segunda-feira, 18 de abril de 2011

CORREDORES EMBARALHADOS



Vagamente, caminhava pelas ruas movimentadas da cidade, mas nem ao menos sabia o motivo de estar ali, caminhava sem destino e virava a cada esquina, como se em uma das curvas pudesse encontrar o real motivo de seus passos leves e indecisos. Sempre fora assim, lembrava sua infância, de quando no meio dos gritos agitados dos amigos para o intervalo, ela simplesmente levantava-se e dirigia-se a algum lugar, que para ela não precisava ser especifico, era algum lugar ali na escola. Ora perto da cantina, ou ora perto do banheiro, ou ora sentada na escadaria. Simplesmente ia para algum lugar que a deixasse longe de tomar atitudes, de ter que decidir entre brincar de roda ou de boneca, entre correr ou esconder-se, ela apenas seguia sem tomar decisão. Prontamente, saia de onde estava, ao toque agitado do sinal que fazia toda aquela euforia diminuir, só assim ia, calmamente, sem empurrar, sem reparar nos cabelos da menina da frente, sem olhar para os olhos castanhos do menino do lado, apenas seguia e esperava o próximo passo da vida sem ter que contestar como ela havia de agir. Às vezes, achava que tinha um oco dentro de si, que nada sabia, que nada achava, que nada via e nem sabia porque precisava saber ou ter de optar. Apenas ia e seguia o rumo que a vida encontrava para si. Hoje, não era diferente, pois apenas caminhava e via várias pessoas seguindo na sua direção, e passavam apressadas, e todas pareciam realmente ter algo para fazer, mas perguntava-se até onde elas, realmente, tinham? Ela mesma não tinha muito que fazer hoje, mas andava acompanhando a multidão como se, de alguma forma, estivesse indo para algum compromisso inadiável, mas distante e por isso caminhava propositalmente devagar, talvez atrapalhasse a pressa de alguns e, assim, poderia ser notada, talvez sua blusa verde musgo chamasse atenção; afinal, ela escolheu cuidadosamente os detalhes para chamar a atenção. Mas de quem mesmo ela queria chamar a atenção? Ela não sabia e caminhava como se a vida não soubesse dela, e ela não soubesse da vida, e nem soubesse se queria saber, mas queria que alguém a notasse e, de repente, ela poderia deixar de ser Aline Coutinho, talvez fosse chamada de “A Aline Coutinho”. Talvez a professora se lembrasse da menina que ela pedia para apagar a lousa, sempre que estava com renite aguda. Talvez Eduardo se lembrasse da data do namoro deles e resolvesse levar flores. Talvez as flores fossem amarelas e lhe dessem a vida que ela não tinha, e que nem sabia que queria ter. Talvez ela se emocionasse e chorasse; há muito tempo não chora, quem sabe está com saudade de chorar, quem sabe o medo de não ser ninguém a faça ser alguém e decidir de vez o que fazer de sua vida, que vive em jejum. Sentimentos apertam-lhe o peito a cada passo que dá, e cada passo parece mais demorado, depois de tanto caminhar e esbarrar em pessoas que, possivelmente, nunca mais verá, e entra em ruas que não planejou, observa uma praça pacata com belas árvores, segue e resolve sentar-se, verifica a hora no relógio, como de costume, como se a hora mudasse algo ou como lhe socorresse de cada dia, e esperava ansiosa a hora do esconder do sol para a chegada inquietante da lua, que deixava-a certa do fim de um dia, de mais um dia que passou, e que ela esteve ali, cega, muda, surda, mas ali. Pegou um espelho na bolsa e olhou seu rosto pálido, seu cabelo já desbotava os tons de acaju e seu lábio estava seco, talvez estivesse aparentando mais anos do que tinha. Viu que já escurecia e decidiu partir, decidiu chegar à sua caverna esquecidiça, onde o cheiro era dela e onde as paredes conheciam seus medos. Onde a cama testemunhava sua solidão. O apartamento era tranquilo, nem barulho de crianças ouvia-se, era tudo frio e úmido naqueles corredores que levavam até seu refúgio mórbido, ela disfarçava muito bem seus temores até mesmo para si, mas hoje a alma ecoava um desejo ardente de falar do que sentia. Olhou por algum momento a entrada de seu apartamento e agitou-se em saber que tinha dentro de si um desejo de mudança, um desejo de saber quem era e de saber o que ainda podia fazer, dizia pra si mesma que estava morta, morta viva, viva morta. E sentia um medo do que ainda não sabia e medo do que ainda não acontecia, e ficou ali esperando a madrugada chegar, observando a entrada do seu apartamento, como se lá fora estivesse melhor; sentiu sono, cansaço, dor.

