quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

MINHA NAMORADA




Ele saiu de casa às sete da manhã, como fazia sempre, gostava de ir cedo, de bicicleta, porque acompanhava o movimento dos carros, das pessoas, observava o dia e aproveitava para fotografar alguma cena inusitada. Bateu a porta, verificou a mochila, estava tudo certo. “Ops!”,  disse ele, voltando à porta e se dirigindo ao interior da casa. Havia esquecido a carteira — junto da carteira, a foto de Diana. “Poxa vida, preciso ligar para ela mais tarde.” Diana, sua namorada há nove meses, pele clara, loira. Ontem, havia discutido com ele a noite toda.

“Pedro, porque você nunca me fotografa? Por que não falou do concurso que haveria hoje?”

“Por nada, amor, é que nem passou pela minha cabeça. Mesmo assim você não ia querer participar de nenhum concurso.”

“Por que acha que não tenho capacidade?”

Pegou a bolsa e saiu zangada.

Ele desvia a atenção de seus pensamentos e sai de casa, já atrasado, fecha a porta, coloca o cachecol, o tempo está frio e o dia vai ser duro, pensa ele. Ao entrar na sala, já percebe que suas suspeitas estavam certas, tinha uma fila de moças esperando para serem fotografadas. Seu ajudante, Alex, diz:

“Você se atrasou, já tem menina aí pra dois dias.”
“Avise logo. Se passarem, só ligamos daqui a dois dias, senão, até a próxima”, disse ele, preparando a máquina e mandando entrar a primeira. E, assim como ela, vem muitas, vem loira, vem mulata...

“Tem mulher pra todo tipo”, diz Alex.

“É, mais nenhuma com o padrão que pediram: chame. Mais duas, depois vamos almoçar.” 

E entrou uma ruiva de olhos escuros e penetrantes. É essa, se animou Pedro, já arrumando sua máquina, cheio de ânimo. Vamos, querida, mostre toda sua sensualidade. Quero ver o que sabe fazer. A moça tinha um rosto redondo, lábios corados, mas não conseguia expressão. Pedro já gritava: “Vamos, você tem beleza, faça arte. Vire de costas, me olhe, veja além da máquina.” Nada feito, ela não tinha o dom natural para fotografia, ainda que seu corpo delineado chamasse a atenção de   todos que ali estivessem. “Ah, por Deus!!”, resmungava Pedro,  cansado, e sentou-se, abriu as pernas num ar de desleixo e deixou a câmera solta no pescoço, até ouvir a voz de Alex anunciando a segunda moça. A moça que entrara agora sentou–se em direção a Pedro, o olhou nos olhos fixamente e fez sinal com seu dedo indicador, chamando-o para perto. Ele aproximou-se lentamente, abaixou-se, olhou-a e disse:

“O que você está fazendo aqui? Quer me matar?”

“Faça seu trabalho, eu vim ser fotografada. Me escrevi e tenho meus direitos. Vamos, mocinho, já estou pronta.”

“Você não é modelo, criatura. Aqui é meu trabalho.”

“Na inscrição, não disseram modelo, era qualquer mulher acima de dezoito anos. Fui selecionada e estou aqui.”

A conversa é cortada por Alex, quando avisa. Olha o tempo, Pedro! Tem muita menina ainda. Pedro pega a máquina, olha para Diana, dá um sorriso forçado e diz: “Vamos. Tente olhar nos meus olhos. Concentre-se.” Diana sempre desejou ser fotografada, embora, no começo Pedro sempre fizesse fotos dela em várias posições, mas nada profissional. O tempo foi passando e ele nunca tinha tempo para isso. Ela soube da inscrição quando entregava ao seu chefe o jornal do dia, era secretária e já fazia um ano e meio que trabalhava lá. Na hora em que viu, não pensou duas vezes. No outro dia, pela manhã, pegou algumas fotos que ele mesmo tirara dela, no inicio, e foi ao local de inscrição. Primeiro, um frio na barriga e o medo, principalmente, quando cada vez mais chegavam mulheres lindíssimas para fazerem o mesmo. Ela ainda pensou em recuar. É melhor voltar, é ridículo estar aqui. Mas, ao mesmo tempo, veio de dentro de si um amor tão próprio, tão propriamente seu, que lhe impeliu a continuar. Eu vou ficar, sim, e espero que ele me fotografe, ele tem que enxergar a mulher que eu sou. Falava consigo, enquanto entregava a ficha à atendente.

“O que falou?”, perguntou a recepcionista.

“Nada, falo sozinha mesmo”, ela disse e sorriu.

E hoje era o dia, o dia de mostrar que era capaz, ela não podia perder essa oportunidade. Encarou Pedro nos olhos e o olhou com um ar de desejo que ele nunca vira antes. As luzes favoreciam o ambiente, ela sentiu como se ali só estivessem os dois. Ele não acreditava em ver o que via. As poses de Diana iam vindo espontaneamente. Devagar, ela levantava o vestido até a metade da perna, inclinava o busto de uma forma que deixava o decote do vestido preto mais intenso, a boca entreaberta. Pedro dizia:

“Isso, me olhe, você está ótima. Continue.”

Ela não se intimidou, virou de costas, levantando seus cabelos com as mãos, delineando toda a nuca delicada com seus fios dourados, organizadamente desordenados. O vestido deixava as costas expostas, o que deixava a expressão do seu corpo ainda mais intensa. Pedro, boquiaberto, examinava cada curva daquele corpo desenhado e era como se nunca o tivesse visto antes. Ela abaixou-se, sentou-se e cruzou as pernas devagar, deixando seu perfil à mercê de Pedro. E Os olhos dele queimavam de desejo pela mulher que tinha todas as noites, mas que não conseguia ver, de forma tão profunda, sua beleza. Deitou-se, abaixou um pouco a blusa e cobrindo o seio com a mão, olhou-o fixamente, como quem fala pelos olhos. Nesse momento, ela nem lembrava que a sala estava cheia. Onde todos admirados observavam seus movimentos. Pedro, nervoso, cheio de desejos,  olhou-a e disse:

“Chega. Terminamos.”

Ela levantou-se, olhando-o com uma expressão forte de quem se descobrira, de quem se enxergou pela primeira vez, de quem viu que era mais do que uma mulher no meio da multidão simples. Sem aquela beleza estereotipocamente designada. Ela sabia se fazer bela e desejada. E se fez enxergar. Ela olhava-o com uma expressão de dever cumprido. Aproximou-se dele e disse em seu ouvido, como que sussurrando:

“Te espero mais tarde!”

E saiu, caminhando lentamente, com passos firmes, andar maroto, como se dançasse com o corpo a música da beleza. Pedro a acompanhava, com os olhos surpresos, até a porta. Alex perguntou:

“Quem é? Você conhece?”

Pedro apenas disse:

“Minha Namorada!”







3 comentários:

  1. RSRS,ACONTECEU MUITO PARECIDO COMIGO E COM MINHA NAMORADA.
    VOCÊ NÃO NOS CONHECE ESTOU IMPRESSIONADO!PARABENS!!

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  2. o sofrimento amadurece sempre para sermos melhores e você é a prova real,esta se tornado uma escritora com potencial carismático os que noz trazem de volta para leitura.amando e viajando em sua literatura adocicada com uma pitada de energético.bora la menina isto aqui vai virar rota certa para muitos beijos

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  3. Obrigada a vocês pelo carinho!!!!
    Fico feliz com o apoio e por estarem aqui comigo !
    Bjss...

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