domingo, 9 de dezembro de 2012

LETÍCIA





Era um desespero óbvio e contido. Nunca acertou o saber. Dizia como louca, escrevia como morta. As mãos cegas sofriam.

“Foi feito um nó em dois cabelos diferentes, amarrados e largados dentro de um vidro de perfume. Isso é trabalho”

A avó, sempre reconhecia um de longe. No quarto dos fundos, entre tudo que não encontrava lugar, um baú e dentro um livro, um livro de feitiço. Correu, mostrou ao primo meio gordinho, com sorriso de menina.

 “Olha, a vó é bruxa.”

 “Não, ela não é.”

“È sim! Veja, ensina a fazer feitiço e eu vi no quarto dela...”

“Viu o que Letícia?”

“Vi um perfume com dois cabelos, amarrados. E isso é trabalho.”

“Você só tem 10 anos, entende nada disso, minha mãe diz que é pecado, falar de coisa assim, melhor sair daqui”.

 Saiu com os passos mudos.

“A avó é bruxa, isso é”

Na hora do almoço, todos se olhavam confusos. A avó quieta com os olhos grandes e atenciosos. Letícia olhava arteira e feliz, e cada vez que mastigava , sorria, sorria por descobri um segredo, o segredo da avó. Alex cabisbaixo tinha medo, muito medo que seus atos o denunciassem, então comia devagar e persistia em olhar apenas para o prato, escutava toda hora a voz de Letícia dizer:

 “A vó é bruxa”.

Incrível, como conseguia insultá-lo com sua coragem voraz.

“Vamos para o cajueiro Alex?”

Saiu com os pés desnudos, precisava ler o chão. Como uma troca de dores. O prato ficou sobre a mesa, com suas sobras misturadas e individuais, como o resto do que era bom deixado na louça branca com detalhes florais. Tinha três tipos de louça na casa: Os das visitas, herança de sua bisavó paterna, louça italiana de marca. A louça que era usada na semana, essa a qual eles comeram agora. E a louça do final de semana, um conjunto preto de pratos e travessas comprado no último natal. Tudo detalhadamente escolhido. Tudo detalhadamente datado, como se soubesse os segredos, os segredos que só os armários da casa podiam contar. Os segredos que Letícia teimava em querer desvendar.

Correram para o cajueiro e enfim poderiam brincar, enfim poderiam esquecer o que Letícia descobriu. Sentiu-se outra vez salvo, com uma alegria e um alivio no olhar. O cajueiro, sim o cajueiro e seu balanço. É lá que poderia livrar-se dos olhos misteriosos e assustadores da prima. Uma menina tão magrela, tão magrela e tão branca com o cabelo de milho quadrado, mas com uns olhos escrutinadores. Olhos como o da avó. Será que seria bruxa como a avó? Não, ela não é bruxa e nem a avó é bruxa, ela apenas o envolve em mentiras, Letícia é uma mentirosa, perdido em seus pensamentos, soltou-os.

“Você é mentirosa!”

“Não sou.”

“É sim.”

“Foi feito um nó em dois cabelos diferentes, amarrados e largados dentro de um vidro de perfume. Isso é trabalho”

Subiu na árvore devagar, sentou-se aconchegada em um galho que a deixava ver a casa. Alex riscava o chão, desenhava traços e mais traços nervosos e angustiados.  O lábio inferior tremia o denunciando.

“Semana passada, antes de morrer, a dona Fátima veio aqui... Será?”

“Não quero escutar você, não quero”.

“Você também estava aqui, viu alguma coisa?”

“Não.” Apagou o desenho no chão e encarou a prima , seu pé branco e fino balançava, balançava o tempo todo o deixando tonto.

“Vou ao quarto de novo, vou pegar o perfume e lhe mostrar. Quer ir comigo?”

“A vó ta dormindo.”

Antes de terminar de falar, já a viu correndo em direção a casa. Sentou-se no balanço contrariado. Aos poucos impulsionou seus pés , dando força ao balanço que subia, subia cada vez mais alto. Olhava o tempo todo para a porta da cozinha, esperando a volta de Letícia. As mãos vermelhas suavam, enquanto ia e vinha num balançar de medo e de ansiedade. Lembrava o quarto da ávo e da sua cor cinza. As paredes silenciosas gritavam, e os quadros mudos falavam. Não gosta do cheiro, não gosta do barulho rouco da porta como se anunciasse que alguém entra, como se contasse aos fantasmas, que um intruso aproxima-se. No guarda-roupa, muitas, muitas naftalinas. Lembra do dia que a ajudou a guardar suas meias nas gavetas, tinham milhares, elas rolavam na gaveta, como se falassem entre si. Em cada meia uma pequena bola branca, em cada meia aquele cheiro de enterro. Será que quando morrer, ela usará meias? E se morrer de olhos abertos, quem fechará seus olhos? Talvez Letícia, sim ela fechará, embora antes como pertença a sua natureza, tenha um encontro fatal, final e único com os olhos mortos da avó. Ela certamente irá desvendar o que passou na sua cabeça antes de morrer. E suas unhas? Suas unhas grandes e fracas. E o cheiro de naftalina vai estar no seu sepulcro, todo caixão será coberto de naftalinas, todo caixão terá o cheiro úmido e silencioso do seu quarto. Mas, se for bruxa? Estará rindo por trás de todos nós, estará escancaradamente rindo de nossas lágrimas fraudadas.

O balanço que ia e vinha aos poucos se acalma. O balanço, o cajueiro, Letícia sozinha no quarto. "Tenho que salvá-la. Tenho que salvá-la. Se minhas pernas obedecessem minha vontade, já estaria lá. O perfume com o cabelo, de quem será o cabelo? Meu e de Letícia?" Rabisca no chão o seu nome, o nome de Letícia. Rabisca no chão e corre, corre, corre para o encontro, o encontro dele e de seus medos. O quarto, o silêncio. O quarto, a ávó. Empurra a porta devagar, na cama naftalinas, na cama o vidro de perfume. Dois cabelos entrelaçados, dois cabelos como nós... E Letícia? Onde está Letícia? Era um desespero obvio e contido. Nunca acertou o saber... Dizia como louca, escrevia como morta. As mãos cegas sofriam. Letícia, onde está Letícia?


