde é minha amiga e eu não sabia que ela ia me beijá. Um dia, vou trabalhá muito e ser rico e vou roubá você. Te espero na feira atrás da barraca de tomate do Seu Jenário. Eu te amo muito!”

Leu rapidamente e colocou entre os seios, preso no sutiã. Ficou triste, porque não poderia despedir-se dele. Naquele momento, odiou seu pai.

O ônibus sacolejava muito e, até chegar à rodoviária de Chorozinho, ainda era uma estrada boa. A poeira entrava por entre a janela, deixando Celeste confusa entre deixar fechada para não ser coberta de pó e abrir para diminuir o calor insuportável. Seu pai ia quieto, olhava-a de vez em quando pelo canto dos olhos. A mãe segurava-lhe a mão, apertava, vez por outra, como quem diz, sem palavras, o quanto sofre por separar-se dela. Celeste olhava aquele caminho tão conhecido por ela. O caminho que fazia quando ia à cidade comprar tecido com a mãe, para fazer vestido novo para as festas de fim de ano. Pensava que talvez, um dia, pudesse voltar. E João, será que ele me espera? Escreveu rapidamente um bilhete para ele e entregou à Rosinha.

“João, acredito no seu amor. Te amo também. Meu pai tá me mandando embora para casa da tia Francisca, em Pacajus. Mas eu volto, João, pra gente casar. Sei que você é bom, eu acredito.”

Celeste

Celeste não sabia o que fazer para voltar, mas imaginava que, se desse muito trabalho à tia, ela mandaria-a de volta. Na rodoviária, o peito palpita mais forte e chora nos braços da mãe.

“A bênção, pai!”

“Deus abençoe e te dê juízo.”

Entra e segue para uma nova vida, um caminho que não esperava trilhar e tudo porque o pai não queria que ela namorasse João, filho de Seu Antenor, feirante de muito tempo na cidade, que brigou com ele por causa do preço do leite. Sabia que isso ia ser resolvido, que ela ia voltar ou João iria buscá-la. Sabia que seu sorriso não seria mais o mesmo. Seu coração trafegava agora em solidão e, no abandono triste daquele ônibus, chorava.

Francisca era uma mulher forte e decidida, casara-se cedo com Antônio, que logo mudou-se para Pacajus, uma cidade pacata mas boa para comércio.  Passou uma boa parte da vida costurando, mas agora ajudava o marido no mercado que montaram em sua própria casa. Quando Celeste desceu na rodoviária, a tia já esperava-a com um sorriso caloroso.

“Como você cresceu, menina, tá a cara da sua avó, que Deus a tenha!!”

Ela sabia que agora tinha que viver de acordo com a vida da tia, que não tinha filhos e era muito rigorosa. Gostou da casa, era aconchegante e muito bem decorada. O quarto ficava do lado direito da escada, a tia arrumou-o com cuidado, tinha uma cama de solteiro, um armário de duas portas e uma penteadeira com um espelho grande, o espelho que se tornou por muito tempo o melhor amigo de Celeste. Logo, adaptou-se à nova rotina, não falava muito, procurava ser útil ajudando nas tarefas domésticas e contava os dias para as festas que chegariam em junho, onde poderia visitar seus pais e ver João. A mãe foi visitá-la algumas vezes, falava as novidades de tudo e de todos, menos de João. Ela precisava saber dele. Mas sabia que era inútil. Um dia até tentou interrogar a mãe.

“Mas e todo o mundo? E a feira? E seu Antenor ainda trabalha lá?”

“Sim, trabalha. Mas não vamos falar nisso, filha. Esse povo só trouxe desgraça. Se você esquecesse esse tal de João, você podia voltar pra casa, tem tanto moço bonito aqui, Celeste.”

“Não perguntei dele, mas do pai dele. E eu já esqueci, minha mãe, já posso voltar, pode dizer pro pai.”

Mas Celeste mentia, sabia que não esquecera, a imagem de João ainda estava em sua cabeça, em seus pensamentos e nos seus sonhos. Sonhos que ela tinha dormindo e acordada. Desde a hora que fazia o café da manhã até a hora do jantar. Lembrava-se de sua voz, do seu cheiro, e lia a carta onde ele dizia que iria roubá-la. Pedia para Deus ajudá-lo para ele melhorar de vida e procurá-la. Às vezes, escutava a voz dele chamando-a. E respondia alto. No quarto, diante do espelho,  fingia vê-lo e conversava com ele, conversas que só os enamorados entendem. Falava com ela também, pedia a si mesma explicação para tudo o que acontecera na sua vida.

“Menina, larga a mão de ser doida e falar sozinha”, dizia sua tia, quando pegava-a falando pelos cantos da casa, mas ela não falava sozinha, falava com João, o seu amor, ele tinha olhos verdes, era moreno claro e tinha um metro e setenta e três de altura. Tinha braços fortes e um sorriso de menino. E corria com ele para trás da banca de Seu Jenário, onde ele roubava-lhe um beijo. Seu Jenário era bom, não contava para ninguém que se encontravam ali. Ele olhava para eles, dava uma piscadela e voltava a trabalhar.

Já faz três meses, desde que ela saiu de Chorozinho, já está mais conformada e até vai à igreja com a tia aos sábados. Foi lá que conheceu Roberto, um rapaz sorridente e tranquilo, logo ficaram amigos e nos fins de semana iam aos parques da cidade. Ela sabia que Roberto se apaixonou por ela, mas fingia não saber e repetia sempre, e em todas as ocasiões, que João iria dar um jeito de buscá-la.

