quarta-feira, 27 de abril de 2011

Enlace dos Enamorados


Muito mais, muito mais e tudo o quanto desejaste. Pronto, era isso! E agora? Estás satisfeito? Agora que roubaste a calmaria das noites e o sublime sono ao anoitecer, dá-se por satisfeito? Que pensa que sou, além dessa pele que já demonstra a desistência do vigor juvenil? Pensa que vivo de ausência, que desfruto da agonia fria de não ter ninguém aqui? Não lamento pelos seus dias sofríveis, pois é fato que sempre procurou caminhos difusos. Não sei até onde caminhei acelerando seus devaneios. Mas agora o que faço diante de ti? A noite vem morna e já nem vejo quando as estrelas cintilam. Lembro-me que minha mãe dizia: “Quando uma estrela cadente passar, faça um pedido!” E eu fazia e ainda faço, de forma que penso se errei em meus pedidos ou se elas não me escutaram, ou simplesmente não aprendi a falar a língua das estrelas, elas faíscam tanto na noite calma, sinto como se me observassem e, se olho por um período maior, tenho a sensação que devagar, sutilmente, elas descem em minha direção. Talvez eu não esteja tão atenta e a culpa nem seja sua. Tem dias que tudo parece maior, a casa parece grande demais, a terra parece grande demais, é como se tudo estivesse vazio e tudo fica bem distante, e o céu também parece vazio, e de repente nem tem cor, e chega a ser invisível, mas mesmo no invisível de sua existência ele é real, pois é fato que nem tudo que é real é visto e é preciso ter sensibilidade para emergir nos mais profundos rios para se enxergar o real invisível, num rio feito de vinho que inebria suavemente todos que nele mergulham. É preciso saber aceitar que o sono vem e acalma, e nos transfere para uma dimensão do não ser, do não saber, do não fugir; ele apenas nos eleva aos anjos, nos acolhe suavemente nas nuvens e nos faz descansar em plumas, e é nessas horas que conhecemos o que ainda não sabemos conhecer. É quando pela manhã o dia já amanhece colorido e o sorriso sem motivo faz-se morada na boca. Nessas manhãs, são as manhãs anteriores das madrugadas que dormimos nos céus, são os dias mágicos, os dias de olhares encantados, é nesses dias que nos apaixonamos que percebemos a beleza de uma flor, que no cantinho de terra faz sua morada e, às vezes, entre espinhos e, às vezes entre mato e, às vezes, entre lixo, mas ela brota e faz sua parte. E a alma naufragada em felicidade sente-se livre. Porque percebeu que tudo é livre e que tudo que deixa de ser, perde o sabor porque tudo nos foi dado generosamente e essa é nossa divida com o mundo: devolvermos generosamente. Mas agora percebo que dei amor generosamente e achava não receber em troca. Mas como não, quando a maior felicidade está em dar? Se falar de amor me faz renascer e ser, e ver tudo de forma melhor. Mas, como provocar a felicidade que sempre foge, se a  caçamos e ela foge, então, como uma bolha no ar sensível e suave, ela sobe e sobe, e se perde na imensidão do céu. Então, como pegá-la sem destruí-lá? Como segurá-la entre as mãos, se ela é tão frágil, tão bela e tão frágil?  Disso, só posso dizer que a felicidade é frágil, mas existe e que, às vezes, não enxergamos, mas ela está ali e vive nos ares, flutuando por aí, viajando com as brisas cercando os dias. Então, o que me diz agora do sono que me tira? Por que o sono torna-se meu inimigo cada vez que tento repousar à noite e tento, por instantes, conhecer também o meu mundo pelos ares que os anjos precisam levar-me? Se não me permito o sono, como irei sonhar? Se, quando os olhos acaletam-me mostrando que irei descansar, tu me fazes despertar em pesadelos que não quero ouvir? Sinto no íntimo uma vontade, um ardor de querer chegar próximo aos dias felizes que decorei em prateleiras que andam empoeiradas, sinto um desejo estranho e pertinente de querer, querer o que não posso querer. Sinto que me deixo ir por momentos exaustos, onde o sono vem e a noite acalma as lembranças e, quando penso em desnudar do sabor de nada ver, do escuro que fica ali, depois que tudo emudece em nós, que tudo se aquieta, que tudo é como a distância de um breu, de um profundo sono querido, tu vens e repentinamente salpicas sobre mim faíscas de dias que precisam morrer, tu vens e não me deixa dormir. Se tu que amas tanto e que de tudo mais belo cria e que de tudo que sonha planta, se tu és a morada do amor, se tu és onde a saudade refugia suas dores, se é o absinto onde os poetas caçam o mel, pois se tanto és tudo isso, então esclareça porque me fez apenas ser uma flor murcha dentro do peito? Por que permite que as sombras suguem meus sonhos me fazendo entrar em desesperos nostálgicos? Se tu deves completar-me porque saí de mim e escolhe amar uma alma desalmada, onde por tanto que me fez feliz hoje me fez amarga? Por que me permitiu cair no abismo do sem fim, onde os olhos peregrinam ao encontro de um ser, que me deita em relvas e me faz acordar entre luzes acesas, no pouso das águas, sob o horizonte do mar lento e calmo, que canta com as ondas o coro das melodias de amantes que dormem nos braços de Eros? Como me fez entontecer de amor, por um amor que existia e não existia? Se tu és de todo o mais perfeito símbolo do elo mais profundo entre os seres, porque permite que eu, que tanto amei, me torne apenas uma flor murcha diante do sol? Se tu, coração, és meu e ensinou-me a amar, porque não me ensina a ser de novo uma rosa desabrochada? E hoje, ainda que eu alague meus olhos, continuarei perguntando a ti, sobre todas as trilhas que segui e continuarei a escrutinar-lhe e, mesmo que me dissolva rapidamente em meu interior, ainda assim continuarei cavando à procura de objetos perdidos, à procura do momento distraído que deixou meus sonhos caídos repentinamente, à procura do dia em que você acelerou no ritmo das danças, e que meu intimo apenas guiava-se, à procura de um só ser, somente um. E caminharei ainda diante da chuva e buscarei os dias em que, distraída, emudecida, me fiz ser do amor e o meu amor eu dei. E quando encontrar pedras, perguntarei a elas, ainda que mudas, e saberei seguir para ter em mim o que não mais tenho e dizer para ti o que tanto me fizeste entender, que não do sofrimento vive o amor e, sim, de uma nota musical leve, flutuante, viva, feliz, e tão suave que os ventos pedem licença para passar e os mares rendem-se a ela. E os ritmos das marés acompanham-nas, proferindo bênçãos e, sem que se perceba, a lua em sua magia abraça-os, enlaça-os, e é por isso que aqui da terra, em noite de lua cheia, sempre tem uma sombra no luar branco e calmo, é a cortina púrpura do amor que cobre o deleite do momento solene do encontro, entre as almas plácidas. Do encontro entre eras e eras de outros tempos, onde sob a lua, ouviam-se aplausos dos que brindavam o enlace dos enamorados.