O sono é demasiado em mim
Sinto o corpo cansado
Sentimentos misturam-se
Aflição
Procuro um lugar seguro
Onde meu coração possa bater sem pressa
As portas, elas podem me ajudar
Qual porta me levará para a paz que procuro?
O jardim hoje está mudo
Nem as flores falam comigo
Estou só, no adiantado das horas
Será que estou perdendo o equilíbrio?
O apartamento não tem elevador
Preciso subir os degraus
Talvez eu pare no oitavo andar
Meus pés já não agüentam os sapatos
Calças justas sufocam meu caminhar
Quero água
Terá alguém para saciar minha sede?
Meu cabelo está despontado
Meu lábio sente falta de um brilho
Madrugada chegou seca
Na esquina tem trapaças
E hoje nem para lua eu olhei
Quero um cobertor de plumas leves
Não sei do vestido vermelho
Mas encontro na bolsa um bilhete delicado
Tomei banho de mar e fiquei febril
Conchas tinham segredos
Quero olhar o mar
Pisar na areia e olhar o mar.
Quero parar o meu carro
Antes da festa no castelo da esquina
Prefiro chegar a pé
E vestida de trapos
Com versos nas mãos
Não quero o doce
Quero o fel para sentir o gosto bom
De adoçar o amargo
Quero o desigual o diferente
Não tenho medo dos segredos
Não tenho medo das verdades
Tenho medo apenas
De feras presas em mim.