As festas de junho começavam, a fogueira de São João já queimava bonita, em frente às casas do bairro. O cheiro de pé de moleque rodeava a cidade e Celeste só pensava no fim de semana que iria passar com os pais. Iria dar um jeito de ver João. Contou os dias, marcando cada minuto, até que, como esperava, estava voltando à cidade. Cidade onde deixou seu amor, o pé de caju que tanto gostava, e sua mãe querida. Comprou vestido novo e arrumou os cabelos. A casa estava cheia, seu pai mandou matar um porco e o cheiro do churrasco era sentido de longe. Todos estavam ali. Toda hora corria à janela, olhando quem passava, mas, na verdade, esperava alguém passar. Sua mãe já percebera seu jeito e já alertara-a para não ficar tão ansiosa, senão o pai fechava a janela e não iria deixá-la ir para a festa, mais tarde. O povo todo estava arrumado, as bandeirinhas já eram postas nas casas. No céu, estouravam fogos dizendo que a festa começou. O dia é festivo e o povo dança, canta e fala. A praça está enfeitada, o barulho da música agita a multidão. Só não é mais agitado que o coração de Celeste, que está, desde cedo, nervoso e angustiado por não ter visto João ainda. A quadrilha começa, as moças passam com os vestidos e as tranças postiças por baixo do chapéu. O apresentador grita e anima a multidão anunciando que a festa começou. Os pares se formam e a dança se inicia. Todos estão animados, menos Celeste que começa a ficar triste, pois olha para todos os lados e não enxerga João.

“Nem banquinha, esse ano, a mãe dele montou. Deve tá doente, a coitada.”

Volta a observar a quadrilha, com sua amiga Benedita, que, dê uma hora para outra cutuca seu braço, apressadamente, indicando-lhe o lado direito, perto da banca da maçã do amor. Nesse instante, as mãos brancas de Celeste gelam e o sangue some do rosto, as pernas bambeiam e ela segura-se em Benedita.

“É João!! O que eu faço agora!?”

“Vai lá. Tu tá esperando ele a noite toda, ele tá ali. Ou tu quer que eu fale que tu tá aqui?”

“Diz pra ele que eu tô perto da banca do cachorro-quente, ao lado da igreja. Que vou esperar ele lá.”

Não demorou muito e a ansiedade de Celeste terminou. João parecia um anjo, pensava Celeste, enquanto observava-o caminhar ao seu encontro, sorrindo com o mesmo sorriso de sempre.

“Você continua linda, esse tempo todinho eu tava procurando você, pensei que não queria me ver.”

“Sempre vou querer ver você, João.”

Ali, sobre a luz do luar e com a orquestra das estrelas que pareciam cantar as músicas de São João, os dois beijaram-se. João prometeu que iria buscá-la no fim do ano, porque tinha feito a inscrição na fábrica de sapatos e ia ser chamado para trabalhar. Celeste esqueceu do tempo e só lembrou-se quando Benedita chegou chamando-a, falando que seu pai estava procurando por ela. Celeste despediu-se de João, entregando uma foto que tinha tirado em frente à igreja da Praça Central de Pacajus.

“Fim do ano, João, eu tô aqui e a gente se casa.”

E partiu, com o cheiro de seu amor grudado na roupa.

Os dias de Celestes estavam mais floridos desde que reencontrou João. A tia arrumou-lhe um emprego numa fábrica de costura de um amigo, perto de casa, onde ela ajudava no acabamento. Roberto andava distante desde que soube que ela iria morar com João, em dezembro. Ela ocupava-se o dia inteiro para não sofrer tanto de saudades. Já havia deixado de lado dois bons partidos, como a sua tia gostava de enfatizar.

“Não sei o que quer da vida, um moço tão bom e você não quer.”

Ela não se importava com o que a tia dizia, sabia que ia casar-se e seria com o homem que ela amava, que sempre amou.

A cidade era a mesma e tudo parecia muito igual, exceto pelas bandeirinhas da festa de São João, que foram trocadas pelas luzes de Natal. Já fazia uma semana que Celeste chegava à casa dos pais, já havia passeado nas feiras, visitado vizinhos, todos estavam iguais: o mesmo sorriso acolhedor de sempre, a mesma hospitalidade. Entregou para Benedita uma carta para que entregasse a João.

“Você tem certeza que entregou pra ele?”

“Claro, você acha que sou abestada? Do jeito que você falou eu fiz e ainda disse: ‘Ela tá na casa do pai dela, se você quiser encontrar ela, é só me falar que eu digo o local’. Ele agradeceu e disse que qualquer coisa me procurava e, até hoje, o canto mais limpo, nunca apareceu.”

“Mas ele tá trabalhando mesmo na fábrica de sapato?”

“Ta, mulher, desde novembro, até bicicleta nova comprou, nem fala mais direito comigo, tá todo besta.”

Aquela atitude de João deixava Celeste inquieta, tentou inventar histórias para sair de casa, mas sempre seu pai dava um jeitinho de ir junto. Até quando ela falou que ia visitar a prima, ele foi. Escreveu mais uma carta para João e, desta, teve resposta.

“Não posso casar agora com você. O dinheiro é muito pouco. Além do mais, de que adianta ver você se vai embora de novo. É muito complicado. Te amo!”