domingo, 24 de abril de 2011

VERDADES


Pensava em ser e sabia que era, mas ainda não sabia o que podia ser ou encontrar em torno de seus esconderijos estranhos. Não tinha pretensão de ter ou ser mais que alguém, e nem tinha vontade de sucumbir a desejos antigos, por tortas ou meias palavras que, paralelamente, sempre chegam trazidas por abutres. Em casa, às vezes, sentia-se acolhida; outras, sentia-se sufocada, ainda assim gostava de sua casa, do jeito que as paredes olhavam-na, gostava do cheiro que vinha do quarto e gostava de seu banheiro. Não tinha muito que dizer de si, talvez nunca precisasse falar de si e nunca enxergou que precisavam enxergar-lhe. Às vezes, tolhida, amedrontada, amontoada. Às vezes, nem entendia porque queria ser o que ainda não sabia, mas queria de um jeito estranho chegar a lugares não conhecidos, onde seus sapatos não conheciam o pó e, por mais que, às vezes, sentisse ser varrida de um lado para o outro, de cima para baixo, por mais que, muitas vezes, tenha se deixado assim, ainda ouvia o canto do sabiá e tinha um suave desespero de voar, talvez encontrar nos céus as respostas que nem ela sabia que queria ter, pois o que era oculto encantava-a, e os mistérios construíam-lhe desejos pertinentes, que envolvia suas correntes sanguíneas e davam-lhe um gosto natural e sublime de desvendar disparates, que agrupavam-se em sombras. Tinha fome por sinais que revelavam o que queria desvendar, pois ela escolhia o que agradava e via o que queria, assim, evitava não sofrer com a verdade que muitas vezes arrasta para um breu de desilusões e decepções. Talvez, verdades arrancassem-na de seu sossego ou arruinasse suas pirâmides tão bem construídas, feitas especialmente para protegê-la dos anseios, do que queria ou do que iria fazer. No entanto, sabia que precisava de verdade, mas pensava se realmente existiam verdades, pois até onde tudo é verdade? Até onde o noticiário contava o que realmente era e até onde alguém pode destruir sonhos e perspectivas de outros pelo simples prazer de arruiná-lo? Até onde pessoas não enxergam o sofrimento de outros, abandonados pela própria sorte, onde a miséria, a fome, a dignidade, arrastam a uma situação infeliz? Até onde o egoísmo e a inveja permitem um ser humano deixar de amar? E se existe verdade, até onde os que pregam o amor e a paz, realmente lutam por isso? Será que pela manhã, além de lavar o rosto, ainda se agradece pela noite em sossego, onde a casa em calmaria adormeceu ao som suave do céu, que vela as estrelas até que elas brilhem? E as verdades?

