segunda-feira, 30 de maio de 2011

EU NÃO IMAGINAVA



Eu não imaginava que seria assim. E quem imagina? Como algo que chega de uma hora para outra e cerca seus caminhos com flores, de repente vira seu maior tormento? “Penso sempre em você.” Você escuta esta frase e  vai as nuvens. Passam dias, meses e você acha que é para sempre. Mas você esquece que essas palavras te levaram as nuvens e nuvens realmente passam. E nessa hora é que você diz: “Eu não imaginava que seria assim”. Mas é. E agora? Agora é encarar, lutar contra si e seu ego entristecido. É hora de se erguer. Não adianta lamentações, chorar noites e noites, não comer, não beber, não conversar. Não adianta viver a vida de quem quis sair da sua vida. Imaginar se ele ou ela pensa em você. Se é jogo que está fazendo. Não adianta nada disso. Agora é hora de dizer “Eu não imaginava, mas é assim. Essa é a realidade”. E a melhor forma de lutar contra o labirinto escuro e solitário que você se encontra é ascendendo à luz que você tem em você. É hora da virada. Hora de se amar, de sair, sorrir, conversar. Fazer tudo o que você não quer fazer. Hora de lutar contra a vontade de esconder-seÉ hora na verdade de lutar por nós mesmos. E essa luta não é fácil, mas é possível vencê-la. Nunca diga que perdeu o sentido da vida ou que não pode viver sem A ou B. Você pode você está viva e sua vida tem sentido. Quando a dor for tanta que você parece não agüentar, pare um pouco e procure um lugar  seu e lave sua alma, chore com você. Reconheça seus erros, mas veja suas virtudes. Depois faça acontecer, caminhe com sua melhor roupa e vários amigos do lado. Você não imaginava que seria assim. Então não deixe que seja. Mude e faça o melhor por você. Regue sua alma com o arco-íris que vem depois da tempestade e colha flores coloridas.

Lene Dantas


quarta-feira, 18 de maio de 2011

POLTRONA AVELUDADA




Ando com medo das paredes ao redor
Meia volta na esquina e tudo está ali
Na minha frente um carro abre a porta
Pessoas parecem trombar em mim
Qual o preço de se viver?
Tenho andado perdida na minha cidade
Tenho visto tudo embaçado demais
O farol dos carros não acende não acende
E não sei se consigo achar o caminho de casa
Quantas vezes andei sozinha por aqui
Este caminho era meu
Você ainda lembra?
Ainda lembra que percorreu essa trilha comigo?
Teve um tempo que nossas casas eram vizinhas
De andares distantes
E a minha companhia era o pouso leve
De uma canção em meu peito
Hoje vejo a vela acesa na minha frente e não sei se devo apagá-la
A brisa vem e vai e continua indo e vindo
O sol é vivo e esquenta meu corpo frio
À noite eu queria esse sol
Como eu queria tocá-lo
Será que me queimaria com sua presença irradiante?
O relógio já passa das dez e eu não tô nem ai se está tarde
Se a rua está vazia se o perigo me acompanha
Não tô nem aí para nada mas estou ligada em tudo e vejo que dois Olhos me observam de longe
Escondido por trás das árvores do jardim que já está adormecida
Finjo que não vejo e caminho
Caminho com passos leves sigo em direção a tudo
Que quero mas que nem sei se quero
Pretendo perguntar ao coração essa noite e pretendo que ele me Responda
Espero que ele não me traia mais uma vez.
Espero que as palavras sejam verdade que o amor seja sincero e que a Vida mostre-se como um arco-íris para mim
Talvez mais tarde eu pare e der risada disto tudo
È mais tarde vou sentar na cama e pensar em você antes de adormecer E depois vou rir de tudo isso
Será que você estará sorrindo aí do seu lado?

Do lado de cá. Eu vou sorrir e vou caminhar no amanhecer, em jardins floridos e abertos. Não quero prisões e não quero ordens. Quero a liberdade de uma criança que canta na calmaria do dia e fala com seus brinquedos. Já falei com meus brinquedos e ainda falo, apenas os brinquedos mudaram de tamanho, ainda sou criança e tenho em mim a vontade de correr, pular, dançar e sorrir, sem medo de ser ignorada.

“Ontem, tinha vaga naquele castelo ali”, disse a amiga que caminhava ao meu lado.

Parei e olhei o castelo de perto.

“É um castelo muito bonito”, ela continuou. “Cheio de histórias encantadas. Acredita em anjos, fadas?! Pois, quando você entrar nesse castelo, vai encontrar tudo isso. Você quer?”