Celeste não conteve as lágrimas.

“Esperei tanto por esse momento e, agora, deu tudo errado.”

E da janela da minha casa
Onde olho meu jardim
Espero meu amado
Que não lembra mais de mim.

Não sei o que acontece
Nem o porque dessa decisão
Mas ele deixa no meu peito
Um coração na contramão.

A chuva de agosto deixa um cheiro gostoso de terra molhada. Ultimamente, Celeste anda quieta e só sorri mesmo quando sai com Roberto, nos fins de semana. Na rodoviária, espera seus pais que vão visitá-la, junto com Benedita, sua melhor amiga.

“Já tá bom de você casar, filha, não encontrou nenhum rapaz bom por aqui?”

“Não, senhor”, fala, enquanto passa o café.

“Ah, encontrou sim!”, intromete-se a tia, entrando na cozinha. “Ela não quer ninguém, não entendo essa menina, vai acabar ficando pra titia.”

“Pois Benedita tá noiva, casa logo, logo”, entra a mãe na conversa, enquanto pega um pedaço de pão.

“Sério!”, fala Celeste, admirada. “E nem diz nada?”

“Eu ia contar, mas nem deu tempo, já contaram. Caso no fim do ano e você vai ser minha madrinha, tá, amiga.”

A conversa ainda demora um pouco na cozinha, até que seu pai retira-se para dormir um pouco, a mãe sai com a tia e ela, enfim, fica sozinha com Benedita.

“Você tem noticias de João?”

“Tenho.”

“O quê?”

“Ele tá namorando uma menina da rua de baixo, perto da fábrica em que ele trabalha. É isso, pronto, contei.”

“Namorando?”

“Na verdade vai casar. Mas não ligue não, menina, ele mudou muito. E você tem que casar com um rapaz daqui. Você é muito bonita pra ele.”

Celeste vai para o quarto e lá, entre seus guardados e diante do espelho, o seu maior amigo desde que mudou para a casa da tia, chora.

O parto é demorado, Dona Augusta tenta acalmar Fabrício, que corre de um lado para o outro, enquanto espera sua filha nascer. Diz que o nome será Ágata. E reza toda hora diante da imagem de Nossa Senhora, que fica em cima de um balcão, na sala de espera do hospital. Celeste conheceu Fabrício na fábrica de costura, logo depois que soube do casamento de João. Não o amava, mas gostava dos olhos dele e do jeito que a beijava. Estavam casados há sete anos e eram, na medida do possível, felizes. Morava numa casa grande, espaçosa e, no quintal, havia um cajueiro. Isso trazia-lhe sossego, pois lembrava-se de sua infância. Roberto casou-se e foi morar em Horizonte, virou professor, ela sentia saudades dele, sentia saudades de seus amigos, sentia saudades de casa. Quando Ágata fez três anos, encontrou no bolso da camisa do uniforme do marido um recado de uma amante. Foi no quarto, arrumou suas coisas e pegou sua filha. Era hora de voltar para casa.

Quando Celeste chegou em Chorozinho, sentiu novamente o cheiro da infância. Aquelas terras tinham suas marcas, suas raízes estavam lá. Enquanto o ônibus sacolejava os passageiros, ela via as pessoas com o aspecto cansado, lembrou de seu pai, que já estava velho e ainda assim, todos os dias, fazia aquele trajeto, lembrou-se de como divertia-se quando ia às feiras nos fins de semana ajudar sua mãe. Lembrou-se dela e de Benedita, correndo por entre as barracas, olhando os meninos passarem, lembrou-se de João.

O cheiro da galinha caipira estava chegando na rua, quando Celeste entrou com a filha. O abraço caloroso da mãe e o sorriso do pai fizeram-na sentir-se melhor. Voltou e agora seu pai já não perseguia-a mais. Ele não sabia de sua separação, achava que o marido estava viajando e que ela, para não ficar sozinha, foi visitá-los. Benedita casou e já tem três filhos. E Rosinha, a menina que entregava seus bilhetes para João, agora é sua cunhada. Pensa em como a vida dá voltas. Pensa em João.

A sexta-feira anuncia o dia de correria, é dia de feira e sua mãe acorda cedo pra ir trabalhar. Ela decide ir junto. Quer matar a saudade da feira. Quer sentir o cheiro das frutas. Quer ouvir o grito dos feirantes chamando os fregueses. Tudo parece igual, mas ela não é mais uma criança. Empilha cuidadosamente os tomates em cima da banca e observa as pessoas que passam. Decide andar um pouco, vê os conhecidos, cumprimenta a dona Adelaide que vende melancia, Seu Airton, que grita oferecendo batatas-doces, e chega na banca de Seu Jenario, que, a princípio não a conhece. Mas basta olhá-la direito pela segunda vez, para abrir seu largo sorriso. Ele não mudou nada. Oferece um banco e conversam um pouco. A feira continua a mesma. É como se o tempo não passasse, é como se ali o tempo parasse. Foi aqui, nesse lugar, que beijei João pela primeira vez. Aqui, encontrei o homem que amei todo esse tempo. O homem que ia me buscar quando tivesse condições de me dar o melhor. O homem que achou desnecessário me ver, quando eu esperava aflita. O mesmo que, em todo esse tempo, nunca me mandou um recado, nem mesmo quando seu pai morreu e eu mandei dizer pela Rosinha que estava rezando pela alma dele. O homem que conversa comigo, quando olho no espelho.

