domingo, 30 de janeiro de 2011

A MENINA MÁ QUE ROUBAVA PENSAMENTOS





O dia estava tranquilo e o vento suavemente balançava as folhas das árvores do Bosque, crianças passeavam alegremente, corriam e cantarolavam aproveitando o lindo fim de tarde, todas sorriam, todas pareciam não ver nada ao redor, todas falavam, falavam e falavam, a não ser Júlia, que não tinha mais que doze anos e escrevia o tempo todo no bloco de papel que trazia nas mãos; vez por outra, olhava atentamente para as pessoas ao redor e rapidamente voltava a atenção para as notas que fazia. Na escola, Júlia sempre se sobressaía entre seus colegas, aparentemente era melhor em tudo. Raramente sorria e o mesmo, quando vinha, era triste, um sorriso ensaiado dissimuladamente para agradar a quem visse.
  
As árvores do jardim a observavam e falavam entre si, Júlia aproxima-se como quem escuta o que conversam. Elas calam-se, assustadas com a presença da menina de olhos impactantes, de sorriso amarelo. Ela olha a árvore maior, passando a mão sobre ela, mais com desconfiança do que admiração. Depois de alguns minutos ali, caminha distanciando-se, mas, antes da distância ser tão longa, que a impedisse de ouvir o sussurrar das árvores, ela as escuta e volta falando:

“ O que disse? Não escutei direito.”

As árvores, sem entenderem nada, olham-se sem saber se devem responder, até que a árvore mais antiga do jardim, aquela mais respeitada, a que guardava o segredo dos deuses e conhecia os mistérios da vida, diz:

“Você nos escuta, menina?”

“Sim, escuto!”, disse Júlia, enquanto encarava friamente a árvore e, em posição de defesa, continuou:

“O que falavam sobre mim?”

“Calma menina, como se chama?”

“Júlia!”

“Que dom magnífico! Desde quando tem esse dom?”

“De escutar árvores, descobri agora. Mas, faz algum tempo que escuto  o pensamento das pessoas.”

“Eu sei”, disse a árvore, deixando Júlia assustada.

“Como sabe?”

“As flores do jardim de sua casa me contam, sabem de você. Você não tem sido muito justa, Júlia.”

Júlia, aborrecida, vira as costas e diz:

“Você não sabe de mim. Estou indo.”

Calmamente a árvore despede-se, falando:

“Vá com Deus e use da melhor forma seu dom. Um dia, se precisar, se estiver aflita, estarei aqui.”

Júlia sai, ainda confusa com o que aconteceu. Ao chegar em casa, olha o jardim de sua mãe, mas, antes que pudesse ouvir as rosas, entra, senta-se e começa a escutar, escutar o que pensa sua mãe enquanto faz o almoço e o que pensa a namorada de seu irmão, quando olha para ela. Quer ser amada e encontrou no dom que tem o meio mais cruel de fazer isso. Júlia rouba pensamentos dos outros, ideias, conversas, palavras. Sempre tem a melhor resposta para as pessoas ao redor, mas não aprendeu o verdadeiro sentido de amar. As melhores notas na escola já não eram novidades e nem os trabalhos maravilhosos na feira de ciências, quando maldosamente tomava ideias de colegas esforçados, que estudavam para isso.  Júlia tinha seu próprio dom, mas não valorizava, não usava da melhor forma. Decidia ser tudo o que os outros eram, mas, na verdade, nunca era ela mesma. Nunca escutara um elogio que a fizesse sentir-se digna, pois nada era dela, nunca era dela. Misturava o pouco do que sabia, sempre com os pensamentos dos outros. Sorria cinicamente, quando elogiada. Júlia não sabia se amar. Não conseguia brincar, pois sempre, mesmos nos momentos mais divertidos, ela parava e anotava, anotava tudo o que pensavam e usava como se fossem pensamentos dela. Ela sentia-se bem, mas sabia que era vazia.

Já amanheceu e hoje ela resolveu regar as flores do jardim de sua mãe. E, ao lembrar-se do que a árvore disse, propositalmente molhou as flores, bruscamente, jogando água como quem queria afogá-las para não ouvi-las. Ela não escutava os pensamentos das flores, mas as ouvia e isso a deixava irritada. Não admitia achar que alguém soubesse mais que ela, que tivesse um dom que ela não possuía. Sua mãe presenciou a cena e lhe advertiu:

“Júlia, já chega, assim mata as flores.”

Calada, encarou sua mãe enquanto pensava “é isso que quero”.  Uma das rosas do jardim, assim como ela, tinha o dom de ouvir pensamentos, mas ao contrário de Júlia, usava seu dom para ajudar os outros e admirava o dom que cada um possuía. A rosa, respondendo aos pensamentos da menina, disse:

“Você quer nos matar, por que sabemos o que faz?”

“Como você sabe o que pensei?”

“Como você, leio pensamentos.”

“Você não tem o direito de me ouvir pensar, controle isso. Sei que pode.”

“E por que você mesma não faz? Por que continua ouvindo e manipulando as pessoas, maldosamente roubando suas ideias e aceitando elogios que não são seus? Não vê que isso mata sua inocência?”

