quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O DIA MAIS FELIZ DA MINHA VIDA


A rua estava deserta quando Elisabete caminhava cambaleando, levava uma pequena bolsa com documentos e a carteirinha que marcava as idas para o pré-natal. Tentava chegar ao ponto de ônibus, equilibrando-se no canto dos muros. Cada vez mais, as contrações aumentavam e dificultavam-lhe andar. Um carro aproxima-se, ela dá com a mão, mas é em vão, o motorista aumenta a velocidade e risca impiedosamente o asfalto, deixando para trás a sua angústia. Aos poucos, ela consegue chegar ao ponto e, em meio às dores, medo e angústia, espera a condução. Espera como esperou nove meses por aquele momento, o momento de ter seu filho nos braços. Senta-se no banco e tenta, de alguma forma, acalmar o bebê que está por nascer, e, em meio às lágrimas de dor e medo, fala com seu filho: “Antônio, tenha força, tenha fé. Sei que será um guerreiro forte e honesto. Amo você e você vai nascer saudável. Já passamos um bom bocado, não é mesmo?! Lembra-se do dia em que vi você no ultrassom? Foi o dia mais feliz da minha vida. O doutor falou: ‘É homem.’ Senti um orgulho de mim, um orgulho de você. Seu avô é que iria ficar feliz. Pena que, ano passado, ele morreu no assalto que fizeram ao mercado de seu Jorge. Ele reagiu e levou um tiro no peito. Sua avó, não posso falar. Afinal, logo cedo ela saiu de casa e foi morar com outro homem, que até hoje nunca vi. Eu só tinha treze anos e tive de deixar a escola, fui trabalhar numa casa de família aqui na cidade, é por isso que moro aqui no centro, numa favela, perto da praia. Quando você nascer, vamos tomar banho juntos no mar. Ai, filho! Segura  mais um pouco, o ônibus logo vem. De repente, pode passar um carro, alguém bom que nos ajudará. A vida é assim. Hoje, não consegui fazer a faxina na casa da dona Eugênia, por isso não tenho dinheiro, senão pegava um táxi. Tenha mais calma, sei que você quer ver o mundo e você vai ver. Você vai estudar, quero ver sua formatura. Tomara que seja um professor, eu sempre quis ser professora. Você vai poder abrir os olhos de muita gente por aí. Ensinará a serem bons.”

Nesse instante, Elisabete sente mais dores e chora com medo de ter o filho ali, naquela calçada, às 22h, no meio da rua 24 de março. Luzes clareiam os olhos daquela mulher de rosto simples, cabelos amarrados com uma presilha amarela, usando um vestido bege e casaco marrom, que comprou para o dia em que fosse ao hospital. Mais uma vez, ela pede socorro, mas o carro, apesar de passar lentamente, ignora seu pedido de ajuda. Em meio ao desespero, sem saber bem o que fazer,  vai a um telefone público e liga para o pai da criança, faz sete meses que não se falam. Gilberto calou-se quando soube que ela esperava um filho, simplesmente negou a paternidade e disse que nada tinha a ver com isso, acusou-lhe de ter saído com outros homens. ”Não sou otário, Elisabete, vai dar o golpe da barriga em outro”. E sumiu na vida. Nunca mais a procurara e nunca mais ela o procurou. Mas agora, era diferente, era a vida de seu filho em jogo. Deixou o orgulho de lado e ligou para Gilberto, que não atendeu ao telefone. Já havia ligado três vezes para Rosa, sua vizinha, que era manicure no Salão de Beleza Espaço Mágico que, no momento, era o mais badalado do bairro, mas, hoje, era sexta-feira e ela devia ter saído com o namorado.

Começou a rezar, quando foi surpreendida por Antônio, um catador de materiais recicláveis que, vendo o desespero de Elisabete, sensibilizou-se. Parou seu carrinho e pediu para que ela aguardasse enquanto ele pedia ajuda. Ela sorriu e falou: ”Prometo não sair daqui.” Em pouco tempo, ele estava ali, com um homem baixinho, franzino, que dirigia uma Brasília azul, era seu Joaquim, dono da marcenaria ao lado da casa de Antônio. Enquanto seu Joaquim, rapidamente, dirigia-se à Maternidade Nossa Senhora de Fátima, Antônio acalmava Elisabete, que contorcia-se de dores, mesmo sem saber o que falar, já que não era pai. Ele dizia repetidas vezes que estava rezando, pedindo a Deus e a Nossa Senhora do Parto que a ajudasse. Antônio foi casado durante três anos, até ser largado num dia de domingo por Silvia, que dizia não suportar mais aquela vida de pobreza e juntou-se com um ex-namorado, que, até onde ele sabia, era viciado em drogas e a espancava.