Diante do espelho,
tento entender o que
sou.
Meus olhos ainda brilham.
Vejo um sorriso deixado no
tempo.
Um sorriso de dez anos atrás.
O sorriso tinha viço,
a pele expelia o aroma
de flores campestres.
Livres, alegres.
O olhar era terno,
como um lago enfeitado
por um casal de cisnes.
E o coração
era o próprio mar,
e cantava uma canção doce,
quando a lua saía,
iluminando as ondas na noite.
Os caminhos que segui nas
ondas, me trouxeram aqui.
Essa noite, a lua brilha
e o canto  do meu coração
já não é tão doce.
No mar, as ondas agitadas
Fizeram-no brigar com o rio.
O coração ainda tem sua imensidão,
mas não arrisca palpitar,
em ondas traiçoeiras.
Seu canto é mais forte e preciso.
Meus olhos já não são tão ternos
e já não lembram um lago.
Mas tem foco e
observam como a águia
no seu voo pelo céu.
A pele ainda tem o aroma,
mas é coberta pela beleza
aveludada da rosa.
O sorriso ainda tem viço.
Sim, o sorriso ainda encanta.
E apesar de tempestades,
madrugadas roubadas,
pétalas separada,
o brilho dos meus olhos
ainda refletem a luz dos
que sabem amar.

A feira termina, as barracas começam a desmontar-se. O sol despede-se do dia com um olhar feliz. As pessoas, enfim, encontrarão o descanso no seu lar. Aqui, da janela, a lua parece me dar boas-vindas. O cheiro da minha casa, a brisa da minha rua me traz de volta um sorriso leve, que deixei aqui, no passado.

“Celeste!”

“Sim, Rosinha!”

“Mandaram entregar esse recado para você.”

“Quem?”

“O João. Ele soube que você estava na cidade e me procurou.”

Celeste recebe o recado, coloca entre os seios e vai até seu quarto, em frente ao espelho, e lê:

“Celeste, gostaria de falar com você. Em frente à igreja, perto da banca de cachorro-quente, naquele mesmo lugar do dia da festa de São João, quando você veio aqui. Espero que você lembre, pois eu nunca esqueci. Espero hoje, às oito horas.”

Coloca o recado na gaveta, arruma os cabelos no espelho. E caminha serenamente à sala, encosta-se na janela e fica ali, observando o movimento de quem passa.



segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

ESCOLHA



“O movimento aqui não para”, fala Fátima, enquanto arruma vestidos num manequim, na vitrine da loja.

“Tomara que esteja certa, estou precisando de grana, lá em casa a barra tá feia, minha irmã mais velha engravidou de novo, é mais uma boca para meu pai sustentar.”

“E ela não é casada?”

“Se juntou com um pobretão! Não tem onde cair morto, bebe uma cachaça que só vendo. Eu que não caso com pobre. E agora trabalhando aqui, quem sabe não encontro um ricaço”, falou sorrindo, enquanto olhava seu corpo esguio e com formas bem definidas no espelho.

“Quem sabe! Só tem que tomar cuidado, porque esses caras são cheios de lábia. Enchem o bucho da gente e vão embora.”

Enquanto Fátima falava, Rosana ficou olhando pela vitrine aquela gente toda que passava, gente fina, bem vestida, diferente das pessoas que ela costumava ver no bairro onde morava. A loja ficava na Avenida Beira-mar, em Fortaleza. Junto ao cheiro da brisa, Rosana observava o mar que ia e vinha, naquelas ondas, que batiam nas pedras e deixavam ainda mais bonito aquele lugar. Às 18 horas, quando as portas da loja fechavam-se, ela ia caminhar no calçadão; à noite, tudo parecia mais lindo e o luxo dos hotéis à beira-mar deixavam-na hipnotizada. Imaginava entrar em um daqueles quartos luxuosos, como que seria morar ali? Passavam por ela mulheres com pele que parecia de cetim e os cabelos pareciam nunca embaraçar. Ela olhava seu cabelo amarrado a um rabicó, sua sapatilha modesta e baixa, para que aguentasse o dia inteiro de trabalho árduo, onde ajudava aquelas mesmas mulheres a escolherem roupas e mais roupas. E bolsas, muitas bolsas. Rosana amava bolsas e sapatos. Caminhava um pouco até a Ponte Metálica e ficava observando o mar, aqueles adolescentes que se reuniam para tocar violão, os casais de namorados que faziam juras diante da lua, que era bem mais bonita olhando daquele lado da praia, o cheiro da comida que vinha dos restaurantes, a música. Sabia que aquele mundo não era seu, mas, ela queria aquele mundo. Sentia-se frustrada. Há algum tempo, começou a namorar Luiz, um rapaz simples que morava numa fábrica de confecção, próxima à sua casa. Parecia trabalhador e era apaixonado por ela. Seu pai já pensava no casamento, pertencia a uma igreja e fazia questão das filhas em todos os cultos. Rosana ia contra a vontade, odiava por aqueles vestidos e saias que cobriam seus joelhos. Tinha um corpo belíssimo e queria mostrar. Apesar de fazer a vontade do pai, procurava por saias tão justas que pareciam que iam arrebentar quando sentava-se. Andava bailando, chamava a atenção de todos: homens, mulheres, de quem passasse. Seus cabelos encaracolados, quando soltos, contornavam o rosto com traços delicados. Seus olhos eram mel e faziam um lindo contraste com sua pele bronzeada. Rosava era sorridente, brincalhona, parecia feliz, tinha boas amizades, mas isso não era suficiente para ela. Ela queria mais.

