segunda-feira, 9 de maio de 2011

SONO



“Talvez, hoje eu não seja a mesma, é, talvez, hoje eu não consiga expressar o que realmente desejo”, escrevia enquanto o choro avassalador do bebê, na casa vizinha, tirava o sossego da sua solidão. Avassalador talvez fosse um termo muito forte, pensava. Mas, desde que os vizinhos novos chegaram, ela perdera todo sossego, o casal era jovem e aparentemente normal. Já na primeira noite, escutou barulhos que duraram a madrugada inteira; a casa, que até o fim do mês estava abandonada, de repente parecia ser tomada por uma avalanche de pessoas desnorteadas. Quantas pessoas, afinal, havia naquela casa?! Quando chegaram, eram quatro. O homem, jovem, vinte e seis anos, com um aspecto calmo e gentil. A mulher mais jovem, ainda com dezenove anos, trazia o filho caçula de apenas seis meses no colo, enquanto o mais velho, de aproximadamente três anos, empurrava um carrinho e imitava o som da buzina como se ninguém estivesse ali, como se sempre estivessem ali, como se tudo agora fosse deles, inclusive o sossego do sono dela. Na primeira madrugada, o casal discutiu e mesmo que ela não quisesse, soube do motivo do casamento, dado pela gravidez do mais velho, da renite alérgica do filho caçula e dos problemas que ela temia que ele tivesse, já que tomou remédio para abortar de comum acordo com o marido. Soube que ele tinha uma loja de variedades, mas que ainda no momento não tinha condição financeira de pagar um aluguel, de manter as despesas da casa, de comprar o leite dos filhos, de forma que a mãe dele, que o criou como um jovem babaca e mimado, pagava todas as contas, inclusive as fraldas descartáveis do neto, que acabaram e que a mulher, repetidas vezes, gritava que não queria fraldas vagabundas, mas da marca Pampers, pois eram melhores e o filho merecia todo conforto. A mulher casou-se um pouco por amor, um pouco pelo dinheiro da sogra, que vivia confortavelmente depois que o marido morreu deixando-lhe uma gorda pensão. Até aí, tudo bem, mas Márcia não consegue concentrar-se na escrita e nem poderia dormir com aquele coro de alienados. A vontade era gritar e mandar aquela gente insuportável e mal educada calar a boca, ou bateria na parede, na verdade esmurraria a parede para que eles percebessem que incomodavam. E o tempo passava, e cada vez falavam mais alto, e aquele menino de três anos... Como aquele menino de três anos estava acordado às três da manhã? Perguntava-se, enquanto escutava a voz da mãe dele, meio irritada, meio chorando. “Lucas, vai dormir.” Suspirou aliviada. Pronto, ele vai dormir. De repente, mais uma vez ele empurrava o maldito carrinho e fazia barulhos de trânsito, lembrando-lhe que ela enfrentaria um trânsito de duas horas e meia até chegar ao trabalho e ainda teria de enfrentar, no caminho, a amiga que rachava com ela a gasolina que gastava no fim do mês, com o trajeto diário, a amiga que não era bem amiga, era a companheira do carro, aquela que morava na mesma direção, que sorria e fingia ser amiga, mas que sempre estava interessada em contar vantagem e falar da filha de trezes anos, que já fazia curso de música e que só tirava notas altas na escola, e contava isso com um sorriso absurdamente cruel e realizado. Sabia que, ao contrário, seu filho Alex, de treze anos, não fazia nada na escola, além de fingir que escutava as aulas enquanto desenhava sossegadamente todos os super-heróis que assistia pela manhã toda, na televisão. Agora, o pensamento de Márcia levava-a a um sossego da alma, a um sossego silencioso, que fazia-a começar a sonhar e, no sonho, via que adormecia, porque as pálpebras de seus olhos involuntariamente fechavam-se sozinhas, inconscientemente foi até a cama, pegou as cobertas e aconchegou-se, deitando-se de lado. O despertador, alerta e cruel, anunciou-lhe o inicio do dia, seu rosto era cansado e as olheiras mostravam o resultado da noite perdida, ainda levou meia hora no banheiro, tentando realmente pôr-se de pé e conseguir escovar os dentes com o aparelho que exigia cuidados, sua pele branca era de um vermelho irritado, pensava na criança, na voz da mãe e sentia raiva; como uma boa virginiana, sabia que se aquilo continuasse, a qualquer momento teria um confronto com a pirralha que brincava de ser mãe. Dirigiu-se ao carro e as ruas pareciam mais escuras, o dia era frio e a amiga entrara sorrindo no carro e, hoje, ao invés de ouví-la, ela falou e relatou o terror de sua noite, repetia mil vezes que achava que o casal era normal e que era até bom ter vizinhos, já que ali passou tanto tempo desocupado, pensava na segurança do filho nas tardes que ficava sozinho, já que ainda não conseguiu a vaga no curso de pintura, que convenceu-o a fazer, até achava que ele não tinha nenhuma vocação para pintura, mas isso o manteria ocupado e o impediria de ficar à solta pelo pátio do condomínio, pois ele tinha uma vocação para quebrar-se e, em menos de um ano, já quebrara a perna direita e o braço. Fingia ser dura com ela, com a vida e com o filho, mas sabia dos medos e anseios que carregava, mas que apesar deles nunca desistiu de ser o que desejava e ter sua independência. Casou-se jovem com um idiota que ganhava a vida fingido que trabalhava, apostando no jogo do bicho e pedindo dinheiro emprestado. Logo, separou-se, sim, era uma vencedora, mas ainda precisava cuidar do futuro do filho e dos novos vizinhos. Em casa, à noite, resolveu dormir mais cedo, até porque o sono não a deixou segurar as próprias pernas em pé. Deitou-se confortavelmente e relaxou, essa noite tudo se acalmara. Até que o menino começou com o barulho do carro e a mãe a choramingar para que ele deitasse, enquanto o mais novo soltava chorinhos de bebê, que ela estranhamente achava lindos, mas que agora parecia uma canção de um disco velho e arranhado. Coçou a cabeça, levantou-se e tentou dormir na sala, mas não encontrando posição no sofá, voltou ao seu quarto e os dois continuavam com aquela conversa absurda do preço do perfume, do absorvente, do arroz que acabou, da conta do aluguel e do ciúme que ela sentia da nova vendedora da loja. A essa altura, ela começou a vestir-se e pensou em dirigir-se à casa dele e pedir para que falassem mais baixo, afinal, ele era um rapaz educado e certamente ouviria seu pedido, até porque ela não desejava chamar a polícia e assim não criar problema com eles, já que acabaram de chegar ali. Tomou a decisão e já estava para abrir a porta, quando ouviu ele bruscamente mandar a mulher calar a boca e ameaçá-la, esperou resposta da mulher, mas apenas o que ouviu foi o sussurro baixo, como de uma criança pedindo para ele parar. Nesse instante, viu aquela jovem apenas como uma criança indefesa e o carrinho que o menino empurrava parou, foram trocados por choros altos e intranquilos. Sentou-se e esperou o dia amanhecer.