Em menos de uma hora depois, Elisabete dava à luz seu filho. O parto fora rápido e o menino parece que esperou para nascer no lugar certo, no tempo certo. Enquanto ela amamentava seu filho, sorria ao ver que ele nasceu forte e saudável. Lembrou-se do homem que a socorreu e desejava saber se ele ainda estava ali, se tinha esperado para ver seu filho, sentia-se grata e gostaria de vê-lo novamente. Chamou a enfermeira e perguntou sobre o homem, mas, para sua decepção, ele não estava mais no hospital. Elisabete gostaria de poder tê-lo visto novamente. Sentiu um vazio naquela hora, como se aquele momento feliz tivesse deixado um rastro de tristeza, como tudo o que acontecia em sua vida. Mas, seu filho era forte, seu rosto lembrava um pouco o pai, mas isso não importava. Elisabete repetia consigo mesma que ele seria bom como o homem que ajudou-a. Em meio a tantos pensamentos, adormeceu junto à criança, ali, naquela maternidade, no segundo andar. Pela manhã, os raios do sol entravam pela janela e ela conseguiu ver melhor o rosto de seu filho, ainda preocupava-se com a jornada que ambos iriam enfrentar na vida, mas sabia que venceria, tinha determinação e não tinha medo do trabalho. Às 15h, as visitas começaram a chegar e Rosa, ainda com o cheiro de cerveja da noite anterior, entrou entusiasmada. “Como ele é lindo, Bete. A enfermeira me ligou hoje pela manhã e nem acreditei, esse menino inventa de nascer logo na sexta-feira!“ Pegou o menino no colo, com um sorriso carinhoso “Meu afilhado. Você ligou para o pai dele?” Elisabete  entristeceu subitamente o rosto e contou o que aconteceu. Enquanto isso, um homem entra no quarto, usa blusa pólo azul e calça jeans, o cabelo bem penteado para cima e traz uma rosa na mão, que comprou de uma senhora que fica sentada em frente à entrada da maternidade, falando repetidas vezes: “Leve, amor, e ajude uma idosa.” Quando Elisabete o vê, estranhamente sente o coração sorrir. Rosa percebe o olhar da amiga, olha para trás e vê o homem. Ele as cumprimenta sorrindo: “Como está a mãe e o homezinho valente, que queria nascer na rua, olhando as estrelas?” Aproxima-se, pega o menino no colo e desculpa-se por ter ido embora na noite anterior. Elisabete explica que ele não tem que se desculpar, ajudou muito. Fala, apesar de ter sentido sua falta, sabe que ele nem ao menos a conhece. Ele também sabe disso, mas, estranhamente, sente que era o seu dever estar ali. Depois de conversarem um pouco, Rosa, num pretexto de deixá-los sozinhos, diz que vai descer para tomar um lanche. Ele olha Elisabete por alguns minutos, sem ter muito o que falar e pergunta: “Qual o nome da criança?” Ela diz, olhando-o intensivamente nos olhos: “Antônio!” Naquele instante, Antônio olha a criança e segura-a nos braços.

Antônio tem quatro anos e hoje não foi à creche. Pela manhã, junto com a mãe, foi ao centro, ela precisava ir ao médico, aproveitou para levar o filho para brincar no Passeio Público, que ficava próximo ao hospital. À tarde, logo depois do almoço, Elisabete resolveu acompanhar o marido no seu trabalho, queria que ele terminasse mais cedo, para que pudessem ter mais tempo juntos durante a noite. Assim como quando o conheceu, ele trabalhava com reciclagem e, hoje, até o menino quis ir junto, arrumaram-no num lugar em cima das caixas de papelão e levaram-no. Enquanto catavam o que podiam pela frente, o menino ia sentado no meio daqueles papelões, observando aquelas ruas tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes, em que passavam pessoas, também, tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes. Naquelas ruas, onde, em uma delas, ele quase nasceu. Onde sua mãe foi ajudada por um desconhecido que tem o seu nome. Um desconhecido que tem orgulho de responder a quem pergunta-lhe sobre o menino: ”Este é Antônio, meu filho, que encontrei nos meus caminhos de trabalho, noite afora, e que abriu o caminho da minha vida solitária para uma vida feliz.”



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