sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A ROSA






Um pouco ali, adiante, caminha uma mulher. Ela vem devagar, seu vestido é branco, longo, está descalça. Tem ingenuidade e pureza, seu sorriso é terno e o brilho do seu olhar encanta. Ela para, olha o jardim ao redor, pega uma rosa, uma rosa branca, cheira, suspira e segue seu caminho, com aquela rosa na mão. O jardim ao seu redor tem muitas rosas, tem borboletas, tem vida. Está ao seu alcance escolher a estrada que quiser andar, naquele jardim que mais parece um labirinto. Mas ela nem pensa nisso, continua caminhando. Agora, duas crianças brincam ao seu redor, isso a faz sorrir. Elas cantam o canto da felicidade, ela abaixa e as abraça. Levanta, olha para a rosa em sua mão e coloca a mão no seu coração, o suspiro é demorado, aguarda ansiosa a chegada de alguém que preencha esse espaço guardado dentro dela. Ainda longe, se aproxima um homem. Ele a olha e sorri, a roupa dele é azul, e na blusa alguns bordados; no bolso, o desenho de algumas estrelas. Ele aproxima-se, vem com passos rápidos e firmes na direção que ele escolhera. Os dois agora se olham muito próximos, ele vê a delicadeza de seu rosto juvenil, o jeito de menina querendo amar. Entrega-lhe, dentre as rosas, uma rosa de cor rosa tão rosa que suas pétalas chegam a parecer vermelhas. Ela aceita e cora o rosto. Em sua mão, agora, mistura-se a cor da Rosa branca e da Rosa rosa. Caminham como que flutuando entre o jardim. De repente, eles trocam de lado e, ao trocarem a Rosa de cor rosa, espeta o meio de sua mão, ela vê aquele sangue e estica suas mãos em direção dele, pedindo ajuda, o espinho entrou profundamente. Ele vê. Mas não puxa aquele espinho. Segura a rosa e a parte ao meio, separando o espinho largado na mão dela com o galho e o restante da rosa que ficou em suas mãos agora. Ela o olha e mostra na palma de sua mão o espinho, o olhar já não é feliz, sua expressão vai ficando triste e vazia, o queixo treme, a lágrima desce compulsivamente, tamanha a dor. Ele olha novamente, faz um gesto de descaso. Pega o colarinho da blusa, ajeita no pescoço, dá uma olhada na rosa que está em sua mão e sai. Ela, ali, com a mão sangrando, atordoada, chorava água com sal. Ajoelha-se e seu vestido, antes branco, começa a transformar-se em beje; os olhos brilhantes perdem a luminosidade e as crianças que passam brincando já não deixam sensações felizes. Ele continua seu caminhar, logo depois de alguns passos, já distante, olha para trás e a vê ali, caída, ele não vê mais a graça, nem a beleza, não vê mais o brilho no olhar e olha novamente para a frente. Antes, pega outra rosa, uma rosa de cor tão rosa que parece vermelha, e segue. Ela levanta-se ainda cambaleando e procura outro caminho, cabisbaixa, olhos tristes. Vez por outra, observa o espinho em sua mão e cada vez que olha sua roupa escurece, os olhos perdem mais o brilho, o cabelo arrumado tão caprichosamente, agora, já soltos, largados ao vento, mas, mesmo assim a fazem bela e, ao longe, um homem de roupas claras, beje como as dela, a observa, ele aproxima-se. Segura seu queixo, o ergue e a faz sorrir, ele olha sua mão com o espinho enfiado e tenta arrancá-lo e, quando ele está prestes a conseguir, ela o impede, não consegue permitir arrancar o espinho que a maltrata, ela pensa ser a única lembrança do homem que abriu os seus olhos para o amor. Olha calmamente o homem de beje, que também segura uma rosa, mas por trás de si, e ela não consegue enxergá-la. Ele faz gesto de mostrar-lhe aquela rosa, ela fecha os olhos e o afasta lentamente de perto de si. Tira uma mexa de seu cabelo e o entrega. E sai, e caminha desenganada, sozinha. Em certo ponto, senta no meio da beleza do jardim e este começa a dar-lhe vida novamente, os olhos começam a brilhar e um sorriso tímido começa a sair de seu delicado rosto. Aquele espinho enfiado ainda em sua mão já não a maltrata tanto. Ela sente, agora, uma sombra pôr-se na frente do sol que aquecia suas pernas, levanta a cabeça calmamente e, quando enxerga o homem em sua frente, os raios solares clareiam um sorriso trancado dentro de sua alma. Ela levanta-se devagar e o olha fixamente. Ele sorri, olha sua mão e começa a arrancar calmamente o espinho dela. A roupa azul já não era como antes e no bolso, mais estrelas brilhavam desenhadas, mas seu sorriso parecia o mesmo. A alegria de reencontrar seu amado tomou conta de seu frágil coração, que não via mais sentido em existir. Ele, agora, parecia disposto, já não trazia dúvidas nas suas palavras. Ela estava feliz e esperava ansiosa que ele arrancasse logo de sua mão aquele espinho que a machucava. Ele conseguiu tirar a metade e parou um pouco, ela não se importava com a dor. Só ele poderia curar aquela ferida. Mas ela observou que ele não trouxe nem sequer uma rosa para ofertá-la. Ainda assim, estava confiante na certeza de curar aquela dor. Mas, veio uma tempestade, a chuva forte os impeliu a correr. Ela buscou refugio entre as roseiras e o olhou para que corresse com ela na mesma direção, ele largou sua mão e correu sozinho para o centro, para a estufa, um lugar mais fechado, cercado de vidros. Ela não entendeu não levá-la, então, caminhou até lá, a porta estava trancada, ela bateu e pediu que a abrisse, ele a olhou pelo vidro e continuou a observá-la friamente, vendo todo o seu corpo sendo molhado pela tempestade e seus olhos, e sorrisos perdendo novamente a cor. Ela bateu desesperada, ficou com medo da tempestade arrastá-la. Gritava: “Abra! Abra!” Ele, frio, apenas a observava. As batidas desesperadas na porta aumentaram e entre essas batidas ela encostou a mão com o espinho bruscamente na porta, e aquele espinho entrou totalmente dentro de sua delicada mão, e a dor foi como que cortando seu peito ao meio. E o sangue já não gotejava, ele misturava-se com a chuva e lavava todo seu corpo, cobrindo seu vestido beje. E já não era vermelho, era preto, e cobria sua roupa, e manchava sua delicada face, quando as lágrimas escorriam em seus olhos. Ela escorregou encostada na porta, até sentar-se ao chão, não adiantava bater, ele não abriria. E a luz da lua, agora refletia nela, como