Lene Dantas




quarta-feira, 21 de novembro de 2012

HOJE É DOMINGO (INTIMA ESTRANHA)



Começou sem saber o começo. Eram cúmplices. Andava para lá e para cá, como uma missão natural de sobrevivência. Ora ela ia, ora ele vinha, e assim se enlaçavam feito nós de corda.  Não sabiam ao certo o que ligava um ao outro, talvez um impulso de excitação, cada vez que os olhos encontravam-se arteiros, ou a mesma vontade de libertar-se de um sei lá de quê que fantasiavam. Hoje cedo, quando ela levantou-se releu o bilhete que ele lhe entregara pouco antes de despedir-se e seguir pela rua da frente, seguir com o mesmo vento, que o trazia e o levava como em círculos para sua direção, e quanto mais ela o observava, mas o percebia deixando-se levar. Ele cauteloso, dava alguns passos e olhava para trás, com aquela duvida de que ela de sua janela o estaria observando. Acenava com a mão devagar, tão devagar que parecia que imitava uma de suas histórias mirabolantes, quando contava que a pequenos e lentos passos, o homezinho despedia-se da amante. Ela, com os olhos saltitantes, ensaiava um balançar de mão, um acenar que não parecesse tão feliz, para que ele, em ignorância de seus sentimentos, não a deixasse, e continuasse todos os dias a incrível prova de conquistá-la. Então, com um sorriso disfarçado o cumprimentava, enquanto o coração acelerado girava e girava, criando certo redemoinho no estômago. Logo depois, eufórica, olhava o espelho, enquanto passava o pente, várias vezes, entre seus longos cabelos castanhos, dizendo como quem canta uma doce canção. “Eu tenho um namorado, repetia , tenho um namorado.”

 Pois agora, sente-se pronta e reler em voz alta o bilhete, ler em voz alta para que a certeza do que observa possa ter testemunhas, ainda que essas sejam mudas, mas saberão, sim elas saberão.

Em casa, atropelava-se em suas plantas exaustas, sedentas e obvias. Era idas e vindas para a cozinha, um caminho que de tão rotineiro tornara-se despercebido.  O almoço tinha um breve cheiro de nada, um nada de um momento único, onde ela arrumava toda a mesa com aquela toalha de renda, que ganhou no dia do casamento e a cobria com uma toalha de plástico para não manchar e estragar quão grata lembrança, que ganhara da tia do marido. Ele ansioso, adorava o requinte do almoço no domingo, ás 11h00hs começava a passar a mão na barriga, cada vez que esbarrava com ela, atarantada entra a sala, a copa e cozinha. Lembrou-se do suco, o suco de manga que ele pediu, seria bem mais fácil um refrigerante, seria bem mais fácil não por mesa e comer como faço todos os dias. Mas, ele gosta, gosta de suco de manga, gosta da sobremesa, do pavê. Sorrir, pois, escuta sua voz todas às vezes.

“Pavê ou para comer?”

“Sim querido, é para comer”.

Assim, como quando casamos e me trouxe por uma semana marmita de frango do restaurante da esquina, não tínhamos fogão ainda, a vantagem é que eu não precisava lavar a louça. Mas, eu queria cozinhar, eu queria que provasse o sabor do que eu fazia, queria deixá-lo experimentar-me. À tarde as mesmas coisas. Sim, vou deitar-me, um pouco sem sono, um pouco sem vontade. Penso: “O que poderia fazer naquela tarde?” Ele dorme enquanto eu o observo. Se me esquivo, automaticamente joga a perna por cima de mim. Acho que quer enlaçar-me. Serei presa? Serei feliz? Infeliz? Nas manhãs de domingo, às sete da manhã escuto o chuveiro ligado. Como pode alguém levantar tão cedo no domingo? Como pode levantar-se, deixando toda casa, com uma cara amassada de dez horas? Até a janela está úmida, pedindo para aquecer-se um pouco mais, só um pouco. Logo, a TV começa a contar-me do melhor jogo da semana. Mas conta-me em passos calmos, já que toda hora ele troca o canal. Detesto perder o controle para mão dele. Acho que ele sente-se o dono do mundo quando o tem nas mãos. É uma compulsão de freqüentar vários lugares ao mesmo tempo. E escuto entre o noticiário, o esporte e a TV animal. Uma troca, uma troca simples e complexa do que ele quer saber. Risos, palavrões e tudo o mais que meu estranho intimo faz na minha sala. Até onde ele me completa? Ou até onde eu sou uma estranha? Intima? Intima estranha! Estranha intima que sabe do gosto do beijo, do jeito do abraço, do ponto do arroz. Intima demais, para não encará-lo, quando deixa a toalha na cama e seus passos em rastros alagados, que perseguem meus olhos, entre o banheiro e nosso quarto. Estranha, para não entender o porquê de me querer perto, todas as vezes que passa o dia em casa, querer que minha atenção seja nele, que eu não veja mais nada, além dele. Que em círculos, sempre o centro, seja ele. Intima para perceber sua mágoa, estranha para perceber seu amor. Intima para tê-lo visto chorar, estranha para alcançá-lo, para não alcançá-lo, nesse sossego que, de uma hora para outra ele resolveu me dar. Um sossego que pensei precisar, um sossego que aguardo na janela as 19h00hs quando reclamando, o via chegar a casa e ocupar todos os espaços que eu gostava de ter. Um sossego, que corta a intimidade, que como uma estranha, não imaginei ter fim.

Pudera ser apenas isso e nada mais e ela se sentiria segura, ela estaria agora lembrado o bilhete e sorrindo. Estaria sim, da janela observando o seu caminhar lento, seu jeito desengonçado de mexer as pernas. Estaria até sorrindo ao ver a toalha largada na cama. Hoje a toalha não tem o seu aroma, e já não ver seus rastros no chão. O domingo é livre e ela deseja apressá-lo. Não porque, tal qual como antes, ele a chamava o tempo todo, mas porque hoje, ainda que ela grite sua voz não o alcança, ainda que ela tente ver o controle jogado no sofá, depois de ser excessivamente desordenado, ela não o vê. Ainda que de manhã as janelas apareçam densas, elas não acordam e nem o chuveiro vem despetá-la às sete da manhã. Suas plantas mudas. Mudas plantas perderam-se. O jardim ruiu.  Os risos e os palavrões foram trocados por um silêncio insuportável. E os laços? O laço que os uniu quando eram apenas dois adolescentes, estes se romperam.

“Queria poder fazer pavê agora. Queria poder olhá-lo mais uma vez. Queria poder nas tardes de domingo encostar minha cabeça em seu ombro, ainda que sem sono. Só para observá-lo um pouco mais. Queria não ser tão estranha e ter sido mais intima, ter entendido que o domingo era mais alegre quando eu precisava caminhar á cozinha e por a mesa. Hoje a cama é minha, só minha. Quantas vezes evitei acordá-lo para que não me tocasse. Hoje, gostaria que pelo menos hoje, ele pudesse está aqui, pudesse tocar mais uma vez o meu rosto. Gostaria de poder dizê-lo, o quanto eu em minha ignorância, não pude perceber. Hoje, poderíamos está juntos. Pois é domingo e eu sonho aqui dessa janela vê-lo chegar. Mas, é tarde! Pois, só posso pedir a Deus que cuide do seu descanso. Não escuto seus risos, mas ainda o tenho aqui. Hoje, mais do que nunca, o tenho profundamente aqui! E o que ficou de tudo o que tinha naquele bilhete? O que ficou do para sempre que prometeu? O que ficou do amor que eu não te dei? Minha voz, ainda que muda era sua. Minhas mãos eram suas mãos, eu o vejo em todos os cantos do resto desse sepulcro vazio onde moro, e as únicas flores vivas que encontro, entrego a você, cada vez que o visito, no domingo, na casa onde só você pôde entrar. Onde quieto, já não deixa seus rastros na casa, já não mexe no controle da TV. Deus, onde eu estava, enquanto ainda podia sentir suas mãos quentes? Onde eu estava quanto me perdi de você?”