Levava duas horas até chegar em casa, eram três conduções todos os dias. O circular era lotado e muito difícil encontrar lugar para sentar. Não gostava daqueles corpos todos roçando no seu. Os homens, nessas horas, aproveitavam-se e muitas vezes ouvia-se a mulherada xingando. E todos os dias, era aquela rotina. Era um desce e sobe de gente, a buzina dos carros afobados pelo engarrafamento, era o bêbado que subia cantando e cuspindo nos cantos do ônibus, e, ora ou outra, tendo ânsias, era a mulher que vinha do hospital com o filho doente, o homem que usava desodorante vencido, o cobrador que, com a cara mais deslavada, ainda ficava encarando-lhe como se, naquela hora da noite, ela tivesse ânimo para paquerar alguém. Pedia a Deus, em silêncio, que fizesse o tempo correr para chegar em casa e dormir um pouco.

Rosana andava farta, odiava ter que dividir o salário em casa. Principalmente, porque comprava muitas roupas na loja em que trabalhava e, no final do mês, não ganhava quase nada. A mãe sempre reclamava de tantas roupas que ela comprava a toda hora, cada lançamento, ela tirava uma peça para si, ainda que para isso fossem precisos meses e meses de trabalho para pagar. “Tenho direito de me arrumar bem, trabalho para isso. E, além do mais, tem minhas amigas  que se vestem bem e eu não vou ficar por baixo.”

“Amigas? Elas são suas amigas, porque você finge ser do meio delas. Você não tem nada que ficar bancando a rica na beira-mar, no fim de semana. Não cansa de ir para lá o tempo todo?”

Rosana havia conhecido Cibele, num de seus passeios no calçadão. Cibele estava bêbada e ria muito, quando desceu do carro de um amigo e sentou-se ao lado de Rosana, no banco com o salto do sapato quebrado. Um sapato que custava os olhos da cara, reparou Rosana. Cibele tinha vinte e três anos, fazia faculdade de administração, mas era dona de uma irresponsabilidade sem limites. Seus pais tinham boa classe social o que fazia Cibele esbanjar e gastar a toda hora, com tudo, sem preocupar-se com valores. Rosana invejava a vida fácil de Cibele. As duas conversaram por horas e, desde então, marcavam passeios e baladas. Não demorou muito, Rosana estava fumando, bebendo e usando drogas, chamadas leves, por Cibele. Ela tinha que se enquadrar no mundo dela. E foi assim que escolheu, numa noite, onde a lua era amarela como colostro e brilhava por cima do mar, vender o seu corpo. Cibele já fazia isso há algum tempo, dizia que, quando a pensão dos pais não era suficiente, saía com alguns “amigos”. E foi ali, ouvindo o preço do valor da noite, que Cibele recebia em horas de amores pagos, que Rosana viu que o valor do seu dia de trabalho escravo não era nada. Não lembrou dos conselhos do pai. Não lembrou do desgosto da mãe. Não lembrou-se da sua dignidade. Só via o mundo que ela tanto queria, entrando em sua vida. Em forma de roupas, sapatos, bolsas, jóias, restaurantes caros. E que ela já não era mais a moça que observava mulheres elegantes passarem. Ela era observada. A mãe fingia não saber e o pai não sabia mesmo. Mentiu que arranjou emprego, à noite, como garçonete, porque o salário era melhor e queria ajudá-los. E todas as noites ia para sua labuta que, no começo, parecia mais fácil. Mas depois, o cansaço emocional foi ficando maior que o cansaço físico. E foi sentindo falta da voz do bêbado cantando no ônibus, do cheiro do suor de trabalhadores, a criança chorando no colo da mãe. Sua vida agora tinha segredos. A condução que usava cheirava bem e o homem ao seu lado era bem vestido, mas, assim como o frio do ar do carro de luxo, era frio o toque no seu corpo, era frio o olhar de quem a acompanhava. Os risos eram frios. Os abraços eram frios e o desejo era falso. Ela já não dançava com seu corpo ao andar. Seu corpo agora tinha donos. E pagavam a toda hora por ele. Para compensar o vazio da sua alma, levava presentes, muitos presentes, para a mãe. Ela sabia que podia mudar. Ela sabia que podia parar. Mas o desejo de ter era maior que o desejo de ser. E Rosana escolheu. Escolheu ter. E tinha  tudo o que seus olhos anelavam. Certa vez, conheceu um gringo e foi para a Itália. Sentiu-se a mulher mais feliz do mundo. Afinal, seu corpo com belas curvas proporcionava-lhe isso. “O corpo é meu e faço o que quero com ele”, pensava, lutando contra a própria carência de ser amada. De poder se envolver e sentir mais que o fogo de um desejo momentâneo, e pago. Mas sentir o fogo da paixão, do amor, daqueles que estão enamorados. Sentir o fogo interno, o fogo que queima o coração. O fogo que Rosana ainda não sentira. Via muitas meninas, assim como ela, seguirem aquele caminho. Não ficava feliz por elas e ainda aconselhava a desistirem. Mas ela não desistia. E repetia a si mesma: foi a minha escolha e vou viver com ela.