Olhei para ela, ainda sem acreditar no que dizia e, na verdade, não sabia se ainda acreditava em anjos e fadas. Será que era mesmo ainda uma criança? Será que perdi o doce sabor de imaginar?

Caminhei devagar e, aos poucos, aproximei-me do castelo, olhei-o por alguns minutos e tive medo. Voltei e continuei caminhando na rua, mas fui pensando se existiam mesmo fadas e anjos. Entrei, então, numa rua cheia de portas — engraçado como portas me chamam a atenção. Fiquei pensando em qual porta deveria entrar. Geralmente, sempre vou à do meio, gosto dos centros, é como se aquilo que estivesse no alto e no meio, dissesse que meu lugar é ali. Entrei.

A porta fez um pequeno barulho quando abri, aquele rangido que assusta e, quando dei por mim, encontrei um oásis. Como era lindo tudo aquilo, como havia flores, como as pessoas sorriam e todas olhavam-me com afeto! Aos poucos, fui me sentindo íntima daquele lugar, ele era meu, eu abri a porta certa, mas o castelo ainda me incomodava. Por que eu não entrei naquele castelo? Fiquei ali alguns instantes e, aos poucos, todos foram para casa, a árvore dormiu, o lago dormiu e a lua escondeu-se atrás da nuvem. Fiquei só e palavras começaram a vagar na minha mente, não sabia o que fazer, nem sabia se ali era meu lugar.

“Levanta e procura um novo caminho”, disse minha amiga mais uma vez. “Não fica aí, deitada, não, aproveita que ainda conhece a saída e vai.”

Eu fui.

Voltei pelo mesmo caminho e, ao passar pela porta, era dia, vi as outras portas que me esperavam, mas elas não me chamaram a atenção e voltei ao castelo. Entrei.

As paredes eram de marfim, havia uma mesa farta de frutas; na mesa, pratos, talheres e taças para beber. Percebi que alguém morava ali e fiquei apreensiva de não ser bem-vinda. Chamei. Não houve resposta. Engraçado! Ele estava preparado para receber alguém, mas era abandonado. Por que seu dono arrumou tudo tão delicadamente, se não estava ali para receber quem chegasse? Percorri toda a sala e os quadros olhavam-me, a sensação é que eles falavam entre si. Ainda não vi anjo, nem fada. Olhei as escadas e o desejo de subir ao outro andar tomou conta de meus pés, que caminharam em direção à escada. Sempre gostei de subir escadas, quando era criança costumava brincar nas escadas rolantes, nas lojas, o prazer não era tanto ver o que estava lá em cima, era subir, tanto que logo que subia, descia novamente e voltava a subir. Subi.

O quarto estava com a porta encostada, aos poucos empurrei e encontrei uma biblioteca cheia de livros, havia tantos livros, que parecia não ter fim. Não sabia o que escolher. Tomei em minhas mãos um livro grande e, quando olhei a capa, percebi que já o havia lido, repeti então para mim mesma que aquele livro já havia lido e caminhei no meio daquelas estantes cercadas de histórias, com heróis, com vilões, e foi aí que lembrei-me do que minha amiga falou, encontraria anjos e fadas. Os romances falam de anjos e fadas. Peguei um livro na mão, pequenino, delicado e abri-o. Sentei na poltrona aveludada, ao lado das prateleiras. Como era confortável, dava vontade de dormir, mas queria ler! Comecei a leitura e a história era tão singela. Começou com um choro de um bebê suave, a mãe apaixonada acalentava aquele bebê com gestos cândidos. A lua estava sorrindo quando ela nasceu e todos os familiares faziam festa e cantavam canções de bem-aventurança. A menina tinha olhos gentis e logo que alguns anos passavam, ela sentava-se numa poltrona confortável e lia histórias de anjos e fadas. Um dia, quando cresceu e sentia-se só, foi ao mar e olhou a lua, e chorava, e olhava a lua. A lua sempre sorria para ela e cantava uma canção de ninar, que dizia para ela sorrir. Ela levantava-se e seguia, mas ainda não sabia ao certo pra onde ir, caminhava em becos, ruas, avenidas e corria perigos, mas seguia procurando por suas portas. Às vezes, saía às ruas e trombava nas pessoas; às vezes, seu coração era machucado e ela olhava a lua e a lua sorria para ela, e ela continuava. Um dia, encontrou um castelo em que relutou entrar, mas voltou e percorreu o castelo em busca de anjos e fadas, encontrou um quarto com muitos livros, muitos livros, e a certa hora pegou um livro pequeno, e recostou-se numa poltrona aveludada, com o tom forte do rosa choque, começou a ler a história, apesar do sono, em certa página olhou para o livro e encontrou páginas em branco, nas outras encontrou apenas sinais que indicavam a necessidade da continuação, virou a página e encontrou .........................................................................