Júlia a encara e por um momento faz menção de arrancá-la. A rosa continua:

“Vai matar-me porque sei o seu segredo? Não vou delatá-la, só peço que pense e mude. Existe muita coisa que você pode fazer, Júlia, crie seu universo, ande com suas pernas sem pisar nas flores do jardim do próximo. O maior tesouro do homem é seu interior, cuide dele e não roube o dos outros. Experimente ser amada pelo que é, conquiste com seu esforço o que possuí. Veja que quando rouba mesquinhamente os pensamentos dos outros, está matando a si mesma, a sua alma, e matando o dom que Deus lhe deu.”

Júlia entrou e, pela noite, olhando o teto, pensou em tudo que a rosa lhe dissera. Não mostrava tristeza, nem alegria, nem angústia, nem serenidade. Mas, ao observar sua irmã que dormia, sorriu de lado, com um sorriso cruel, esbanjando nesse momento a satisfação de escutar os seus sonhos. Pela manhã, levantou-se antes de todos e dirigiu-se ao jardim, sentando-se ao lado da rosa. E, antes mesmo que a rosa a cumprimentasse, ela levou sua mão até o chão e arrancou bruscamente as raízes da rosa, esmagando-a, olhou-a destruída e soprou ao vento. Levantou-se e, correndo como quem tem liberdade, entrou em casa. O vento, nesse instante, começou a soprar forte, ela fechou as janelas, mas as árvores de todos os jardins e as flores de sua casa começaram a gritar em seus ouvidos, ela tampava-os agoniadamente para evitar o som, mas era inútil, ele estava dentro dela, dentro de seu pensamento. Elas diziam o tempo todo.

“Dignidade, dignidade.”

Anoiteceu, amanheceu e ela não concentrava-se em mais nada, os ventos que traziam as vozes não paravam de soprar, não paravam de falar. Todos já estranhavam sua atitude de segurar as mãos nos ouvidos. Quando ela decidiu dirigir-se ao Bosque, correu apressadamente até a árvore mais antiga do jardim, a que sabia o segredo e os mistérios da vida. Quando a viu, gritou:

“Por favor, parem de gritar nos meus ouvidos.”

“Você matou uma vida, Júlia”, disse a árvore.

“Prometo mudar, mas parem”

Nesse instante, as árvores calaram-se e a árvore falou:

“Nos a perdoaremos, Júlia, mas espero que mude.”

“Eu vou mudar, mas parem de fazer barulho nos meus ouvidos.”

“Nós já calamos, menina.”

“Então, porque ainda escuto, porque me atormentam, me chamando de indigna? Eu preferiria mil vezes ter machucado minhas mãos nos espinhos daquela rosa tagarela, do que ficar ouvindo o sussurro que vem com os ventos.”

A árvore serenamente diz:

“O que escuta agora é a voz da sua consciência, o espinho não feriu a sua mão, porque ele foi direto ao seu coração. Quando o homem não respeita os dons Divinos, dados a si próprio e a seus irmãos aqui na Terra, ele paga com a voz de Deus no coração”.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

FOTOGRAFIA




“A cozinha é o lugar mais aconchegante da casa num dia frio! Era isso que minha mãe dizia”. Falava Desiree para Eduardo, enquanto sentava-ve e abria a caixa de fotografias antigas, em cima da mesa. Já fazia um tempo que ela prometera mostrar fotos da sua infância. Pegar aquela caixa com tantas recordações vivas deixava-a  saudosa de um tempo que acompanhava os passos de seus pais no parque onde brincava todas as tardes.

Eduardo estava eufórico e examinava com cuidado cada foto. Fotógrafo apaixonado pela profissão, tinha uma admiração especial por fotos antigas, fotos espontâneas, aquelas que geralmente não mostramos às visitas que guardamos a sete chaves e torna-se uma recordação nossa, da máquina fotográfica e de quem a tirou.

Agora estava ali, diante de seus olhos, os guardados mais íntimos de Desiree, dividindo espaço na mesa com o chocolate quente, biscoitos de leite numa travessa de vidro e sua máquina fotográfica. E no momento que riam como crianças da foto dela, ainda usando fraldas, ela muda sua expressão ao delicadamente pegar uma fotografia, bem mais antiga que todas as fotografias ali, nos guardados, era o guardado dos guardados. Observa com delicadeza e sorri serenamente.

“Deixa eu ver”. 

Eduardo pega a foto e admira a imagem do casal beijando-se no meio da rua como se, ao fechar os olhos, não houvesse rua, nem pessoas. Apenas o íntimo espaço de um beijo.

“Quem são eles?”