Sabia que precisava sair de suas paredes conhecidas, sabia que precisava lutar por si, sabia que lá fora encontraria a resposta às suas preces e que, para tanto, precisava seguir etapas e largar o hábito de apenas ver, de apenas ouvir, de apenas tentar entender e, mesmo que existissem muralhas, sabia que precisava passar por elas e que, no monte, de lá sempre ouvia os céus. Talvez observasse o por do sol e, lá de cima, olhasse o mar aberto como se a esperasse para um abraço, pois queria muito tentar entender toda sua forma abstrata, onde os absintos de suas ações deixavam-na fervilhando. Onde as chamas de seu coração eram inexoráveis e, muitas vezes, pediam aos seus enigmas que fossem descobertos, pedia que o silêncio fosse declamado para que outros falassem o que, na verdade, ela já sabia, para que sua loucura que, mesmo loucura era sã, devolvesse o dilema de não saber o que procurava. Não tinha pretensão de guerra, mas sabia que para satisfazer seus impulsos precisava dançar entre espinhos e sentir o gelo queimar o coração. Sabia que precisava sentir fome e, mesmo com fome, diante do pão, apenas o olharia, pois o prazer de olhar era maior que o prazer de fartar-se com ele, e seu desejo aumentaria cada vez que sentisse o aroma, e seria feliz de tê-lo, e a fome seria o sinal da caça, pois a caça depois de morta está sacramentada e só outra caça dará o sabor de conquista, mas sabia que ainda assim poderia várias vezes desejar o mesmo pão e consumar seus anseios, mas a fome era sua guerra. E não sabia ainda porque precisava ouvir as mesmas melodias que sangravam suas dores, mas elas a faziam sentir-se viva e descobria a cada dia que sua estranha vontade dependia de sentir e, muitas vezes, sentir era sofrer. Não queria alimentar o sofrimento, mas procurava superá-los e não tinha outra maneira, além de enfrentá-los, para socorrer suas fomes, seus anseios, seus medos, suas caras, suas forças, seus amores, e não tinha força ainda para falar que não amava, pois o que mais a mantinha viva ainda era um tal de amor, amor a tudo ao que dedicava tempo, e a tudo que ainda sobrava de sonhos despedaçados, e a tudo que se construía, e a tudo o que a fazia sorrir em doses lentas e fartas, e, às vezes, chorar em doses, doses apenas, doses de algumas cicatrizes exaltadas e o choro, às vezes, triste demais para lembrar-se do porquê do choro, e apagava a vela que acendeu na hora do jantar, do jantar que esperou o amor, do amor que não foi e que deixou-lhe com fome, em meio a um banquete, e a vela apagou e, calmamente, desfez a mesa e tudo que estava lá, até a flor do jarro que tinha um cartão escrito com letras decoradas, falando de um amor eterno, de sempre e sempre e para todo sempre. Descobriu, assim, que o sempre não existe e que o sempre é a vontade de viver e de lutar por si, mesmo quando a luz do jantar de velas é apagada com soluços inflamados pela perda do deleite do que não foi e do que não era, e que ela achava que era. Pois o quadro na sala tem a família e um retrato da avó, que foi casada cinquenta anos, com um sorriso terno ao lado do homem com semblante sério, que ela dizia amar, mas será que amava? Será que a imagem do quadro era verdade? E as verdades? Onde estão todas as verdades? Hoje, apenas acha que a verdade está na vontade de comer um pão, um pão que a deixa com fome, mas que ela não come, por vontade de apenas vê-lo.



