sábado, 9 de abril de 2011

BÊBADA



Maria Lúcia caminhava bêbada, vez por outra tombava em seus próprios sapatos, ria desdenhosamente como uma louca, feliz por estar num estado inebriante. Hoje ninguém iria atrapalhar seus planos, ninguém ia impedi-la de fazer a bobagem mais ansiada nesses últimos dias. Logo cedo, arrumou-se devagar e detalhadamente maquiou-se, passo a passo, seguiu as dicas que pegou com seu novo cabeleireiro, chamado Flávio, anotou uma a uma no seu bloquinho de papel, especialmente decorado, com flores dos campos, sempre o levava na bolsa pois ultimamente, sua mente arredia e hibrida decidia em que pensar e não a permitia tomar decisões. Pintou-se com batom vermelho, delineou os lábios como quem pinta com cautela um painel de exposição, o ruge corou as maças da pele que ultimamente era pálida. Pálida como seus dias que se tornaram aflitos. No armário escolheu um vestido longo de estampas escuras, fazendo companhia como um amante para a bolsa de camurça preta. Depois escolheu os sapatos, sim esses eram os favoritos, pois sempre dizia que era dos pés que se conhecia uma dama. E calçou os seus sapatos de saltos finos com uma singela bijuteria de vitral, decorando a lateral, orgulhava-se de seus pés delicados e tão bem desenhados que incitava desejos. E saiu sem despedi-se da casa, nem ao menos a olhou de volta pra que não sucumbisse ao desejo de voltar e verificar todas as portas, ou se as luzes estavam apagadas, se a TV ficou ligada. Não, hoje ela estava sedenta do vinho, hoje queria endoidecer sem culpas, e pensar sem medos, e sorrir sem máscaras e gritar o grito mudo que a angustiava, e ver com os olhos cegos o caminho de casa, decorar com o tato o segredo de suas amarras e abrir as portas de suas entranhas embargadas. Com um sorriso irônico entrou no bar, altiva caminhou até o balcão, ao redor uma legião de fantasmas falava com ela e todos os olhos a seguiam,  entontecia com suas lembranças, estremecia com seus medos.” Não vou escutar vocês. Estão me ouvindo?” Repetia em voz alta,  pois hoje podia gritar, hoje podia o que bem entendesse, hoje era o dia do prelúdio e faria seu questionamento . A noite não seria sua confidente e sim sua cúmplice e seguraria sua mão na hora que o vento da madrugada a mandasse agir, nas horas que muitas vezes os sons do escuro a encontrava despida, fria, passível. Ali estava e bebia demasiadamente e avidamente, as mãos suavam, pois aproximava-se a hora de cumprir suas promessas ocultas e quando a língua adormeceu desejou ir. Levantou-se, ainda altiva, mas os pés vacilavam entre si e seguiu para rua lutando contra o seu corpo esguio para mantê-lo firme, levada pelos olhos da mente, pela ânsia absurda do amor, buscando um querer que não a queria , sentindo uma saudade úmida que só em seu peito gritava. Muitas vezes adormeceu com o fel de seus desejos e os permitia decidir o que fazer. Hoje seus olhos celestes, secos, anseiam encontrar o mar. Não esperava que o mar a abraçasse, nem que mandasse as ondas a reverenciarem, nem ao menos que conseguisse molhar seus pés com suas águas majestosas, mas queria ao menos um pouco do seu sal. As luzes da cidade eram como vigias a cada esquina, pareciam imóveis, frias, indiferentes. Mas, ela as escutou, e cochichavam entre si e estavam lhe observando. Contavam quantas vezes ela havia passado ali, mas diferentemente  tinha firmeza no andar e seus passos sossegados  passavam sem nada ver. Perceber que elas falavam a deixou nervosa,  pois seriam testemunhas de seus passos tortos. Sentou-se no banco da praça, tirou os sapatos cuidadosamente, colocou as mãos entre as pernas e curvando-se olhava o chão, seus olhos secos umedeceram e as lágrimas como gotas caiam pausadamente sobre sua face , levando aos poucos o ruge que lhe corava, seus uivos de lamento poderiam ser ouvidos a distância, mas, cumpria seu ritual, chorava a dor que havia segurado durante todo o tempo, a dor que lhe sufocava desde que lhe roubaram  o direito de amar , era necessário chorar aquela dor, confessar a si mesma seu desastrado fracasso. Talvez a diferença era que agora estava bêbada de vinho , pois antes, quantas vezes parecendo inebriada andava com passos tolos, e quantas entontecia só de ao menos pensar nele. Olhava suas mãos e mexia os dedos vez por outra, imaginava o que faria com eles agora, como contornaria a pele que mais amou? Deitou-se no banco e balbuciava que não tinha coragem para continuar seu triste trajeto, não podia mais uma vez incorrer no erro de procurá-lo, não para ouvir :“Deixe-me.” A clareza daquelas palavras afogavam seus sonhos  e repetia consigo mesma que o amava e hoje estava embriagada e chorava, chorava cada vez mais. Sim, bêbada de amor! Repetiu em sussurros lentos seus apelos ao vento até adormecer, com lábios entreabertos como que pedisse um beijo a brisa que passava. E adormeceu olhando as estrelas que a observavam e unidas faziam prece para que ela pegasse de volta o seu brilho, para que ela se adornasse novamente como uma delas e brilhasse em pele nua. As árvores da praça também já bocejavam e guardavam suas folhas, a madrugada aquietava-se e a cidade adormecia. Longe dali alguém a velava e sussurrava seu nome em secreto, alguém que nunca teve a chance de amá-la, alguém que suspirava com o aroma de sua pele e que ela nem ao menos percebia. Pela manhã o sol calmamente despontava no horizonte e as árvores viçosas já despertavam . Maria Lúcia acordou e demorou-se a levantar, a cabeça pesava e o mundo ao redor ainda fazia giros e tudo porque desejava mais uma vez declarar seu amor a um amante ateu que desconhecia e desprezava as fases enluaradas do amor.Tudo porque seu ego feminino não aceitava um não como resposta, um não que estava escrito nos céus, para que na próxima chuva florescesse em seu coração um amor dividido , com sonhos que exprimissem ainda que espremendo acontecimentos nostálgicos, mas que teriam a solidez da pedra rara e como aureola de uma flor, pétalas coloridas e sedosas enfeitariam o novo caminho. Talvez por mera cegueira, talvez por incredulidade de amar novamente, talvez por andar como bêbada em mundos que só ela pisava: Mundos solitários , intranqüilos, receosos, frios, amargos. Mas o mundo de orgia, que ela aprendeu a amar e que não fazia nenhum esforço para libertar-se, a mercê de mentiras furtivas que lhe presenteavam com a angústia, resolveu embriagar-se como louca para saciar a vontade reprimida de falar abertamente  ao seu amor do seu amor, mas a coragem em esperteza cochilou e amendontrou-a, guiando seus passos para aquele banco na praça imóvel que a acolheu e a deixou deitada serenamente observando o sereno da noite. Seus passos até sua casa eram pesados e foi desalentada sem saber que logo adiante, na esquina, na curva encontraria o Eros enlouquecido que a velala à noite e seguiu ainda bêbada, dobrando a esquina do amor.



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