segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

MEDO


A tarde despedia-se e eu, junto com dois amigos, caminhávamos aflitos num calçadão em frente ao mar. Sabíamos que alguém nos perseguia, a ansiedade apertava o coração, os passos eram ligeiros, olhávamos para trás compulsivamente.  Aos poucos, nos afastamos do mar, das ondas que falavam idiomas estranhos, do calçadão que ficava mais longo a cada passo que dávamos, dos coqueiros que estavam inertes no meio do caminho. A lua veio misteriosa e agora as estrelas pareciam nos espionar. Entramos numa rua solitária e caminhamos para um abrigo. Ninguém falava nada, o medo ameaçava nos entregar. Encontramos um abrigo, uma casa pequena com portas sem trancas. Não me senti segura ali e me incomodei com o pouco caso que meus amigos fizeram da situação. Pararam, sentaram-se, conversaram e, na rua, lá fora, pessoas nos perseguiam, nos procuravam como condenados. Condenados inocentes de um pecado desconhecido. Eu estava ansiosa, sabia que eles iriam nos encontrar a qualquer momento. Minha respiração inalava o cheiro do medo. Fiquei em pé, achei que era melhor, assim podia correr caso eles nos encontrassem. Não tinha certeza de nada, não sabia de nada, não havia feito nada. Em pouco tempo, minhas suspeitas tornaram-se reais. Chegaram. O acusador veio na frente; depois dele, entraram uns vinte, todos fortes, feras em homens, tinham olhos impiedosos, frios. Nos olhou com olhos de vitória e perguntou como iríamos fugir, sorrindo cinicamente. Levou sua atenção a mim.  Sim, naquela hora eu tremi. Vi que estava perdida e que não tinha como escapar, corri à toa. Agora, meu destino estava nas mãos daquele ser ruim. Chamou um de seus ajudantes, entregou-lhe umas chaves e falou baixo o meu destino. Apenas escutei quando ele disse: “Entregue essa chave para ela, pois está grávida.” Era certo que meu destino estava em suas mãos. O homem aproximou-se, entregou-me as chaves e fez menção para que o seguisse. Fui em passos temerosos por um corredor escuro. Encontramos um carro preto uma, Eco Sport, ele me entregou a chave, dizendo: “Suma daqui.” Entrei no carro, atrapalhada com o que acontecia, eu estava livre, mas aquela liberdade me aprisionava, pois não sabia dirigir. “Como sair dali? Como sumir?” Não sei como consegui, mas com alguns movimentos, fiz o carro locomover-se, movimentos que via os motoristas em suas hábeis mãos repetirem, quando estavam no volante. Peguei uma rua movimentada, tinha carros por todos os lados. Em um momento, rapidamente perdi a direção e subi numa calçada. Agora, estava perdida. “Como voltar ao asfalto?” Desci do carro, pensei em pedir ajuda, mas os carros passavam rápido e desconfiava de todos. Na rua lateral, três sujeitos aproximavam-se. Olharam-me, conversaram entre si. Eram meliantes. No ímpeto, entrei no carro, não tinha muito o que pensar, tinha que dar um jeito e sair dali. Era minha vida, precisava defender-me. Com precisão, dei ré e saí da calçada, voltando para a irônica calmaria do asfalto. Segui algumas quadras, não conhecia o lugar, não sabia onde estava e na verdade nem sabia para onde estava indo. Virei à esquerda e vi duas entradas: uma que ligava ao asfalto e outra que levava a uma estrada de chão, em frente a casas de portas fechadas, mas de luzes acesas. Escolhi esse caminho. Entrei na rua e parei o carro. Encostei-me no banco, respirei fundo e, embora a noite ainda gritasse, senti-me protegida.

Na cama, mudo de posição, abro os olhos, observando que lá fora o sol já chama para a lida. Sento-me e penso no sonho que tive.

ℓ૯ฑฑ૯ Datas 

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