Desiree pega a foto, como se desejasse estar ali e, olhando a foto mais uma vez, diz:

“Meus avós. Foi logo após a segunda guerra mundial, quando as pessoas na França buscavam paz e um pouco de esperança, depois de dias tão turbulentos. Minha avó Annelise, havia sofrido muito com a ausência de seus irmãos e meu avô, logo que foram chamados para a guerra. Um de seus irmãos não voltou. E, naquele dia, logo depois que se encontraram, decidiram que não mais se separariam, como ela mesmo falava: ‘ao olharem-se, uma brisa leve  tocara o rosto, mas um vendaval de emoções fazia voltas dentro dela’. E ali, no meio da rua, num tempo onde o beijo era íntimo demais para ser exposto, meu avô a pediu em casamento e, ao vê-la sorrir e dizer sim, ele a beijou. O beijo do amor que consagrou a união dos dois pelo laço da vida. Um fotógrafo que passava na ocasião captou o sentimento de união, paz, alegria, exaltação e, especialmente, liberdade, que eles, através de um beijo, passavam ali, em frente à Prefeitura da Cidade de Paris, onde, naquele momento, o mundo era deles e eles não imaginavam que seriam do mundo. Ao perceberem que foram fotografados, sorriram e saíram em passos rápidos, como crianças que fazem arte e precisam esconder-se.”

Desiree, nesse instante, entrega a foto para Eduardo e olha-o, emocionada. Ele observa-a e, num impulso, pega sua máquina fotográfica e registra aquele momento, dizendo:

“Essa aqui é para você lembrar-se do dia em que você lembrou ao mundo que: ‘O instante da intimidade de um beijo pode durar uma eternidade’.”

Nota: Conto escrito a partir da célebre fotografia de Robert Doisneau, de casal se beijando em frente à Prefeitura da Cidade de Paris, em 1950.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O MAR




Abriu os olhos e viu seu coração despedaçado, engoliu em seco com um nó rasgando a garganta, juntou os pedaços na mão e foi ao mar, e refletiu entre o mar e seu coração, entre o coração e o mar que ela desejava. Enxergou que o seu mar era feito de ondas que iam, só iam. Olhou os pedaços de seu coração em suas mão que, leve e pausadamente, ainda pulsava. E, jogando-os ao mar, sentou-se e  viu as ondas furiosas, que causavam pancadas fortes nas pedras, levarem-no e logo o perdeu de vista. Caminhou na areia sentindo-se vazia e consigo mesma falava que não mais voltaria a amar. E não muito longe dali, onde as ondas acalmavam sua fúria, um pescador que, calmamente, jogava sua rede, encontrou entre os peixes, pedaços separados de um coração que ainda pulsava. E enquanto o Sol caía, foi juntando como um quebra-cabeça o tesouro que encontrou. Deitou em seu barco decorado com tons azuis e levantou aquele coração que,  refletido na luz do luar,  formava brilhos  misturando-se com a magia do céu, que, naquela noite, carregava tantas estrelas. Logo, ele adormeceu com o coração junto ao peito e, pela manhã, quando os pássaros anunciavam a beleza do sol e o mar festejava o dia formando canções com as ondas, ele levantou-se e amarrou aquele coração junto à vela de seu barco, a brisa batia, dando vida cada vez mais àquele coração, que não parava de pulsar. Chegando à praia, despachou seus peixes e, com um sorriso no rosto, caminhou. Não entendia a excitação que o tomava, mas estava feliz. Logo adiante, observou uma moça sentada na areia, que olhava o mar, aproximou-se  para que ela o notasse, mas ela não o notava, olhava como quem não via, mesmo assim, no meio do nada que ela parecia estar, ele a fitou e sorriu, ela o olhou rapidamente e o cumprimentou. Também sorria como quem não sorria e caminhava como quem não queria caminhar. E, desde então, todas as tardes,  ele ia observá-la e a encontrava do mesmo jeito. Mas, hoje, algo aconteceu, quando chegou à praia não a encontrou sentada na areia, olhou em  volta e a viu no mar e ela brincava com as ondas, e os sorrisos eram de quem era feliz, e seu corpo era delineado pelo mar que molhava o vestido branco, deixando-a mais encantadora que as nuvens no céu. Logo, ela o observou e veio em sua direção, os passos eram firmes; na boca, os sorrisos floresciam verdades, mas os olhos ainda eram tristes. Ele sorriu, soltando uma pergunta que há muito desejava saber, mesmo temendo a reação que ela teria.

“O que faz aqui todas as tardes?”

“Venho em busca do meu coração, eu o joguei aqui, depois que o amor me deixou, espero que o mar me devolva, mas tenho esperado em vão. Sinto-me só e, apesar de amar o mar, acho-o cruel, ele apenas leva para dentro dele o que encontra.”

Calmamente, ele disse:

“O mar não é cruel, ele leva, mas também devolve.”

Imediatamente, sem aceitar a sua opinião, ela falou:

“Para mim, nunca devolveu. Quantas noites perdi aqui, sentada! Quantos sonhos deixei de sonhar! Admirei sua beleza, cantei o amor. Espero em cada onda a chegada da felicidade. Hoje, resolvi misturar-me a ele e tentar roubar um pouco da vida dele, um pouco da energia que ele tem. Ser forte como ele e, às vezes, cruel.”

“O mar nunca devolve a nós o que queremos no nosso tempo. Ele tem o tempo dele e cada onda forma-se e acaba quando tem que terminar. As tempestades vem e aceleram o mar. Por outro lado, o por do sol  o  acalma todos os dias. Observe como fica mais lindo e forte quando misturado a ele. O mar é misterioso, a noite conta-lhe segredos. Ele também é generoso e sempre pode nos surpreender.”