que sugava toda sua beleza e vitalidade para si. O seu brilho interior já não existia mais. Sua estrela saíra de seu peito e estava ali, também no chão. Amanheceu, e ela ali, largada, a roupa agora estava escura, a rosa branca ainda na mão, trazendo o único sinal de pureza e alegria. E a estrela de seu coração, da sua estima, da sua paz, já fora de seu corpo. Ele abriu a porta lentamente para que ela não acordasse, arrumou sua camisa, abaixou-se perto dela e pegou aquela estrela e prendeu junto ao seu peito, assim como fez com tantas outras. Suspirou, olhou para o Sol, sorriu, se sentiu mais belo, mais viril, mais homem, mais forte. E saiu caminhando sem olhar para trás. Ela acordou, já sem brilho próprio, levantou devagar, ainda sem forças, viu a porta aberta e entrou, olhou todas aquelas rosas cor de rosas faltando um espinho. Era a casa dele. O lugar onde ele guardava seus troféis. As rosas estavam murchas e sem cor. E em cada uma existia um reflexo onde podia-se ver cada mulher que recebera aquela rosa. E ela seguiu olhando uma após outra, e a maioria estava caída. Com um vestido preto, ainda com a mão sangrado, e dentro dela o espinho enfiado, ela chegou perto da última rosa, da última prateleira, aquela mulher parecia ser intima. Ela olhou por um tempo e viu seus traços tão familiares, viu ela andando de vestido branco ainda feliz, com um sorriso maroto; depois, viu transformar-se em nada, caminhava como que não querendo caminhar. Logo após, viu seu sorriso voltando e ele se aproximando, trazendo brilhos que ela enxergava como sendo do Sol. Mas não era do Sol, era de cada estrela colocada em seu peito. Era o brilho das mulheres, roubado, que ele se fazia vivo através desses. Quando ela se enxergou ali, sem vida e desinteressante, percebeu que a graça tinha sido roubada por ele, que seu brilho particular, agora, estava no peito dele, no ego dele. E apesar de refletir e aquilo feri-la fortemente, ela continuou se observando no reflexo daquela rosa. E viu que agora sua roupa estava escura e que de seus olhos desciam lágrimas de sangue, e que o espinho em sua mão estava entrando em seu corpo, e estava caminhando aceleradamente, em rumo ao seu coração, e ela sabia que quando isso acontecesse, não teria mais chance. A força do amor e a vontade de viver seriam sugadas, ela não seria mais feliz e nem conseguiria pegar de volta sua estrela enfiada no peito dele. Então, embora fraca e sem forças, ela procurou um objeto cortante e quando o viu enfiou em sua mão, e começou a cortar toda a mão ao redor do ferimento, ela decidiu não morrer, decidiu não deixar aquele espinho acabar com sua vida. E ela cortava sua mão e gritava, mas resolveu agir e, quando conseguiu deixar aberto o local onde fora enfiado aquele espinho, ela, com sua sensível, mas, agora, forte mão, o puxou. Sozinha, com a coragem e força de um Sansão e, ao puxar o sangue, que apodrecia, começara a sair e começara a vir um sangue novo, vermelho e vivo. Ela olhou suas roupas, eram negras e arrancou-as de si. E saiu à rua, pedindo chuva, pedindo água, precisava purificar-se e, como que por milagre, daquele jardim encantado o Sol que a observava resolveu retirar-se, e as nuvens começaram a juntar-se no céu, e começaram a mandar águas limpas e suaves, que caíam em seu corpo e lavavam sua alma, e cicatrizavam sua mão, e cada vez que ela abria a mão em direção a água, o ferimento fechava-se. No céu, um arco-íris formou-se. Ela olhou e sorriu. Caminhou até o meio da estrada com seu corpo nu e a rosa branca não mão. Deu alguns passos e resolveu vestir-se, e colocou flores sobre sua pele. Flores alegres e vivas. Sentou-se, enquanto admirava aquelas flores, com um sorriso maroto, com o desejo de felicidade nos olhos e a força do coração que, mesmo em pedaços, ainda acreditava no amor. Então, sentiu à sua frente uma presença, que emanava luz e levantou os olhos e observou a figura de um homem, levantou-se e o olhou fixamente, ele olhou sua mão que, agora, estava sem o espinho, mas que ainda era possível enxergar a marca, a cicatriz deixada depois de tamanho ferimento. Ele ainda estava de beje, sorriu bondosamente para ela e fez menção de mostra-lhe a rosa que segurava. Ela relutou e lhe mostrou a rosa branca que ainda carregava, indicando que, talvez, fosse suficiente para seu novo caminho. Mas seu coração pedia amor. E ele a olhou novamente, sorriu passando sua mão gentilmente em seu rosto. Colocou a mão no bolso e mostrou a única coisa que carregava, a mexa de seu cabelo que ela mesma lhe entregara como prova do carinho, como quem pedisse para que a levasse com ele, embora não pudesse entregar seu coração. E quando ela viu aquele gesto, sorriu e fez uma expressão positiva com o rosto, esticando a mão esperando receber a rosa, a rosa que ele a queria entregar. Ele então trouxe sua mão à frente, lentamente, e colocou diante dos olhos dela uma rosa linda, a rosa mais perfeita de todo o jardim. Ela expirava amor, era uma rosa vermelha, aquela que estava em seus sonhos, quando adormecia e pensava no ser amado. Mas, mesmo vendo tal rosa, ela relutou e imaginou ser sinal de perigo, uma rosa tão bela, tão chamativa, poderia ser mais um espinho enfiado em sua mão. Olhou paro lado, baixou os olhos procurando não ver aquela beleza que tanto a agradava. O homem, devagar, pegou a rosa branca das suas mãos, ela deixou ser tirada e juntou à sua rosa vermelha, amarrando as duas com a mexa do cabelo por ela dado. E o brilho do Sol, veio novamente, e um de seus raios iluminou aquele instante tão mágico onde, formava um coração com as rosas. E a roupa dele começou a ficar branca como a rosa dela, e ela começou a vestir-se com um longo vestido vermelho, como a rosa que ganhara e, de repente, lhe voltou o brilho e o sorriso se abriu, e os olhos criaram vida. E ela, ofegante e sem nem ao menos entender um sentido do que acontecia, perguntou: “Mas o que acontece? O que é isso?” O homem a abraçou cuidadosamente, passou a mão em seus cabelos e falou: “Isso, é o Amor” E, juntando as mãos, caminharam por aquela estrada cercada de rosas e cantaram juntos com as crianças o canto da felicidade!


