terça-feira, 13 de novembro de 2012

O GOSTO DO FEIJÃO



A poeira soprando o tempo todo no tempo, e cada fragmento é uma lembrança. Está ali, neutra, como uma morta viva, como uma morta que se esqueceram de enterrar, uma morta que se esquece de partir. Sim, bem mais assim, uma morta que ficou parada no tempo e esqueceu-se de partir. As paredes sabem de cor os seus segredos e a janela é aberta, um pouco, só um pouco, assim ninguém pode roubar-lhe o sossego, o sossego que espera a cada manhã quando se despede do marido, em uma hora que parece interminável. Diria que, cada vez que ele passa a escova no dente, seria um momento roubado, um tempo, um riso. E ela, ali em meio á lençóis que conhecem o cheiro de ambos, lençóis que já secaram suas lágrimas, que já cobriram sua insegurança, que já sentiram o cheiro do seu prazer. E ali olha o relógio, são 06h30min, ainda faltam alguns minutos. Ele calmo, atravessa devagar o pequeno espaço entre o quarto e a cozinha, toma um pouco de café, dirige-se a sala, liga a TV e em alguns minutos aproveita o aconchego do seu sofá. Sofá que foi comprado em 36 vezes, rubro e confortável como a mulher pediu. “Bom para ver TV e dormir” Falou isso quando deixou a loja, imaginando ter um pouco de tempo, um tempo no tempo para sentar-se e acomodar-se. Quando o sofá chegou, Clara abriu bem as portas, limpou todos os móveis e lembrou aos filhos para não comer ali, não deveriam comer nunca ali. Pensou em deixar o plástico, afinal às crianças poderiam sujar a delicada camada de veludo, no sofá que tanto esperou.

 “Também 17 anos de casados, seria o mínimo, ele nunca me deu nada, nada além dos primeiros móveis que até hoje são bons porque eu cuido”.

 Mas o marido, não quis o plástico, queria aconchegar-se no sofá, queria sentir o sabor do suor derramado em 36 parcelas, cada vez que ali encostasse. A TV falando sempre as mesmas coisas e ele colocando calmamente suas meias. Como se o tempo parasse, experimentava o gosto de sentar-se um pouco. Na cama, ela aconchegava-se esperado o ranger da porta, onde teria a certeza que finalmente estaria só, era quando realmente podia acordar e ser o que queria ser. Enfim, a porta abriu e fechou-se, os passos até a garagem e o barulho do motor do carro, mais um pouco e ele se foi. Sim, agora se sentia completa, na cama alargava-se esticando suas pernas, pelas venezianas percebia o dia que chegava, e lá estava acomodada em seu intimo, sem frio, nem calor, num estado passivo entre bocejos e suspiros, lá estava em sua cama e lá fora a manhã. Lá fora o Sol. Devagar foi ao armário e entre peças perdidas e antigas, não sabia o que usar. Ora a calça era apertada demais, ora a blusa tinha muitas estampas, ora o vestido deixava seu corpo deformado. E assim entre suas avaliações queixosas, colocou uma legue preta e uma camisa do fluminense. Era o time do seu pai, lembrou-se de quando era criança e todos os seus tios reunia-se para ver o jogo, ela com bochechas rosadas e olhos aguçados, sentava-se na sua cadeira de plástico vermelha, tão pequena quanto ela.  Sua mãe cozinhava feijão branco e deixava a panela semi coberta para que o caldo ficasse grosso, cortava devagar um pouco de calabresa, separava costelinha de porco e preparava outra panela para fazer o refogado de alho e cebola. Aquele cheiro trazia boas lembranças, seu pai era o primeiro a servir-se. O feijão caia sobre o prato, com um prazer absoluto e com o mesmo aspecto feliz em que seu pai deliciava-se ficavam os olhos de sua mãe a observá-lo, esperando o elogio de sempre, esperado que ele mais uma vez a admirasse a enaltecesse, como a melhor cozinheira do mundo. 