Ela refletiu em suas palavras e disse, serenamente:

“Espero que ele me surpreenda e devolva pelo menos uma parte do meu coração.” 

Observando sua ternura, ele sentiu o coração transbordar com as águas puras do amor e, com a voz que vinha de dentro, disse:

“Se quiser, ajudarei-a a encontrar seu coração, sou pescador e conheço os mistérios do  mar, posso ajudá-la.”

Rapidamente e sem dúvidas nas palavras, ela  disse:

“Não, as ondas que levaram meu coração estão longe daqui, você não pode encontrá-lo”.

Ele despediu-se.

“Estou indo, deixo pegadas na areia e, quando precisares de mim, siga essas pegadas e não se esqueça, olhe melhor seu mar, observe os barcos que por ele passam, quem sabe você não encontra seu coração.”

E caminhou, marcando com os pés o caminho que ela precisava seguir. E todos os dias no mesmo horário, ele passava com o barco próximo à praia que ela ficava e, na vela, levava amarrado o coração que agora sabia a quem pertencia. Por outro lado, ela examinava todas as ondas, esperando todos os dias o que nunca vinha e vendo redemoinhos formarem-se no seu mar. Um dia, as ondas do mar começaram a misturar-se com as águas da chuva que caíam e ela observou que estas começavam a apagar as pisadas da areia do homem que, até um tempo atrás, observava-lhe. Decidiu largar um pouco as ondas que a seguravam no mesmo lugar e resolveu seguir aquelas pegadas antes que elas apagassem. Encontrou, então, um barco com detalhes azuis e com um coração amarrado a um barbante na vela, subiu no barco e, nos ímpetos de ansiedade, alegria, entusiasmo, conheceu seu coração que fora pacientemente reconstruído e que agora estava ali, a salvo, no topo do barco que ela encontrara. Olhou em volta, precisava encontrar o dono daquele barco. Há alguns passos dali, observou o homem que a olhava, olhando o mar sentado na areia, correu ao encontro e disse:

“Encontrei o meu coração, alguém o achou no mar. Você sabe quem é o dono daquele barco? Preciso falar que esse coração é meu.”

Ele levantou-se devagar e sorriu, trazia na mão uma foto sua, ao lado do barco, o barco que ela encontrara, o barco batizado como barco do amor. Ao observar a foto, ela chorou, chorou compulsivamente e as lágrimas caíam em seu sorriso, sabendo que encontrara o homem que achou o que tanto ela esperava. Pegou seu coração, colocou em seu peito e abraçaram-se, misturando os corações e formando um só. Então, de mãos dadas, subiram ao barco e velejaram sobre o mar azul,  diante do azul do céu.

domingo, 23 de janeiro de 2011

NOVA MULHER




  E os passos que ela seguiu a levaram para o lago. O lago que, frio se misturava com o calor do seu corpo e com o calor do seu coração. O contraditório lhe fazia entender que ela não era ela, apenas seguia passos descompassados, elaborados e inutilmente repetidos, só lhe feriu a alma. Hoje, não mais aceita ser invadida, busca em seu corpo a mulher esquecida.

  No lago, que entra e reflete suas formas singulares e propositalmente livres, encontra o reflexo da nova mulher que é, que não teme as vozes hipócritas dos que fingem pudor, dos que tramam, dos que fingem ir pela escada, mas sobem nos outros de elevador. Daqueles que lhe olham como quem quer ensinar e inventam um passado inexistente, que só a eles conseguem enganar. Ela, agora, se sente capaz de mostrar quem se tornou ou quem sempre foi, de alma lavada, de corpo nu. De olhos abertos, com força e ação. Permite-se ser livre e busca encontrar o perdão que fica naqueles que carregam a paz.

  Hoje,quer amar um homem que veja além de suas formas, a sua expressão, mostrará sua sensualidade e fará canções, mas nunca negará o que é de verdade, dentro do seu ser. Um ser novo, forte, que respeita seu coração. Uma mulher ousada, que tem opinião.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