A semana passou estupidamente lenta demais e as madrugadas repetiram-se. Márcia andava irritada, aproveitou o fim de semana para especular de outros vizinhos o que achavam dos novos moradores, todos reclamavam, as mulheres que já conversaram com a mulher diziam que ela tinha mania de grandeza, que se referia ao marido como “o amor”, mas que, na verdade, notava que ele era um sujeito frio e que pouco ligava para ela. Márcia sorria ironicamente por saber melhor do que ninguém daquele casal, da sua história medíocre, e todos repetiam o que ela escutava nas madrugadas, sem saberem bem o porquê de tantas discussões, mas ela sabia, sentia até certa satisfação de saber, pois mesmo quando diminuíam o som da voz, do seu quarto era tudo muito claro, pois o silêncio da madrugada fazia ecos nos seus ouvidos. De acordo, tomaram uma decisão de avisar a imobiliária responsável pela casa, feito isso, esperou na noite de sábado o repouso desejado, mas o que encontrou foi uma grande festa de aniversário da mãe do rapaz, carros foram estacionando e tomando todo o lugar do pátio. Seria mais uma noite de terror? Se bem que, hoje, certamente eles parariam com a algazarra mais cedo, já que foram delatados. Isso não aconteceu. Às duas e meia da manhã, a festa ainda tomava conta da casa e o barulho era insuportavelmente maior, a mãe do rapaz estava bêbada e dava gargalhadas que brindavam com um eco, sons azucrinantes. Márcia levantou-se e esmurrou a parede com força, esperava que eles percebessem que incomodavam e perceberam, mas não se calaram, ao invés disso repetiram as batidas na parede. Foi ao banheiro e no armário encontrou tampões de ouvido que a irmã esquecera ali, no domingo passado, quando almoçaram juntas, colocou-os e dirigiu-se ao quarto. Nada, não escutou nada, nunca pensou sentir-se feliz por não ouvir, mas hoje se sentia assim. Deitou-se, cobriu-se e dormiu o sono dos inocentes.


Um comentário:

  1. Lindo blog, não todos os textos é preciso voltar. Li os versos.Parabéns

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