sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O EMBRULHO





  Cabisbaixa, andava na rua sem pressa, bolsa na mão como que largada, seguia intuitivamente os passos para casa. As lágrimas desciam aos olhos e perguntava-se: “Como isso aconteceu? Porque comigo?” Ela não conformava-se de ser enganada, traída e abandonada por Davi, o homem por quem ela apaixonara-se perdidamente.  Hoje, não vou trabalhar, preciso unir minhas ideias, ter certeza que não é um pesadelo. As frases que ela escutara soavam como sinos em sua mente, chegavam a doer de tão fortes que eram. Abre a porta, olha tudo ao redor, a sala que até ontem era o local preferido de assistirem filmes aos domingos, quando juntos faziam pipoca e falavam de tudo, e brincavam, e se amavam. Larga a bolsa no sofá, tira a sandália e vai à cozinha: “Preciso tomar um café”, e as palavras se repetiam novamente. “ACABOU!” Foi assim, seis letras, apenas seis letras que destruíram a minha vida. “ACABOU!” Aquilo soava cada vez mais forte. Sentou-se à mesa, adoçou o café, baixou a cabeça e chorou, chorou e cada vez que soluçava, repetia “ACABOU! ACABOU!’ Levantou-se, foi ao banheiro, tira as roupas e se olha no espelho. Pensamentos doentios começam a cercar sua mente. Lembra de suas últimas palavras. Mas eu vi você com ela! Ninguém me contou! Esperava uma explicação, esperava qualquer coisa, menos as seis letras. A outra era bonita, magra, parecia simpática e, enquanto ela olhava-se, enxergava a outra e começou a vê-la em sua frente, refletida no espelho, era como se ela estivesse ali, olhando-a, sorrindo ironicamente e com um certo prazer, e dissesse: ”Ele é meu”. Encolhe o corpo e senta-se ali, no chão do banheiro, vê o namorado, lembra da última vez que ele falou que a amava, “não faz sete dias”. Olha o chuveiro e observa-o ali: “Amor, traz a toalha por favor, estou com tanto frio.” Ela sorri, entrega a toalha e o beija. Antes que saia,  ele a segura e diz: “Eu te amo”, ela sorri e brinca:

  “Não seria, obrigado?!”

  “Não, é eu te amo, te amo sempre, sempre.”

  E beija-a novamente. E agora ela estava ali, no chão, o choro vem como o de uma criança com fome, que grita pelo seio da mãe, precisa de alimento, não importa a hora, ela chora. Até suas necessidades serem atendidas, mas ali, no caso dela, não adianta chorar, ele não virá. Levanta-se, toma seu banho e vai ao quarto:  “Ah, este sim, é onde fere sua  alma!!” O cheiro dele está em todo lugar, o riso, a toalha, as roupas ainda estão ali. Ela está nua, caminha até a cama, joga-se como quem cai num abismo, como quem não encontra um caminho para voltar. Fica ali, olhando para o teto e as lágrimas caindo, cada vez mais, sobre seu rosto, e as palavras dele repetindo-se em seus pensamentos. “Me perdoe, mas ACABOU!” Ela grita, um grito de dor, de raiva, agonia. Vira-se de bruços, aperta o travesseiro. Toda sua força é usada ali, depois solta, olha o travesseiro e o arruma no seu queixo. As lágrimas ainda escorrem, mas, calmamente, e o vê novamente, o seu namorado, saindo à sua frente, com um olhar até feliz. Como se tudo que viveram fosse nada, como se o sentimento dela fosse como a chama de uma vela que num sopro apagava. E nossos planos e sonhos, e minha vida, e nossa vida? Tudo foi anulado e ela sabia que era o fim.  Não adiantava insistir, ele a olhou nos olhos e disse: 

  “Você encontrará alguém melhor, Alice. Gosto de você, mas se ao menos me desse mais carinho!”

“Eu te dei minha vida, eu te dei meu coração, te olhei todos os dias, não pode me acusar dessa forma. Não faça isso. Eu o amo! Eu te amo!”

“Me perdoe, mas ACABOU!”

”Eu te amo, te amo! Não me deixe, não me deixe, por favor!”