O vento ainda circula e pela janela traz o aroma da tarde, o vento que o trouxe, o vento que o levou. E nesse circulo arrebatador, ela pensa, até onde o deixou partir, sem saber que ele era ela e ela era ele. Ora ela ia, ora ele vinha. Ora ela fica. Agora ele foi.


Lene Dantas

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O GOSTO DO FEIJÃO



A poeira soprando o tempo todo no tempo, e cada fragmento é uma lembrança. Está ali, neutra, como uma morta viva, como uma morta que se esqueceram de enterrar, uma morta que se esquece de partir. Sim, bem mais assim, uma morta que ficou parada no tempo e esqueceu-se de partir. As paredes sabem de cor os seus segredos e a janela é aberta, um pouco, só um pouco, assim ninguém pode roubar-lhe o sossego, o sossego que espera a cada manhã quando se despede do marido, em uma hora que parece interminável. Diria que, cada vez que ele passa a escova no dente, seria um momento roubado, um tempo, um riso. E ela, ali em meio á lençóis que conhecem o cheiro de ambos, lençóis que já secaram suas lágrimas, que já cobriram sua insegurança, que já sentiram o cheiro do seu prazer. E ali olha o relógio, são 06h30min, ainda faltam alguns minutos. Ele calmo, atravessa devagar o pequeno espaço entre o quarto e a cozinha, toma um pouco de café, dirige-se a sala, liga a TV e em alguns minutos aproveita o aconchego do seu sofá. Sofá que foi comprado em 36 vezes, rubro e confortável como a mulher pediu. “Bom para ver TV e dormir” Falou isso quando deixou a loja, imaginando ter um pouco de tempo, um tempo no tempo para sentar-se e acomodar-se. Quando o sofá chegou, Clara abriu bem as portas, limpou todos os móveis e lembrou aos filhos para não comer ali, não deveriam comer nunca ali. Pensou em deixar o plástico, afinal às crianças poderiam sujar a delicada camada de veludo, no sofá que tanto esperou.

 “Também 17 anos de casados, seria o mínimo, ele nunca me deu nada, nada além dos primeiros móveis que até hoje são bons porque eu cuido”.

 Mas o marido, não quis o plástico, queria aconchegar-se no sofá, queria sentir o sabor do suor derramado em 36 parcelas, cada vez que ali encostasse. A TV falando sempre as mesmas coisas e ele colocando calmamente suas meias. Como se o tempo parasse, experimentava o gosto de sentar-se um pouco. Na cama, ela aconchegava-se esperado o ranger da porta, onde teria a certeza que finalmente estaria só, era quando realmente podia acordar e ser o que queria ser. Enfim, a porta abriu e fechou-se, os passos até a garagem e o barulho do motor do carro, mais um pouco e ele se foi. Sim, agora se sentia completa, na cama alargava-se esticando suas pernas, pelas venezianas percebia o dia que chegava, e lá estava acomodada em seu intimo, sem frio, nem calor, num estado passivo entre bocejos e suspiros, lá estava em sua cama e lá fora a manhã. Lá fora o Sol. Devagar foi ao armário e entre peças perdidas e antigas, não sabia o que usar. Ora a calça era apertada demais, ora a blusa tinha muitas estampas, ora o vestido deixava seu corpo deformado. E assim entre suas avaliações queixosas, colocou uma legue preta e uma camisa do fluminense. Era o time do seu pai, lembrou-se de quando era criança e todos os seus tios reunia-se para ver o jogo, ela com bochechas rosadas e olhos aguçados, sentava-se na sua cadeira de plástico vermelha, tão pequena quanto ela.  Sua mãe cozinhava feijão branco e deixava a panela semi coberta para que o caldo ficasse grosso, cortava devagar um pouco de calabresa, separava costelinha de porco e preparava outra panela para fazer o refogado de alho e cebola. Aquele cheiro trazia boas lembranças, seu pai era o primeiro a servir-se. O feijão caia sobre o prato, com um prazer absoluto e com o mesmo aspecto feliz em que seu pai deliciava-se ficavam os olhos de sua mãe a observá-lo, esperando o elogio de sempre, esperado que ele mais uma vez a admirasse a enaltecesse, como a melhor cozinheira do mundo. 

“Eu tinha uma bacia de alumínio, mas quando era feijão tinha que comer num pratinho azul. Era bom. O gosto do feijão era muito bom!”

Era bom lembrar o cheiro de sua família. Levantou-se e começou a cozinhar feijão. Assim como o que sua mãe fazia. Enquanto isso ligou o computador, precisava dividir com seus amigos, que hoje comeria feijão, o feijão que aprendeu com sua mãe, o feijão que deixava seu pai mais apaixonado a cada ano. Foi então que se rompeu um súbito de medo, de pânico e perguntou-se: O que será que tenho feito? Será que André gosta do meu feijão?  Será que eu gosto de André? Será que minha casa tão bem decorada por nós, só é bela superficialmente?  Meus filhos logo irão à escola, sei que Mônica gosta de feijão com um pouco de arroz branco e bife. Rafaela não gosta, prefere massa, mas hoje ele terá que comer.  Quando André chegar vou perguntar se ele gosta do meu feijão. Nunca vi seu rosto como o de meu pai ficava, quando comia o que minha mãe fazia. Alias, acho que nunca mais o olhei de verdade.  Queria sumir daqui e desse lugar, queria voar longe, queria e queria. Mas tenho minhas filhas e tenho 17 anos de casada. Não amo mais André, afinal me apaixonei por Fred.  Isso é pavoroso. Só sei que queria sumir com Fred. Mas eu não teria coragem, nunca trai meu marido. Mas, como gostaria de um dia, pelo menos um dia sorrir com ele, com Fred. Será que ele gostaria do meu feijão? Será que ele iria ficar admirado e dizer que eu era especial, assim como meu pai fazia? Será que ele me amaria a vida inteira? Será que não esqueceria o dia do nosso primeiro beijo e nem do nosso aniversário de casamento? Será que me traria flores? Que me acordaria com beijos? André me acorda com beijos, mas eu sei o que ele quer , quer usar meu corpo. Mas não vou ceder. Estou fazendo greve de sexo e vou continuar fazendo até ele perceber que tem que me valorizar. E se ele me trair? Ah daí nem ligo. Vou atrás de um juiz e me divorcio e ai não terei culpa, vou separar-me com razão e ninguém vai dizer que separei porque amo outro homem, mas porque ele me traiu. Meu pai entenderá e minha mãe vai chingá-lo. E Fred? Será que me ama mesmo? Ontem ele não me ligou, fiquei tão perdida e sozinha. Sei não, acho que vou deixar-lhe um email. Acho que vou dizer que não tenho tempo para brincadeiras. Eu tenho 38 anos e tenho duas filhas, não posso jogar tudo isso para cima. Mas ele é tão carinhoso.

