sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

SEM OLHAR PARA TRÁS !





Rafaela nem sabia como conseguiu se curar depois de toda decepção que enfrentou. Pensa sobre isso, enquanto sai de casa para comprar laranjas e encontra na sua frente o homem que, provavelmente, mais amou. Ele a olha por um momento, abrindo um sorriso gentil. Os olhos de Rafaela saltam assustados, fica ofegante e seu semblante tranquilo se transforma em confusão. Não entende o porquê da proximidade!

“O que quer?”

Paulo sorri gentilmente.

“Apenas quis visitar você!”

“Estou de saída, passe bem.”

E caminha com passos largos. Ele a segue, a acompanha e fala:

“Espera aí, como você está? Ainda dá aulas?”

“Paulo, me faz um favor, fica longe.”

Ele sorri ironicamente, pois o ego o faz ter certeza de que ela ainda o ama e isso faz com que ela o tolere ainda menos.

“Mais tarde, tô indo lá na escola que você dá aula, quero falar um pouco com você, vou pegá-la, e não aceito não como resposta.”

Beijou seu rosto e saiu sorrindo. Ela o encara e continua o seu caminho, analisando como aquele homem a enganou friamente, quando tantas vezes fez juras de amor e prometeu sonhos que nunca foram realizados, plantando em sua alma o sabor da desilusão e a deixando sem piedade, sem explicações. Sem dar  chances de conversar, de tentar entender o motivo do fim. De tentar consertar erros que, hoje, ela sabe que não existiram. Ele a deixou num sábado à noite, ela o esperava desde as 19 horas e continuou a esperar até as 23 horas, 24 horas e, depois, até o outro dia e outro dia, até um simples recado na caixa de mensagens lhe falando que o esquecesse, que ele não aguentava mais as suas crises neuróticas. Ela não acreditou no que lia, meu Deus, nem sequer conversei esse dias com ele, quanto mais ter tido alguma crise. Ela não se conformava. Tentou procurá-lo em vão. Alguns dias depois, ele estava comprometido, ela soube pela vizinha do andar de cima, que comentou tê-lo encontrado no mercado, ao lado da noiva.

Nesse instante, Rafaela deita-se na cama e lembra-se de quantas noites ficou ali, segurando o telefone com medo que ele tocasse e ela não escutasse. Quantas noites ela dizia, ele vem. E ele não veio, ele nunca vinha. Hoje, ele a procura, com cara deslavada, sem moral, sem receio. O que será que ele quer?

Perguntava-se, enquanto tomava banho e arrumava-se para ir lecionar. Chegou à escola, deu uma aula, ainda meio atordoada com o acontecido e pensava que precisava concentrar-se, para depois do intervalo fazer uma palestra aos alunos e falar um pouco de si. Tomou um pouco de café na cantina e logo chegou a hora, envolvida ou não em seus pensamentos, tinha que trabalhar. Viu todos aqueles que acreditavam nela, ali, na sua frente, alguns amigos que lhe ergueram quando precisou e percebeu o quanto estava bem e o quanto não precisava dele. Repetiu em sua mente. Não preciso de você e começou a falar, até que no meio daquelas pessoas tão amáveis ele chegou. Como ele falou, estaria ali, iria pegá-la.  A olhou, sentou e ficou ali, acompanhando a palestra, a presença dele causou um mau estar em Rafaela, mas, ao mesmo tempo, lhe deu forças de mostrar que ele não cabia mais em sua vida, e continuou falando, e o encarando como se cada palavra pudesse atravessar sua alma, e podia.

“Então, lembrem-se, lutem por vocês, apesar de qualquer situação e, mesmo que a pessoa em quem você mais confia te passe a perna, lute, não desista, todos nós enfrentamos problemas, mas passa. Eu mesma sou exemplo. Há alguns meses, estava com sensações que me deixavam com baixa autoestima, desestimulada, mas consegui inverter tudo aquilo. E isso só aconteceu porque decidi me amar e, hoje, estou bem, vivo bem, já consigo correr nos mares da felicidade. Eu que achei que nunca mais iria sorrir, que não encontraria mais motivos para ser feliz e que nunca mais amaria. As nuvens que vem anunciando tempestades também podem  formar corações. O amor está em tudo, está até na tristeza inesperada. É só ver com os olhos do entendimento. Hoje, não sou mais a mesma, todo dia mudamos, gosto do que sou. Sou mais forte, mais feliz, mas poética, mais atriz. Não quero ver os males, nem os motivos pelos quais acontecem, não quero questionar o não. Quero e pretendo viver do sim. Digo sim à felicidade e a tudo que traz paz ao meu coração. Amo minha vida e  sei que cada parte dela me faz forte, não vou separar ou ignorar as derrotas, elas me ensinaram, por isso as respeito, elas me fizeram crescer e, a cada dia, isso se repete na vida de todos. Desde a hora que nascemos e abrimos nossos olhos, estamos envolvidos numa questão, a mais importante de todas, cada decisão, cada passo, cada palavra vai nos levar a algum lugar, é a escolha pelo que vamos seguir, pelo que se quer ser.”

Terminou essa palavras e saiu, ele levantou-se, mas desconfiado, sem saber ao certo o que aconteceria agora, pois aquela não era a mesma mulher com quem se envolveu um tempo atrás. Ainda assim, caminhou até ela e disse:

“Vim buscá-la. Quero conversar com você.”

“Você não escutou, estamos envolvidos numa questão onde decidimos o que fazer com nossas vidas”, disse Rafaela, encarando-o com um tom sério.

“Sim, mas e daí? Você estava falando para seus alunos”

“Não, eu estava falando de mim. Abri meus olhos e hoje tenho uma decisão que posso tomar.”

“Mas eu só quero conversar com você.”

“Eu também quis muito conversar com você, te esperei muito.”

Pegou a bolsa, o olhou, sorriu como ele costumava fazer e falou:

“Guio meus passos para a direção que quero seguir. E a minha direção, nesse instante, é oposta à sua. Eu escolho estar livre.”

Ele se aproximou com a intenção de fazê-la fraquejar com a proximidade. A encostou no seu corpo e disse:

“Você é minha, Rafa, nada vai mudar isso.”

Teve a pretensão de beijá-la. Ela se afastou gentilmente e, serenamente, falou:

“Paulo, hoje sou feliz e pretendo ser mais ainda.”

“È isso que quero, fazê-la feliz.”

“Não, você não entendeu, você não é capaz de me fazer feliz, o que tive com você foi solidão, decepção, espera, frustração. Sinto muito, você não cabe mais na minha vida.”

E saiu, livre, sem olhar para trás. Com a força e a alegria que só aqueles que entendem a força do amor podem sentir.

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