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A MENINA FLOR



Chove muito agora e a mais nova flor do jardim de dona Sara observa com medo o que acontece, ela ainda é pequena e frágil. Agarra-se perto da mãe.

“Mãe será que esse aguaceiro vai me levar?” 

“Calma, filha, é chuva passageira, aquelas de verão, que vem forte, mas logo acalma, só veio para refrescar um pouco.”

A florzinha acalma-se um pouco com a palavra da mãe e fica no movimento de fechar e abrir dos olhos, abre curiosa pra ver se diminuiu a chuva, fecha espantada quando o vento vem tão forte que parece querer  levá-la embora.

Dona Sara vem chegando com um enorme guarda-chuva, vem com sacolas de compras na mão, junto com a filha.

“Ah,  Simone! Veja que chuva forte, e minhas roseiras, espero que esse vento não arranque minhas rosas”, fala, entrando na casa, fugindo do vendaval. A menina flor observa e fica intrigada.

“Mãe, porque dona Sara se preocupa com as roseiras? E nós? Ontem, escutei ela falar pra vizinha que as rosas são cheirosas e que são muito usadas pelos enamorados. Eu queria ser rosa.”

“Filha, você é uma bela flor do campo, sua cor suave parece um veludo lilás.”

A chuva diminui, os passarinhos começam a voar novamente, um desce perto da florzinha.

”É bom voar?”, pergunta a jovem flor.

“ Sim, é bom voar. “

“Você tem família? “

“Sim tenho família. “

“E agora, o que faz aqui?”