Perdeu-se em seus labirintos. Perdeu-se outra vez na casa que de tão pequena era tão grande. Perdeu-se em André, perdeu-se em Fred, perdeu-se, se perdeu. E o feijão? Este, ela queimou.

Não cozinhava como sua mãe, não que não o soubesse, apenas vivia presa em uma vida que não sabia tê-la, nem sabia querê-la, nem sabia se deveria mantê-la viva. Uma morta parada no tempo e esqueceu-se de partir. Como uma morta viva. Sorria para alguns, se trancava para outros e adiava à hora da chegada de seu marido, pudesse, atrasaria o tempo. Pararia o tempo às sete da noite. Assim não teria de servir o jantar, nem de escutar seus resmungos e muito menos, mais tarde entre os lençóis, precisaria deitar-se devagar, bem devagar, para que ele cansado, não percebesse sua presença, para que ele não a inquietasse em busca de sua intimidade. Precisava de tempo também para sonhar com Fred, talvez porque o amava, ou apenas, porque precisava alimentar algo em sua mente tão morta como seus olhos.  Precisava achar-se ainda que perdida, precisava bem mais que aquela aliança colocada em seu dedo na mão esquerda. Ela ainda não sabia, mas precisava deixar o feijão no ponto.

Lene Dantas

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Indiferença ou dúvida? Onde está meu amigo?



Talvez por um dia, dois ou meses. O caminho vai se estender e mais uma vez as lágrimas, estarão umedecendo seu coração. Perde-se em dias de tamanha agonia, atordoada e sem chão. Não queria a indiferença! Queria apenas o sopro da verdade! Mas, esse , fugiu, fugiu e não chega. Tudo é muito estranho e as estrelas param de iluminar o céu azul. Na noite passada, ainda sorriu com ele, na noite passada ainda escutou sua voz tão querida. Hoje, nem adeus, nem um sim, nem um não. Hoje apenas calça calçados alheios e roupas espinhosas. Amanhã poderá ver mais uma vez o Sol, mas essa dor levou-lhe um pouco do gosto bom, do sal que temperava sua vida!

Tudo agora fala comigo: As ruas, as casas e cada pessoa que encontro. É um atrás do outro, o tempo todo, e as portas, são tantas portas para escolher, que fico assim, com um tanto assim: Um tanto de dor, um tanto de dúvida, um tanto de mim e um tanto do que foi você! Não me imaginária contando essa história, se não fosse por ontem, se não fosse por uma noite, onde se perdeu o sossego. Onde a porta bateu tão forte que o eco vibrou entre as entranhas, naqueles lugares secretos, onde apenas poucos alcançam. Engraçado, você estava lá e percorreu todo esse espaço, este espaço tão meu que dividi com você. Ainda lembro quando navegou entre minhas veias que pulsando levavam as correntezas do meu eu, segredos que te contei, passagens que te mostrei, detalhes , detalhes que estiveram ali entre as noites quietas e entre as noites falantes.

Indiferença ou dúvida; O que é pior? Perguntou-me. Eu não soube responder, mas agora respondo a dor que sinto, se isso seria uma conversa ou uma escolha de como magoar-me mais. Indiferença ou dúvida? Digo-te, as duas andam de mãos dadas e são tão ruinosas como a lepra e tão venenosas como a naja. As duas seguram as mãos nas noites que fazem todo um respeito, e uma amizade serem jogadas fora, jogadas fora pela força delas, pela união maldosa e cruel daqueles que decidem usá-las. Penso: Serei eu que não entendi a pergunta? E agora estou aqui questionando minhas roupas? Hoje nem escolhi meus sapatos, nem meu batom deu brilho aos meus lábios esquecidos, nem meu cabelo mostrou-me a beleza. Hoje minhas mãos perdidas, seguram em vão um tudo que nunca existiu, escorrem a cada minuto pelos dedos, todas as conversas e risos, escorrem em ondas rápidas e às vezes em ondas lentas de lembranças, que ainda estão aqui. Lembranças que não sei se tomarão rumos diferentes em dias próximos, ou se me perseguirão como fantasmas e me farão perder o sossego sagrado do sono. Mas ainda digo, em detalhes, digo o que meus olhos fatigados enxergam. Digo que já não sei. Não sei por onde anda meu amigo. Não sei se tive um amigo. Não sei! Indiferença ou dúvida? Tu me entregastes os dois, logo a mim que sempre deixei os pratos limpos na mesa, com colheres e garfos á postos. Indiferença ou dúvida? Não sei! Não sei qual delas mata-me a alma. Não sei! Ainda assim vejo em mim, um pouco, um pouco ainda do querer acreditar que existe o bem querer, em algum lugar no meio dessa cidade, dessas praças, dessas ruas, dessas casas. Em algum lugar dentro de um quarto. Um quarto que guarda segredos tão ocultos de alguém, que se perde entre pensamentos inúteis, de querer adivinhar o motivo pelo qual outro parte, sem dizer adeus, sem dizer um não, sem dizer um sim. Sem segurar a mão do amigo e antes que a lágrima caia, o acalente com sua verdade e transforme a despedida, num ato de amor. No ato onde duas pessoas que se respeitam entendem que tudo o que foi trocado permanece, que os segredos não foram forjados, que os risos não foram forçados e que a confiança não foi destruída. Onde está meu amigo agora? Ele ainda está ali? Em algum lugar, percorrendo minhas veias? Ou na verdade nunca esteve ali, e hoje entrega em minhas mãos, toda uma história,todo um respeito, todo um carinho, trocado por indiferença e dúvida. Meu Deus! Onde está meu amigo?

Lene Dantas

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

RO-SA-NA ( O leite ou o vinho?)