Mudou-se para um pequeno apartamento, que alugou com uma amiga, no centro da cidade. O apartamento era pequeno, mas de muito bom gosto. E apesar do desejo que tinha de morar sozinha, sentiu falta da família. Falta do café da manhã que sua mãe fazia, e sentia-se culpada por mentir. Não levou nada de sua casa, exceto uma boneca de pano feita por sua saudosa avó. O pai não aceitava a situação, mas logo teve de acostumar-se sem a presença da filha em casa. Às vezes, passava finais de semana com a família. Certa vez, levou os sobrinhos à praia, gostava de crianças e da alegria que elas tem. Ficou observando elas brincarem ali, naquele mesmo mar, que algum tempo atrás, ela olhava, através da vitrine da loja em que trabalhava. E as crianças, livres na praia, brincavam com as ondas do mar que pareciam participar da brincadeira, trazendo ondas, ora leves, ora fortes. Ondas que as derrubavam e as faziam bolar na areia. Os risos eram intensos. E o mar sorria, e o sol brilhava, e seus raios eram refletidos no rosto de cada um. Não existiam divisões, não existia tristeza, não existia guerra, eram livres, todos eram livres. Pensativa, pegou as crianças e levou–as para casa, para a proteção de seus lares. Essa noite não foi trabalhar.

O dia amanhece e Rosana olha a rua pela janela estreita de seu quarto. Observa o movimento das pessoas que vem de todo lado da cidade.  Revira as gavetas, separa algumas roupas que já não interessam mais para doar, vai ao salão de beleza, caminha um pouco na praia, compra vestidos novos e volta para casa, quando o sol começa a esconder-se, quando os mistérios da noite chegam com a escuridão. Toma um banho demorado, arruma-se lentamente, escolhendo com detalhe cada peça que vestirá seu corpo perfeitamente modelado. Ao sair, despede-se da amiga:

“ Não tenho hora para voltar.”

“Hum!! A noite vai ser boa, pelo jeito!! Se sua mãe ligar, o que eu falo?”

“ Diz que fui pra guerra.”

E sai, com a beleza estampada em seu corpo, mas com o seu triste segredo, revelado no olhar.


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sábado, 19 de fevereiro de 2011

GAROTA DA FLOR DE ÁGUA DOCE



 Os olhos de Sharbat Gula falavam por ela. Naquela manhã, a menina dos olhos verdes-água foi fotografada. Ela não tentou arrumar-se, nem esbanjou nenhum sorriso. A guerra, o medo, a fome, a exploração. Tudo isso fazia parte da infância roubada de Sharbat Gula. Morava numa casa simples, dividida entre dois cômodos: a sala que tinha um tapete marrom na entrada, duas cadeiras de madeira escura, que sua avó ganhou trabalhando numa casa de ricos, um pouco antes de ter um derrame e perder a coordenação do lado esquerdo. O fogão e uma pequena mesa, onde faziam as refeições. O outro cômodo era o quarto, onde existiam dois colchões, um em que sua avó dormia e outro que ela dividia com sua mãe. A casa ficava numa aldeia, onde todos, mesmo imensamente pobres, ajudavam-se, dividindo o pouco que tinham uns com os outros. Pela manhã, ela gostava de cuidar das flores que ainda restavam no jardim. E quando era frio e o inverno fazia a alma tremer, ela preocupava-se com o frio nas flores, lá fora. Esquentavam água e colocavam em sacos plásticos para aquecerem os pés. Seu pai foi morto no inverno, durante a guerra. Ele saiu para tentar trazer algo para o almoço, a beijou na testa e falou que os olhos dela ainda iam ser conhecidos em todo o Afeganistão, porque eram duas pedras, eram como a pedra ágata verde. Beijou sua mãe e saiu sorrindo, ela nunca mais viu o sorriso de seu pai e, naquele dia, não teve almoço.  A única coisa que ela tinha dele, era uma fotografia em que estava em pé, ao lado da cerca de madeira e do pé de avelã, sorria e segurava-a no colo. Nas horas vagas, ela gostava de brincar com sua boneca que se chamava Soraya, que ganhou de presente da mãe, no dia em que fez dez anos. Tinha medo do barulho das bombas, sabia que, com o barulho, viriam gritos, choros, dores. Enquanto escutava as explosões, cantava canções que ela mesma inventava, de uma infância que não estava vivendo, cantava na mente, pois tinha medo. Medo do som que sua voz podia fazer, medo que sua voz fosse mais um inimigo. Apenas ouvia os sons da guerra que vinham de todos os lados. Sons que um dia era risos de crianças, mulheres e homens mais velhos que juntavam-se para contar casos deles próprios e histórias fantasiosas. Hoje, eram sons perdidos, eram choros, gritos, angústia, súplicas. Eram sons confusos que alternavam-se entre bombas e barulhos de sinos, que os escravos da guerra carregavam ao andarem. Eram sons religiosos, sons desesperados. Sons que entravam em seus ouvidos, atravessando sua infância, que murchava. Sons que a deixavam muda e que só se refletiam através de seus olhos fortes e assustados.