“Desço em busca de alimento.”

A menina o examinou, ficou encantada com suas penas vermelhas, seu bico pontudo, fechou os olhos e começou a voar na imaginação. Suas folhas eram asas  e quando se cansava, descia na janela de um enamorado e virava rosa. E as pessoas lhe admiravam. Em meio aos seus sonhos, abriu os olhos e viu que o passarinho já se fora, levando alguns galhinhos no bico. Deve estar fazendo algum ninho, ele deve ser casado, é tão bonito, pensou ela. Então, sacudiu suas pétalas, ainda molhadas, e olhou para a borboleta. Uau! Como é bonita! As cores, as asas!

 “Mãe!!!”, falou entusiasmada. “Eu já sei o que quero ser: uma borboleta. “

“Borboleta!”, sorri a mãe, admirada com o desejo da filha. “Florzinha, você é uma flor linda!”

A menina flor  fechou os olhos e imaginou-se como uma borboleta, voando entre o jardim, que linda borboleta eu seria. Eu voaria nos jardins e procuraria as mais belas flores. Agora, vira sua atenção para o cravo que puxa conversa com sua mãe e escuta.

“Então, Dona flor, observou que a rosa anda triste, ela não está muito bem esses dias, tentei me aproximar, mas ela não quis conversa hoje. O mundo já não tem o romantismo de antes, as pessoas já não ligam muito pra beleza de um jardim.”

“Ah, seu cravo! Mas sempre tem aqueles que amam a beleza da vida. Veja Dona Sara, todo dia cuidando de  todos nós.”

“Sei Dona Flor, mas tenho medo que isso acabe, as pessoas já não se preocupam com jardins, são poucos os que cuidam da natureza. O mundo está acabando, Dona Flor, daqui a pouco será que ainda vamos existir?”

A menina flor apavorou-se, engoliu em seco, o coração bateu forte, os olhos arregalaram. Eu vou morrer, meu Deus, eu vou morrer e não sei ainda o que vou ser quando crescer, e se eu morrer antes de crescer?! A menina ficou em prantos.

”Mãe, como faço pra crescer logo?

“Filha, o tempo passa igual pra todos, tem que esperar.”

“Mas, mãe, e se eu quiser ser uma rosa ou um passarinho, ou uma borboleta, vai dar tempo?

“Filha, você tem tempo suficiente pra pensar no que será. Eu sei que será muito especial quando crescer. “

Especial, essa palavra ficou em sua mente. Escutou a tulipa falar que especial era o namorado dela, porque ele era gentil. Então, serei que nem o namorado da tulipa? Não sei se quero ser como ele, ele é bonito, parece cantor, mas é meio sério e olha pra ela com um olho de quem está dormindo, meio caído, é como se seus cílios encostassem um no outro. Escutei o cravo falar que é olho de peixe morto. Não tenho olho de peixe morto, meu olho é bem grande. Acho que não vou ser especial, minha mãe que me perdoe, vou ser como minha professora, serei uma flor de acácia, ela é tão elegante, tem um jeito faceiro. Mas será que é triste? Não a vejo sorrindo muito. Já sei, serei um girassol, minha prima é girassol, minha mãe diz que ela tem dignidade. Não sei bem o que é isso, mas deve ser bom.

“Menina flor, o que te perturba? Está tão pensativa. “

“Mãe, eu quero ser feliz quando crescer, romântica como a rosa ou digna como o girassol, vejo todo o mundo o tempo todo falando de alegria e não sei ainda o que sou, e se vou ser  feliz.”

“Filha, você já é! Veja o seu reflexo na água da chuva que ficou no chão.”

Naquele momento, a menina se olhou e viu como eram lindas suas pétalas lilases. E como suas folhas tão verdes e tão novas espalhavam beleza.

“Estou vendo, mãe, eu estou bonita. “

“Filha, não falo só da sua beleza exterior, essa, um dia pode ir embora. Olhe mais um pouco, filha, veja seu coração, o que há dentro dele?”

A menina ainda tão jovem começou a pensar e viu que tinha tantos sonhos que não sabia direito o que fazer com eles. Olhou pra sua mãe e disse:

“Tem tanto dentro de mim, mãe.”

“Sim, menina flor, você tem muitos sonhos, é muito ativa e presta atenção a todos, mas você tem que ter sonhos seus, sempre visualizando você. Não adianta sonhar o sonho de outras pessoas, nem desejar ser outras pessoas, você tem que ver que tem um mundo dentro de você, e esse mundo é seu, e que você pode, sim, ser romântica como a rosa, voar como o passarinho, ser digna como um girassol, ou, ainda, ter a elegância da flor acácia. Mas, você tem que ser você mesma, pra conseguir tudo isso.”

