quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

REBECA




Tudo está tão perfeitamente em ordem que Rebeca, por um instante, para e sente vontade de desorganizar. Quem sabe, revirar as colchas da cama, tirar a manta do sofá de tom verde, comprada propositalmente para destacar a moldura do quadro da sala que traz a foto da família. Aparentemente, uma família feliz, as gêmeas Mônica e Rafaela sentadas no colo do pai e Paulo segurando a mão de Rebeca que, como sempre, trazia consigo um sorriso meigo, de mãos dadas, com um olhar triste. Pensou em mexer nos livros, tirá-los do lugar. “Quem sabe, não mudo alguma coisa e, revirando os objetos, reviro minhas dores.” Andou pela casa, observando tudo o que sempre quis e que,  agora, não significa nada do que ela desejara. A parede que tanto ela escolheu as cores para pintar, agora escorre angústias. Vai ao quarto, senta-se na cama e imagina o que poderia ser feito. O cheiro de limpeza está no ar, mas o cheiro de amor que deveria ser encontrado num quarto de casal há muito, sumiu. Rebeca sempre achou que o quarto do casal era como um lugar sagrado, onde o segredo e o pacto dos dois jamais deveria ser corrompido. Agora, perguntava-se: ”Que segredo? Que pacto?” Há um mês, resolveu trabalhar fora como atendente de um consultório médico. O marido passava no fim da tarde e, como sempre, falava o necessário. Ao chegar em casa, fazia o jantar, servia a todos e recolhiam-se, ela não ouvia vozes, nem reclamações, nem nada, era tudo um nada.

Rafaela, geralmente, passava horas com o namorado no telefone. Mônica trancava-se com os livros no seu quarto e Paulo, agora com dezenove anos, não parava em casa. Parecia sempre distante, especialmente do pai, que também nunca se interessou ser amigo do filho. Agora, com quase vinte anos de casada, Rebeca pensa como Roberto ainda é o mesmo. Não interage com ninguém, não fala da sua vida com ninguém. Apenas entra e sai, como quem entra no elevador com estranhos no primeiro andar e no décimo nono sai, sem saber nada deles, nem para onde vão, nem o que fazem, nem seus nomes. Levanta-se devagar e observa-se no espelho, passas as mãos na maçã do rosto e leva até a testa, onde encontra rugas de expressão. Dá um sorriso para ver como fica sorrindo. Não gosta do que vê, se acha velha. Os primeiros fios brancos chegaram e, na luta contra a balança, a balança ganhou. Passou muito tempo tomando remédios para manter o peso, até encontrar Débora, uma ginecologista que se tornou sua amiga e, apesar de nada ter a haver com sua dieta e com seu casamento, e com seu desamor, que era evidente, a incentivou a mudar. Hoje, Rebeca relia novamente as linhas da sua vida, embora fingisse não saber, sabia que era traída e que não era amada. A última vez que pegou, Roberto, traindo-a, resolveu sair, largar tudo. Ir para casa de uma tia que morava no interior, mas como sempre ele ia pegá-la e, nessas horas, falava que a amava. Não entendia Roberto, não se entendia, não entedia seu casamento. Mas parava e olhava a foto das crianças, que agora não eram mais crianças. Sabia que logo mais estaria só com Roberto e tudo ficaria mais vazio ainda. No armário, as roupas pediam socorro, precisavam ser trocadas. Num ímpeto de revolta, rasgou compulsivamente todas as camisolas que comprara para noites que sonhava, rasgava uma a uma, enquanto lágrimas queimavam no seu rosto. Depois, deitou-se no tapete do quarto: infeliz, calada, inerte. O relógio despertou, era hora de fazer a janta. Todos chegariam. Lavou o rosto e foi à cozinha, depois de algum tempo quando todos jantaram e Roberto já se recolhia na cama.  Ela entra no quarto, encara-o por um tempo, ele a olha e, como sempre, nada diz e ela deita-se.

Segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011. Poderia ser uma segunda-feira qualquer, mas o café não está pronto, as torradas não estão na mesa, na cozinha, a louça do jantar ainda espera na pia. Roberto, atordoado, procura Rebeca, é em vão, Rebeca não está ali. No quadro pendurado na sala, um escrito colocado com fitas adesivas, dizia: ”Hoje, faz vinte anos que cuido de suas coisas e também algumas horas que resolvi cuidar de mim.”




Um comentário:

  1. Parabéns Lenne.
    Gosto de tudo que vc escreve.
    Deus abençõe seu talento.
    Bjs.

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