domingo, 9 de dezembro de 2012

LETÍCIA





Era um desespero óbvio e contido. Nunca acertou o saber. Dizia como louca, escrevia como morta. As mãos cegas sofriam.

“Foi feito um nó em dois cabelos diferentes, amarrados e largados dentro de um vidro de perfume. Isso é trabalho”

A avó, sempre reconhecia um de longe. No quarto dos fundos, entre tudo que não encontrava lugar, um baú e dentro um livro, um livro de feitiço. Correu, mostrou ao primo meio gordinho, com sorriso de menina.

 “Olha, a vó é bruxa.”

 “Não, ela não é.”

“È sim! Veja, ensina a fazer feitiço e eu vi no quarto dela...”

“Viu o que Letícia?”

“Vi um perfume com dois cabelos, amarrados. E isso é trabalho.”

“Você só tem 10 anos, entende nada disso, minha mãe diz que é pecado, falar de coisa assim, melhor sair daqui”.

 Saiu com os passos mudos.

“A avó é bruxa, isso é”

Na hora do almoço, todos se olhavam confusos. A avó quieta com os olhos grandes e atenciosos. Letícia olhava arteira e feliz, e cada vez que mastigava , sorria, sorria por descobri um segredo, o segredo da avó. Alex cabisbaixo tinha medo, muito medo que seus atos o denunciassem, então comia devagar e persistia em olhar apenas para o prato, escutava toda hora a voz de Letícia dizer:

 “A vó é bruxa”.

Incrível, como conseguia insultá-lo com sua coragem voraz.

“Vamos para o cajueiro Alex?”

Saiu com os pés desnudos, precisava ler o chão. Como uma troca de dores. O prato ficou sobre a mesa, com suas sobras misturadas e individuais, como o resto do que era bom deixado na louça branca com detalhes florais. Tinha três tipos de louça na casa: Os das visitas, herança de sua bisavó paterna, louça italiana de marca. A louça que era usada na semana, essa a qual eles comeram agora. E a louça do final de semana, um conjunto preto de pratos e travessas comprado no último natal. Tudo detalhadamente escolhido. Tudo detalhadamente datado, como se soubesse os segredos, os segredos que só os armários da casa podiam contar. Os segredos que Letícia teimava em querer desvendar.

Correram para o cajueiro e enfim poderiam brincar, enfim poderiam esquecer o que Letícia descobriu. Sentiu-se outra vez salvo, com uma alegria e um alivio no olhar. O cajueiro, sim o cajueiro e seu balanço. É lá que poderia livrar-se dos olhos misteriosos e assustadores da prima. Uma menina tão magrela, tão magrela e tão branca com o cabelo de milho quadrado, mas com uns olhos escrutinadores. Olhos como o da avó. Será que seria bruxa como a avó? Não, ela não é bruxa e nem a avó é bruxa, ela apenas o envolve em mentiras, Letícia é uma mentirosa, perdido em seus pensamentos, soltou-os.

“Você é mentirosa!”

“Não sou.”

“É sim.”

“Foi feito um nó em dois cabelos diferentes, amarrados e largados dentro de um vidro de perfume. Isso é trabalho”

Subiu na árvore devagar, sentou-se aconchegada em um galho que a deixava ver a casa. Alex riscava o chão, desenhava traços e mais traços nervosos e angustiados.  O lábio inferior tremia o denunciando.

“Semana passada, antes de morrer, a dona Fátima veio aqui... Será?”

“Não quero escutar você, não quero”.

“Você também estava aqui, viu alguma coisa?”

“Não.” Apagou o desenho no chão e encarou a prima , seu pé branco e fino balançava, balançava o tempo todo o deixando tonto.

“Vou ao quarto de novo, vou pegar o perfume e lhe mostrar. Quer ir comigo?”

“A vó ta dormindo.”

Antes de terminar de falar, já a viu correndo em direção a casa. Sentou-se no balanço contrariado. Aos poucos impulsionou seus pés , dando força ao balanço que subia, subia cada vez mais alto. Olhava o tempo todo para a porta da cozinha, esperando a volta de Letícia. As mãos vermelhas suavam, enquanto ia e vinha num balançar de medo e de ansiedade. Lembrava o quarto da ávo e da sua cor cinza. As paredes silenciosas gritavam, e os quadros mudos falavam. Não gosta do cheiro, não gosta do barulho rouco da porta como se anunciasse que alguém entra, como se contasse aos fantasmas, que um intruso aproxima-se. No guarda-roupa, muitas, muitas naftalinas. Lembra do dia que a ajudou a guardar suas meias nas gavetas, tinham milhares, elas rolavam na gaveta, como se falassem entre si. Em cada meia uma pequena bola branca, em cada meia aquele cheiro de enterro. Será que quando morrer, ela usará meias? E se morrer de olhos abertos, quem fechará seus olhos? Talvez Letícia, sim ela fechará, embora antes como pertença a sua natureza, tenha um encontro fatal, final e único com os olhos mortos da avó. Ela certamente irá desvendar o que passou na sua cabeça antes de morrer. E suas unhas? Suas unhas grandes e fracas. E o cheiro de naftalina vai estar no seu sepulcro, todo caixão será coberto de naftalinas, todo caixão terá o cheiro úmido e silencioso do seu quarto. Mas, se for bruxa? Estará rindo por trás de todos nós, estará escancaradamente rindo de nossas lágrimas fraudadas.

O balanço que ia e vinha aos poucos se acalma. O balanço, o cajueiro, Letícia sozinha no quarto. "Tenho que salvá-la. Tenho que salvá-la. Se minhas pernas obedecessem minha vontade, já estaria lá. O perfume com o cabelo, de quem será o cabelo? Meu e de Letícia?" Rabisca no chão o seu nome, o nome de Letícia. Rabisca no chão e corre, corre, corre para o encontro, o encontro dele e de seus medos. O quarto, o silêncio. O quarto, a ávó. Empurra a porta devagar, na cama naftalinas, na cama o vidro de perfume. Dois cabelos entrelaçados, dois cabelos como nós... E Letícia? Onde está Letícia? Era um desespero obvio e contido. Nunca acertou o saber... Dizia como louca, escrevia como morta. As mãos cegas sofriam. Letícia, onde está Letícia?


Lene Dantas




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