Eu  Ao invés de uma, sou duas. Não duas. Digo melhor, seria muitas. Agora, estou sentada a mesa, tenho leite e vinho diante de mim. O que deverei beber? Se eu beber o leite, fortaleço meus ossos, antes que eles decomponham-se aqui e como cinzas fúteis e velozes, misturem-se a todo invisível que permeia esse ar, esse ar tão meu e tão de outros. Pergunto-me: Como serei apenas uma, se respiro os outros? Respiro minha vizinha que me observa todas as tardes , quando me dirijo calmamente à área de estar, para saciar a sede de minhas rosas. Respiro os olhos inquietos do meu chefe, que moribundo, hipocritamente pergunta-me se está tudo bem, sem nem ao menos esperar, que eu, entre um segundo e outro, abra meus lábios e insinue um simples sorriso corado, e o fale, o que entala meu paladar, toda vez que tento engolir seu sorriso ironizado. Respiro a orquestra de sussurros entre olhos, ao entrar cedo pela manhã num ônibus lotado, onde procurando calmamente um espaço, único e meu, eu fique ali, contida, quieta, encostando-se a todos e ao mesmo tempo, sozinha, num particular entre sonhos e anseios, entre conversas que ainda não tive tempo de terminar comigo mesma, num espaço de tempo em que reflito, enquanto vejo as mesmas imagens diárias passar sobre meus olhos. Não olho pra ninguém e ao mesmo tempo vejo todos, não conheço ninguém e ao mesmo tempo são tão íntimos e trazem o mesmo cheiro do dia anterior, trazem assim como eu, a mesma expectativa consciente que o tempo passe rápido e que logo o dia termine, para que em regresso possa desfazer-se de toda roupa e sentir seus pés livres de seus sapatos. Adoro sapatos, também respiro meus sapatos, semana passada enamorei-me de um scarpin cor de vinho, olhei-o e ainda me propus a tocá-los, na bolsa olhava meu cartão de crédito, eu sábia não poder possuí-lo no momento. Mas, meus pés nervosos queriam calçá-los. Senti-me então como uma adolescente, que encontra seu primeiro amor e anseia pelo gosto do primeiro beijo, aflita teme não saber os movimentos precisos quando se encontra um lábio em outro, ansiosa sente o gosto na boca do beijo desejado, mas, com a mesma voracidade de possuí-lo encontra-se no receio de executá-lo e corre para longe do alvo de desejo, ou apenas o maldiz com uma expressão desdenhosa, ansiando na realidade o bem querer. Eu corri do sapato. Se lembrei de José do Egito, que correu para não trair a confiança de seu Amo e nem de seu Deus. Eu corri, para não trair a mim e nem ao meu bolso. Mas, ainda no ônibus penso, que embora meus pés calcem um conforto que escolhi (embora não seja o scarpin vinho) não vejo à hora de poder livra-me deles, do meu sapato preto de verniz, com uma simples e delicada fivela prateada, do lado esquerdo, não vejo a hora de em casa, longe dos olhos curiosos de minhas colegas, escolhidas ironicamente pelo mesmo chefe que me faz ter surtos nervosos, posso enfim, olhar meus pés, poupá-los e deixá-los livres. Posso também, olhar meu reflexo no espelho, quando finjo não perceber que a pele corada ,mostra os sinais de tudo o que me rodeia á tantos anos. E o que eu fui há tantos anos? Senão uma criança que ansiava o saber e entre aromas e sabores, respirava o universo de todos que, estavam ao meu redor. Respiro meu casamento, em um estado de inércia, em que os cheiros que me agradavam ha um tempo, agora se alastram como fungos ociosos, e se escondem acomodadamente num ambiente de conforto. Como? Como não ser mais de uma, se todos os dias, confundo-me entre o que sou e o que quero ser?

Se bebo o vinho, inebrio minha alma, a faço cantar e sorrir de coisas que muitas vezes sutilmente escondo. Inebrio minha alma, antes que ela congele, e ali, sem vida não possa alcançar os céus, nos momentos que em sonhos encontro meus tesouros. Saciar-se desse vinho, ainda que me tire de um estado sóbrio, pode dar-me coragem para enfrentar meus medos, antes que eles me tomem, antes que eles me façam permanecer em círculos obsessivos e doentios. A mesa convida-me e algo me diz que devo provar do leite, mas também do vinho. Algo diz que devo sim ser uma ou mais de uma, ou apenas me perder em meus caminhos descalçados.

Hoje na lanchonete, percebi um homem olhando-me, mas ele não olhava apenas pra mim e sim para nós, todas nós. Éramos quatro e ele não olhava-nos com os olhos, ele olhava-nos com os ouvidos. Discreto, quieto, perdia-se em seu alimento e achava-se no que falávamos. Talvez tentasse entender o que pensamos, já que nós mulheres, temos tanta facilidade de falar de nossas dores, de repente deixaríamos claro em nossos segredos forjados o que tantos tentam entender. Ele respirava-nos com tamanha vontade como se a vontade de o saber fosse maior do que saciar sua fome. Mas nós mulheres sabemos. Sabemos como ludibriamos a nós mesmas e também aos outros, como dançamos com passos quietos em situações avessas. No fundo o que falamos em uma mesa em quatro, nunca são fatos perfeitamente contados, nenhuma de nós confiamos plenamente na outra e sempre nos resguardamos do que dizemos. Talvez á minha amiga; Sim, aquela que eu tanto admiro, eu possa contar um pouco mais, um pouco mais do que ensaiei.  E ainda assim, que fique um pouco em mim que nem eu mesma sei se devo dizer-me, daqueles dias em que tomei atitudes que ao me inebriar de vinho ou saciar-me de leite, deixei de ser o que achava ser. Coisas que Deus sabe e só ele sabe, nos passos que percorri o caminho que meus pés escolheram pisar e por onde tropecei, nos dias quietos, nos dias tristes, nos dias frios e também nos dias eufóricos e quentes.

 O homem ansioso, talvez quisesse apenas saber como nós em quatro, podíamos em alguns minutos falar milhares de dezenas de palavras, onde a maioria é deixada e despercebida, trocadas mais tarde por um simples, até logo. Trocadas depois por particulares entres duplas que se desfizeram ou entre o leito conjugal de cada uma e seu amante. Ele atento, talvez riu no seu olhar de escrutinador, talvez comentou com alguém, talvez se encantou por nós mulheres mais uma vez, ou talvez percebeu o quanto somos parecidas.  Nos enfileiramo-nos depois, deixando o ambiente quieto, silencioso, deixando apenas a vaga lembrança de nossos risos e confissões permitidas. Onde entre uma conversa e outra olhávamos uma para outra e nos enxergávamos, um pouco as mãos, ou cabelos, ou até os sapatos de verniz. Percebo que ele também compactou conosco e mais tarde vai respirar um pouco do que viu ali. Gostei dele! Acho que o seu jeito tranqüilo fez cócegas em meu coração eufórico. No final então, eu o respirei, e isso me deixa com uma impressão esquisita, sobre qual será a probabilidade de vê-lo mais uma vez. Dessa vez, quem sabe eu calce meus sapatos novos! Sim porque vou à loja e comprarei o scarpin cor de vinho e assim, ele pode até, ao invés de nos enxergar, enxergar meus sapatos. Embora homens não enxerguem sapatos. Gosto dos meus pés e ele pode gostar também. Ele pode até enxergar meu nome na tatuagem que fiz no pé esquerdo e quem sabe, entre uma mordida e outra do pão de queijo que devorava num ato involuntário de desejo, soletrar:      RO-SA-NA. Fazendo com que eu perceba que , entre todas , foi eu que o chamei atenção. 