OS MALABARISTAS




E passava das 22 horas, e Fernando não chegava em casa.  Chovia muito e Paola esperava-o ansiosa, vez por outra olhava a janela na esperança de vê-lo aproximar-se. Estavam no Brasil há um ano e todos os dias enfrentavam a alegria de estarem sobrevivendo junto com a tristeza de só sobreviver. Trabalhar no que gosta não é para todos, mas apesar do malabarismo ser a vocação e o sonho de um sucesso, não trazia muito resultado nos últimos meses. Quando chegaram em São Paulo, Fernando sempre falava a Paola sobre o sonho do circo que iriam ter. Ela visualizava entusiasmada cada espetáculo. Cada hora que seus pinos suavemente sairiam de suas mãos delicadas e subiriam, e voltariam, e mais uma vez firmemente ela seguraria. Agora o rio dos sonhos de Fernando parou, ele anda meio preocupado e a lida tem o feito desanimado. Paola preocupa-se com a situação, mas não desiste incentiva-o e, junto com ele, enfrenta dia a dia o trânsito paulista. Os dois são jovens, ele é firme e guerreia com a própria sorte. Paola, apesar de já demonstrar cansaço e reflexo do sofrimento no seu corpo magro, tem ternura no olhar, como quem não desiste de um sonho, como se o Sol que queimasse sua pele pelas manhãs lhe desse também o brilho que precisava para seguir. O equilíbrio com os pinos que dava-lhes o sustento diário era o mesmo que fazia com que os sonhos ainda vibrassem feito canções de vitória dentro do peito. Certo dia, ao lancharem numa lanchonete perto do sinaleiro onde costumavam trabalhar, Fernando preocupou-se em salientar a Paola que consumisse o mais barato, entendendo, fez o que o marido pedira, mas a vida é cheia de vai e vem, e cheia de surpresas. Um homem, que observava os malabaristas, responsabilizou-se pela conta. Paola suspirou, falando, “Veja, Deus sabe o que faz, ele ajuda.” Ao sair de casa, das suas raízes, ela levava consigo a esperança de vida ao lado da sua vida encontrada em Fernando. Não arrependeu-se, lutava pelo amor que tinha a ele e pelo amor que tinha por si, pelo o amor de ambos. O amor que fazia Fernando trabalhar desde as seis da manhã, ajudando a descarregar caminhões para compensar a semana que não foi fácil. Finalmente, ele chega, os olhos estão cansados, mas sorri, animado com o dinheiro que traz no bolso. ”Tudo, tudo melhora, amor, desde que tenhamos fé.” Paola concorda, ”tenho fé, temos fé, e nossa filha ainda por nascer terá fé!” Nesse momento, Fernando abaixa-se e beija ternamente a barriga da amada. “Abençoada seja nossa filha, Teresa Cristina. E amanhã você vai ouvir dentro do nosso circo o nome dela ser chamado como a malabarista mais bem vista em todo o país e ela voará carregando estrelas, e sentirá a felicidade em seu peito.” Os olhos de Paola soltam um sorriso que não é só sorriso, é uma elevação de espírito de luz. Os dois sentam-se à mesa, jantam a sopa feita por Paola e, logo depois, Fernando pega uma bolsa pequena onde costuma guardar as moedas que ganha no dia, espalha-as na mesa e, juntos, começam a somar, ansiosos para que a soma chegue ao preço do aluguel. E entre aquelas moedas, Fernando para, segura a mão de Paola que repetidas vezes separa as moedas de cinquenta centavos, olha-a nos olhos e diz, “Eu te amo!” E os dois continuam o repetido movimento, assim como repetidas vezes erguem ao alto seus pinos mágicos que lhe dão o sustento e, vez por outra, olham-se e sorriem. E a noite passa e deitam-se com as pernas entrelaçadas, e, juntos pela manhã, colocam sua armadura e seu escudo e vão, sem saber ao certo o que encontrar, sem saber ao certo que retorno terão. E os carros passam, e o sinal fazem-nos parar, eles mostram o seu dom, doado pelo maior de todos os autores, o autor da vida e, entre os movimentos verticais, ao levantar seus olhos para o alto, Fernando vê os céus, sorri e, como se aqueles segundos parassem, vê o Sol brilhando, as nuvens batendo palmas e o céu tão azul, e, agora mais azul que todos os dias, mostrando que vale a pena sonhar, que vale a pena lutar.










quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

VERSOS RASGADOS




E ele pegou o papel e rasgou. Nem ao menos leu. Foram versos dedicados, letras escolhidas e cada palavra tinha um propósito. E ele apenas rasgou. Um gesto rápido e brusco, sem ao menos parar e pensar na delicadeza de cada palavra tão minuciosamente elaborada. Caminhou e partiu. Os olhos fortes de Samantha apenas o fitaram, mais uma vez, a última vez.

O nó na sua garganta segurava um choro amargo, tal como o café propositalmente não adocicado. Ela escutava a chuva, na madrugada em que olhava o teto e encarava como se buscasse respostas num espaço vazio. As lágrimas desciam no seu rosto, enquanto seu olho fitava, focava o teto. Ela não encontrava respostas ali. Esperou amanhecer e foi para a rua, e acompanhou o movimento de vem e vai. Sentou-se na praça, embaixo de uma árvore antiga e cheia de vida, onde passarinhos formavam ninhos e sussurravam um canto tranquilo. Isso a incomodou, ela queria guerra. Sentia-se oca e os olhos, seus olhos, não piscavam mais, pararam e observavam apenas. Com passos lentos, foi até a banca e comprou chicles e olhou para as revistas com as manchetes do final de novelas, onde o mocinho termina com a mocinha e a vilã morre, ou é presa. Pensou: “Serei a mocinha? Vilã?”, engoliu a resposta a seco quando pensava “não sou nada”.  Olhava os casais que andavam abraçados e não acreditava nos sentimentos divididos, sentia seus olhos se tornarem olhos de vidro. Chega em casa, a casa era a mesma e tudo estava ali, igual. O sofá continua como deixou, a geladeira mantém a porta fechada, o caderno de anotações ao lado da cama e ela, mais uma vez, deitou-se e olhou para o teto que ainda estava ali, pálido, sem vida e vazio. Nada move-se. Mas, dentro dela, surgiu um desejo de não ver mais nada que estava à sua volta, como estava e começou a mudar propositalmente tudo, o sofá ganhou uma manta, o caderno de anotações foi para a prateleira e a porta da geladeira foi aberta para que ela escolhesse o que a agradava. E foi ali, na porta da geladeira, que ela percebeu que andava de portas fechadas, que ela não tinha nada que a agradava porque ela não deixava seu mundo interior lhe informar o que fazer e que, quando ele falava, ela apenas fechava os olhos e fingia não escutar. Olhou seu caderno de anotações e dentro dele estava a carta rasgada, por ela colada cuidadosamente com fita adesiva, como que se os versos que tão amavelmente escreveu, tivessem algumas importância depois de brutalmente ignorados. Viu que os versos estavam ali, remendados, mas não eram os mesmos versos, ficaram linhas soltas, palavras tortas. E ela pegou um novo papel e começou a reescrever os versos, e olhava os pensamentos divididos, e começou a juntá-los. E os versos de amor mudaram e foram criando formas, como canções, e ela escutava de longe o som dos passarinhos que lhe incomodaram na praça, e ela sorria enquanto escrevia, vendo que era tão fácil criar novos versos. O poder estava em suas mãos, em sua mente, em seu coração. E, quando terminou a carta, ela a levantou o papel, era colorido e as letras brincavam de formar sonhos e felicidades. E no final, com um PS, ela finalizou: “O amor só é encontrado quando nos enxergamos por dentro e trazemos o nosso melhor para fora. Eu, Samantha, aprendi a me amar e a abrir a porta da minha geladeira”.