segunda-feira, 18 de abril de 2011

CORREDORES EMBARALHADOS



Vagamente, caminhava pelas ruas movimentadas da cidade, mas nem ao menos sabia o motivo de estar ali, caminhava sem destino e virava a cada esquina, como se em uma das curvas pudesse encontrar o real motivo de seus passos leves e indecisos. Sempre fora assim, lembrava sua infância, de quando no meio dos gritos agitados dos amigos para o intervalo, ela simplesmente levantava-se e dirigia-se a algum lugar, que para ela não precisava ser especifico, era algum lugar ali na escola. Ora perto da cantina, ou ora perto do banheiro, ou ora sentada na escadaria. Simplesmente ia para algum lugar que a deixasse longe de tomar atitudes, de ter que decidir entre brincar de roda ou de boneca, entre correr ou esconder-se, ela apenas seguia sem tomar decisão. Prontamente, saia de onde estava, ao toque agitado do sinal que fazia toda aquela euforia diminuir, só assim ia, calmamente, sem empurrar, sem reparar nos cabelos da menina da frente, sem olhar para os olhos castanhos do menino do lado, apenas seguia e esperava o próximo passo da vida sem ter que contestar como ela havia de agir. Às vezes, achava que tinha um oco dentro de si, que nada sabia, que nada achava, que nada via e nem sabia porque precisava saber ou ter de optar. Apenas ia e seguia o rumo que a vida encontrava para si. Hoje, não era diferente, pois apenas caminhava e via várias pessoas seguindo na sua direção, e passavam apressadas, e todas pareciam realmente ter algo para fazer, mas perguntava-se até onde elas, realmente, tinham? Ela mesma não tinha muito que fazer hoje, mas andava acompanhando a multidão como se, de alguma forma, estivesse indo para algum compromisso inadiável, mas distante e por isso caminhava propositalmente devagar, talvez atrapalhasse a pressa de alguns e, assim, poderia ser notada, talvez sua blusa verde musgo chamasse atenção; afinal, ela escolheu cuidadosamente os detalhes para chamar a atenção. Mas de quem mesmo ela queria chamar a atenção? Ela não sabia e caminhava como se a vida não soubesse dela, e ela não soubesse da vida, e nem soubesse se queria saber, mas queria que alguém a notasse e, de repente, ela poderia deixar de ser Aline Coutinho, talvez fosse chamada de “A Aline Coutinho”. Talvez a professora se lembrasse da menina que ela pedia para apagar a lousa, sempre que estava com renite aguda. Talvez Eduardo se lembrasse da data do namoro deles e resolvesse levar flores. Talvez as flores fossem amarelas e lhe dessem a vida que ela não tinha, e que nem sabia que queria ter. Talvez ela se emocionasse e chorasse; há muito tempo não chora, quem sabe está com saudade de chorar, quem sabe o medo de não ser ninguém a faça ser alguém e decidir de vez o que fazer de sua vida, que vive em jejum. Sentimentos apertam-lhe o peito a cada passo que dá, e cada passo parece mais demorado, depois de tanto caminhar e esbarrar em pessoas que, possivelmente, nunca mais verá, e entra em ruas que não planejou, observa uma praça pacata com belas árvores, segue e resolve sentar-se, verifica a hora no relógio, como de costume, como se a hora mudasse algo ou como lhe socorresse de cada dia, e esperava ansiosa a hora do esconder do sol para a chegada inquietante da lua, que deixava-a certa do fim de um dia, de mais um dia que passou, e que ela esteve ali, cega, muda, surda, mas ali. Pegou um espelho na bolsa e olhou seu rosto pálido, seu cabelo já desbotava os tons de acaju e seu lábio estava seco, talvez estivesse aparentando mais anos do que tinha. Viu que já escurecia e decidiu partir, decidiu chegar à sua caverna esquecidiça, onde o cheiro era dela e onde as paredes conheciam seus medos. Onde a cama testemunhava sua solidão. O apartamento era tranquilo, nem barulho de crianças ouvia-se, era tudo frio e úmido naqueles corredores que levavam até seu refúgio mórbido, ela disfarçava muito bem seus temores até mesmo para si, mas hoje a alma ecoava um desejo ardente de falar do que sentia. Olhou por algum momento a entrada de seu apartamento e agitou-se em saber que tinha dentro de si um desejo de mudança, um desejo de saber quem era e de saber o que ainda podia fazer, dizia pra si mesma que estava morta, morta viva, viva morta. E sentia um medo do que ainda não sabia e medo do que ainda não acontecia, e ficou ali esperando a madrugada chegar, observando a entrada do seu apartamento, como se lá fora estivesse melhor; sentiu sono, cansaço, dor.

O sono é demasiado em mim
Sinto o corpo cansado
Sentimentos misturam-se
Aflição
Procuro um lugar seguro
Onde meu coração possa bater sem pressa
As portas, elas podem me ajudar
Qual porta me levará para a paz que procuro?
O jardim hoje está mudo
Nem as flores falam comigo
Estou só, no adiantado das horas
Será que estou perdendo o equilíbrio?
O apartamento não tem elevador
Preciso subir os degraus
Talvez eu pare no oitavo andar
Meus pés já não agüentam os sapatos
Calças justas sufocam meu caminhar
Quero água
Terá alguém para saciar minha sede?
Meu cabelo está despontado
Meu lábio sente falta de um brilho
Madrugada chegou seca
Na esquina tem trapaças
E hoje nem para lua eu olhei
Quero um cobertor de plumas leves
Não sei do vestido vermelho
Mas encontro na bolsa um bilhete delicado
Tomei banho de mar e fiquei febril
Conchas tinham segredos
Quero olhar o mar
Pisar na areia e olhar o mar.
Quero parar o meu carro
Antes da festa no castelo da esquina
Prefiro chegar a pé
E vestida de trapos
Com versos nas mãos
Não quero o doce
Quero o fel para sentir o gosto bom
De adoçar o amargo
Quero o desigual o diferente
Não tenho medo dos segredos
Não tenho medo das verdades
Tenho medo apenas
De feras presas em mim.

