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PASSOS

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PASSOS Assim delicado tão delicado como uma bolha, como a estrutura da bolha de sabão. E num piscar de olhos. Pluft! Tudo poderia acabar.  E assim as pontas trocavam-se, uma ponta na outra, a outra na ponta e ninguém mais poderia dizer, como começou e qual o fim. E o fim? Será que houve o fim? Mas, o que seria o fim além do recomeço? Era coragem. Coragem que faltava. Tinha mesmo que seguir a rua sem medo de dobrar na esquina e também não mais poderia ficar presa em círculos. Encontrar-se. Sim encontrada. Encontrando a vida, a vida que deveria ter encontrado á muito, muito tempo. Parou um pouco e soltou um suspiro. Um suspiro cansado de muitos dias. A febre voltara. Foi ao quarto e na terceira gaveta da cômoda pegou o antitérmico. Olhava seus guardados, tudo estava em plena ordem. A cabeça estava oca e não sabia o porquê de não pensar em nada lógico. Sentou-se na cama nostálgica e lembrou-se de quando sorria, sorria várias vezes, sorria um riso farto e bom. Como aqu...

HOJE É DOMINGO (INTIMA ESTRANHA)

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Começou sem saber o começo. Eram cúmplices. Andava para lá e para cá, como uma missão natural de sobrevivência. Ora ela ia, ora ele vinha, e assim se enlaçavam feito nós de corda.  Não sabiam ao certo o que ligava um ao outro, talvez um impulso de excitação, cada vez que os olhos encontravam-se arteiros, ou a mesma vontade de libertar-se de um sei lá de quê que fantasiavam. Hoje cedo, quando ela levantou-se releu o bilhete que ele lhe entregara pouco antes de despedir-se e seguir pela rua da frente, seguir com o mesmo vento, que o trazia e o levava como em círculos para sua direção, e quanto mais ela o observava, mas o percebia deixando-se levar. Ele cauteloso, dava alguns passos e olhava para trás, com aquela duvida de que ela de sua janela o estaria observando. Acenava com a mão devagar, tão devagar que parecia que imitava uma de suas histórias mirabolantes, quando contava que a pequenos e lentos passos, o homezinho despedia-se da amante. Ela, com os olhos saltitantes, ensa...

O GOSTO DO FEIJÃO

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A poeira soprando o tempo todo no tempo, e cada fragmento é uma lembrança. Está ali, neutra, como uma morta viva, como uma morta que se esqueceram de enterrar, uma morta que se esquece de partir. Sim, bem mais assim, uma morta que ficou parada no tempo e esqueceu-se de partir. As paredes sabem de cor os seus segredos e a janela é aberta, um pouco, só um pouco, assim ninguém pode roubar-lhe o sossego, o sossego que espera a cada manhã quando se despede do marido, em uma hora que parece interminável. Diria que, cada vez que ele passa a escova no dente, seria um momento roubado, um tempo, um riso. E ela, ali em meio á lençóis que conhecem o cheiro de ambos, lençóis que já secaram suas lágrimas, que já cobriram sua insegurança, que já sentiram o cheiro do seu prazer. E ali olha o relógio, são 06h30min, ainda faltam alguns minutos. Ele calmo, atravessa devagar o pequeno espaço entre o quarto e a cozinha, toma um pouco de café, dirige-se a sala, liga a TV e em alguns minutos aproveita ...

Indiferença ou dúvida? Onde está meu amigo?

