segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

ESCOLHA



“O movimento aqui não para”, fala Fátima, enquanto arruma vestidos num manequim, na vitrine da loja.

“Tomara que esteja certa, estou precisando de grana, lá em casa a barra tá feia, minha irmã mais velha engravidou de novo, é mais uma boca para meu pai sustentar.”

“E ela não é casada?”

“Se juntou com um pobretão! Não tem onde cair morto, bebe uma cachaça que só vendo. Eu que não caso com pobre. E agora trabalhando aqui, quem sabe não encontro um ricaço”, falou sorrindo, enquanto olhava seu corpo esguio e com formas bem definidas no espelho.

“Quem sabe! Só tem que tomar cuidado, porque esses caras são cheios de lábia. Enchem o bucho da gente e vão embora.”

Enquanto Fátima falava, Rosana ficou olhando pela vitrine aquela gente toda que passava, gente fina, bem vestida, diferente das pessoas que ela costumava ver no bairro onde morava. A loja ficava na Avenida Beira-mar, em Fortaleza. Junto ao cheiro da brisa, Rosana observava o mar que ia e vinha, naquelas ondas, que batiam nas pedras e deixavam ainda mais bonito aquele lugar. Às 18 horas, quando as portas da loja fechavam-se, ela ia caminhar no calçadão; à noite, tudo parecia mais lindo e o luxo dos hotéis à beira-mar deixavam-na hipnotizada. Imaginava entrar em um daqueles quartos luxuosos, como que seria morar ali? Passavam por ela mulheres com pele que parecia de cetim e os cabelos pareciam nunca embaraçar. Ela olhava seu cabelo amarrado a um rabicó, sua sapatilha modesta e baixa, para que aguentasse o dia inteiro de trabalho árduo, onde ajudava aquelas mesmas mulheres a escolherem roupas e mais roupas. E bolsas, muitas bolsas. Rosana amava bolsas e sapatos. Caminhava um pouco até a Ponte Metálica e ficava observando o mar, aqueles adolescentes que se reuniam para tocar violão, os casais de namorados que faziam juras diante da lua, que era bem mais bonita olhando daquele lado da praia, o cheiro da comida que vinha dos restaurantes, a música. Sabia que aquele mundo não era seu, mas, ela queria aquele mundo. Sentia-se frustrada. Há algum tempo, começou a namorar Luiz, um rapaz simples que morava numa fábrica de confecção, próxima à sua casa. Parecia trabalhador e era apaixonado por ela. Seu pai já pensava no casamento, pertencia a uma igreja e fazia questão das filhas em todos os cultos. Rosana ia contra a vontade, odiava por aqueles vestidos e saias que cobriam seus joelhos. Tinha um corpo belíssimo e queria mostrar. Apesar de fazer a vontade do pai, procurava por saias tão justas que pareciam que iam arrebentar quando sentava-se. Andava bailando, chamava a atenção de todos: homens, mulheres, de quem passasse. Seus cabelos encaracolados, quando soltos, contornavam o rosto com traços delicados. Seus olhos eram mel e faziam um lindo contraste com sua pele bronzeada. Rosava era sorridente, brincalhona, parecia feliz, tinha boas amizades, mas isso não era suficiente para ela. Ela queria mais.

Levava duas horas até chegar em casa, eram três conduções todos os dias. O circular era lotado e muito difícil encontrar lugar para sentar. Não gostava daqueles corpos todos roçando no seu. Os homens, nessas horas, aproveitavam-se e muitas vezes ouvia-se a mulherada xingando. E todos os dias, era aquela rotina. Era um desce e sobe de gente, a buzina dos carros afobados pelo engarrafamento, era o bêbado que subia cantando e cuspindo nos cantos do ônibus, e, ora ou outra, tendo ânsias, era a mulher que vinha do hospital com o filho doente, o homem que usava desodorante vencido, o cobrador que, com a cara mais deslavada, ainda ficava encarando-lhe como se, naquela hora da noite, ela tivesse ânimo para paquerar alguém. Pedia a Deus, em silêncio, que fizesse o tempo correr para chegar em casa e dormir um pouco.

Rosana andava farta, odiava ter que dividir o salário em casa. Principalmente, porque comprava muitas roupas na loja em que trabalhava e, no final do mês, não ganhava quase nada. A mãe sempre reclamava de tantas roupas que ela comprava a toda hora, cada lançamento, ela tirava uma peça para si, ainda que para isso fossem precisos meses e meses de trabalho para pagar. “Tenho direito de me arrumar bem, trabalho para isso. E, além do mais, tem minhas amigas  que se vestem bem e eu não vou ficar por baixo.”

“Amigas? Elas são suas amigas, porque você finge ser do meio delas. Você não tem nada que ficar bancando a rica na beira-mar, no fim de semana. Não cansa de ir para lá o tempo todo?”