Devo ter provado o vinho e agora estou aqui bêbada, falando bobagens que só conto a mim. Sim é dessas bobagens que falo que respiramos e inalamos e guardamos conosco. Essas ficam assim, deixadas em lugares ocultos aos outros, mas de fácil acesso á nós.  Preciso levantar-se agora, não sei bem que horas são, mas é tarde e agora devo conversar com meus lençóis.

Deixou a mesa, sem provar do leite e do vinho, deixou a mesa lentamente com um sorriso enfeitiçado no rosto, como se na cama, fosse deparar-se com o homem que a enxergou com os ouvidos.

Lene Dantas

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O LABRADOR




“As paredes ficaram cinzas, a cama transbordou do vazio, as delícias murcharam e até o labrador emudeceu de tristeza.


Ele emudeceu, paralisou ou talvez esteja velho, por mais que eu faça e por mais que algumas vezes até consiga ver o brilho do seu olho radiante, logo tropeça em seus segredos e cabisbaixo afasta-se. Tenho pensado que isso acontece desde que ela... Não quero falar dela, foi-se, partiu e não quis deixar rastros, porém, não posso culpá-la eu sempre soube, eu sempre soube!



Mas o labrador não sabia, e em nenhum instante ele foi informado que aquela que ele instintivamente, achava ser mãe, partiria. O que ele sentia era o cheiro dela rodeando toda casa e nos olhos a tristeza de não ver seu semblante, quando chegava todas as tardes e sorrindo o acariciava. Às vezes iludido pelo barulho de alguns passos que viam nas calçadas corria ao portão, feliz, em saltos na esperança de encontrá-la, mas não era nada, não era ela e aqueles passos, aquela sombra que se aproximava nunca era dela. Dele ainda sentia o cheiro, que agora trazia um semblante pálido misturado com o mofo do coração que guardou. E tudo aconteceu naquela noite, àquela noite que como se por um aviso dos céus, ficou tudo repentinamente escuro e o que ele escutava era o sussurro do coração de Isabella. Brincou toda tarde e a mesma fez questão de dar-lhe banho, quando o abraço demorou-se seu latido ruiu repentinamente como se estivesse recebendo a solidão, não sentiu o afeto, sentiu o medo, sentiu a angustia no olho umedecido dela. Imediatamente tentou animá-la e deu voltas e voltas ao redor de todo jardim, pulava ao seu encontro e sorria ao latir. Em vão, em vão. Isabella ,entrou na casa e logo depois partiu , partiu e nem ao menos olhara pra trás, nem ao menos tentou levá-lo. E tudo o que viu foi seu vulto sumir rua abaixo.



Longe, Isabella pensava! Pensava na casa, pensava nas flores, pensava no labrador e pensava em Fernando. Não sabia se fazia o certo, mas sabia que era preciso está certa do erro e para isso, precisava retornar e naquele momento retornar era deixar tudo o que alegrava seus dias, tudo o que sua alma amava. Lembrou-se do caderno de anotações que esquecera na cabeceira da cama, não podia, não podia deixá-lo, arrumou-se para voltar, mas conteve-se e seguiu. Nas ruas tudo estava grande demais, as pessoas passavam rápido demais e o som era mudo. Cada passo era o seu passado voltando, o passado que não foi devidamente enterrado e que agora precisava encará-lo novamente.

Talvez Fernando não me perdoe, talvez nunca mais eu escute o som do seu riso, talvez... O labrador o fará companhia sei o quanto é apegado, eu não podia trazê-lo estaria tirando mais que um pedaço de Fernando, os olhos dele pareciam falar comigo quando o abracei, ele é um cão, mas sinto que ele me entende, espero que não sofra com minha falta. E Fernando? O que sentirá quando encontrar o escrito na geladeira, preso com um imã, como se fosse a lista das compras do supermercado ou a conta paga da luz? Meu Deus o que eu fiz? Mas, talvez não o deixe tão triste e ler possa ser mais fácil que ouvir.  Talvez entenda o que eu na minha fraqueza não pude falá-lo, talvez apenas rasgue meus versos e esqueça-se de mim.


Na casa as paredes escorriam a cor dos dias felizes. O labrador vez por outra se desassossegava e em uivos reclamava a inércia dos passos de Fernando que não a trazia de volta, não a trazia. Porém, quando sentia as mãos de Fernando o afagando, diminuía sua dor é como se os dois agora tivessem um contrato particular de amparar-se. Pela manhã recebia seu alimento, o dono era quieto e o sorriso era raro, ainda sentia o cheiro de Isabella e vez por outra procurava o portão no mesmo horário que costumava recebê-la, o tempo foi esvaindo-se e a falta dela o fez emudecer.



Fernando também se calou e começou a andar em outros lugares, ler novos livros e olhar novos olhares, seria um novo caminho, um caminho longe do tempo que se foi. Ainda assim, um dia cercado por seus fantasmas a encontrou em suas lembranças e em um email, escreveu:


“Por que foi embora?”

Cedo, percorreu toda casa mais uma vez, em busca do que ainda ficou dela e se livrou de todos os pertences, menos do caderno de anotações, esse ele guardou. Pôs numa caixa longe de suas vistas e o escondendo entre tantos outros documentos, fantasiava não saber possuí-lo, como se não vê-lo fosse suficiente para esquecê-lo. Então omitiu o saber possuir. E em busca de novos aromas e jardins, decorou seu coração com um novo sonho. Sim Fernando seguiu seu caminho com um novo amor. Entretanto o labrador tão intimo de tudo aquilo, mais uma vez não foi avisado, tudo ali era tão seu e ao mesmo tempo tão longe de ser seu que a única coisa que percebeu, foi as paredes sendo pintadas e a casa com um novo aroma. O cheiro era bom, não era o de Isabella, mas era bom, as flores começaram a abrir-se novamente e até escutava o ruído do sorriso de Fernando. Temeroso tentou evitar a nova cúmplice dos dias dele e Fernando, mas aos poucos seu latido voltou e os vultos que se aproximavam do portão todas as tardes já não o incomodavam. Era vida, sim a vida que voltava aquela casa.

Isabella se lembrava de seus afetos, ainda guardava em seu celular a foto de Fernando e do labrador, aquela imagem era o que tinha deles, era o que pode levar deles. Consultando seus emails, leu a frase que Fernando a enviou. E tudo aquilo que a atormentava e toda saudade contida a encontrou como um terremoto de sensações, lembrou-se do bilhete deixado na geladeira, lembrou do riso de Fernando e das brincadeiras com o cão. Decidida o escreveu, e foi descrevendo calmamente como sua vida mudara, até que... largou todo escrito e resolveu voltar e a vontade de chegar era tanta que não conseguia conter-se, no caminho imagina a casa , imaginava o jardim e imagina o pulo que Sansão daria em si. “Sim ele é tão agitado, ele é tão feliz!”