A menina flor pensou, pensou, pensou e adormeceu pensando em tudo que sua mãe falou. No outro dia, o Sol amanheceu dando brilho a todas as flores, o jardim estava lindo, o copo-de-leite passava pureza, com um sorriso terno. O passarinho estava novamente passeando por lá. O cravo não parava de admirar a rosa que tanto ele amava, o namorado da tulipa chegou todo gentil, com seu olho de peixe morto. E a menina flor olhou pra si e viu que não era mais tão menina.

“ Bom dia, mãe!”

“Bom dia, menina flor! Está bem?”

“Sim, hoje estou bem, porque, hoje, sei quem sou.”

“E quem você é filha?”

“Eu sou uma flor do campo e isso me faz ter equilíbrio, ponderação e felicidade. Sou feliz por ser assim, ter nascido assim e, agora, sei os sonhos que quero seguir, porque ontem eu consegui me enxergar por dentro!”

A mãe flor sorriu e segurou sua mão. E juntas ficaram ali, dando beleza e sossego àquele jardim tão bem cuidado pelas mãos de dona Sara.

domingo, 26 de dezembro de 2010

RENASCER



Mas agora nem é dia, nem tem pássaros cantando nesse instante, mas sinto vida, me sinto viva. As amarras do meu corpo esquisito, que se impelia ao encontro brusco de desprazeres, eu soltei. Não basta fechar os olhos, fazer uma reza e esperar que tudo que te maltrata acabe, que a fada madrinha apareça ou o gênio com a lâmpada mágica te conceda três míseros pedidos. Tua vida é bem maior que isso, quem tem o poder de resolvê-la é você. O bom é que todos os dias existe a possibilidade da mudança, o segredo é querer mudar e não desejar permanecer covardemente inerte, numa situação que não faz nada por você. Que te sufoca, te contraria, te maltrata ou te faz descer ao mais baixo grau do desamor. Sim, porque aprendi a me amar, e, amar a si, não é tão fácil, a briga que temos até descobrir o que somos, o que queremos é tremendamente irritante e exige coragem para assumir os próprios defeitos e enxergar mesmo que te corte ao meio a dor, ou que te arraste em calçadas sujas e te faça comer o pó da sujeira. Mas é necessário ainda que te faça engolir o orgulho, engolir primeiro a dor. Amar a si é saber o que te fez chegar aqui, ao espelho, o teu reflexo, a tua cara limpa ainda não lavada quando acorda, aquela que você esconde ao amanhecer, quando conseguimos ser fortes e enfrentarmos essa dor, aí o amor chega e nos faz subir e voar. Porque você não mais vai chorar por ontem, porque o ontem é ontem e ponto. Você não vai se importar de aparecer com a cara ainda para lavar, porque você não tem vergonha de você. Amar é algo sublime e amar a si é o segredo de ser feliz. Não existe eu não consigo, eu não posso, alguém não faz, não culpe, "aja". Felicidade é encarar o fundo de você mesmo, dos seus medos, suas manchas, seus erros, é enxergar também suas vitórias, sua força. É se enxergar, é deixar se enxergar. Não tenha medo de ser você, de lutar por você. Não sente no banco da praça e admire o casal de mãos dadas e chore porque perdeu um amor, levante, busque o amor, veja ele em você, veja ao redor. O que você quer? É ser feliz?

Hoje, conheço o melhor dos meus dois lados, sim porque temos dois lados: o lado bom, positivo, e o lado fraco e negativo, que estranhamente domina a mente, o coração. É você falar que está triste e queria tanto ser feliz, e continuar fazendo tudo que te deixa triste. Não sair, porque estou triste, não sorrir, porque estou triste, ouvir música triste, porque estou triste. É como você dizer, eu quero algo gelado e tomar café quente. Aprendi que para tomar o algo gelado que quero, é lutar contra esse negativo estranho. Quero ser feliz, então vou fazer o que me deixa feliz. Mesmo que o nó do choro impeça a minha gargalhada de abrir por inteiro e, nos meus olhos, exista ainda um vidro que me impeça de enxergar a beleza. Mas vou lutar para renascer sempre e todos os dias. Eu não deixei que o medo me impedisse de enxergar as minhas mais duras dores, então, Renasci. 

AMOR



Porque o amor não é um sentimento vazio...

O amor não se acha na esquina

O amor vem...
Simplesmente invade o coração.
Quando eu era apenas um pedacinho de você,
Você me amou.
Me deu a vida e me ajudou a seguir .
Quando eu era uma menina 
cheia de sonhos,
Você também me amou,
me ensinou que os sonhos
podem se realizar.
O tempo passou e já não sou
mais uma menina,
porém, continuo sendo um pedaço de você.
E saiba que o amor 
que lhe fez me gerar
está aqui comigo, dentro do meu
interior.
Não foi planejado também, mas quando vi você 
e você me olhou ternamente me dando seu seio,
o amor que já era seu e que agora estava em mim,
floriu.
E o passar do tempo só fez com
que ele aumentasse.
Portanto, mãe,
saiba que o amor que sinto por ti
está além de tudo mais belo que há em mim.
Está na força da minha vida
na direção que eu sigo.




