sábado, 19 de fevereiro de 2011

GAROTA DA FLOR DE ÁGUA DOCE



 Os olhos de Sharbat Gula falavam por ela. Naquela manhã, a menina dos olhos verdes-água foi fotografada. Ela não tentou arrumar-se, nem esbanjou nenhum sorriso. A guerra, o medo, a fome, a exploração. Tudo isso fazia parte da infância roubada de Sharbat Gula. Morava numa casa simples, dividida entre dois cômodos: a sala que tinha um tapete marrom na entrada, duas cadeiras de madeira escura, que sua avó ganhou trabalhando numa casa de ricos, um pouco antes de ter um derrame e perder a coordenação do lado esquerdo. O fogão e uma pequena mesa, onde faziam as refeições. O outro cômodo era o quarto, onde existiam dois colchões, um em que sua avó dormia e outro que ela dividia com sua mãe. A casa ficava numa aldeia, onde todos, mesmo imensamente pobres, ajudavam-se, dividindo o pouco que tinham uns com os outros. Pela manhã, ela gostava de cuidar das flores que ainda restavam no jardim. E quando era frio e o inverno fazia a alma tremer, ela preocupava-se com o frio nas flores, lá fora. Esquentavam água e colocavam em sacos plásticos para aquecerem os pés. Seu pai foi morto no inverno, durante a guerra. Ele saiu para tentar trazer algo para o almoço, a beijou na testa e falou que os olhos dela ainda iam ser conhecidos em todo o Afeganistão, porque eram duas pedras, eram como a pedra ágata verde. Beijou sua mãe e saiu sorrindo, ela nunca mais viu o sorriso de seu pai e, naquele dia, não teve almoço.  A única coisa que ela tinha dele, era uma fotografia em que estava em pé, ao lado da cerca de madeira e do pé de avelã, sorria e segurava-a no colo. Nas horas vagas, ela gostava de brincar com sua boneca que se chamava Soraya, que ganhou de presente da mãe, no dia em que fez dez anos. Tinha medo do barulho das bombas, sabia que, com o barulho, viriam gritos, choros, dores. Enquanto escutava as explosões, cantava canções que ela mesma inventava, de uma infância que não estava vivendo, cantava na mente, pois tinha medo. Medo do som que sua voz podia fazer, medo que sua voz fosse mais um inimigo. Apenas ouvia os sons da guerra que vinham de todos os lados. Sons que um dia era risos de crianças, mulheres e homens mais velhos que juntavam-se para contar casos deles próprios e histórias fantasiosas. Hoje, eram sons perdidos, eram choros, gritos, angústia, súplicas. Eram sons confusos que alternavam-se entre bombas e barulhos de sinos, que os escravos da guerra carregavam ao andarem. Eram sons religiosos, sons desesperados. Sons que entravam em seus ouvidos, atravessando sua infância, que murchava. Sons que a deixavam muda e que só se refletiam através de seus olhos fortes e assustados.

  Sharbat Gula não entendia a guerra. Não entendia o porquê das pessoas precisarem morrer para haver paz. Ela queria sorrir, mas, às vezes, não conseguia lembrar-se de como era sorrir. A última vez em que sorriu foi para uma jornalista que fazia parte da organização Repórteres Sem Fronteiras, que, aproveitando a temporada no país, ensinou Sharbat Gula a ler. Antes de ir embora, Tereza entregou-lhe um conto que tratava do mar e de crianças que, livremente, brincavam. Seu trecho favorito era:

 “(...) E as crianças, livres na praia, brincavam com as ondas do mar que pareciam participar da brincadeira, trazendo ondas, ora leves, ora fortes. Ondas que as derrubavam e as faziam bolar na areia. Os risos eram intensos. E o mar sorria, e o sol brilhava, e seus raios eram refletidos no rosto de cada um. Não existiam divisões, não existia tristeza, não existia guerra, eram livres, todos eram livres. (...)”

  Sharbat Gula gostaria de ver o mar e, como aquelas crianças, brincar com as ondas. Queria que o sol novamente refletisse em seus olhos  a cidade que viu quando era menor, mas a cidade estava morta lá atrás e ela não mais via nuvens alvas no céu, formando desenhos como formavam-se, quando seu pai a colocava no colo e dizia que as nuvens eram os colchões dos anjos, e que eles ficavam ali para olhar melhor as crianças que guardavam.As nuvens agora eram escuras. O céu era cinza. Queria falar, mas calava-se.  Deixava que seus olhos falassem por ela, deixava que eles contassem o que via no reflexo da cidade destruída. Cidade nua, pálida, doente. Sua roupa não era mais rasgada e suja que sua dor. Sharbat Gula (a “garota da flor de água doce”, em afegão) não tinha água para beber, a água que via era sangue derramado nas calçadas de cada esquina por onde passava. As flores já não tinham cheiro. As flores secavam. Seu olho de menina perdia a inocência, o olho verde água, diferente da pedra de ágata verde, perdia o brilho. E cantava, cantava, cantava sem ouvir seu canto. Cantava em silêncio, apenas para não ouvir o barulho das bombas. 

 Nota: Conto escrito a partir da  Foto de : Steve McCurry, National Geographic, 1985.
    A MENINA AFEGàSharbat Gula (Garota da flor de água doce)


2 comentários:

  1. Muito bom, gostei muito. Adorei a frase: ela preocupava-se com o frio nas flores, lá fora. Muito bem feito

    ResponderExcluir
  2. Obrigada Fábio!Fico feliz que tenha gostado e comentado!! Ótima noite para você!

    ResponderExcluir