As ruas pareciam longas demais e cada passo a deixava sentir um frio na espinha. Não via a hora de poder tocar Fernando e falar, falar sobre tudo o que passara e tudo o que sentira e principalmente pedi-lo perdão. Aos poucos se aproximou percebeu que as paredes estavam coradas, o jardim florido e no portão nada encontrou, nada encontrou além do labrador ao longe, quieto a olhando, com uma tamanha indiferença que não a tratou nem como se fosse uma estranha, que irritando-se com sua presença, latiria enfurecido para amedrontá-la. Não, ele não se mexeu, nem ao menos o rabo balançou e quando pensou em chamá-lo ouviu vozes que não queria ouvir, e risos que não queria escutar. Afastou-se devagar e viu seu mundo, um mundo tão seu destruir-se. Viu que não cabia mais naquele mundo, nem naquela casa, nem no coração de Fernando e até mesmo não cabia mais na alegria do labrador. O labrador que tão indiferente a olhou, o labrador que nem ao menos se levantou. Escreveu rapidamente um bilhete, jogou na caixa de correspondência e partiu.

Aos poucos o labrador levantou-se e quando ela estava a uma certa distância sentiu-se seguro de aproximar-se do portão, não correu, não latiu, não abanou o rabo. Mas chorou em silêncio como ela fizera antes de abandoná-lo com os olhos úmidos. Percebeu que não era apenas mais um vulto que encontrava todas as tardes quando correndo a esperava no portão. Era ela, aquela que o pegou no colo ainda um filhote e que o acolheu. Mas, apesar da emoção de vê-la a deixou ir, não por não amá-la, mas por temer um novo abandono. O cheiro dela ficou ali nas grades daquele portão onde ele deitou-se e onde mirava a caixa de correspondência, onde sabia está um pouco dela um pouco do que ela foi buscar e quem sabe a explicação que nunca recebera. Ansioso pra saber o que estaria ali, começou a correr de um lado para o outro e a bater na porta, perturbando o descanso de seu dono, latia e corria pedindo sua presença, apenas ele e seus olhos poderiam lhe explicar o que Isabella escreveu naquele bilhete.

Amanheceu e quando Fernando saiu Sansão já estava ali pronto, como se estivesse incumbido de uma grande missão, próximo a caixa de correspondência latia para seu dono. Que brincava com ele e percebia seu estado de euforia. Fernando calmamente separou as correspondências. Até nas mãos receber o bilhete de Isabella. Sentou-se e leu:

“Nunca fui embora! A distância não deixa longe o que está dentro! O que deixa é saudades e quando ela me visitou, voltei! Mas, As paredes estavam coloridas, a cama tinha um novo aroma e até o labrador me negou o sorriso! Desolada, percebi que já não morava em seu olhar!

Lene Dantas

terça-feira, 11 de setembro de 2012

OS OVOS QUEBRARAM


“Os ovos quebraram”


Louca, louca repetia. Logo hoje que precisava de três ovos para fazer o bolo de aniversário de seu marido Afonso. Como pode a Matilde deixar uma caixa inteira de ovos cair, mas que será que ela pensa enquanto perde-se naquela cozinha? Mês passado no casamento da Juliana foi o brigadeiro que ela espatifou ao chão, agora os ovos e eu como sempre tenho que resolver tudo!E minha roupa? Será que ela passou? Acho que mandarei Matilde embora, ela já não faz nada direito, deve ser aquele novo namorado que ta virando de jeito à cabeça dela. Arruma  a bolsa para que fique com o zíper pra frente, puxa um pouco a camisa branca e endireita o óculos na cabeça. Essa rua é perigosa. Nunca fui assaltada porque estou sempre atenta!

Mas, ultimamente perde-se em pensamentos tolos e enquanto aguarda o ônibus pensa em Matilde e nos ovos quebrados. Suspira , suspira como se os outros ao redor soubesse o que lhe incomoda, como se suspirando partilhasse sua dor, observa a mulher do seu lado, parece tão tranqüila , tão naturalmente simples com um chinelo de dedo e uma sacola de supermercado na mão, observa a mulher que quando sente-se examinada a encara com um sorriso no rosto que seria tão naturalmente  despercebido se não fosse pelo batom vermelho  que borra seus dentes ,tão vermelho quanto a saia que conversa com a blusa estampada.

“Ela deve ter uns 55 anos, não deve ter uns 50 talvez, um pouco gordinha, cabelo curto e parece tão calma. Eu não sairia com uma camisa assim, não decididamente não.”

Subiu apressadamente no ônibus sentou-se e fitou a mulher mais uma vez e sentiu que sua tranqüilidade a causava certo desconforto! Enquanto observava as ruas da cidade que silenciosas gritavam aos seus ouvidos, imaginava o que diria a Matilde, afinal, por ela, teve que passar no supermercado e enfrentar aquela fila insuportável, logo hoje que foi sem carro. “Ainda bem que consegui uma cadeira para sentar!” Apertava a bolsa contra o colo, cuidava com a sacola dos ovos e rapidamente olhava ao redor observando os rostos que estariam a lhe observar. O homem que sentou do lado cheira a coentro, não gosto de coentro, lembro minha infância que minha mãe fazia um caldo de coentro, margarina e carne moída, é não gostava daquele caldo e nem do cheiro do coentro “Olhando a janela observou a rua que parecia cinza e muda, passava em seus olhos e ela não via, não via a vida que girava lá fora, estava presa, presa em seus preconceitos banais, o vento que soprava da janela mexia seus cabelos, o vento brincava o tempo todo com ela, mas ela não percebia, ela irritava-se. Resolveu ligar para Matilde não iria esperar até chegar a casa para dar-lhe uma boa bronca. Pronto, agora quem sabe ela deixa tudo bem adiantado. Afinal minha sogra estará lá e tudo deve está perfeito, com gente como ela que presta atenção a detalhes não se pode errar. O homem com cheiro de coentro levanta e claro não poderia sair sem esbarrar em mim, mas um pouco e eu fico como um coentro aqui sentado, um coentro branco, talvez um coentro sem cheiro. Uma menina senta-se e me faz lembrar meus 10 anos, como ela parece comigo, a pele branca, a franja que cai sobre os olhos, com o cabelo assim da cor de jabuticaba, eu tinha um vestido bem parecido também. De repente sinto um cheiro de segredo, como se meu mundo estivesse ali do meu lado, nos olhos brejeiros dessa menina. Lembrei da minha mãe, o que me entristece, pois até hoje, não sei como realmente foram os seus dias, vivíamos lado a lado, mas só o necessário era falado, com uma troca de saudações. Ainda hoje escuto o que ela falava quando meu pai dizia pra economizar, pois éramos pobres,” Não somos pobres, somos mais ou menos”. È acho que eu também não sou pobre, sou mais ou menos, afinal tenho onde morar o que comer, tenho alguém pra ajudar-me em casa, tenho um filho que eu... Pensar no filho a fez diminuir o ritmo e de repente nadou em pensamentos tortuosos. Quanto tempo não falo com meu filho? Quanto tempo não saiu para passear com ele, ele tem 16 anos eu deveria ser mais presente, será que estou deixando a minha casa ficar grande demais, tão grande que eu não posso encontrá-lo ? E Afonso, será que tenho sido uma boa esposa para ele?  Ah! Claro que sim, afinal eu trabalho e o ajudo. Mas e a troca? Acho que tenho sido uma esposa mais ou menos e talvez uma mãe mais ou menos, uma pessoa mais ou menos. Foi ai que pisou em chão selvagem.