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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

NELA




NELA


Um coração escureceu, uma lágrima caiu, o brilho de um olhar se retraiu. Os sentimentos inesperados tomaram sua força, tiraram sua alegria, a vontade de viver. Mas essa sensação que corroía sua alma podia ser dissipada. Para ela, não foi só falar que era que se desejava, agiu. Refez-se, com a força que tinha em sua dignidade, subiu degraus, soltou o grito de liberdade em seu peito e disse não permitir que ninguém tirasse sua paz.

Nela  
Um coração que tinha pedaços espalhados, começaram a juntar-se, o brilho de um olhar tornou-se como a luz de uma estrela. E permitiu-se invadir por um amor próprio, além daquilo que ela imaginava. Não mais ouviu tristes canções, que só alimentavam fantasmas que precisavam partir. Não mais andou em círculos, esperando voltar ao início de algo que não teve um meio nem um fim extraordinário. Não mais lamentou não estar bem. Porque ela decidiu estar bem.

Nela
A vontade de viver, a força de crescer, o desejo de mostrar que sentimentos desmoronados são reconstruídos e que, hoje, é preciso recomeçar. E que nada pode impedir um ser de ser o que se quer, quando realmente luta por aquilo.

Nela
O amor e a força juntaram-se, formando um elo inseparável e um caminho de flores, cercado de sorrisos, onde cada lágrima era feliz. E ela olhava o céu, e via o mar, e o mar a cobria como um lençol . E observou que a vida é como as ondas que vem e vão, algumas mais lentas, outras mais fortes, mas não param e nem perdem a beleza. Nela, a pegada na areia marcando seus passos, que caminham para frente. Nela, encontra-se nosso EU, que pede para ser livre, que pede para ser feliz!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

SEM OLHAR PARA TRÁS !





Rafaela nem sabia como conseguiu se curar depois de toda decepção que enfrentou. Pensa sobre isso, enquanto sai de casa para comprar laranjas e encontra na sua frente o homem que, provavelmente, mais amou. Ele a olha por um momento, abrindo um sorriso gentil. Os olhos de Rafaela saltam assustados, fica ofegante e seu semblante tranquilo se transforma em confusão. Não entende o porquê da proximidade!

“O que quer?”

Paulo sorri gentilmente.

“Apenas quis visitar você!”

“Estou de saída, passe bem.”

E caminha com passos largos. Ele a segue, a acompanha e fala:

“Espera aí, como você está? Ainda dá aulas?”

“Paulo, me faz um favor, fica longe.”

Ele sorri ironicamente, pois o ego o faz ter certeza de que ela ainda o ama e isso faz com que ela o tolere ainda menos.

“Mais tarde, tô indo lá na escola que você dá aula, quero falar um pouco com você, vou pegá-la, e não aceito não como resposta.”

Beijou seu rosto e saiu sorrindo. Ela o encara e continua o seu caminho, analisando como aquele homem a enganou friamente, quando tantas vezes fez juras de amor e prometeu sonhos que nunca foram realizados, plantando em sua alma o sabor da desilusão e a deixando sem piedade, sem explicações. Sem dar  chances de conversar, de tentar entender o motivo do fim. De tentar consertar erros que, hoje, ela sabe que não existiram. Ele a deixou num sábado à noite, ela o esperava desde as 19 horas e continuou a esperar até as 23 horas, 24 horas e, depois, até o outro dia e outro dia, até um simples recado na caixa de mensagens lhe falando que o esquecesse, que ele não aguentava mais as suas crises neuróticas. Ela não acreditou no que lia, meu Deus, nem sequer conversei esse dias com ele, quanto mais ter tido alguma crise. Ela não se conformava. Tentou procurá-lo em vão. Alguns dias depois, ele estava comprometido, ela soube pela vizinha do andar de cima, que comentou tê-lo encontrado no mercado, ao lado da noiva.