E diante da sua ofusca realidade da vida, sentia-se fraca e forte, sentia-se um tudo e um nada. Seguiu para dentro do seu calabouço silencioso e mais uma vez encontrava corredores e esquinas e ruas na sua frente e todos embaralhados como se pedissem-lhe uma explicação. Dessa vez, sabia pra onde eles a levavam, ela entraria em sua torre, onde ela mesma aprisionara-se. Ela esperaria o silêncio dos seus medos, os fantasmas que não deixavam-na em paz. E adormeceria sonhando com dias onde ela não seria apenas alguém que deixava a vida levar-lhe, mas ela levaria sua vida. E seguiria corredores tranquilos que a deixariam sorrir sem pressa. E poderia, quem sabe, assistir a um show da Rita Lee cantar Amor E Sexo e comer fritas sem medo de engordar. Poderia até voltar e rever os amigos da escola, aqueles que ela se esqueceu de conhecer, que ela empenhou-se em ficar longe. Podia até mesmo beijar o vizinho quando o visse pela manhã terrivelmente irresistível, desejando-lhe um ótimo dia, sim, poderia jogar fora as flores amarelas que Eduardo trouxesse, flores que, com certeza, murchariam antes mesmo de chegar às suas mãos, por serem flores de um amor morto, talvez de um amor que nunca existiu, talvez de um namoro feito por conveniência de duas pessoas sozinhas, esperando o amor chegar, um acordo particular de sarar feridas de outro tempo, feridas amargas que sumiam, mas que chegavam numa coceira irritante, durante as horas que a noite resolvia surpreendê-la com seu toque irônico e desdenhoso de quem sabe suas manchas. Talvez as flores nem tivessem culpa, mas de repente o amarelo deixasse-a triste e ela não quisesse olhá-las pela manhã. Aline adormeceu com o cheiro dos embriagados, pois hoje percebeu estar inebriada de vida. Pela manhã, acordou com um olhar diferente, como se tivesse feito amor com a vida, peregrinou em pensamentos débeis de um tempo que ela não sabia ser e ofuscou-os rapidamente com um salto rápido da cama. Demoradamente, banhou-se e cada parte do seu corpo esguio pedia remendos, foi então que lembrou-se de comprar uma nécessaire; afinal, que mulher não tem uma nécessaire, sim, arrumou-se e saiu a fim de encontrar os curativos de suas feridas, e talvez o segredo estivesse na nécessaire. Ao sair do apartamento, viu corredores cheios de tapetes vermelhos e aveludados e, a cada passo, encontrava vida, e até chegou a ouvir gritos de crianças, sentiu não encontrar o vizinho, pois hoje fatalmente o beijaria, por um momento chegou a pensar que não conhecia aquele lugar, era tudo diferente e até o branco pálido das paredes parecia colorido. Decidiu ficar longe da solidão do carro e seguiu para o ponto de ônibus examinando tudo com graça. Logo adiante, pegou a condução e sentou-se com um sorriso disfarçado perto de um jovem meio desalinhado, com cheiro de gel e pasta de dentes, olhou-o pelo canto do olho e sentiu vontade de encostar o braço no dele, e fez disfarçadamente quando o ônibus virou, sentiu uma sensação boa e queria o cheiro do vigor juvenil, sentiu o coração palpitar rapidamente, como se fizesse uma grande traquinagem, talvez a maior que havia feito desde muito tempo, embora o moço nem sequer percebesse que seu braço encostara-se ao dela, mas ela sabia e admirava o jeito que ele mascava chiclete. Quando aproximou-se do ponto, deu adeus para o jovem com um sorriso esquisito, como se tivesse lhe roubado a cor da juventude e, ao descer, seguiu à primeira banca que encontrou e comprou um chiclete de menta, e mascou com a boca aberta, sentindo-se jovem, sorriu e já esquecia a nécessaire, quando se deu conta, ao abrir a bolsa, que seu  espelho e que seus batons estavam jogados, então, determinada como quem precisa pagar uma sentença a si, comprou seu nécessaire e saiu satisfeita da loja como quem virou mulher e descobriu os segredos embaralhados entre batons, pó de arroz, cremes e tudo aquilo que se encontra desordenadamente, ordenados numa bolsa feminina. Em casa, jogou os objetos em cima da cama e admirou-os com um ar enamorado, e sorriu ao lembrar-se que só hoje percebeu que nos corredores do prédio tinham violetas que embelezavam as laterais, e que o porteiro prendia uma flor junto ao crachá, todos os dias, e cumprimentava a todos com um bom dia sorridente. Descobriu que o chiclete não é bom pelo açúcar, mas pela sensação de liberdade que se sente quando se masca e que uma nécessaire nem importava muito. Descobriu que o vizinho era casado e que a mulher dele nem era tão bonita, mas ela era dona do amor dele e todos os dias, à tarde, saíam juntos para caminhar e ele sempre abria a porta do carro para ela entrar. Descobriu que Eduardo, com certeza, não lembraria o aniversário de namoro deles, mas que estaria prontamente ali, ao seu lado, se ela o chamasse, e que a elogiaria mesmo que ela estivesse com a cara amassada da madrugada mal dormida. Levantou-se e olhou da janela do apartamento e, então, sorriu abertamente, pois ultimamente seu sorriso sempre era de lado, como quem precisava esconder-se. Sem pressa, caminhou até a cozinha, ligou para Eduardo e falou que fosse visitá-la e que trouxesse flores amarelas, pois hoje ele conheceria os segredos dos seus corredores embaralhados.