  Sharbat Gula não entendia a guerra. Não entendia o porquê das pessoas precisarem morrer para haver paz. Ela queria sorrir, mas, às vezes, não conseguia lembrar-se de como era sorrir. A última vez em que sorriu foi para uma jornalista que fazia parte da organização Repórteres Sem Fronteiras, que, aproveitando a temporada no país, ensinou Sharbat Gula a ler. Antes de ir embora, Tereza entregou-lhe um conto que tratava do mar e de crianças que, livremente, brincavam. Seu trecho favorito era:

 “(...) E as crianças, livres na praia, brincavam com as ondas do mar que pareciam participar da brincadeira, trazendo ondas, ora leves, ora fortes. Ondas que as derrubavam e as faziam bolar na areia. Os risos eram intensos. E o mar sorria, e o sol brilhava, e seus raios eram refletidos no rosto de cada um. Não existiam divisões, não existia tristeza, não existia guerra, eram livres, todos eram livres. (...)”

  Sharbat Gula gostaria de ver o mar e, como aquelas crianças, brincar com as ondas. Queria que o sol novamente refletisse em seus olhos  a cidade que viu quando era menor, mas a cidade estava morta lá atrás e ela não mais via nuvens alvas no céu, formando desenhos como formavam-se, quando seu pai a colocava no colo e dizia que as nuvens eram os colchões dos anjos, e que eles ficavam ali para olhar melhor as crianças que guardavam.As nuvens agora eram escuras. O céu era cinza. Queria falar, mas calava-se.  Deixava que seus olhos falassem por ela, deixava que eles contassem o que via no reflexo da cidade destruída. Cidade nua, pálida, doente. Sua roupa não era mais rasgada e suja que sua dor. Sharbat Gula (a “garota da flor de água doce”, em afegão) não tinha água para beber, a água que via era sangue derramado nas calçadas de cada esquina por onde passava. As flores já não tinham cheiro. As flores secavam. Seu olho de menina perdia a inocência, o olho verde água, diferente da pedra de ágata verde, perdia o brilho. E cantava, cantava, cantava sem ouvir seu canto. Cantava em silêncio, apenas para não ouvir o barulho das bombas. 

 Nota: Conto escrito a partir da  Foto de : Steve McCurry, National Geographic, 1985.
    A MENINA AFEGàSharbat Gula (Garota da flor de água doce)


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O DIA MAIS FELIZ DA MINHA VIDA


A rua estava deserta quando Elisabete caminhava cambaleando, levava uma pequena bolsa com documentos e a carteirinha que marcava as idas para o pré-natal. Tentava chegar ao ponto de ônibus, equilibrando-se no canto dos muros. Cada vez mais, as contrações aumentavam e dificultavam-lhe andar. Um carro aproxima-se, ela dá com a mão, mas é em vão, o motorista aumenta a velocidade e risca impiedosamente o asfalto, deixando para trás a sua angústia. Aos poucos, ela consegue chegar ao ponto e, em meio às dores, medo e angústia, espera a condução. Espera como esperou nove meses por aquele momento, o momento de ter seu filho nos braços. Senta-se no banco e tenta, de alguma forma, acalmar o bebê que está por nascer, e, em meio às lágrimas de dor e medo, fala com seu filho: “Antônio, tenha força, tenha fé. Sei que será um guerreiro forte e honesto. Amo você e você vai nascer saudável. Já passamos um bom bocado, não é mesmo?! Lembra-se do dia em que vi você no ultrassom? Foi o dia mais feliz da minha vida. O doutor falou: ‘É homem.’ Senti um orgulho de mim, um orgulho de você. Seu avô é que iria ficar feliz. Pena que, ano passado, ele morreu no assalto que fizeram ao mercado de seu Jorge. Ele reagiu e levou um tiro no peito. Sua avó, não posso falar. Afinal, logo cedo ela saiu de casa e foi morar com outro homem, que até hoje nunca vi. Eu só tinha treze anos e tive de deixar a escola, fui trabalhar numa casa de família aqui na cidade, é por isso que moro aqui no centro, numa favela, perto da praia. Quando você nascer, vamos tomar banho juntos no mar. Ai, filho! Segura  mais um pouco, o ônibus logo vem. De repente, pode passar um carro, alguém bom que nos ajudará. A vida é assim. Hoje, não consegui fazer a faxina na casa da dona Eugênia, por isso não tenho dinheiro, senão pegava um táxi. Tenha mais calma, sei que você quer ver o mundo e você vai ver. Você vai estudar, quero ver sua formatura. Tomara que seja um professor, eu sempre quis ser professora. Você vai poder abrir os olhos de muita gente por aí. Ensinará a serem bons.”

Nesse instante, Elisabete sente mais dores e chora com medo de ter o filho ali, naquela calçada, às 22h, no meio da rua 24 de março. Luzes clareiam os olhos daquela mulher de rosto simples, cabelos amarrados com uma presilha amarela, usando um vestido bege e casaco marrom, que comprou para o dia em que fosse ao hospital. Mais uma vez, ela pede socorro, mas o carro, apesar de passar lentamente, ignora seu pedido de ajuda. Em meio ao desespero, sem saber bem o que fazer,  vai a um telefone público e liga para o pai da criança, faz sete meses que não se falam. Gilberto calou-se quando soube que ela esperava um filho, simplesmente negou a paternidade e disse que nada tinha a ver com isso, acusou-lhe de ter saído com outros homens. ”Não sou otário, Elisabete, vai dar o golpe da barriga em outro”. E sumiu na vida. Nunca mais a procurara e nunca mais ela o procurou. Mas agora, era diferente, era a vida de seu filho em jogo. Deixou o orgulho de lado e ligou para Gilberto, que não atendeu ao telefone. Já havia ligado três vezes para Rosa, sua vizinha, que era manicure no Salão de Beleza Espaço Mágico que, no momento, era o mais badalado do bairro, mas, hoje, era sexta-feira e ela devia ter saído com o namorado.

