sábado, 12 de fevereiro de 2011

CANALHA




O vento aborrecido não esperava Helena chegar em casa para acalmar-se, naquela manhã parecia que tudo, tudo estava contra ela. O ônibus estava tão estupidamente lotado, que ela precisava levantar os braços para passar entre os passageiros. “Não tá carregando burro, não, quero chegar vivo”, gritava o homem nos ouvidos de Helena, xingando o motorista, enquanto o suor do seu braço misturava-se com o cabelo dela. A ida até sua casa ainda levaria trinta minutos, todos os dias ela fazia aquele trajeto da loja em que trabalhava como vendedora no centro da cidade, em frente à praça José de Alencar, até o Bairro Jardim de Iracema, onde morava há quinze anos. Helena era separada, ainda sofria com a falta do marido que a deixou, dizendo que não queria continuar com uma “mulher oca”, a chamava assim porque, desde muito tempo, ela fazia tratamento para ter filhos, em vista de um cisto que tinha no ovário e, embora se esforçasse para isso, era em vão. Logo depois da separação, agravou suas crises depressivas. Não confiava em ninguém, não queria ver ninguém, não procurava ninguém. Ainda recebia visitas no fim de semana de José Paulo e Mônica, seus amigos, talvez os únicos que tinha, os mesmos que foram testemunhas de casamento, que ouviam seus lamentos nas noites em que ficava sozinha, enquanto o marido perambulava pelas madrugadas, e os mesmos que testemunharam o fim, o fim de algo que, na verdade, nunca começou. Helena chega em casa, tira os sapatos na entrada, como fazia de costume, para que tudo que trouxe da rua ficasse lá fora, joga a bolsa no sofá, estende o corpo na poltrona, liga a TV, mais para sentir que tem alguém com ela do que para ver o noticiário. E fica ali, no seu mundo, olhando o mundo dos outros, sem nada ouvir, sem nada ver. Apenas pensava no seu dia, no começo do dia quando recebeu uma mulher jovem, elegante e feliz, tão feliz que deixava Helena com inveja daquela felicidade que estava em seus olhos. A moça comprava o enxoval para o casamento, falava animada sobre a festa, os convidados, o bolo que a tia faria, que seria coberto com morangos, porque ela e o noivo adoravam morangos, e enquanto Livia narrava o casamento, Helena oferecia-lhe todos os utensílios de uma casa e vibrava com a comissão que iria ter no final do mês, que possibilitaria a compra de sua máquina de lavar, já que seu tanquinho quebrara no mês passado e, até agora, o dinheiro não sobrara para mandar consertar. Livia escolhia as cores que teriam as cobertas, as cortinas, o tapete da cozinha e Helena lembrava-se do seu casamento, como trabalhou duro para preparar o enxoval. A tia Tereza deu-lhe o ventilador, sim, porque é impossível dormir sem ventilador nesse calor quer ferve os miolos. A mãe comprou um conjunto de panelas pretas, para que não tivesse trabalho em lavá-las e não precisasse ariar. Fez um chá de panela, sim, porque toda moça no bairro fazia um antes de se casar, compraram bebidas, fizeram bolos, salgados e juntaram-se todas, na casa de sua mãe, uns dias antes, para completarem a lista do que faltava. A sogra também foi compartilhar aquele momento que, para Helena, era tão importante, mas nada levara, além dos olhos atentos para observar tudo o que ela falava. O noivo Leandro, pouco ligava para nada, nunca tinha dinheiro e vivia queixando-se que tudo era muito caro. “Helena, compramos o resto quando nos casarmos, não precisamos gastar assim.” Mas Helena queria tudo perfeito, o casamento perfeito, amava Leandro, sonhava com seus filhos, imaginando as meninas nascerem com seus olhos, os olhos dele eram mel e ela adorava olhar a cor dos olhos dele. “Se preocupa não, amor, eu ajudo você, vamos deixar nossa casa, como em contos de fadas, pode ser simples, mas o principal, o nosso amor, não vai faltar.” Helena falava e continuava sua jornada de trabalho, todos os dias trabalhando, lutando, para conquistar o sonho, o sonho da sua vida: casar com Leandro. O casamento foi simples e no começo tudo era relativamente bom. Leandro sempre dava um jeito de faltar ao serviço, não levava nada a sério, se envolvia com jogo e estava sempre pedindo a ajuda de Helena para pagar suas dívidas. Aos poucos, foram se afastando, ela ainda o procurava, queria sair, queria falar com ele, mas é como se falasse sozinha e olhasse para quem não olha, estava só.Tentava engravidar já fazia alguns meses, achava que assim faria com que ele se animasse um pouco mais, tivesse mais responsabilidade, na verdade ele não queria filhos, sabia que o peso no bolso seria maior, mas para não questionar, nada dizia, começou a chegar tarde e já não passava os domingos em casa. Até que um dia chovia, chovia como talvez nunca choveu nas terras quentes de Fortaleza, Helena chegou e encontrou-o arrumando uma bolsa de viagem. Era o fim do casamento e, no desespero, ela chorava e pedia para que ele não a deixasse, ele claramente disse que estava farto e para afastá-la na crueldade daquilo que mais a deixaria no chão, gritou:
“Quero filhos e você não pode me dar, você é oca.” Era como se a mão pesada dos braços fortes de Leandro tocasse o rosto de Helena, melhor se assim tivesse feito, pois sangraria menos a dor no seu peito. Todos os vasos da casa quebraram-se naquele momento. Helena olhou-o por um minuto, como se as lágrimas tivessem secado, embora o coração estivesse em naufrágio e perguntou: “Quem é você?” Sabia que não teria resposta, nunca teve resposta, o que teve foi a sombra de Leandro em cada espaço de sua casa e aquelas palavras que queimavam o seu ventre. Soube que depois de alguns meses ele namorava Marilia, a filha de um advogado que ele conheceu num cursinho de pré-vestibular, que ele disfarçava fazer para estar no meio de pessoas que pudesse tirar algum proveito. Vivia fantasiando uma vida estável no meio de filhinhos de papai, que nada sabiam da vida que esbanjavam, do suor dos pais que, muitas vezes, ao invés de ajudarem, atrapalhavam o desenvolvimento de seus filhos. A casa da sua mãe ele nem visitava mais, a não ser quando precisava de dinheiro, logo após perder alguma partida de um jogo qualquer. Mas Helena o amava e ainda ansiava pelo dia que ele mudasse, e ainda imaginava sua filha com os olhos de mel. Mel como os olhos do pai. “Moça”, chamou Livia por Helena, logo ápos de escolher o último ultensílio para seu enxoval, ”pode ir até ao caixa, que levo suas coisas.” A moça foi, como quem cantava ao andar, feliz, falava ao celular com o noivo, quando foi surpreendida por ele, por trás, chegando na loja, abraçando-a e beijando-a na nuca, num gesto carinhoso, enquanto ela sorria, desligando o celular. Helena arrumava os embrulhos, escutou a voz, aquela voz era familiar. Lívia, sorrindo, fala: “Veja, é meu noivo, Leandro.” Helena solta os pacotes, com os olhos marejados, encara-o e solta, como por impulso, a única palavra que sua mente, naquele instante, conseguiu enxergar: “CANALHA!”

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