sábado, 9 de abril de 2011

BÊBADA



Maria Lúcia caminhava bêbada, vez por outra tombava em seus próprios sapatos, ria desdenhosamente como uma louca, feliz por estar num estado inebriante. Hoje ninguém iria atrapalhar seus planos, ninguém ia impedi-la de fazer a bobagem mais ansiada nesses últimos dias. Logo cedo, arrumou-se devagar e detalhadamente maquiou-se, passo a passo, seguiu as dicas que pegou com seu novo cabeleireiro, chamado Flávio, anotou uma a uma no seu bloquinho de papel, especialmente decorado, com flores dos campos, sempre o levava na bolsa pois ultimamente, sua mente arredia e hibrida decidia em que pensar e não a permitia tomar decisões. Pintou-se com batom vermelho, delineou os lábios como quem pinta com cautela um painel de exposição, o ruge corou as maças da pele que ultimamente era pálida. Pálida como seus dias que se tornaram aflitos. No armário escolheu um vestido longo de estampas escuras, fazendo companhia como um amante para a bolsa de camurça preta. Depois escolheu os sapatos, sim esses eram os favoritos, pois sempre dizia que era dos pés que se conhecia uma dama. E calçou os seus sapatos de saltos finos com uma singela bijuteria de vitral, decorando a lateral, orgulhava-se de seus pés delicados e tão bem desenhados que incitava desejos. E saiu sem despedi-se da casa, nem ao menos a olhou de volta pra que não sucumbisse ao desejo de voltar e verificar todas as portas, ou se as luzes estavam apagadas, se a TV ficou ligada. Não, hoje ela estava sedenta do vinho, hoje queria endoidecer sem culpas, e pensar sem medos, e sorrir sem máscaras e gritar o grito mudo que a angustiava, e ver com os olhos cegos o caminho de casa, decorar com o tato o segredo de suas amarras e abrir as portas de suas entranhas embargadas. Com um sorriso irônico entrou no bar, altiva caminhou até o balcão, ao redor uma legião de fantasmas falava com ela e todos os olhos a seguiam,  entontecia com suas lembranças, estremecia com seus medos.” Não vou escutar vocês. Estão me ouvindo?” Repetia em voz alta,  pois hoje podia gritar, hoje podia o que bem entendesse, hoje era o dia do prelúdio e faria seu questionamento . A noite não seria sua confidente e sim sua cúmplice e seguraria sua mão na hora que o vento da madrugada a mandasse agir, nas horas que muitas vezes os sons do escuro a encontrava despida, fria, passível. Ali estava e bebia demasiadamente e avidamente, as mãos suavam, pois aproximava-se a hora de cumprir suas promessas ocultas e quando a língua adormeceu desejou ir. Levantou-se, ainda altiva, mas os pés vacilavam entre si e seguiu para rua lutando contra o seu corpo esguio para mantê-lo firme, levada pelos olhos da mente, pela ânsia absurda do amor, buscando um querer que não a queria , sentindo uma saudade úmida que só em seu peito gritava. Muitas vezes adormeceu com o fel de seus desejos e os permitia decidir o que fazer. Hoje seus olhos celestes, secos, anseiam encontrar o mar. Não esperava que o mar a abraçasse, nem que mandasse as ondas a reverenciarem, nem ao menos que conseguisse molhar seus pés com suas águas majestosas, mas queria ao menos um pouco do seu sal. As luzes da cidade eram como vigias a cada esquina, pareciam imóveis, frias, indiferentes. Mas, ela as escutou, e cochichavam entre si e estavam lhe observando. Contavam quantas vezes ela havia passado ali, mas diferentemente  tinha firmeza no andar e seus passos sossegados  passavam sem nada ver. Perceber que elas falavam a deixou nervosa,  pois seriam testemunhas de seus passos tortos. Sentou-se no banco da praça, tirou os sapatos cuidadosamente, colocou as mãos entre as pernas e curvando-se olhava o chão, seus olhos secos umedeceram e as lágrimas como gotas caiam pausadamente sobre sua face , levando aos poucos o ruge que lhe corava, seus uivos de lamento poderiam ser ouvidos a distância, mas, cumpria seu ritual, chorava a dor que havia segurado durante todo o tempo, a dor que lhe sufocava desde que lhe roubaram  o direito de amar , era necessário chorar aquela dor, confessar a si mesma seu desastrado fracasso. Talvez a diferença era que agora estava bêbada de vinho , pois antes, quantas vezes parecendo inebriada andava com passos tolos, e quantas entontecia só de ao menos pensar nele. Olhava suas mãos e mexia os dedos vez por outra, imaginava o que faria com eles agora, como contornaria a pele que mais amou? Deitou-se no banco e balbuciava que não tinha coragem para continuar seu triste trajeto, não podia mais uma vez incorrer no erro de procurá-lo, não para ouvir :“Deixe-me.” A clareza daquelas palavras afogavam seus sonhos  e repetia consigo mesma que o amava e hoje estava embriagada e chorava, chorava cada vez mais. Sim, bêbada de amor! Repetiu em sussurros lentos seus apelos ao vento até adormecer, com lábios entreabertos como que pedisse um beijo a brisa que passava. E adormeceu olhando as estrelas que a observavam e unidas faziam prece para que ela pegasse de volta o seu brilho, para que ela se adornasse novamente como uma delas e brilhasse em pele nua. As árvores da praça também já bocejavam e guardavam suas folhas, a madrugada aquietava-se e a cidade adormecia. Longe dali alguém a velava e sussurrava seu nome em secreto, alguém que nunca teve a chance de amá-la, alguém que suspirava com o aroma de sua pele e que ela nem ao menos percebia. Pela manhã o sol calmamente despontava no horizonte e as árvores viçosas já despertavam . Maria Lúcia acordou e demorou-se a levantar, a cabeça pesava e o mundo ao redor ainda fazia giros e tudo porque desejava mais uma vez declarar seu amor a um amante ateu que desconhecia e desprezava as fases enluaradas do amor.Tudo porque seu ego feminino não aceitava um não como resposta, um não que estava escrito nos céus, para que na próxima chuva florescesse em seu coração um amor dividido , com sonhos que exprimissem ainda que espremendo acontecimentos nostálgicos, mas que teriam a solidez da pedra rara e como aureola de uma flor, pétalas coloridas e sedosas enfeitariam o novo caminho. Talvez por mera cegueira, talvez por incredulidade de amar novamente, talvez por andar como bêbada em mundos que só ela pisava: Mundos solitários , intranqüilos, receosos, frios, amargos. Mas o mundo de orgia, que ela aprendeu a amar e que não fazia nenhum esforço para libertar-se, a mercê de mentiras furtivas que lhe presenteavam com a angústia, resolveu embriagar-se como louca para saciar a vontade reprimida de falar abertamente  ao seu amor do seu amor, mas a coragem em esperteza cochilou e amendontrou-a, guiando seus passos para aquele banco na praça imóvel que a acolheu e a deixou deitada serenamente observando o sereno da noite. Seus passos até sua casa eram pesados e foi desalentada sem saber que logo adiante, na esquina, na curva encontraria o Eros enlouquecido que a velala à noite e seguiu ainda bêbada, dobrando a esquina do amor.



