domingo, 30 de janeiro de 2011

A MENINA MÁ QUE ROUBAVA PENSAMENTOS





O dia estava tranquilo e o vento suavemente balançava as folhas das árvores do Bosque, crianças passeavam alegremente, corriam e cantarolavam aproveitando o lindo fim de tarde, todas sorriam, todas pareciam não ver nada ao redor, todas falavam, falavam e falavam, a não ser Júlia, que não tinha mais que doze anos e escrevia o tempo todo no bloco de papel que trazia nas mãos; vez por outra, olhava atentamente para as pessoas ao redor e rapidamente voltava a atenção para as notas que fazia. Na escola, Júlia sempre se sobressaía entre seus colegas, aparentemente era melhor em tudo. Raramente sorria e o mesmo, quando vinha, era triste, um sorriso ensaiado dissimuladamente para agradar a quem visse.
  
As árvores do jardim a observavam e falavam entre si, Júlia aproxima-se como quem escuta o que conversam. Elas calam-se, assustadas com a presença da menina de olhos impactantes, de sorriso amarelo. Ela olha a árvore maior, passando a mão sobre ela, mais com desconfiança do que admiração. Depois de alguns minutos ali, caminha distanciando-se, mas, antes da distância ser tão longa, que a impedisse de ouvir o sussurrar das árvores, ela as escuta e volta falando:

“ O que disse? Não escutei direito.”

As árvores, sem entenderem nada, olham-se sem saber se devem responder, até que a árvore mais antiga do jardim, aquela mais respeitada, a que guardava o segredo dos deuses e conhecia os mistérios da vida, diz:

“Você nos escuta, menina?”

“Sim, escuto!”, disse Júlia, enquanto encarava friamente a árvore e, em posição de defesa, continuou:

“O que falavam sobre mim?”

“Calma menina, como se chama?”

“Júlia!”

“Que dom magnífico! Desde quando tem esse dom?”

“De escutar árvores, descobri agora. Mas, faz algum tempo que escuto  o pensamento das pessoas.”

“Eu sei”, disse a árvore, deixando Júlia assustada.

“Como sabe?”

“As flores do jardim de sua casa me contam, sabem de você. Você não tem sido muito justa, Júlia.”

Júlia, aborrecida, vira as costas e diz:

“Você não sabe de mim. Estou indo.”

Calmamente a árvore despede-se, falando:

“Vá com Deus e use da melhor forma seu dom. Um dia, se precisar, se estiver aflita, estarei aqui.”

Júlia sai, ainda confusa com o que aconteceu. Ao chegar em casa, olha o jardim de sua mãe, mas, antes que pudesse ouvir as rosas, entra, senta-se e começa a escutar, escutar o que pensa sua mãe enquanto faz o almoço e o que pensa a namorada de seu irmão, quando olha para ela. Quer ser amada e encontrou no dom que tem o meio mais cruel de fazer isso. Júlia rouba pensamentos dos outros, ideias, conversas, palavras. Sempre tem a melhor resposta para as pessoas ao redor, mas não aprendeu o verdadeiro sentido de amar. As melhores notas na escola já não eram novidades e nem os trabalhos maravilhosos na feira de ciências, quando maldosamente tomava ideias de colegas esforçados, que estudavam para isso.  Júlia tinha seu próprio dom, mas não valorizava, não usava da melhor forma. Decidia ser tudo o que os outros eram, mas, na verdade, nunca era ela mesma. Nunca escutara um elogio que a fizesse sentir-se digna, pois nada era dela, nunca era dela. Misturava o pouco do que sabia, sempre com os pensamentos dos outros. Sorria cinicamente, quando elogiada. Júlia não sabia se amar. Não conseguia brincar, pois sempre, mesmos nos momentos mais divertidos, ela parava e anotava, anotava tudo o que pensavam e usava como se fossem pensamentos dela. Ela sentia-se bem, mas sabia que era vazia.