Não se mede o tamanho, não é planejado.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O EMBRULHO





  Cabisbaixa, andava na rua sem pressa, bolsa na mão como que largada, seguia intuitivamente os passos para casa. As lágrimas desciam aos olhos e perguntava-se: “Como isso aconteceu? Porque comigo?” Ela não conformava-se de ser enganada, traída e abandonada por Davi, o homem por quem ela apaixonara-se perdidamente.  Hoje, não vou trabalhar, preciso unir minhas ideias, ter certeza que não é um pesadelo. As frases que ela escutara soavam como sinos em sua mente, chegavam a doer de tão fortes que eram. Abre a porta, olha tudo ao redor, a sala que até ontem era o local preferido de assistirem filmes aos domingos, quando juntos faziam pipoca e falavam de tudo, e brincavam, e se amavam. Larga a bolsa no sofá, tira a sandália e vai à cozinha: “Preciso tomar um café”, e as palavras se repetiam novamente. “ACABOU!” Foi assim, seis letras, apenas seis letras que destruíram a minha vida. “ACABOU!” Aquilo soava cada vez mais forte. Sentou-se à mesa, adoçou o café, baixou a cabeça e chorou, chorou e cada vez que soluçava, repetia “ACABOU! ACABOU!’ Levantou-se, foi ao banheiro, tira as roupas e se olha no espelho. Pensamentos doentios começam a cercar sua mente. Lembra de suas últimas palavras. Mas eu vi você com ela! Ninguém me contou! Esperava uma explicação, esperava qualquer coisa, menos as seis letras. A outra era bonita, magra, parecia simpática e, enquanto ela olhava-se, enxergava a outra e começou a vê-la em sua frente, refletida no espelho, era como se ela estivesse ali, olhando-a, sorrindo ironicamente e com um certo prazer, e dissesse: ”Ele é meu”. Encolhe o corpo e senta-se ali, no chão do banheiro, vê o namorado, lembra da última vez que ele falou que a amava, “não faz sete dias”. Olha o chuveiro e observa-o ali: “Amor, traz a toalha por favor, estou com tanto frio.” Ela sorri, entrega a toalha e o beija. Antes que saia,  ele a segura e diz: “Eu te amo”, ela sorri e brinca:

  “Não seria, obrigado?!”

  “Não, é eu te amo, te amo sempre, sempre.”

  E beija-a novamente. E agora ela estava ali, no chão, o choro vem como o de uma criança com fome, que grita pelo seio da mãe, precisa de alimento, não importa a hora, ela chora. Até suas necessidades serem atendidas, mas ali, no caso dela, não adianta chorar, ele não virá. Levanta-se, toma seu banho e vai ao quarto:  “Ah, este sim, é onde fere sua  alma!!” O cheiro dele está em todo lugar, o riso, a toalha, as roupas ainda estão ali. Ela está nua, caminha até a cama, joga-se como quem cai num abismo, como quem não encontra um caminho para voltar. Fica ali, olhando para o teto e as lágrimas caindo, cada vez mais, sobre seu rosto, e as palavras dele repetindo-se em seus pensamentos. “Me perdoe, mas ACABOU!” Ela grita, um grito de dor, de raiva, agonia. Vira-se de bruços, aperta o travesseiro. Toda sua força é usada ali, depois solta, olha o travesseiro e o arruma no seu queixo. As lágrimas ainda escorrem, mas, calmamente, e o vê novamente, o seu namorado, saindo à sua frente, com um olhar até feliz. Como se tudo que viveram fosse nada, como se o sentimento dela fosse como a chama de uma vela que num sopro apagava. E nossos planos e sonhos, e minha vida, e nossa vida? Tudo foi anulado e ela sabia que era o fim.  Não adiantava insistir, ele a olhou nos olhos e disse: 

  “Você encontrará alguém melhor, Alice. Gosto de você, mas se ao menos me desse mais carinho!”

“Eu te dei minha vida, eu te dei meu coração, te olhei todos os dias, não pode me acusar dessa forma. Não faça isso. Eu o amo! Eu te amo!”

“Me perdoe, mas ACABOU!”

”Eu te amo, te amo! Não me deixe, não me deixe, por favor!”

Disse isso, já com os olhos escorrendo gostas de sangue.

“Não me deixe.”