quinta-feira, 7 de abril de 2011

MASSACRE DO REALENGO


Na Escola municipal Tasso da Silveira, no bairro do Realengo, na cidade do Rio de Janeiro. Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos, invadiu a escola, armado com dois revólveres, pelo menos 13 crianças morreram e cerca de 15 pessoas ficaram feridas .

Lavinia, de 6 anos, morta pela amante de seu pai foi encontrada  no quarto de um hotel,  em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

A menina Isabella Oliveira Nardoni, foi encontrada caída no jardim do prédio, na zona norte de São Paulo. Sofreu tentativa de asfixia e foi jogada do sexto andar.

Essas atrocidades não são cenas de um filme de terror, são casos reais que vem virando rotina nas manchetes. Parece que a vida do próximo não importa mais, os valores acabaram e muitos admitem sentirem-se bem em serem cruéis. Hoje, mais uma vez, uma cena bárbara em nossa frente, do nosso lado, tão próximo que chega a não parecer real. Quantas vidas foram destruídas, não só das crianças que se foram?! Mas e quem ficou? E a dor que será carregada a vida inteira pela perda de sonhos que não poderão ser realizados, de momentos que não poderão ser repetidos?!

E a culpa, de quem é? Será que é o egoísmo? Que cada dia mais produz uma sociedade em que a maioria das pessoas só se preocupa com elas mesmas, onde muitos recorrem a qualquer meio para satisfazer seus próprios desejos? Ou será da exposição da violência e brutalidade por meio do entretenimento? É comum músicas, filmes e jogos de vídeo- games, entrarem facilmente em nossas casas, roubando o espaço e ocupando a mente com brutalidades em forma de diversão.

Noemí Díaz Marroquín, que leciona na Universidade Nacional Autônoma do México, diz: “A violência se aprende, é cultural. Aprendemos a agir com violência quando o meio em que vivemos o permite e incentiva. Assim, as vítimas de abusos provavelmente praticarão abusos contra outros, talvez do mesmo tipo que sofreram.“

Ainda há aqueles dependentes químicos. Poderemos culpar as drogas? Ou a falta de segurança? Ou o governo? A verdade é que o desrespeito à vida resultou num derramamento de sangue e crueldade. O sofrimento está em toda parte e hoje mais uma vez estamos chocados com um crime horrendo. As medidas devem ser tomadas, cada um de nós deve se mobilizar e fazer o que puder. Já em casa, devemos procurar ser mais atentos aos nossos filhos, observar desde cedo como ajudá-los a terem dignidade e respeitarem o espaço de outros. E mostrarmos a cada dia o que sentimos, sermos mais unidos, mais família, mais amigos. Pois o tempo passa e do amanhã não sabemos. Hoje, aconteceu essa tragédia e, infelizmente, as vidas dessas crianças não voltarão.