Virei a página e encontrei.................................................................

Nesse momento, parei e olhei para mim. Minha amiga olhou-me nos olhos e disse:

“Essa é sua história, escreva-a.”


segunda-feira, 9 de maio de 2011

SONO



“Talvez, hoje eu não seja a mesma, é, talvez, hoje eu não consiga expressar o que realmente desejo”, escrevia enquanto o choro avassalador do bebê, na casa vizinha, tirava o sossego da sua solidão. Avassalador talvez fosse um termo muito forte, pensava. Mas, desde que os vizinhos novos chegaram, ela perdera todo sossego, o casal era jovem e aparentemente normal. Já na primeira noite, escutou barulhos que duraram a madrugada inteira; a casa, que até o fim do mês estava abandonada, de repente parecia ser tomada por uma avalanche de pessoas desnorteadas. Quantas pessoas, afinal, havia naquela casa?! Quando chegaram, eram quatro. O homem, jovem, vinte e seis anos, com um aspecto calmo e gentil. A mulher mais jovem, ainda com dezenove anos, trazia o filho caçula de apenas seis meses no colo, enquanto o mais velho, de aproximadamente três anos, empurrava um carrinho e imitava o som da buzina como se ninguém estivesse ali, como se sempre estivessem ali, como se tudo agora fosse deles, inclusive o sossego do sono dela. Na primeira madrugada, o casal discutiu e mesmo que ela não quisesse, soube do motivo do casamento, dado pela gravidez do mais velho, da renite alérgica do filho caçula e dos problemas que ela temia que ele tivesse, já que tomou remédio para abortar de comum acordo com o marido. Soube que ele tinha uma loja de variedades, mas que ainda no momento não tinha condição financeira de pagar um aluguel, de manter as despesas da casa, de comprar o leite dos filhos, de forma que a mãe dele, que o criou como um jovem babaca e mimado, pagava todas as contas, inclusive as fraldas descartáveis do neto, que acabaram e que a mulher, repetidas vezes, gritava que não queria fraldas vagabundas, mas da marca Pampers, pois eram melhores e o filho merecia todo conforto. A mulher casou-se um pouco por amor, um pouco pelo dinheiro da sogra, que vivia confortavelmente depois que o marido morreu deixando-lhe uma gorda pensão. Até aí, tudo bem, mas Márcia não consegue concentrar-se na escrita e nem poderia dormir com aquele coro de alienados. A vontade era gritar e mandar aquela gente insuportável e mal educada calar a boca, ou bateria na parede, na verdade esmurraria a parede para que eles percebessem que incomodavam. E o tempo passava, e cada vez falavam mais alto, e aquele menino de três anos... Como aquele menino de três anos estava acordado às três da manhã? Perguntava-se, enquanto escutava a voz da mãe dele, meio irritada, meio chorando. “Lucas, vai dormir.” Suspirou aliviada. Pronto, ele vai dormir. De repente, mais uma vez ele empurrava o maldito carrinho e fazia barulhos de trânsito, lembrando-lhe que ela enfrentaria um trânsito de duas horas e meia até chegar ao trabalho e ainda teria de enfrentar, no caminho, a amiga que rachava com ela a gasolina que gastava no fim do mês, com o trajeto diário, a amiga que não era bem amiga, era a companheira do carro, aquela que morava na mesma direção, que sorria e fingia ser amiga, mas que sempre estava interessada em contar vantagem e falar da filha de trezes anos, que já fazia curso de música e que só tirava notas altas na escola, e contava isso com um sorriso absurdamente cruel e realizado. Sabia que, ao contrário, seu filho Alex, de treze anos, não fazia nada na escola, além de fingir que escutava as aulas enquanto desenhava sossegadamente todos os super-heróis que assistia pela manhã toda, na televisão. Agora, o pensamento de Márcia levava-a a um sossego da alma, a um sossego silencioso, que fazia-a começar a sonhar e, no sonho, via que adormecia, porque as pálpebras de seus olhos involuntariamente fechavam-se sozinhas, inconscientemente foi até a cama, pegou as cobertas e aconchegou-se, deitando-se de lado. O despertador, alerta e cruel, anunciou-lhe o inicio do dia, seu rosto era cansado e as olheiras mostravam o resultado da noite perdida, ainda levou meia hora no banheiro, tentando realmente pôr-se de pé e conseguir escovar os dentes com o aparelho que exigia cuidados, sua pele branca era de um vermelho irritado, pensava na criança, na voz da mãe e sentia raiva; como uma boa virginiana, sabia que se aquilo continuasse, a qualquer momento teria um confronto com a pirralha que brincava de ser mãe. Dirigiu-se ao carro e as ruas pareciam mais escuras, o dia era frio e a amiga entrara sorrindo no carro e, hoje, ao invés de ouví-la, ela falou e relatou o terror de sua noite, repetia mil vezes que achava que o casal era normal e que era até bom ter vizinhos, já que ali passou tanto tempo desocupado, pensava na segurança do filho nas tardes que ficava sozinho, já que ainda não conseguiu a vaga no curso de pintura, que convenceu-o a fazer, até achava que ele não tinha nenhuma vocação para pintura, mas isso o manteria ocupado e o impediria de ficar à solta pelo pátio do condomínio, pois ele tinha uma vocação para quebrar-se e, em menos de um ano, já quebrara a perna direita e o braço. Fingia ser dura com ela, com a vida e com o filho, mas sabia dos medos e anseios que carregava, mas que apesar deles nunca desistiu de ser o que desejava e ter sua independência. Casou-se jovem com um idiota que ganhava a vida fingido que trabalhava, apostando no jogo do bicho e pedindo dinheiro emprestado. Logo, separou-se, sim, era uma vencedora, mas ainda precisava cuidar do futuro do filho e dos novos vizinhos. Em casa, à noite, resolveu dormir mais cedo, até porque o sono não a deixou segurar as próprias pernas em pé. Deitou-se confortavelmente e relaxou, essa noite tudo se acalmara. Até que o menino começou com o barulho do carro e a mãe a choramingar para que ele deitasse, enquanto o mais novo soltava chorinhos de bebê, que ela estranhamente achava lindos, mas que agora parecia uma canção de um disco velho e arranhado. Coçou a cabeça, levantou-se e tentou dormir na sala, mas não encontrando posição no sofá, voltou ao seu quarto e os dois continuavam com aquela conversa absurda do preço do perfume, do absorvente, do arroz que acabou, da conta do aluguel e do ciúme que ela sentia da nova vendedora da loja. A essa altura, ela começou a vestir-se e pensou em dirigir-se à casa dele e pedir para que falassem mais baixo, afinal, ele era um rapaz educado e certamente ouviria seu pedido, até porque ela não desejava chamar a polícia e assim não criar problema com eles, já que acabaram de chegar ali. Tomou a decisão e já estava para abrir a porta, quando ouviu ele bruscamente mandar a mulher calar a boca e ameaçá-la, esperou resposta da mulher, mas apenas o que ouviu foi o sussurro baixo, como de uma criança pedindo para ele parar. Nesse instante, viu aquela jovem apenas como uma criança indefesa e o carrinho que o menino empurrava parou, foram trocados por choros altos e intranquilos. Sentou-se e esperou o dia amanhecer.

