sexta-feira, 14 de junho de 2013

PASSOS




PASSOS

Assim delicado tão delicado como uma bolha, como a estrutura da bolha de sabão. E num piscar de olhos. Pluft! Tudo poderia acabar.  E assim as pontas trocavam-se, uma ponta na outra, a outra na ponta e ninguém mais poderia dizer, como começou e qual o fim. E o fim? Será que houve o fim? Mas, o que seria o fim além do recomeço? Era coragem. Coragem que faltava. Tinha mesmo que seguir a rua sem medo de dobrar na esquina e também não mais poderia ficar presa em círculos. Encontrar-se. Sim encontrada. Encontrando a vida, a vida que deveria ter encontrado á muito, muito tempo.

Parou um pouco e soltou um suspiro. Um suspiro cansado de muitos dias. A febre voltara. Foi ao quarto e na terceira gaveta da cômoda pegou o antitérmico. Olhava seus guardados, tudo estava em plena ordem. A cabeça estava oca e não sabia o porquê de não pensar em nada lógico. Sentou-se na cama nostálgica e lembrou-se de quando sorria, sorria várias vezes, sorria um riso farto e bom. Como aqueles risos que se dá no jardim da infância. Um riso dos dias inocentes, um riso que causava dor no idoso que passava e reclamava do barulho. O barulho que o trazia lembranças de um tempo onde sua vida também era tão doce e tão casta e tão quente e risonha como o riso daquelas crianças que brincavam de fazer bolas de sabão.

A mãe sempre fora ríspida e o pai conformado com o conformismo da vida que escolheu. Tudo muito projetado naquela casa de três pessoas, onde uma olhava a outra sempre com medo do que estavam a pensar. Estudava compulsivamente para livrar-se dos seus anseios e ali nas equações matemáticas flutuava e viajava em respostas que só ali era capaz de encontrar. Ali entre seus cálculos exatos, imaginava sua vida como uma equação e tudo seria tão mais fácil, mais rápido e talvez menos trágico. Lembrava de Visconde quando juntos caminhavam do sitio até a escola, ele andava com passos rápidos, decido e feliz. Todos gostavam dele até o vento brincava com seu cabelo fino e claro, até o vento gostava dele. Mas ela sempre com medo um medo mudo, um medo do mundo e do medo.

“Meus pés estão cansados. Ando, ando e nunca saio daqui. Eu preciso respirar aliviada”. E lembrava-se do gole.

Um gole que deixou sede.

O jeito era beber mais um pouco d'água.

“Vambora!” Gritou Visconde.

“Mais onde? Onde?” Sentou-se emburrada no cantinho da calçada e começou a olhar seus pés desnudos. Cobriu um, descobrindo o outro, começando a brigar com eles, entre um vai e vem de cobrir e descobrir.

Vambora! Acorda! Gritou Visconde zangado.

“Eu queria ter um pé lindo. Um pé como o da Flaviane. Já viu o pé dela?”

“Eu não fico olhando pro pé de ninguém. Só você que não tem o que fazer.”

Era isso e a lembrança do rosto tão belo que mesmo rude ainda encantava, nunca teve tanta coragem como ele e sentindo-se intrusa sempre o provocava, quase sempre o provocava.

Agora tinha que reencontrá-lo, depois de tanto tempo e sabia que logo não seriam três mais seriam quatro naquela mesa de oito lugares guardados para as visitas que nunca vinham e também nunca eram convidadas, uma casa decorada para fotos. A última foto foi no dia do aniversário do pai. O casal sentou-se no sofá da sala um em cada canto, como se tivessem medo de tocar-se. Com um gesto pediu que se aproximassem ele calmamente empurrou o corpo magro para mais perto, a mãe fazia-se de dura e nem se moveu. Ficou ali como se todo peso do mundo estivesse sobre si, sem mover um milímetro do seu corpo, ameaçou algumas vezes com os olhos olhar o companheiro, mas logo mudara o olhar, ele esboçou um sorriso e ali estava a foto. A foto onde tinha mais cor na parede da sala do que no rosto dos pais. Como se tudo tivesse deixado de ser, desde o dia que vieram pra cidade e largaram o sítio. Se ao menos Visconde estivesse lá teria os feito sorrir. Mas agora ele chega de viagem e tudo pode ficar mais tranqüilo, mais leve. E o melhor, ele chega e conta como tudo está por lá, agora ele pode nos contar sobre os vizinhos e parentes. Quem sabe traz vida pra essa casa escura. E quem sabe me fale de Antônio. Fale como ele ficou depois de minha partida. Quem sabe diga que ele pensa em mim. Quem sabe eu devo voltar e encontrá-lo e posso ter novamente a minha vida que foi interrompida. Ou quem sabe ele está ocupado demais para pensar em mim. Visconde e seu sorriso irão dizer-me, sei que irá contar-me e assim como quando eu era uma menina me guiará com seus pensamentos astutos e irei poder escolher o caminho dos meus passos.

Tem coisas que não vão embora, Tem muita coisa que fica e vai ficando e só adormece com o tempo e mesmo assim na teima da lembrança elas voltam em sonhos. Você vai descobrindo o gosto aos poucos, como quem saboreia uma fruta que não conhecia. Você admira colhe e se enche de encanto pelo aroma, depois aos poucos vai furtando o gosto dela. Assim são as coisas boas, elas um dia acabam. Mas como o gosto da fruta boa, você não esquece, você sente o aroma que ficou nas mãos e o gosto que ficou na boca. Você sente o gosto bom da saudade.

Eram apenas alguns dias, mas o tempo parecia andar para trás, a semana passava espantada como se soubesse dos seus passos incertos. Era cedo, mas o coração caducava em caminhos tortos. Uma expressão incompreensível. Um susto. A vida em silêncio, lenta. Agora causava uma inquietude, o riso quase saltava naquela agonia de nada fazer. Esperando um pouco do que não tem e dividindo um pouco do que teme. Ainda se tivesse na alma o que não tem no rosto. O rosto marcado com pontas de faca de um tempo que ela não lembra, pois dormia. Poderia ter pincelado o coração com cores, mas nem mesmo isso pôde fazer. Um coração feito um oco e um rosto de um doente. Foi quando se apercebeu do mundo, um mundo mudo, mudo de medo , medo do escuro, medo do claro, medo do nada e de tudo.

A ultima navalha afiada encontrou o rosto delicado, deu febre, deu susto no susto, sujara todas as mãos de sangue. Pobre rebelde, não percebeu que estava numa armadilha. Deformada correu como louca, correu com o gosto do sangue nos lábios. Tinha degraus, muitos degraus ainda e era um encontro que nunca encontrava, era uma missão descabida e uma mensagem com palavras tortas.

Acorda aflita e corre ao espelho, o rosto é o mesmo, não tem corte, mas dói. Chora.
Apressa os passos é dia de encontrar Visconde.
                                                       
Lene Dantas.









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