quarta-feira, 6 de abril de 2011

TINHA MEDO DO ESCURO



Como a gente  muda. Um dia eu tinha medo do escuro; hoje, é na luz apagada que encontro conforto. Aquelas horas só nossas onde ninguém pode atrapalhar, quando a casa dorme e ficamos ali olhando para o teto. E aí, às vezes, não sabemos em que pensar ou temos muito em que pensar. Mas o que mais acontece é pensarmos no que não queremos pensar, aqueles pensamentos teimosos que ficam o dia todo atormentando. Esses, sim, são os que nos fazem perder o sono e tomam espaço no vazio da noite escura.  Quantas vezes nos sentimos sozinhos, quantas vezes dá vontade de ligar para alguém e conversar, mas sempre tem uma vozinha, que diz “será que tem alguém disposto a me ouvir essa hora?!” E, às vezes, tem, mas nem tentamos. Ainda tem aqueles momentos que preferimos ficar sozinhos e pensar, e mastigar calmamente nossas dores. Às vezes,  dói e aí  é hora de lavar a alma e chorar, e tem tanta gente que chora escondido, que chora e não gosta de chorar, que tem vergonha de mostrar sentimentos, que acha que é fraqueza. Mas que nada! É exatamente nessa hora, a nossa hora. De falar em particular coisas que, às vezes, não queremos ouvir, sentimentos que não queremos aceitar, medos que precisamos vencer, verdades que precisamos decifrar. É ai que podemos reagir, de pé no chão, sabendo que o passado não volta e que aquela queda já aconteceu, e já levantamos, e hoje podemos construir um dia melhor, um dia feliz. O dia de hoje. O dia em que podemos analisar onde melhorar, o que realmente está faltando e corrermos atrás, logo que o sol nascer, dizendo bom dia. Não esperarmos outra noite chegar e ficarmos ali deitados, pensando no que não temos ou não fizemos. Mas pensarmos no que foi feito, no que foi realizado, no que ainda vamos melhorar, qual o próximo passo para chegarmos onde queremos. Abrir nossos caminhos e achar a saída se estivermos presos em labirintos. Porque é preciso libertar-se para recomeçar. E só nós podemos fazer isso. E reconhecermos que ainda que a noite pareça confusa e escura, nela existe o brilho do luar e é esse brilho que pode nos levar a apreciarmos um lindo nascer do sol.


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domingo, 3 de abril de 2011

CHUVA



E sentiu que seus pertences foram mexidos. E a presença estranha em sua casa ainda estava viva. Tudo aparentemente está no mesmo lugar, mas nada está igual. O vento agora uiva chamando sua atenção; então, larga as gavetas que examina e vai até a varanda. Seu vestido e seus cabelos são levados aceleradamente pelo vento, que anuncia um temporal, tira as sandálias e segue até o meio do terreno aberto, terreno que deveria ser um jardim. Mas não tem flores, nem borboletas. Só o mato crescia e mais adiante havia muitas árvores. Não sabia bem porquê estava ali, no meio daquele terreno sem graça. Mas dali podia observar sua  casa e sabia que podia entrar quando quisesse. Tudo ali era próximo de suas raízes, de suas histórias, de suas crenças. No entanto, a vontade era correr e entrar no meio das árvores e perder-se entre caminhos desconhecidos. Mas e se,  mais tarde, não soubesse voltar? E se a tempestade derrubasse árvores e fechasse o caminho que levava para a segurança de seu lar? A chuva já chorava gotas melindrosas sobre seu corpo e  sentou-se ali, no meio do mato que crescia  e que a recebeu. Seu rosto inexpressivo e seus cabelos, aos poucos, misturavam-se à chuva. De longe, observa sua casa, as janelas estão abertas, permitindo  a invasão do temporal que não avisou a hora da chegada e que não diz que horas vai partir. Tem roupa no varal, mas resolve não mover-se. Observa apenas. Observa a chuva, a casa,  a roupa, o vento , o mato que cresce.  E tudo isso começa a provocar-lhe, é como se tudo zombasse dela, como se tudo, de repente, se juntasse para mostrar que ela só assistia, só observava e nada fazia. E tudo, até a roupa no varal resolve criar vida e mover-se com o vento, de um jeito tão proposital, como quem diz “se você não me apanhar eu fujo”. E como ela queria dizer aquilo para si! Como ela queria ser levada com o vento, que ria desdenhosamente de sua natureza inerte! A chuva começou a silenciar, mostrando cansaço. Afinal, quantas vezes foi e veio, quantas vezes molhou o terreno que poderia ter vida, poderia ter flores, trazer borboletas, frutificar sementes?! Quantas vezes fez com que os céus gritassem, e fez até que o sol perdesse o brilho?! A chuva veio e a chuva foi; com ela, levou o vento, que deixou a roupa do varal em paz. Mas, ela continuava ali, sentada, olhando tudo ao seu redor, e o mato crescia. E a porta estava aberta e a convidou para entrar; então, contando os passos e com medo deles, foi acompanhada pelo frio até a porta. A porta que sempre esteve ali, para proteger quem estava dentro, na verdade deixava seguro quem estava fora. A chuva, o vento, a roupa no varal e até o mato que crescia. Agora era sua hora de entrar para prender-se ou de sair para viver. Era hora, onde o dia ainda reinava e o sol aparecia gentilmente, entre as nuvens que acalmavam-se depois da tempestade. Era hora de aprender a caminhar, pois  o declínio de seus dias fizeram-lhe perder o passo e, ultimamente, nem engatinhava. Queria tanto, pedia tanto, observava tanto, mas nada fazia! E a chuva foi embora, e ela está molhada, tudo que passa deixa suas marcas. “Que marca vou deixar quando eu passar?” E o mato cresce e ela observa. Senta-se e observa.