Nesse instante, Rafaela deita-se na cama e lembra-se de quantas noites ficou ali, segurando o telefone com medo que ele tocasse e ela não escutasse. Quantas noites ela dizia, ele vem. E ele não veio, ele nunca vinha. Hoje, ele a procura, com cara deslavada, sem moral, sem receio. O que será que ele quer?

Perguntava-se, enquanto tomava banho e arrumava-se para ir lecionar. Chegou à escola, deu uma aula, ainda meio atordoada com o acontecido e pensava que precisava concentrar-se, para depois do intervalo fazer uma palestra aos alunos e falar um pouco de si. Tomou um pouco de café na cantina e logo chegou a hora, envolvida ou não em seus pensamentos, tinha que trabalhar. Viu todos aqueles que acreditavam nela, ali, na sua frente, alguns amigos que lhe ergueram quando precisou e percebeu o quanto estava bem e o quanto não precisava dele. Repetiu em sua mente. Não preciso de você e começou a falar, até que no meio daquelas pessoas tão amáveis ele chegou. Como ele falou, estaria ali, iria pegá-la.  A olhou, sentou e ficou ali, acompanhando a palestra, a presença dele causou um mau estar em Rafaela, mas, ao mesmo tempo, lhe deu forças de mostrar que ele não cabia mais em sua vida, e continuou falando, e o encarando como se cada palavra pudesse atravessar sua alma, e podia.

“Então, lembrem-se, lutem por vocês, apesar de qualquer situação e, mesmo que a pessoa em quem você mais confia te passe a perna, lute, não desista, todos nós enfrentamos problemas, mas passa. Eu mesma sou exemplo. Há alguns meses, estava com sensações que me deixavam com baixa autoestima, desestimulada, mas consegui inverter tudo aquilo. E isso só aconteceu porque decidi me amar e, hoje, estou bem, vivo bem, já consigo correr nos mares da felicidade. Eu que achei que nunca mais iria sorrir, que não encontraria mais motivos para ser feliz e que nunca mais amaria. As nuvens que vem anunciando tempestades também podem  formar corações. O amor está em tudo, está até na tristeza inesperada. É só ver com os olhos do entendimento. Hoje, não sou mais a mesma, todo dia mudamos, gosto do que sou. Sou mais forte, mais feliz, mas poética, mais atriz. Não quero ver os males, nem os motivos pelos quais acontecem, não quero questionar o não. Quero e pretendo viver do sim. Digo sim à felicidade e a tudo que traz paz ao meu coração. Amo minha vida e  sei que cada parte dela me faz forte, não vou separar ou ignorar as derrotas, elas me ensinaram, por isso as respeito, elas me fizeram crescer e, a cada dia, isso se repete na vida de todos. Desde a hora que nascemos e abrimos nossos olhos, estamos envolvidos numa questão, a mais importante de todas, cada decisão, cada passo, cada palavra vai nos levar a algum lugar, é a escolha pelo que vamos seguir, pelo que se quer ser.”

Terminou essa palavras e saiu, ele levantou-se, mas desconfiado, sem saber ao certo o que aconteceria agora, pois aquela não era a mesma mulher com quem se envolveu um tempo atrás. Ainda assim, caminhou até ela e disse:

“Vim buscá-la. Quero conversar com você.”

“Você não escutou, estamos envolvidos numa questão onde decidimos o que fazer com nossas vidas”, disse Rafaela, encarando-o com um tom sério.

“Sim, mas e daí? Você estava falando para seus alunos”

“Não, eu estava falando de mim. Abri meus olhos e hoje tenho uma decisão que posso tomar.”

“Mas eu só quero conversar com você.”

“Eu também quis muito conversar com você, te esperei muito.”

Pegou a bolsa, o olhou, sorriu como ele costumava fazer e falou:

“Guio meus passos para a direção que quero seguir. E a minha direção, nesse instante, é oposta à sua. Eu escolho estar livre.”

Ele se aproximou com a intenção de fazê-la fraquejar com a proximidade. A encostou no seu corpo e disse:

“Você é minha, Rafa, nada vai mudar isso.”

Teve a pretensão de beijá-la. Ela se afastou gentilmente e, serenamente, falou:

“Paulo, hoje sou feliz e pretendo ser mais ainda.”

“È isso que quero, fazê-la feliz.”

“Não, você não entendeu, você não é capaz de me fazer feliz, o que tive com você foi solidão, decepção, espera, frustração. Sinto muito, você não cabe mais na minha vida.”

E saiu, livre, sem olhar para trás. Com a força e a alegria que só aqueles que entendem a força do amor podem sentir.

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MATARAM A MENINA!


  
 
Mataram a menina, exilaram, jogaram numa ilha, fecharam a entrada para o mar com paredes de concreto. Ela se viu trancada, sem saída. As nuvens cruéis tamparam os raios solares. A ilha é grande, tem vida nela, mas ela não vê, está sentada de cabeça baixa sobre as pernas e não encontra caminho para a fuga.