Ainda tem duas quadras até chegar a casa e foi examinando a expressão dos que passavam e a rua começou a gritar com ela e a mostrar suas cores. Teve vontade de perguntar aos que encontravam o que pensavam dela. Contida guardou-se em silêncio. Em casa senta e observa suas velhas paredes, estão secas e até a cozinha está faminta, exceto por Matilde, que dança com as mãos enquanto cochicha com a louça por lavar.

“Oi Dona Zilda, cadê os ovos?”

Num sussurro melancólico diz:

“Os ovos quebraram”


Lene Dantas



domingo, 17 de junho de 2012




A impressão que dá, é que estamos cercados de monstros, não de humanos. O amor da maioria das pessoas tem diminuído. Isso tem muito haver com a criminalidade que aumenta a cada dia. Andamos nas ruas assustados, nunca sabemos se podemos confiar, nos que nos rodeiam, e isso tem feito com que as pessoas, sejam frias umas com as outras. Tem gente que tem medo de sorrir! Pior são os que agem com tamanha covardia, como os que maltratam crianças, animais. Tem certas cenas que realmente, não parecem ser praticadas por seres que foram criados, com a capacidade de amar. Estamos na casa de Deus, ele nos deixou nessa terra tão linda, tão perfeita, para espalharmos bons sentimentos, para sermos felizes. Mas, Ele mesmo, quando viu que o homem estava deixando o egoísmo e a inveja tomar conta do seu coração, se pronunciou como estando triste em ver a raça humana se destruir. Jesus veio a terra e morreu por todos nós, nos dando uma lição de amor e perdão. Então quem somos nós, para tratarmos os outros com arrogância? Quem somos nós para julgarmos, ofendermos, prejudicarmos e até tirarmos a vida de outro ser? Hoje, fiquei emocionada e muito triste, li algo sobre o que acontece com crianças, nesse mundo afora: São violentas, maltratadas, feitas de sacrifício e às vezes vendidas pelos próprios pais. Sou mãe e me pergunto como alguém que passou nove meses levando um bebê em seu ventre, tem a capacidade de matar ou de abandonar na rua? Bem, pelo pouco que entendo da Bíblia é chegado perto o fim e o que Deus nos promete é um revigoramento dessas dores. Em Revelação (Apocalipse): 21:4, 5 diz:” Que Deus irá enxugar todas as lágrimas e não haverá mais pranto e nem clamor e nem dor. (“5) Escreve porque essas palavras são fiéis e verdadeiras.” Acredito nessas palavras e em um Deus de amor, que nos ampara e fortalece! Acho que o mínimo que podemos fazer, é a cada dia aprender mais sobre ele e suas ricas promessas, e assim tentarmos caminhar com os olhos fixos, não em coisas materiais e sim em coisas espirituais, pois essas são eternas e não se corrompem.

Lene Dantas

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Era amor Era amor






Sem mais, chegou o fim,
E a vida se mostrou inútil.
Era amor era amor!
Cansada de sofrer, apenas resolveu esperar, esperar tudo passar e o tempo resolver as questões que a amedrontavam, afinal não parou de viver, conheceu o doce amargo e o amargo do doce e viveu emoções embrulhadas em papel de presente. Do labirinto ainda não se libertou, procura em dias e noites a saída, aflita, às vezes chora. Percebe que seus sonhos não foram ignorados apenas não foram repartidos e como é ruim se aperceber que amou alguém, alguém que ama outro alguém, alguém que nunca de verdade importou-se, alguém que ainda a deixa sem sono e que afaga suas emoções quando envia flores em sinal de amor. Sim no final, tudo foi se encaixando e talvez seu lugar seja mesmo onde está e seus sonhos apenas quiseram aventurar-se contrariando o que de verdade devia ser.
Aproximou-se dele por um instante, sentiu seu cheiro, tocou sua pele, afagou seus cabelos e o grito ficou entalado como cacos de vidro quebrados no peito, quando não pode dizer-lhe nada, pois como tudo o que teve dele, era apenas mais um sonho e ele não estava ali.
Foi varrida de um lado para o outro, cercada em quatro paredes por imagens de um filme de amor, filme que não teve fim. Canções e canções eram memorizadas e repetidas e levantava-se a noite em agonia, quando a alma amargurada lembrava-se da voz do amado, para acalmar-se imaginava que ele também se lembrava, que ele também queria então se sossegava e a madrugada não parecia tão longa, não tão longa quanto as que de um lado para o outro, passava ansiosa esperando em vão, esperando , esperando quem nunca chegaria. Nisso perdeu- se no tempo e não percebeu que tudo passou, as estrelas mudaram de tom, que as crianças mudavam de brincadeiras e que sua rua tinha outra cor, despercebida o tempo passou e tudo, tudo mudou até a primavera teve novas flores e ela inerte achava que podia mudar o mundo, muda o rumo, mudar o tempo ou trazê-lo de volta e esticava-se, esticava-se o tempo todo e o tempo corria e o tempo passava e mais longe, bem mais longe, aquele amor seguia.
Sem mais, chegou ao fim,
E á vida se mostrou inútil.
Era amor era amor!
Pegou a condução e por um momento reparou-se, seus olhos mudaram, não tinha o mesmo tom, os cabelos brincavam com o vento, diferente dela, pareciam alegres, diferente de tudo o que ainda restava dos dias de sorrisos, olhava na janela e achava tudo mais colorido quando passava depressa, os carros pareciam mais bonitos e as pessoas deixavam um rastro de mistério que a impressionava. Imaginou-se assim, e talvez e talvez, precisava caminhar mais rápido,precisava preencher os espaços que ficaram abertos, soltar-se, querer-se, amar-se; talvez reconhecer que a condução também não é mais a mesma, que ela precisa saltar, talvez sem pressa depois da pressa de achar-se. Talvez agora, precisa memorizar-se para não esquecer como chegar até ela novamente depois de tanto afastar-se de si para chegar nele. Precisa encontrar-se novamente. As luzes da cidade começaram a acender-se; No meio de tudo, encontrou amigos que sempre estiveram ali e esticaram a mão e deram os braços, fotos, piadas filmes e tudo mais que poderiam compartilhar. Mas tão insensata tão insensato seu coração, como um rio que não chega ao mar, corria sem correr e perdia-se sem notar, com isso no meio de todas as luzes acesas, via novamente o rosto do amado, suspirava e lembrava-se da voz e da canção que juntos cantaram ao amor.
Sem mais, chegou ao fim,
E á vida parecia inútil.
Era amor era amor!


Lene  Dantas