Já amanheceu e hoje ela resolveu regar as flores do jardim de sua mãe. E, ao lembrar-se do que a árvore disse, propositalmente molhou as flores, bruscamente, jogando água como quem queria afogá-las para não ouvi-las. Ela não escutava os pensamentos das flores, mas as ouvia e isso a deixava irritada. Não admitia achar que alguém soubesse mais que ela, que tivesse um dom que ela não possuía. Sua mãe presenciou a cena e lhe advertiu:

“Júlia, já chega, assim mata as flores.”

Calada, encarou sua mãe enquanto pensava “é isso que quero”.  Uma das rosas do jardim, assim como ela, tinha o dom de ouvir pensamentos, mas ao contrário de Júlia, usava seu dom para ajudar os outros e admirava o dom que cada um possuía. A rosa, respondendo aos pensamentos da menina, disse:

“Você quer nos matar, por que sabemos o que faz?”

“Como você sabe o que pensei?”

“Como você, leio pensamentos.”

“Você não tem o direito de me ouvir pensar, controle isso. Sei que pode.”

“E por que você mesma não faz? Por que continua ouvindo e manipulando as pessoas, maldosamente roubando suas ideias e aceitando elogios que não são seus? Não vê que isso mata sua inocência?”

Júlia a encara e por um momento faz menção de arrancá-la. A rosa continua:

“Vai matar-me porque sei o seu segredo? Não vou delatá-la, só peço que pense e mude. Existe muita coisa que você pode fazer, Júlia, crie seu universo, ande com suas pernas sem pisar nas flores do jardim do próximo. O maior tesouro do homem é seu interior, cuide dele e não roube o dos outros. Experimente ser amada pelo que é, conquiste com seu esforço o que possuí. Veja que quando rouba mesquinhamente os pensamentos dos outros, está matando a si mesma, a sua alma, e matando o dom que Deus lhe deu.”

Júlia entrou e, pela noite, olhando o teto, pensou em tudo que a rosa lhe dissera. Não mostrava tristeza, nem alegria, nem angústia, nem serenidade. Mas, ao observar sua irmã que dormia, sorriu de lado, com um sorriso cruel, esbanjando nesse momento a satisfação de escutar os seus sonhos. Pela manhã, levantou-se antes de todos e dirigiu-se ao jardim, sentando-se ao lado da rosa. E, antes mesmo que a rosa a cumprimentasse, ela levou sua mão até o chão e arrancou bruscamente as raízes da rosa, esmagando-a, olhou-a destruída e soprou ao vento. Levantou-se e, correndo como quem tem liberdade, entrou em casa. O vento, nesse instante, começou a soprar forte, ela fechou as janelas, mas as árvores de todos os jardins e as flores de sua casa começaram a gritar em seus ouvidos, ela tampava-os agoniadamente para evitar o som, mas era inútil, ele estava dentro dela, dentro de seu pensamento. Elas diziam o tempo todo.

“Dignidade, dignidade.”

Anoiteceu, amanheceu e ela não concentrava-se em mais nada, os ventos que traziam as vozes não paravam de soprar, não paravam de falar. Todos já estranhavam sua atitude de segurar as mãos nos ouvidos. Quando ela decidiu dirigir-se ao Bosque, correu apressadamente até a árvore mais antiga do jardim, a que sabia o segredo e os mistérios da vida. Quando a viu, gritou:

“Por favor, parem de gritar nos meus ouvidos.”

“Você matou uma vida, Júlia”, disse a árvore.

“Prometo mudar, mas parem”

Nesse instante, as árvores calaram-se e a árvore falou:

“Nos a perdoaremos, Júlia, mas espero que mude.”

“Eu vou mudar, mas parem de fazer barulho nos meus ouvidos.”

“Nós já calamos, menina.”

“Então, porque ainda escuto, porque me atormentam, me chamando de indigna? Eu preferiria mil vezes ter machucado minhas mãos nos espinhos daquela rosa tagarela, do que ficar ouvindo o sussurro que vem com os ventos.”

A árvore serenamente diz:

“O que escuta agora é a voz da sua consciência, o espinho não feriu a sua mão, porque ele foi direto ao seu coração. Quando o homem não respeita os dons Divinos, dados a si próprio e a seus irmãos aqui na Terra, ele paga com a voz de Deus no coração”.

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