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Talvez por um dia, dois ou meses. O caminho vai se estender e mais uma vez as lágrimas, estarão umedecendo seu coração. Perde-se em dias de tamanha agonia, atordoada e sem chão. Não queria a indiferença! Queria apenas o sopro da verdade!  Mas, esse , fugiu, fugiu e não chega. Tudo é muito estranho e as estrelas param de iluminar o céu azul. Na noite passada, ainda sorriu com ele, na noite passada ainda escutou sua voz tão querida. Hoje, nem adeus, nem um sim, nem um não. Hoje apenas calça calçados alheios e roupas espinhosas. Amanhã poderá ver mais uma vez o Sol, mas essa dor levou-lhe um pouco do gosto bom, do sal que temperava sua vida! Tudo agora fala comigo: As ruas, as casas e cada pessoa que encontro. É um atrás do outro, o tempo todo, e as portas, são tantas portas para escolher, que fico assim, com um tanto assim: Um tanto de dor, um tanto de dúvida, um tanto de mim e um tanto do que foi você! Não me imaginária contando essa história, se não fosse por ontem, se n...

RO-SA-NA ( O leite ou o vinho?)

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Eu  —   Ao invés de uma, sou duas. Não duas. Digo melhor, seria muitas. Agora, estou sentada a mesa, tenho leite e vinho diante de mim. O que deverei beber? Se eu beber o leite, fortaleço meus ossos, antes que eles decomponham-se aqui e como cinzas fúteis e velozes, misturem-se a todo invisível que permeia esse ar, esse ar tão meu e tão de outros. Pergunto-me: Como serei apenas uma, se respiro os outros? Respiro minha vizinha que me observa todas as tardes , quando me dirijo calmamente à área de estar, para saciar a sede de minhas rosas. Respiro os olhos inquietos do meu chefe, que moribundo, hipocritamente pergunta-me se está tudo bem, sem nem ao menos esperar, que eu, entre um segundo e outro, abra meus lábios e insinue um simples sorriso corado, e o fale, o que entala meu paladar, toda vez que tento engolir seu sorriso ironizado. Respiro a orquestra de sussurros entre olhos, ao entrar cedo pela manhã num ônibus lotado, onde procurando calmamente um espaço, único e me...

O LABRADOR

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“As paredes ficaram cinzas, a cama transbordou do vazio, as delícias murcharam e até o labrador emudeceu de tristeza. ” Ele emudeceu, paralisou ou talvez esteja velho, por mais que eu faça e por mais que algumas vezes até consiga ver o brilho do seu olho radiante, logo tropeça em seus segredos e cabisbaixo afasta-se. Tenho pensado que isso acontece desde que ela... Não quero falar dela, foi-se, partiu e não quis deixar rastros, porém, não posso culpá-la eu sempre soube, eu sempre soube! Mas o labrador não sabia, e em nenhum instante ele foi informado que aquela que ele instintivamente, achava ser mãe, partiria. O que ele sentia era o cheiro dela rodeando toda casa e nos olhos a tristeza de não ver seu semblante, quando chegava todas as tardes e sorrindo o acariciava. Às vezes iludido pelo barulho de alguns passos que viam nas calçadas corria ao portão, feliz, em saltos na esperança de encontrá-la, mas não era nada, não era ela e aqueles passos, aquela sombra...

OS OVOS QUEBRARAM

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“Os ovos quebraram” Louca, louca repetia. Logo hoje que precisava de três ovos para fazer o bolo de aniversário de seu marido Afonso. Como pode a Matilde deixar uma caixa inteira de ovos cair, mas que será que ela pensa enquanto perde-se naquela cozinha? Mês passado no casamento da Juliana foi o brigadeiro que ela espatifou ao chão, agora os ovos e eu como sempre tenho que resolver tudo!E minha roupa? Será que ela passou? Acho que mandarei Matilde embora, ela já não faz nada direito, deve ser aquele novo namorado que ta virando de jeito à cabeça dela. Arruma  a bolsa para que fique com o zíper pra frente, puxa um pouco a camisa branca e endireita o óculos na cabeça. Essa rua é perigosa. Nunca fui assaltada porque estou sempre atenta! Mas, ultimamente perde-se em pensamentos tolos e enquanto aguarda o ônibus pensa em Matilde e nos ovos quebrados. Suspira , suspira como se os outros ao redor soubesse o que lhe incomoda, como se suspirando partilhasse sua dor, observ...