E diante da sua ofusca realidade da vida, sentia-se fraca e forte, sentia-se um tudo e um nada. Seguiu para dentro do seu calabouço silencioso e mais uma vez encontrava corredores e esquinas e ruas na sua frente e todos embaralhados como se pedissem-lhe uma explicação. Dessa vez, sabia pra onde eles a levavam, ela entraria em sua torre, onde ela mesma aprisionara-se. Ela esperaria o silêncio dos seus medos, os fantasmas que não deixavam-na em paz. E adormeceria sonhando com dias onde ela não seria apenas alguém que deixava a vida levar-lhe, mas ela levaria sua vida. E seguiria corredores tranquilos que a deixariam sorrir sem pressa. E poderia, quem sabe, assistir a um show da Rita Lee cantar Amor E Sexo e comer fritas sem medo de engordar. Poderia até voltar e rever os amigos da escola, aqueles que ela se esqueceu de conhecer, que ela empenhou-se em ficar longe. Podia até mesmo beijar o vizinho quando o visse pela manhã terrivelmente irresistível, desejando-lhe um ótimo dia, sim, poderia jogar fora as flores amarelas que Eduardo trouxesse, flores que, com certeza, murchariam antes mesmo de chegar às suas mãos, por serem flores de um amor morto, talvez de um amor que nunca existiu, talvez de um namoro feito por conveniência de duas pessoas sozinhas, esperando o amor chegar, um acordo particular de sarar feridas de outro tempo, feridas amargas que sumiam, mas que chegavam numa coceira irritante, durante as horas que a noite resolvia surpreendê-la com seu toque irônico e desdenhoso de quem sabe suas manchas. Talvez as flores nem tivessem culpa, mas de repente o amarelo deixasse-a triste e ela não quisesse olhá-las pela manhã. Aline adormeceu com o cheiro dos embriagados, pois hoje percebeu estar inebriada de vida. Pela manhã, acordou com um olhar diferente, como se tivesse feito amor com a vida, peregrinou em pensamentos débeis de um tempo que ela não sabia ser e ofuscou-os rapidamente com um salto rápido da cama. Demoradamente, banhou-se e cada parte do seu corpo esguio pedia remendos, foi então que lembrou-se de comprar uma nécessaire; afinal, que mulher não tem uma nécessaire, sim, arrumou-se e saiu a fim de encontrar os curativos de suas feridas, e talvez o segredo estivesse na nécessaire. Ao sair do apartamento, viu corredores cheios de tapetes vermelhos e aveludados e, a cada passo, encontrava vida, e até chegou a ouvir gritos de crianças, sentiu não encontrar o vizinho, pois hoje fatalmente o beijaria, por um momento chegou a pensar que não conhecia aquele lugar, era tudo diferente e até o branco pálido das paredes parecia colorido. Decidiu ficar longe da solidão do carro e seguiu para o ponto de ônibus examinando tudo com graça. Logo adiante, pegou a condução e sentou-se com um sorriso disfarçado perto de um jovem meio desalinhado, com cheiro de gel e pasta de dentes, olhou-o pelo canto do olho e sentiu vontade de encostar o braço no dele, e fez disfarçadamente quando o ônibus virou, sentiu uma sensação boa e queria o cheiro do vigor juvenil, sentiu o coração palpitar rapidamente, como se fizesse uma grande traquinagem, talvez a maior que havia feito desde muito tempo, embora o moço nem sequer percebesse que seu braço encostara-se ao dela, mas ela sabia e admirava o jeito que ele mascava chiclete. Quando aproximou-se do ponto, deu adeus para o jovem com um sorriso esquisito, como se tivesse lhe roubado a cor da juventude e, ao descer, seguiu à primeira banca que encontrou e comprou um chiclete de menta, e mascou com a boca aberta, sentindo-se jovem, sorriu e já esquecia a nécessaire, quando se deu conta, ao abrir a bolsa, que seu  espelho e que seus batons estavam jogados, então, determinada como quem precisa pagar uma sentença a si, comprou seu nécessaire e saiu satisfeita da loja como quem virou mulher e descobriu os segredos embaralhados entre batons, pó de arroz, cremes e tudo aquilo que se encontra desordenadamente, ordenados numa bolsa feminina. Em casa, jogou os objetos em cima da cama e admirou-os com um ar enamorado, e sorriu ao lembrar-se que só hoje percebeu que nos corredores do prédio tinham violetas que embelezavam as laterais, e que o porteiro prendia uma flor junto ao crachá, todos os dias, e cumprimentava a todos com um bom dia sorridente. Descobriu que o chiclete não é bom pelo açúcar, mas pela sensação de liberdade que se sente quando se masca e que uma nécessaire nem importava muito. Descobriu que o vizinho era casado e que a mulher dele nem era tão bonita, mas ela era dona do amor dele e todos os dias, à tarde, saíam juntos para caminhar e ele sempre abria a porta do carro para ela entrar. Descobriu que Eduardo, com certeza, não lembraria o aniversário de namoro deles, mas que estaria prontamente ali, ao seu lado, se ela o chamasse, e que a elogiaria mesmo que ela estivesse com a cara amassada da madrugada mal dormida. Levantou-se e olhou da janela do apartamento e, então, sorriu abertamente, pois ultimamente seu sorriso sempre era de lado, como quem precisava esconder-se. Sem pressa, caminhou até a cozinha, ligou para Eduardo e falou que fosse visitá-la e que trouxesse flores amarelas, pois hoje ele conheceria os segredos dos seus corredores embaralhados.



4 comentários:

  1. Seus contos estão cada vez melhores, mais intensos, mais profundos, mais reveladores. Cada vez que leio seus escritos, descubro mais de mim. Obrigado por brindar aqueles que admiram seu trabalho! Beijo

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  2. Demais esse conto! Minha namorada indicou seu blog. Você é muito talentosa!

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  3. FANTÁSTICO! É impressionante como consegue captar as vibrações do inconsciente coletivo, plasmando em textos saborosos e reflexivos!
    Nunca deixe de escrever, acredite cada vez mais em você, em seu potencial, jamais sucumbindo às dificuldades diárias, porque sua missão é essa: escrever. Você tem muito a dizer, então, diga. Não se esqueça disso.

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  4. MUITO BOM. UM DOS MELHORES NA MINHA MODESTA OPINIÃO

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