domingo, 3 de abril de 2011

CHUVA



E sentiu que seus pertences foram mexidos. E a presença estranha em sua casa ainda estava viva. Tudo aparentemente está no mesmo lugar, mas nada está igual. O vento agora uiva chamando sua atenção; então, larga as gavetas que examina e vai até a varanda. Seu vestido e seus cabelos são levados aceleradamente pelo vento, que anuncia um temporal, tira as sandálias e segue até o meio do terreno aberto, terreno que deveria ser um jardim. Mas não tem flores, nem borboletas. Só o mato crescia e mais adiante havia muitas árvores. Não sabia bem porquê estava ali, no meio daquele terreno sem graça. Mas dali podia observar sua  casa e sabia que podia entrar quando quisesse. Tudo ali era próximo de suas raízes, de suas histórias, de suas crenças. No entanto, a vontade era correr e entrar no meio das árvores e perder-se entre caminhos desconhecidos. Mas e se,  mais tarde, não soubesse voltar? E se a tempestade derrubasse árvores e fechasse o caminho que levava para a segurança de seu lar? A chuva já chorava gotas melindrosas sobre seu corpo e  sentou-se ali, no meio do mato que crescia  e que a recebeu. Seu rosto inexpressivo e seus cabelos, aos poucos, misturavam-se à chuva. De longe, observa sua casa, as janelas estão abertas, permitindo  a invasão do temporal que não avisou a hora da chegada e que não diz que horas vai partir. Tem roupa no varal, mas resolve não mover-se. Observa apenas. Observa a chuva, a casa,  a roupa, o vento , o mato que cresce.  E tudo isso começa a provocar-lhe, é como se tudo zombasse dela, como se tudo, de repente, se juntasse para mostrar que ela só assistia, só observava e nada fazia. E tudo, até a roupa no varal resolve criar vida e mover-se com o vento, de um jeito tão proposital, como quem diz “se você não me apanhar eu fujo”. E como ela queria dizer aquilo para si! Como ela queria ser levada com o vento, que ria desdenhosamente de sua natureza inerte! A chuva começou a silenciar, mostrando cansaço. Afinal, quantas vezes foi e veio, quantas vezes molhou o terreno que poderia ter vida, poderia ter flores, trazer borboletas, frutificar sementes?! Quantas vezes fez com que os céus gritassem, e fez até que o sol perdesse o brilho?! A chuva veio e a chuva foi; com ela, levou o vento, que deixou a roupa do varal em paz. Mas, ela continuava ali, sentada, olhando tudo ao seu redor, e o mato crescia. E a porta estava aberta e a convidou para entrar; então, contando os passos e com medo deles, foi acompanhada pelo frio até a porta. A porta que sempre esteve ali, para proteger quem estava dentro, na verdade deixava seguro quem estava fora. A chuva, o vento, a roupa no varal e até o mato que crescia. Agora era sua hora de entrar para prender-se ou de sair para viver. Era hora, onde o dia ainda reinava e o sol aparecia gentilmente, entre as nuvens que acalmavam-se depois da tempestade. Era hora de aprender a caminhar, pois  o declínio de seus dias fizeram-lhe perder o passo e, ultimamente, nem engatinhava. Queria tanto, pedia tanto, observava tanto, mas nada fazia! E a chuva foi embora, e ela está molhada, tudo que passa deixa suas marcas. “Que marca vou deixar quando eu passar?” E o mato cresce e ela observa. Senta-se e observa. 


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