“Eu tinha uma bacia de alumínio, mas quando era feijão tinha que comer num pratinho azul. Era bom. O gosto do feijão era muito bom!”

Era bom lembrar o cheiro de sua família. Levantou-se e começou a cozinhar feijão. Assim como o que sua mãe fazia. Enquanto isso ligou o computador, precisava dividir com seus amigos, que hoje comeria feijão, o feijão que aprendeu com sua mãe, o feijão que deixava seu pai mais apaixonado a cada ano. Foi então que se rompeu um súbito de medo, de pânico e perguntou-se: O que será que tenho feito? Será que André gosta do meu feijão?  Será que eu gosto de André? Será que minha casa tão bem decorada por nós, só é bela superficialmente?  Meus filhos logo irão à escola, sei que Mônica gosta de feijão com um pouco de arroz branco e bife. Rafaela não gosta, prefere massa, mas hoje ele terá que comer.  Quando André chegar vou perguntar se ele gosta do meu feijão. Nunca vi seu rosto como o de meu pai ficava, quando comia o que minha mãe fazia. Alias, acho que nunca mais o olhei de verdade.  Queria sumir daqui e desse lugar, queria voar longe, queria e queria. Mas tenho minhas filhas e tenho 17 anos de casada. Não amo mais André, afinal me apaixonei por Fred.  Isso é pavoroso. Só sei que queria sumir com Fred. Mas eu não teria coragem, nunca trai meu marido. Mas, como gostaria de um dia, pelo menos um dia sorrir com ele, com Fred. Será que ele gostaria do meu feijão? Será que ele iria ficar admirado e dizer que eu era especial, assim como meu pai fazia? Será que ele me amaria a vida inteira? Será que não esqueceria o dia do nosso primeiro beijo e nem do nosso aniversário de casamento? Será que me traria flores? Que me acordaria com beijos? André me acorda com beijos, mas eu sei o que ele quer , quer usar meu corpo. Mas não vou ceder. Estou fazendo greve de sexo e vou continuar fazendo até ele perceber que tem que me valorizar. E se ele me trair? Ah daí nem ligo. Vou atrás de um juiz e me divorcio e ai não terei culpa, vou separar-me com razão e ninguém vai dizer que separei porque amo outro homem, mas porque ele me traiu. Meu pai entenderá e minha mãe vai chingá-lo. E Fred? Será que me ama mesmo? Ontem ele não me ligou, fiquei tão perdida e sozinha. Sei não, acho que vou deixar-lhe um email. Acho que vou dizer que não tenho tempo para brincadeiras. Eu tenho 38 anos e tenho duas filhas, não posso jogar tudo isso para cima. Mas ele é tão carinhoso.

Perdeu-se em seus labirintos. Perdeu-se outra vez na casa que de tão pequena era tão grande. Perdeu-se em André, perdeu-se em Fred, perdeu-se, se perdeu. E o feijão? Este, ela queimou.

Não cozinhava como sua mãe, não que não o soubesse, apenas vivia presa em uma vida que não sabia tê-la, nem sabia querê-la, nem sabia se deveria mantê-la viva. Uma morta parada no tempo e esqueceu-se de partir. Como uma morta viva. Sorria para alguns, se trancava para outros e adiava à hora da chegada de seu marido, pudesse, atrasaria o tempo. Pararia o tempo às sete da noite. Assim não teria de servir o jantar, nem de escutar seus resmungos e muito menos, mais tarde entre os lençóis, precisaria deitar-se devagar, bem devagar, para que ele cansado, não percebesse sua presença, para que ele não a inquietasse em busca de sua intimidade. Precisava de tempo também para sonhar com Fred, talvez porque o amava, ou apenas, porque precisava alimentar algo em sua mente tão morta como seus olhos.  Precisava achar-se ainda que perdida, precisava bem mais que aquela aliança colocada em seu dedo na mão esquerda. Ela ainda não sabia, mas precisava deixar o feijão no ponto.

Lene Dantas

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