 Ele a olhou fixamente: “ACABOU!” E virou-se, e seguiu, dando as costas para tudo o que fizeram juntos, caminhando com seu mundo frio, entregando seu castelo de papel a outro amor. E ela ficara ali, imóvel na praça; na mão, ainda o presente de Natal e, no cartão, a dedicatória: “Querido, você é o amor da minha vida, é hoje a pessoa mais importante. É por você que vivo, é por você que luto, é você que quero. Te amo sempre, sempre.” Como costumavam falar. E nem ao menos ele leu. Ali mesmo no banco daquela praça, ela deixou aquele embrulho com o cartão e a dedicatória. E começou a caminhar sem rumo, sem vida, sem ele. E agora, deitada e chorando, como se tivesse perdido sua vida que estava nele, relia todas as linhas da sua dor. E de repente sentiu como que sua alma de cima do teto do quarto a observasse, ali, deitada, nua, chorando, agarrada àquele travesseiro. E a sensação de dor transformou-se em ódio. E começou a mudar sua expressão, e sua respiração foi ficando mais rápida, e se escutava o sussurro  do coração. Levantou-se, pegou um saco de lixo no armário da cozinha, saiu vasculhando na casa por qualquer lembrança dele: o cinzeiro do cigarro que ela odiava, a  toalha que sempre ela devia entregar, o chinelo largado no meio da varanda, tirando a beleza de suas flores, as roupas, foi ao quarto, abriu o armário e viu a própria desordem tão propositalmente deixada por ele, e ia cada vez mais rápido, e de forma violenta  jogando-as no saco de lixo suas meias, suas blusas e calças. E o lençol? Agora, aquele lençol dava-lhe nojo. Arrancou-o de sua cama e o lençol foi ao lixo, e junto com ele as fronhas, o perfume, o sabonete do banheiro. Amarrou aquele saco com total violência e repetia consigo: “ACABOU.” Abriu a porta que levava ao quintal e lá jogou aquele saco de lixo, não satisfeita, resolveu queimar, o fogo parecia tomar conta daquilo tudo, assim como o ódio corroía sua alma. E repetiu consigo mesma, olhando tudo aquilo destruído, como se o lixo fosse ele, como se ele fosse o lixo. E falou para si, ali em pé, nua, sem nenhum vestígio mais de lágrimas, só de chamas dentro de seus olhos castanhos: “Eu não vou te perdoar. Fique com sua máscara e seu castelo de farsa, que fico aqui, com minha casa simples, ainda em construção, mas com minha verdade. Sem muito luxo, sem muita fama, mas com o valor da minha dignidade. Não vou te perdoar”. Entrou, olhou-se novamente no espelho, dessa vez com outro ar, sentindo-se liberta do amor, mas presa no ódio da sua alma. Agora, se enxergou e o viu. E suspirou com a expressão fechada. Tomou banho, deitou-se na cama como estava, sem lençóis, sem fronhas e adormeceu com a máscara do ódio.

  E, naquela hora, há alguns quilômetros dali, uma moça sentava-se com seu melhor amigo no banco da praça, onde Alice  havia deixado o presente e a dedicatória.  Leu, emocionou-se e olhou paro seu amigo, ali do seu lado, o homem que ela amava, que decidira declarar-se, mas não sabia como e falou: “Hoje, os anjos do céu me deixaram um presente, um presente que eu queria entregá-lo há muito tempo.” E entregou-o, ainda trêmula e ansiosa, com a reação que ele teria. Ele recebeu, abriu o cartão e olhou-a, falando: “Eu também te amo, sempre, sempre”. Aproximou e a beijou com o  beijo dos apaixonados.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

MINHA NAMORADA




Ele saiu de casa às sete da manhã, como fazia sempre, gostava de ir cedo, de bicicleta, porque acompanhava o movimento dos carros, das pessoas, observava o dia e aproveitava para fotografar alguma cena inusitada. Bateu a porta, verificou a mochila, estava tudo certo. “Ops!”,  disse ele, voltando à porta e se dirigindo ao interior da casa. Havia esquecido a carteira — junto da carteira, a foto de Diana. “Poxa vida, preciso ligar para ela mais tarde.” Diana, sua namorada há nove meses, pele clara, loira. Ontem, havia discutido com ele a noite toda.

“Pedro, porque você nunca me fotografa? Por que não falou do concurso que haveria hoje?”

“Por nada, amor, é que nem passou pela minha cabeça. Mesmo assim você não ia querer participar de nenhum concurso.”

“Por que acha que não tenho capacidade?”

Pegou a bolsa e saiu zangada.

Ele desvia a atenção de seus pensamentos e sai de casa, já atrasado, fecha a porta, coloca o cachecol, o tempo está frio e o dia vai ser duro, pensa ele. Ao entrar na sala, já percebe que suas suspeitas estavam certas, tinha uma fila de moças esperando para serem fotografadas. Seu ajudante, Alex, diz:

“Você se atrasou, já tem menina aí pra dois dias.”
“Avise logo. Se passarem, só ligamos daqui a dois dias, senão, até a próxima”, disse ele, preparando a máquina e mandando entrar a primeira. E, assim como ela, vem muitas, vem loira, vem mulata...

“Tem mulher pra todo tipo”, diz Alex.

“É, mais nenhuma com o padrão que pediram: chame. Mais duas, depois vamos almoçar.” 