A semana passou estupidamente lenta demais e as madrugadas repetiram-se. Márcia andava irritada, aproveitou o fim de semana para especular de outros vizinhos o que achavam dos novos moradores, todos reclamavam, as mulheres que já conversaram com a mulher diziam que ela tinha mania de grandeza, que se referia ao marido como “o amor”, mas que, na verdade, notava que ele era um sujeito frio e que pouco ligava para ela. Márcia sorria ironicamente por saber melhor do que ninguém daquele casal, da sua história medíocre, e todos repetiam o que ela escutava nas madrugadas, sem saberem bem o porquê de tantas discussões, mas ela sabia, sentia até certa satisfação de saber, pois mesmo quando diminuíam o som da voz, do seu quarto era tudo muito claro, pois o silêncio da madrugada fazia ecos nos seus ouvidos. De acordo, tomaram uma decisão de avisar a imobiliária responsável pela casa, feito isso, esperou na noite de sábado o repouso desejado, mas o que encontrou foi uma grande festa de aniversário da mãe do rapaz, carros foram estacionando e tomando todo o lugar do pátio. Seria mais uma noite de terror? Se bem que, hoje, certamente eles parariam com a algazarra mais cedo, já que foram delatados. Isso não aconteceu. Às duas e meia da manhã, a festa ainda tomava conta da casa e o barulho era insuportavelmente maior, a mãe do rapaz estava bêbada e dava gargalhadas que brindavam com um eco, sons azucrinantes. Márcia levantou-se e esmurrou a parede com força, esperava que eles percebessem que incomodavam e perceberam, mas não se calaram, ao invés disso repetiram as batidas na parede. Foi ao banheiro e no armário encontrou tampões de ouvido que a irmã esquecera ali, no domingo passado, quando almoçaram juntas, colocou-os e dirigiu-se ao quarto. Nada, não escutou nada, nunca pensou sentir-se feliz por não ouvir, mas hoje se sentia assim. Deitou-se, cobriu-se e dormiu o sono dos inocentes.