Disse isso, já com os olhos escorrendo gostas de sangue.

“Não me deixe.”

 Ele a olhou fixamente: “ACABOU!” E virou-se, e seguiu, dando as costas para tudo o que fizeram juntos, caminhando com seu mundo frio, entregando seu castelo de papel a outro amor. E ela ficara ali, imóvel na praça; na mão, ainda o presente de Natal e, no cartão, a dedicatória: “Querido, você é o amor da minha vida, é hoje a pessoa mais importante. É por você que vivo, é por você que luto, é você que quero. Te amo sempre, sempre.” Como costumavam falar. E nem ao menos ele leu. Ali mesmo no banco daquela praça, ela deixou aquele embrulho com o cartão e a dedicatória. E começou a caminhar sem rumo, sem vida, sem ele. E agora, deitada e chorando, como se tivesse perdido sua vida que estava nele, relia todas as linhas da sua dor. E de repente sentiu como que sua alma de cima do teto do quarto a observasse, ali, deitada, nua, chorando, agarrada àquele travesseiro. E a sensação de dor transformou-se em ódio. E começou a mudar sua expressão, e sua respiração foi ficando mais rápida, e se escutava o sussurro  do coração. Levantou-se, pegou um saco de lixo no armário da cozinha, saiu vasculhando na casa por qualquer lembrança dele: o cinzeiro do cigarro que ela odiava, a  toalha que sempre ela devia entregar, o chinelo largado no meio da varanda, tirando a beleza de suas flores, as roupas, foi ao quarto, abriu o armário e viu a própria desordem tão propositalmente deixada por ele, e ia cada vez mais rápido, e de forma violenta  jogando-as no saco de lixo suas meias, suas blusas e calças. E o lençol? Agora, aquele lençol dava-lhe nojo. Arrancou-o de sua cama e o lençol foi ao lixo, e junto com ele as fronhas, o perfume, o sabonete do banheiro. Amarrou aquele saco com total violência e repetia consigo: “ACABOU.” Abriu a porta que levava ao quintal e lá jogou aquele saco de lixo, não satisfeita, resolveu queimar, o fogo parecia tomar conta daquilo tudo, assim como o ódio corroía sua alma. E repetiu consigo mesma, olhando tudo aquilo destruído, como se o lixo fosse ele, como se ele fosse o lixo. E falou para si, ali em pé, nua, sem nenhum vestígio mais de lágrimas, só de chamas dentro de seus olhos castanhos: “Eu não vou te perdoar. Fique com sua máscara e seu castelo de farsa, que fico aqui, com minha casa simples, ainda em construção, mas com minha verdade. Sem muito luxo, sem muita fama, mas com o valor da minha dignidade. Não vou te perdoar”. Entrou, olhou-se novamente no espelho, dessa vez com outro ar, sentindo-se liberta do amor, mas presa no ódio da sua alma. Agora, se enxergou e o viu. E suspirou com a expressão fechada. Tomou banho, deitou-se na cama como estava, sem lençóis, sem fronhas e adormeceu com a máscara do ódio.

  E, naquela hora, há alguns quilômetros dali, uma moça sentava-se com seu melhor amigo no banco da praça, onde Alice  havia deixado o presente e a dedicatória.  Leu, emocionou-se e olhou paro seu amigo, ali do seu lado, o homem que ela amava, que decidira declarar-se, mas não sabia como e falou: “Hoje, os anjos do céu me deixaram um presente, um presente que eu queria entregá-lo há muito tempo.” E entregou-o, ainda trêmula e ansiosa, com a reação que ele teria. Ele recebeu, abriu o cartão e olhou-a, falando: “Eu também te amo, sempre, sempre”. Aproximou e a beijou com o  beijo dos apaixonados.


5 comentários:

  1. Muito lindo,Muito real! Me tocou profundamente!!
    Parabens..!

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  3. gostei demais ja estive assim, me vi no seu texto. mas tudo passa como voce mostrou amores vem e vão. parabéns querida.

    ResponderExcluir
  4. ACHEI MUITO INTERESSSSANTE PARABENS !!

    ResponderExcluir