E entrou uma ruiva de olhos escuros e penetrantes. É essa, se animou Pedro, já arrumando sua máquina, cheio de ânimo. Vamos, querida, mostre toda sua sensualidade. Quero ver o que sabe fazer. A moça tinha um rosto redondo, lábios corados, mas não conseguia expressão. Pedro já gritava: “Vamos, você tem beleza, faça arte. Vire de costas, me olhe, veja além da máquina.” Nada feito, ela não tinha o dom natural para fotografia, ainda que seu corpo delineado chamasse a atenção de   todos que ali estivessem. “Ah, por Deus!!”, resmungava Pedro,  cansado, e sentou-se, abriu as pernas num ar de desleixo e deixou a câmera solta no pescoço, até ouvir a voz de Alex anunciando a segunda moça. A moça que entrara agora sentou–se em direção a Pedro, o olhou nos olhos fixamente e fez sinal com seu dedo indicador, chamando-o para perto. Ele aproximou-se lentamente, abaixou-se, olhou-a e disse:

“O que você está fazendo aqui? Quer me matar?”

“Faça seu trabalho, eu vim ser fotografada. Me escrevi e tenho meus direitos. Vamos, mocinho, já estou pronta.”

“Você não é modelo, criatura. Aqui é meu trabalho.”

“Na inscrição, não disseram modelo, era qualquer mulher acima de dezoito anos. Fui selecionada e estou aqui.”

A conversa é cortada por Alex, quando avisa. Olha o tempo, Pedro! Tem muita menina ainda. Pedro pega a máquina, olha para Diana, dá um sorriso forçado e diz: “Vamos. Tente olhar nos meus olhos. Concentre-se.” Diana sempre desejou ser fotografada, embora, no começo Pedro sempre fizesse fotos dela em várias posições, mas nada profissional. O tempo foi passando e ele nunca tinha tempo para isso. Ela soube da inscrição quando entregava ao seu chefe o jornal do dia, era secretária e já fazia um ano e meio que trabalhava lá. Na hora em que viu, não pensou duas vezes. No outro dia, pela manhã, pegou algumas fotos que ele mesmo tirara dela, no inicio, e foi ao local de inscrição. Primeiro, um frio na barriga e o medo, principalmente, quando cada vez mais chegavam mulheres lindíssimas para fazerem o mesmo. Ela ainda pensou em recuar. É melhor voltar, é ridículo estar aqui. Mas, ao mesmo tempo, veio de dentro de si um amor tão próprio, tão propriamente seu, que lhe impeliu a continuar. Eu vou ficar, sim, e espero que ele me fotografe, ele tem que enxergar a mulher que eu sou. Falava consigo, enquanto entregava a ficha à atendente.

“O que falou?”, perguntou a recepcionista.

“Nada, falo sozinha mesmo”, ela disse e sorriu.

E hoje era o dia, o dia de mostrar que era capaz, ela não podia perder essa oportunidade. Encarou Pedro nos olhos e o olhou com um ar de desejo que ele nunca vira antes. As luzes favoreciam o ambiente, ela sentiu como se ali só estivessem os dois. Ele não acreditava em ver o que via. As poses de Diana iam vindo espontaneamente. Devagar, ela levantava o vestido até a metade da perna, inclinava o busto de uma forma que deixava o decote do vestido preto mais intenso, a boca entreaberta. Pedro dizia:

“Isso, me olhe, você está ótima. Continue.”

Ela não se intimidou, virou de costas, levantando seus cabelos com as mãos, delineando toda a nuca delicada com seus fios dourados, organizadamente desordenados. O vestido deixava as costas expostas, o que deixava a expressão do seu corpo ainda mais intensa. Pedro, boquiaberto, examinava cada curva daquele corpo desenhado e era como se nunca o tivesse visto antes. Ela abaixou-se, sentou-se e cruzou as pernas devagar, deixando seu perfil à mercê de Pedro. E Os olhos dele queimavam de desejo pela mulher que tinha todas as noites, mas que não conseguia ver, de forma tão profunda, sua beleza. Deitou-se, abaixou um pouco a blusa e cobrindo o seio com a mão, olhou-o fixamente, como quem fala pelos olhos. Nesse momento, ela nem lembrava que a sala estava cheia. Onde todos admirados observavam seus movimentos. Pedro, nervoso, cheio de desejos,  olhou-a e disse:

“Chega. Terminamos.”

Ela levantou-se, olhando-o com uma expressão forte de quem se descobrira, de quem se enxergou pela primeira vez, de quem viu que era mais do que uma mulher no meio da multidão simples. Sem aquela beleza estereotipocamente designada. Ela sabia se fazer bela e desejada. E se fez enxergar. Ela olhava-o com uma expressão de dever cumprido. Aproximou-se dele e disse em seu ouvido, como que sussurrando:

“Te espero mais tarde!”

E saiu, caminhando lentamente, com passos firmes, andar maroto, como se dançasse com o corpo a música da beleza. Pedro a acompanhava, com os olhos surpresos, até a porta. Alex perguntou:

“Quem é? Você conhece?”

Pedro apenas disse:

“Minha Namorada!”