terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O MAR




Abriu os olhos e viu seu coração despedaçado, engoliu em seco com um nó rasgando a garganta, juntou os pedaços na mão e foi ao mar, e refletiu entre o mar e seu coração, entre o coração e o mar que ela desejava. Enxergou que o seu mar era feito de ondas que iam, só iam. Olhou os pedaços de seu coração em suas mão que, leve e pausadamente, ainda pulsava. E, jogando-os ao mar, sentou-se e  viu as ondas furiosas, que causavam pancadas fortes nas pedras, levarem-no e logo o perdeu de vista. Caminhou na areia sentindo-se vazia e consigo mesma falava que não mais voltaria a amar. E não muito longe dali, onde as ondas acalmavam sua fúria, um pescador que, calmamente, jogava sua rede, encontrou entre os peixes, pedaços separados de um coração que ainda pulsava. E enquanto o Sol caía, foi juntando como um quebra-cabeça o tesouro que encontrou. Deitou em seu barco decorado com tons azuis e levantou aquele coração que,  refletido na luz do luar,  formava brilhos  misturando-se com a magia do céu, que, naquela noite, carregava tantas estrelas. Logo, ele adormeceu com o coração junto ao peito e, pela manhã, quando os pássaros anunciavam a beleza do sol e o mar festejava o dia formando canções com as ondas, ele levantou-se e amarrou aquele coração junto à vela de seu barco, a brisa batia, dando vida cada vez mais àquele coração, que não parava de pulsar. Chegando à praia, despachou seus peixes e, com um sorriso no rosto, caminhou. Não entendia a excitação que o tomava, mas estava feliz. Logo adiante, observou uma moça sentada na areia, que olhava o mar, aproximou-se  para que ela o notasse, mas ela não o notava, olhava como quem não via, mesmo assim, no meio do nada que ela parecia estar, ele a fitou e sorriu, ela o olhou rapidamente e o cumprimentou. Também sorria como quem não sorria e caminhava como quem não queria caminhar. E, desde então, todas as tardes,  ele ia observá-la e a encontrava do mesmo jeito. Mas, hoje, algo aconteceu, quando chegou à praia não a encontrou sentada na areia, olhou em  volta e a viu no mar e ela brincava com as ondas, e os sorrisos eram de quem era feliz, e seu corpo era delineado pelo mar que molhava o vestido branco, deixando-a mais encantadora que as nuvens no céu. Logo, ela o observou e veio em sua direção, os passos eram firmes; na boca, os sorrisos floresciam verdades, mas os olhos ainda eram tristes. Ele sorriu, soltando uma pergunta que há muito desejava saber, mesmo temendo a reação que ela teria.

“O que faz aqui todas as tardes?”

“Venho em busca do meu coração, eu o joguei aqui, depois que o amor me deixou, espero que o mar me devolva, mas tenho esperado em vão. Sinto-me só e, apesar de amar o mar, acho-o cruel, ele apenas leva para dentro dele o que encontra.”

Calmamente, ele disse:

“O mar não é cruel, ele leva, mas também devolve.”

Imediatamente, sem aceitar a sua opinião, ela falou:

“Para mim, nunca devolveu. Quantas noites perdi aqui, sentada! Quantos sonhos deixei de sonhar! Admirei sua beleza, cantei o amor. Espero em cada onda a chegada da felicidade. Hoje, resolvi misturar-me a ele e tentar roubar um pouco da vida dele, um pouco da energia que ele tem. Ser forte como ele e, às vezes, cruel.”

“O mar nunca devolve a nós o que queremos no nosso tempo. Ele tem o tempo dele e cada onda forma-se e acaba quando tem que terminar. As tempestades vem e aceleram o mar. Por outro lado, o por do sol  o  acalma todos os dias. Observe como fica mais lindo e forte quando misturado a ele. O mar é misterioso, a noite conta-lhe segredos. Ele também é generoso e sempre pode nos surpreender.”

Ela refletiu em suas palavras e disse, serenamente:

“Espero que ele me surpreenda e devolva pelo menos uma parte do meu coração.” 

Observando sua ternura, ele sentiu o coração transbordar com as águas puras do amor e, com a voz que vinha de dentro, disse:

“Se quiser, ajudarei-a a encontrar seu coração, sou pescador e conheço os mistérios do  mar, posso ajudá-la.”

Rapidamente e sem dúvidas nas palavras, ela  disse:

“Não, as ondas que levaram meu coração estão longe daqui, você não pode encontrá-lo”.

Ele despediu-se.

“Estou indo, deixo pegadas na areia e, quando precisares de mim, siga essas pegadas e não se esqueça, olhe melhor seu mar, observe os barcos que por ele passam, quem sabe você não encontra seu coração.”

E caminhou, marcando com os pés o caminho que ela precisava seguir. E todos os dias no mesmo horário, ele passava com o barco próximo à praia que ela ficava e, na vela, levava amarrado o coração que agora sabia a quem pertencia. Por outro lado, ela examinava todas as ondas, esperando todos os dias o que nunca vinha e vendo redemoinhos formarem-se no seu mar. Um dia, as ondas do mar começaram a misturar-se com as águas da chuva que caíam e ela observou que estas começavam a apagar as pisadas da areia do homem que, até um tempo atrás, observava-lhe. Decidiu largar um pouco as ondas que a seguravam no mesmo lugar e resolveu seguir aquelas pegadas antes que elas apagassem. Encontrou, então, um barco com detalhes azuis e com um coração amarrado a um barbante na vela, subiu no barco e, nos ímpetos de ansiedade, alegria, entusiasmo, conheceu seu coração que fora pacientemente reconstruído e que agora estava ali, a salvo, no topo do barco que ela encontrara. Olhou em volta, precisava encontrar o dono daquele barco. Há alguns passos dali, observou o homem que a olhava, olhando o mar sentado na areia, correu ao encontro e disse:

“Encontrei o meu coração, alguém o achou no mar. Você sabe quem é o dono daquele barco? Preciso falar que esse coração é meu.”

Ele levantou-se devagar e sorriu, trazia na mão uma foto sua, ao lado do barco, o barco que ela encontrara, o barco batizado como barco do amor. Ao observar a foto, ela chorou, chorou compulsivamente e as lágrimas caíam em seu sorriso, sabendo que encontrara o homem que achou o que tanto ela esperava. Pegou seu coração, colocou em seu peito e abraçaram-se, misturando os corações e formando um só. Então, de mãos dadas, subiram ao barco e velejaram sobre o mar azul,  diante do azul do céu.

4 comentários:

  1. Você é nosso orgulho,minha princesa.. beijo grande pra ti... parabens seu conto está lindooo!!!

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  2. Parabéns Lene! Você faz um malabarismo tão perfeito com a palavras que enche de prazer a leitura de quem os visitar seu blog... Sucesso...

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  3. Leneeeeeeeeeeeeeeeee, to te seguindo amiga bjs , está ficando lindo

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