Rosana havia conhecido Cibele, num de seus passeios no calçadão. Cibele estava bêbada e ria muito, quando desceu do carro de um amigo e sentou-se ao lado de Rosana, no banco com o salto do sapato quebrado. Um sapato que custava os olhos da cara, reparou Rosana. Cibele tinha vinte e três anos, fazia faculdade de administração, mas era dona de uma irresponsabilidade sem limites. Seus pais tinham boa classe social o que fazia Cibele esbanjar e gastar a toda hora, com tudo, sem preocupar-se com valores. Rosana invejava a vida fácil de Cibele. As duas conversaram por horas e, desde então, marcavam passeios e baladas. Não demorou muito, Rosana estava fumando, bebendo e usando drogas, chamadas leves, por Cibele. Ela tinha que se enquadrar no mundo dela. E foi assim que escolheu, numa noite, onde a lua era amarela como colostro e brilhava por cima do mar, vender o seu corpo. Cibele já fazia isso há algum tempo, dizia que, quando a pensão dos pais não era suficiente, saía com alguns “amigos”. E foi ali, ouvindo o preço do valor da noite, que Cibele recebia em horas de amores pagos, que Rosana viu que o valor do seu dia de trabalho escravo não era nada. Não lembrou dos conselhos do pai. Não lembrou do desgosto da mãe. Não lembrou-se da sua dignidade. Só via o mundo que ela tanto queria, entrando em sua vida. Em forma de roupas, sapatos, bolsas, jóias, restaurantes caros. E que ela já não era mais a moça que observava mulheres elegantes passarem. Ela era observada. A mãe fingia não saber e o pai não sabia mesmo. Mentiu que arranjou emprego, à noite, como garçonete, porque o salário era melhor e queria ajudá-los. E todas as noites ia para sua labuta que, no começo, parecia mais fácil. Mas depois, o cansaço emocional foi ficando maior que o cansaço físico. E foi sentindo falta da voz do bêbado cantando no ônibus, do cheiro do suor de trabalhadores, a criança chorando no colo da mãe. Sua vida agora tinha segredos. A condução que usava cheirava bem e o homem ao seu lado era bem vestido, mas, assim como o frio do ar do carro de luxo, era frio o toque no seu corpo, era frio o olhar de quem a acompanhava. Os risos eram frios. Os abraços eram frios e o desejo era falso. Ela já não dançava com seu corpo ao andar. Seu corpo agora tinha donos. E pagavam a toda hora por ele. Para compensar o vazio da sua alma, levava presentes, muitos presentes, para a mãe. Ela sabia que podia mudar. Ela sabia que podia parar. Mas o desejo de ter era maior que o desejo de ser. E Rosana escolheu. Escolheu ter. E tinha  tudo o que seus olhos anelavam. Certa vez, conheceu um gringo e foi para a Itália. Sentiu-se a mulher mais feliz do mundo. Afinal, seu corpo com belas curvas proporcionava-lhe isso. “O corpo é meu e faço o que quero com ele”, pensava, lutando contra a própria carência de ser amada. De poder se envolver e sentir mais que o fogo de um desejo momentâneo, e pago. Mas sentir o fogo da paixão, do amor, daqueles que estão enamorados. Sentir o fogo interno, o fogo que queima o coração. O fogo que Rosana ainda não sentira. Via muitas meninas, assim como ela, seguirem aquele caminho. Não ficava feliz por elas e ainda aconselhava a desistirem. Mas ela não desistia. E repetia a si mesma: foi a minha escolha e vou viver com ela.

Mudou-se para um pequeno apartamento, que alugou com uma amiga, no centro da cidade. O apartamento era pequeno, mas de muito bom gosto. E apesar do desejo que tinha de morar sozinha, sentiu falta da família. Falta do café da manhã que sua mãe fazia, e sentia-se culpada por mentir. Não levou nada de sua casa, exceto uma boneca de pano feita por sua saudosa avó. O pai não aceitava a situação, mas logo teve de acostumar-se sem a presença da filha em casa. Às vezes, passava finais de semana com a família. Certa vez, levou os sobrinhos à praia, gostava de crianças e da alegria que elas tem. Ficou observando elas brincarem ali, naquele mesmo mar, que algum tempo atrás, ela olhava, através da vitrine da loja em que trabalhava. E as crianças, livres na praia, brincavam com as ondas do mar que pareciam participar da brincadeira, trazendo ondas, ora leves, ora fortes. Ondas que as derrubavam e as faziam bolar na areia. Os risos eram intensos. E o mar sorria, e o sol brilhava, e seus raios eram refletidos no rosto de cada um. Não existiam divisões, não existia tristeza, não existia guerra, eram livres, todos eram livres. Pensativa, pegou as crianças e levou–as para casa, para a proteção de seus lares. Essa noite não foi trabalhar.

O dia amanhece e Rosana olha a rua pela janela estreita de seu quarto. Observa o movimento das pessoas que vem de todo lado da cidade.  Revira as gavetas, separa algumas roupas que já não interessam mais para doar, vai ao salão de beleza, caminha um pouco na praia, compra vestidos novos e volta para casa, quando o sol começa a esconder-se, quando os mistérios da noite chegam com a escuridão. Toma um banho demorado, arruma-se lentamente, escolhendo com detalhe cada peça que vestirá seu corpo perfeitamente modelado. Ao sair, despede-se da amiga:

“ Não tenho hora para voltar.”

“Hum!! A noite vai ser boa, pelo jeito!! Se sua mãe ligar, o que eu falo?”

“ Diz que fui pra guerra.”

E sai, com a beleza estampada em seu corpo, mas com o seu triste segredo, revelado no olhar.


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