quarta-feira, 27 de abril de 2011

Enlace dos Enamorados


Muito mais, muito mais e tudo o quanto desejaste. Pronto, era isso! E agora? Estás satisfeito? Agora que roubaste a calmaria das noites e o sublime sono ao anoitecer, dá-se por satisfeito? Que pensa que sou, além dessa pele que já demonstra a desistência do vigor juvenil? Pensa que vivo de ausência, que desfruto da agonia fria de não ter ninguém aqui? Não lamento pelos seus dias sofríveis, pois é fato que sempre procurou caminhos difusos. Não sei até onde caminhei acelerando seus devaneios. Mas agora o que faço diante de ti? A noite vem morna e já nem vejo quando as estrelas cintilam. Lembro-me que minha mãe dizia: “Quando uma estrela cadente passar, faça um pedido!” E eu fazia e ainda faço, de forma que penso se errei em meus pedidos ou se elas não me escutaram, ou simplesmente não aprendi a falar a língua das estrelas, elas faíscam tanto na noite calma, sinto como se me observassem e, se olho por um período maior, tenho a sensação que devagar, sutilmente, elas descem em minha direção. Talvez eu não esteja tão atenta e a culpa nem seja sua. Tem dias que tudo parece maior, a casa parece grande demais, a terra parece grande demais, é como se tudo estivesse vazio e tudo fica bem distante, e o céu também parece vazio, e de repente nem tem cor, e chega a ser invisível, mas mesmo no invisível de sua existência ele é real, pois é fato que nem tudo que é real é visto e é preciso ter sensibilidade para emergir nos mais profundos rios para se enxergar o real invisível, num rio feito de vinho que inebria suavemente todos que nele mergulham. É preciso saber aceitar que o sono vem e acalma, e nos transfere para uma dimensão do não ser, do não saber, do não fugir; ele apenas nos eleva aos anjos, nos acolhe suavemente nas nuvens e nos faz descansar em plumas, e é nessas horas que conhecemos o que ainda não sabemos conhecer. É quando pela manhã o dia já amanhece colorido e o sorriso sem motivo faz-se morada na boca. Nessas manhãs, são as manhãs anteriores das madrugadas que dormimos nos céus, são os dias mágicos, os dias de olhares encantados, é nesses dias que nos apaixonamos que percebemos a beleza de uma flor, que no cantinho de terra faz sua morada e, às vezes, entre espinhos e, às vezes entre mato e, às vezes, entre lixo, mas ela brota e faz sua parte. E a alma naufragada em felicidade sente-se livre. Porque percebeu que tudo é livre e que tudo que deixa de ser, perde o sabor porque tudo nos foi dado generosamente e essa é nossa divida com o mundo: devolvermos generosamente. Mas agora percebo que dei amor generosamente e achava não receber em troca. Mas como não, quando a maior felicidade está em dar? Se falar de amor me faz renascer e ser, e ver tudo de forma melhor. Mas, como provocar a felicidade que sempre foge, se a  caçamos e ela foge, então, como uma bolha no ar sensível e suave, ela sobe e sobe, e se perde na imensidão do céu. Então, como pegá-la sem destruí-lá? Como segurá-la entre as mãos, se ela é tão frágil, tão bela e tão frágil?  Disso, só posso dizer que a felicidade é frágil, mas existe e que, às vezes, não enxergamos, mas ela está ali e vive nos ares, flutuando por aí, viajando com as brisas cercando os dias. Então, o que me diz agora do sono que me tira? Por que o sono torna-se meu inimigo cada vez que tento repousar à noite e tento, por instantes, conhecer também o meu mundo pelos ares que os anjos precisam levar-me? Se não me permito o sono, como irei sonhar? Se, quando os olhos acaletam-me mostrando que irei descansar, tu me fazes despertar em pesadelos que não quero ouvir? Sinto no íntimo uma vontade, um ardor de querer chegar próximo aos dias felizes que decorei em prateleiras que andam empoeiradas, sinto um desejo estranho e pertinente de querer, querer o que não posso querer. Sinto que me deixo ir por momentos exaustos, onde o sono vem e a noite acalma as lembranças e, quando penso em desnudar do sabor de nada ver, do escuro que fica ali, depois que tudo emudece em nós, que tudo se aquieta, que tudo é como a distância de um breu, de um profundo sono querido, tu vens e repentinamente salpicas sobre mim faíscas de dias que precisam morrer, tu vens e não me deixa dormir. Se tu que amas tanto e que de tudo mais belo cria e que de tudo que sonha planta, se tu és a morada do amor, se tu és onde a saudade refugia suas dores, se é o absinto onde os poetas caçam o mel, pois se tanto és tudo isso, então esclareça porque me fez apenas ser uma flor murcha dentro do peito? Por que permite que as sombras suguem meus sonhos me fazendo entrar em desesperos nostálgicos? Se tu deves completar-me porque saí de mim e escolhe amar uma alma desalmada, onde por tanto que me fez feliz hoje me fez amarga? Por que me permitiu cair no abismo do sem fim, onde os olhos peregrinam ao encontro de um ser, que me deita em relvas e me faz acordar entre luzes acesas, no pouso das águas, sob o horizonte do mar lento e calmo, que canta com as ondas o coro das melodias de amantes que dormem nos braços de Eros? Como me fez entontecer de amor, por um amor que existia e não existia? Se tu és de todo o mais perfeito símbolo do elo mais profundo entre os seres, porque permite que eu, que tanto amei, me torne apenas uma flor murcha diante do sol? Se tu, coração, és meu e ensinou-me a amar, porque não me ensina a ser de novo uma rosa desabrochada? E hoje, ainda que eu alague meus olhos, continuarei perguntando a ti, sobre todas as trilhas que segui e continuarei a escrutinar-lhe e, mesmo que me dissolva rapidamente em meu interior, ainda assim continuarei cavando à procura de objetos perdidos, à procura do momento distraído que deixou meus sonhos caídos repentinamente, à procura do dia em que você acelerou no ritmo das danças, e que meu intimo apenas guiava-se, à procura de um só ser, somente um. E caminharei ainda diante da chuva e buscarei os dias em que, distraída, emudecida, me fiz ser do amor e o meu amor eu dei. E quando encontrar pedras, perguntarei a elas, ainda que mudas, e saberei seguir para ter em mim o que não mais tenho e dizer para ti o que tanto me fizeste entender, que não do sofrimento vive o amor e, sim, de uma nota musical leve, flutuante, viva, feliz, e tão suave que os ventos pedem licença para passar e os mares rendem-se a ela. E os ritmos das marés acompanham-nas, proferindo bênçãos e, sem que se perceba, a lua em sua magia abraça-os, enlaça-os, e é por isso que aqui da terra, em noite de lua cheia, sempre tem uma sombra no luar branco e calmo, é a cortina púrpura do amor que cobre o deleite do momento solene do encontro, entre as almas plácidas. Do encontro entre eras e eras de outros tempos, onde sob a lua, ouviam-se aplausos dos que brindavam o enlace dos enamorados.



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