Lá fora, o mar continua vivo, os peixes nadam, as ondas agitam-se. O Sol brilha. Onde está ela? Pergunta o vento, que vem das áreas chuvosas e ajudam a germinar novas vidas. E traz chuva e chove, chove, chove. Ela agora olha ao redor, sente os pingos de chuva em seu corpo. Mas não se move, está presa, sozinha, anda em círculos.

A chuva passa, o Sol volta a brilhar, o mar sussurra felicidade. De longe, ela escuta, levanta e caminha até os portões que a separam do mar. Vê beleza e movimento. Mas olha atrás de si e não acha forças para lutar e sair dali. Então, volta ainda, seguindo suas pegadas, exatamente os mesmos passos até o lugar onde sentava, senta-se, abaixa a cabeça e chora.

Mataram a menina!


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A HORA DA FELICIDADE!





Tentaram retirar minha vida, me assassinar. Pedi água e me negaram, busquei comida, me tiraram.Riram, zombaram. Desdenharam dos meus sonhos, mas o meu mundo interior não arrancaram, tenho sangue vivo que corre em minhas veias, eu tenho um grito na garganta, forte, ativo. Tenho um depósito de vida singular dentro de mim.

Não desisto, ainda que me cortem as pernas, me negam água, vou buscá-la no mais longíquo deserto, subirei ao cume dos montes, se preciso, e pegarei alimento. Não permito que arranquem meus sonhos. Meus olhos são duas chamas vivas de garra, que enxergam um futuro brilhante entre espinhos que crescem, mas que secarão.

E mesmo que venha o fogo, passarei dentro dele com os pés descalços. Queimarei minha roupa, minha pele, mas não meu coração. Saio do fogo e refresco meu corpo com água da chuva.

Ainda não tenho flores, o solo está seco, mas as raízes estão plantadas e dentro da terra germinam. Depois de alguns passos, elas crescerão. Lá atrás, ficarão os que queimaram suas mãos tentando matar minha alma. Afogados os que me negaram água. E eu não negarei alimento nem água para os que vem. Pois o fogo que enfrento expande calor e me dará vida. E água dividida cria caminhos frutíferos . E nos meus olhos se enxergará o brilho da alegria, daqueles que não desistem. E o sino tocará anunciando a hora da felicidade!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

PÉRFIDOS PECADOS






  Juras, por tuas lembranças, que és a mim que quer? Insano, covarde, desaparece de tua própria face o sabor da verdade. Talvez a fome do ego deu-te sensações esnobes que fizeram-te declarar um sentimento desmedido, caído, tão propositalmente elaborado. Volúvel, acreditas que o amor que foi-te ofertado ainda é teu? Hipócrita, leva-te para longe, aprende com o rio, siga teu caminho, sem arrancar a família dos peixes, sem segurar-te nos frágeis galhos, sem parar em pedras, apenas siga sem culpar os que matam-te no caminho, aqueles que tiram a beleza da água límpida, que jogam lixo, que tiram a vida. Apenas continue sem fazer-te de vítima, apenas passe até encontrar teu mar, mas sem precisar bater no peito, erguer a face e culpar o próximo dos desafios que enfrentou, envolvê-los e fazê-los sentir a dor e pagar pelos teus pérfidos pecados.

   Encontre teu mar, mistura-te a ele, saboreie a sensação de vida de força, não queira minar o mar. Não queira ser maior que ele. Apenas escute o som. Observas as ondas. Releias tua vida no mundo do teu coração alienado. Encontra-te, liberta-te de tuas dores, de teus desamores, de teus sonhos mesquinhos que não tem coragem de segui-los. Pobre, fraco, indigno. Levanta-te, torna-te um ser melhor. Mas, por favor, não te lembres de mim!

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APENAS UMA MENINA !




Tudo mudou e sou apenas uma menina, não tão menina na idade, mas menina na vida. Como minha irmã diz, parece que não cresci, fico brincando de faz de conta, adoro histórias, entro nas histórias que escrevi, me vejo; se possível, até interpreto. É um outro mundo. Daí, me vejo quando leio algo que escrevo. Por isso, sinto falta de mim mesma quando não escrevo.Quando leio, entro no livro, faço dali uma vida. Quando era criança, achava que a minha casa era uma novela, também, que estava passando na televisão de alguém, e, às vezes, ficava fazendo tipo ou falava sozinha, porque achava que alguém estava me vendo e queria ser a personagem que todo o mundo gostava. Daí, me arrumava, achando que estava me assistindo, imaginava, assim, que no banheiro não tinha câmera, porque senão iam me ver pelada, ou seja, sempre imaginei que minha vida era um história, até entender que tinha que estar lá do outro lado, que ali não tinha câmera e comecei a imaginar como iria entrar dentro da TV para poder aparecer lá. 



Depois, chegou um tempo que entendi,  mas continuei sonhando, e toda noite, antes de dormir, imaginava uma história comigo mesma, era indispensável, calculava dez minutos antes do sono, tipo assim: “Não estou com muito sono, então, vou dormir para dar tempo de imaginar como será minha vida. Daí, imagine-me, grande, adulta, fazendo tanta coisa.” Até que passou, mas continuei falando sozinha.

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