Começou a rezar, quando foi surpreendida por Antônio, um catador de materiais recicláveis que, vendo o desespero de Elisabete, sensibilizou-se. Parou seu carrinho e pediu para que ela aguardasse enquanto ele pedia ajuda. Ela sorriu e falou: ”Prometo não sair daqui.” Em pouco tempo, ele estava ali, com um homem baixinho, franzino, que dirigia uma Brasília azul, era seu Joaquim, dono da marcenaria ao lado da casa de Antônio. Enquanto seu Joaquim, rapidamente, dirigia-se à Maternidade Nossa Senhora de Fátima, Antônio acalmava Elisabete, que contorcia-se de dores, mesmo sem saber o que falar, já que não era pai. Ele dizia repetidas vezes que estava rezando, pedindo a Deus e a Nossa Senhora do Parto que a ajudasse. Antônio foi casado durante três anos, até ser largado num dia de domingo por Silvia, que dizia não suportar mais aquela vida de pobreza e juntou-se com um ex-namorado, que, até onde ele sabia, era viciado em drogas e a espancava.

Em menos de uma hora depois, Elisabete dava à luz seu filho. O parto fora rápido e o menino parece que esperou para nascer no lugar certo, no tempo certo. Enquanto ela amamentava seu filho, sorria ao ver que ele nasceu forte e saudável. Lembrou-se do homem que a socorreu e desejava saber se ele ainda estava ali, se tinha esperado para ver seu filho, sentia-se grata e gostaria de vê-lo novamente. Chamou a enfermeira e perguntou sobre o homem, mas, para sua decepção, ele não estava mais no hospital. Elisabete gostaria de poder tê-lo visto novamente. Sentiu um vazio naquela hora, como se aquele momento feliz tivesse deixado um rastro de tristeza, como tudo o que acontecia em sua vida. Mas, seu filho era forte, seu rosto lembrava um pouco o pai, mas isso não importava. Elisabete repetia consigo mesma que ele seria bom como o homem que ajudou-a. Em meio a tantos pensamentos, adormeceu junto à criança, ali, naquela maternidade, no segundo andar. Pela manhã, os raios do sol entravam pela janela e ela conseguiu ver melhor o rosto de seu filho, ainda preocupava-se com a jornada que ambos iriam enfrentar na vida, mas sabia que venceria, tinha determinação e não tinha medo do trabalho. Às 15h, as visitas começaram a chegar e Rosa, ainda com o cheiro de cerveja da noite anterior, entrou entusiasmada. “Como ele é lindo, Bete. A enfermeira me ligou hoje pela manhã e nem acreditei, esse menino inventa de nascer logo na sexta-feira!“ Pegou o menino no colo, com um sorriso carinhoso “Meu afilhado. Você ligou para o pai dele?” Elisabete  entristeceu subitamente o rosto e contou o que aconteceu. Enquanto isso, um homem entra no quarto, usa blusa pólo azul e calça jeans, o cabelo bem penteado para cima e traz uma rosa na mão, que comprou de uma senhora que fica sentada em frente à entrada da maternidade, falando repetidas vezes: “Leve, amor, e ajude uma idosa.” Quando Elisabete o vê, estranhamente sente o coração sorrir. Rosa percebe o olhar da amiga, olha para trás e vê o homem. Ele as cumprimenta sorrindo: “Como está a mãe e o homezinho valente, que queria nascer na rua, olhando as estrelas?” Aproxima-se, pega o menino no colo e desculpa-se por ter ido embora na noite anterior. Elisabete explica que ele não tem que se desculpar, ajudou muito. Fala, apesar de ter sentido sua falta, sabe que ele nem ao menos a conhece. Ele também sabe disso, mas, estranhamente, sente que era o seu dever estar ali. Depois de conversarem um pouco, Rosa, num pretexto de deixá-los sozinhos, diz que vai descer para tomar um lanche. Ele olha Elisabete por alguns minutos, sem ter muito o que falar e pergunta: “Qual o nome da criança?” Ela diz, olhando-o intensivamente nos olhos: “Antônio!” Naquele instante, Antônio olha a criança e segura-a nos braços.

Antônio tem quatro anos e hoje não foi à creche. Pela manhã, junto com a mãe, foi ao centro, ela precisava ir ao médico, aproveitou para levar o filho para brincar no Passeio Público, que ficava próximo ao hospital. À tarde, logo depois do almoço, Elisabete resolveu acompanhar o marido no seu trabalho, queria que ele terminasse mais cedo, para que pudessem ter mais tempo juntos durante a noite. Assim como quando o conheceu, ele trabalhava com reciclagem e, hoje, até o menino quis ir junto, arrumaram-no num lugar em cima das caixas de papelão e levaram-no. Enquanto catavam o que podiam pela frente, o menino ia sentado no meio daqueles papelões, observando aquelas ruas tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes, em que passavam pessoas, também, tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes. Naquelas ruas, onde, em uma delas, ele quase nasceu. Onde sua mãe foi ajudada por um desconhecido que tem o seu nome. Um desconhecido que tem orgulho de responder a quem pergunta-lhe sobre o menino: ”Este é Antônio, meu filho, que encontrei nos meus caminhos de trabalho, noite afora, e que abriu o caminho da minha vida solitária para uma vida feliz.”